A AGRESSIVIDADE e (A VIOLNCIA DO MUNDO MODERNO)

FRIEDRICH HACKER

COM UM PREFCIO DE KONRAd LORENZ

TRADUZIDO DO alemo POR MARIA EMILIA FERROS MOURA

LIVRARIA BERTRAND

APARTADO 37 - AMADORA

Ttulo da edio original da obra: AGGRESSION - DIE BRUTALISIERUNG DER MODERNEN WELT


PREFCIO

Pelos meus parcos conhecimentos de psicanlise encontro-me,
na verdade, pouco Preparado para me habilitar a escrever um prefcio a ser includo na obra de um 
psicanalista. As minhas opinies apresentaro certamente um carcter de superficialidade, dado que apenas 
focarei . o estudo comparado dos comportamentos. Este prefcio proporciona-me porm a oportunidade de 
fazer uma confisso culposa: h muitos anos que alimentava uma pronunciada m vontade contra a 
psicanlise, embora ou talvez porque tenha recebido a minha formao em psicologia na cidade de Viena, 
onde me mantive em intenso contacto com psicanalistas, durante o seminrio dirigido pelos Professores 
BhIer e Ptzl. o que nessa altura mais profundamente me desanimou foi a circunstncia de os defensores 
de Freud no serem na sua totalidade alunos, mas apenas seus adeptos. Concordavam inteiramente com 
ele, apelidando-o de Mestre e referindo-se a todas as suas teses como se de revelaes irrefutveis se 
tratasse. Ora na cincia o primeiro dever do aluno que nessa altura eu aceitava j como verdade absoluta  
criticar os ensinamentos recebidos. E  precisamente quando o Professor  um gnio e atingiu novas 
teorias e conhecimentos que tem o direito e o privilgio de sobrestimar as concluses a que chegou. 
Pertence Pois ao grupo dos seus amigos, alunos e colaboradores menos geniais   .s observar os seus voos 
de gnio  luz de urna viso crtica, a fim de o preservar do destino de caro. A atitude de adorao que 
todos os psicanalistas que at ento conheci assumiam em relao ao seu mestre levou-me, no sem motivo, 
a negar  psicanlise o carcter de exactido. Esta apreciao to severa pareceu-me confirmada pela into-

lerncia isenta de bases cientficas que o psicanalista demonstra frente a toda a fonte de conhecimentos que 
no seja: o dilogo entre o analista e o doente.

S anos mais tarde, quando nos trabalhos de investigao que efectuei a espontaneidade das reaces 
instintivas se tornou o problema central de toda a minha procura e quando, em colaborao com Erich von 
Holst, comecei a participar na luta contra a teoria generalizada que considerava o reflexo como princpio 
nico explicvel,  que se me tornou compreensvel a grandeza de Sigmund Freud. Numa poca em que 
ningum pensava em levantar a mnima dvida  exactido absoluta do Princpio do reflexo de Sherrington 
ou do princpio do reflexo condicionado de Pavlov, Freud reconheceu inabalavelmente que os impulsos 
do comportamento no so reactivos e que no esto dependentes, como se fossem mquinas paradas ou 
reflexos, de estmulos externos que os ponham em movimento, necessitando at, pelo contrrio, de um 
dispndio activo de energia que pelo menos de vez em quando refreie a sua aco. S nesse momento 
Pressenti em Sigmund Freud um inestimvel auxiliar e aliado na oposio ao monoplio, j tornado 
ideologia, da explicao do comportamento pelos reflexos e reaces condicionadas.

Foi, porm, Ren Spitz o primeiro analista cujos mtodos e forma de exposio do problema nos fizeram 
compreender, e a outros investigadores do estudo comparado do comportamento, a afinidade de bases 
existentes entre a psicanlise e a etologia. Investigou o sorriso do beb servindo-se de hbeis 
subterfgios, quantificou estatisticamente a produo espontnea dos movimentos de amamentao atravs 
de mdias obtidas pelos movi-

mentos no vcuo e em breve descobria os Processos essenciais de investigao, bem como os mtodos da 
etologia, baseando-se na observao objectiva dos factos. Este homem, que, partindo das suas experincias 
pessoais, criticou em parte muitas das teses de Sigmund Freud, se bem que numa generalidade as 
considerasse correctas, tem na minha opinio pessoal muito mais valor do que todos os discursos 
pronunciados por esses jovens crdulos. Comecei pois a ocupar-me da Psicanlise.

Nos anos 60161 rectifiquei a tal ponto a minha opinio sobre esta cincia que aceitei um convite da Clnica 
de Menninger, em Topeka, para colaborar como professor. Tomei tal deciso mais    .s para aprender do 
que Para ensinar. Entre os analistas da Clnica de Menninger tive oportunidade de conhecer toda uma 
srie de indivduos que contrariavam os meus antigos preconceitos e que vim a reconhecer como 
eminentes investigadores e profundamente versados na matria. Desse grupo fazia parte Friedrich 
Hacker, que como eu desempenhava a funo de professor. Sendo os nicos vienenses no, distante 
Middle West, em breve entabulmos relaes de amizade e com ele aprendi muito sobre a psicanlise, a 
sua essncia e percentagem de verdade, bem como sobre os seus pontos fracos. Friedrich Hacher estava 
muito longe de considerar as palavras do mestre como revelao irrefutvel!
O seu aguado esprito crtico e sentido de humor, a que sempre se associava algo de um desenvolto 
desrespeito, de forma alguma se detinham ante as teorias do mestre. Era porm precisamente por esse 
processo que de dia Para dia descobria mais abertamente a existncia da verdade. Nunca anteriormente, 
por exemplo, eu atingira tal noo do ego, freudiano e da sua funo

de intermedirio entre os instintos e o superego como quando Hacker o comparou com aquela figura da 
vida oficial da ustria que veio a tornar-se lendria: o sempre um tanto triste e digno de pena conselheiro 
ulico.

Um dos motivos que me levaram a deslocar a Topeka foi o meu desejo de discutir a equiparao freudiana 
entre agressividade e instintos suicidas, contra a qual eu tinha pesadas objeces, visto que h muito 
compreendera que a agressividade  em si um impulso caracterstico do comportamento animal e humano 
de tanta importncia e to independente como a fome, o medo e a sensualidade. Em breve me apercebi de 
que, com a minha teoria da agressividade, estava a arrombar portas abertas na Clnica de Mennnger.

A fora e o carcter construtivo da crtica que Friedrich Hacker dispensa ao princpio freudiano dos 
instintos, e muito Particularmente s opinies de Freud no que se refere  agresso, so em Parte devidos  
feliz circunstncia de ter    explorado outras fontes de conhecimento para alm do dilogo psicanaltico. 
Hacker  psiquiatra, professor de psiquiatria na University of Southern California, alm de psiquiatra 
jurdico     e especialista em criminologia juvenil. Em Topeka assisti a um seminrio dado por ele em que 
tratou precisamente o tema da juventude Contestatria, nessa altura os chamados beamiks, com um misto de 
simpatia e crtica inteligente. Friedrich Hacher     conhece a natureza humana sob muitos e variados 
aspectos e olha-a com urna benevolncia compreensiva, que, lado a lado       com a sua perda de iluses, 
soube conservar acrescida de um      humor um tanto satrico, comparvel ao que caracteriza Nestroy.  um

conhecedor do comportamento humano, como tive ocasio de verificar num seminrio sobre o instinto em 
que ambos participmos., bem como Harry Harlow, Karl Menninger, Margaret Mead e outros. Quem est a 
par das opinies destes famosos investigadores Pode fazer uma ideia de quanto as discusses foram mais 
do que acaloradas. Eu e Friedrich Hacker encontrvamo-nos frequentemente lado a lado no combate de 
opinies antagnicas, especialmente quando o objecto da discusso versava o comportamento agressivo do 
homem e dos animais.

Tambm me encontro bastante familiarizado com as opinies de Friedrich Hacker quanto  natureza da 
agresso e tal facto d-me direito a escrever este prefcio.  o seguinte o princpio essencial, a que na 
minha opinio se deve grande parte do valor da sua obra: o facto de a agressividade, devido a vrias 
influncias ambientais, poder surgir como reaco no constitui argumento contra a hiptese apoiada em 
vasta motivao de que ela, como todos os outros instintos, tambm possui um impulso espontneo que lhe  
peculiar. O argumento de que a agresso, e principalmente a humana, de modo algum pode possuir um 
impulso do gnero, porque surge com a regularidade de uma lei natural devido ao medo, fadiga, 
frustrao, etc., est precisamente to errado como se se quisesse levantar a hiptese de que a sexualidade 
no homem no pode ter qualquer impulso de ordem especfica e espontnea, na medida em que surge de 
um estmulo proveniente do sexo oposto. O facto de pessoas inteligentes possurem opinies obstinadas 
relativamente  agresso s se pode explicar devido a preconceitos profundamente enraizados. Tal como 
alis muitos dos nossos eminentes investigadores reagem

como o Palmstrm de Christian Morgenstern e concluem  Ponta de espada que o que no deve ser no 
Pode ser. A esta ilgica concluso final segue-se geralmente o ataque ideolgico; na verdade todos os 
que defendem o comportamento agressivo como ele  realmente so logo censurados com petulncia 
moralista por desculparem a agressividade de forma altamente Perigosa e se tornarem defensores do 
genocdio! O que afinal no passa de um aviso, srio e insistente contra os perigos que ameaam a 
humanidade e a natureza humana  pura e simplesmente deturpado sob acusao de satnica apologia do 
mal.

Tambm no sero poupadas censuras do gnero a este livro, uma vez que ele se prope expor a 
agressividade humana na sua verdade, como ela realmente , ou seja, sem parcialidade nem 
simplificaes. Os desvios Patolgicos da agressividade oferecem uma fonte de documentao que a torna 
aberta a declaraes quanto  funo normal de defesa da espcie, que este instinto desenvolve nas 
complexas estruturas dos diversos impulsos humanos. O estudo da motivao humana demonstra muitas 
analogias com o das glndulas endcrinas e respectivas funes. Os efeitos contrrios de factores 
antagnicos contrabalanam-se de tal forma que se consegue um equilbrio vital indispensvel. Nenhum 
dos efeitos  suprfluo e nenhum pode ter como resultado um rendimento maior ou menor, a fim de que o 
equilbrio no seja ameaado. Um excesso de secreo da tiroideia provoca a doena de Basedow e uma 
ligeira hipossecreo faz surgir a mixodema, doena frequente em certos vales dos Alpes. Seria 
demonstrar um desconhecimento total quanto  natureza das glndulas

de secreo interna se se fizesse a pergunta de a tiroideia ser boa ou m e alis ningum poria um 
Problema deste gnero. No que se refere  agresso, tambm no viria a propsito pr * assunto dessa 
forma e, no entanto, as pessoas teimam em fazer * pergunta e teimam igualmente numa resposta negativa. 
Impe-se portanto que se agradea profundamente a Friedrich Hacker ter-se Proposto tratar na sua obra a 
anlise da mltipla e complexa interaco a que chama polaridade existente entre a agressividade e as 
motivaes do comportamento humano que se lhe opem e a contrariam. Friedrich Hacker pretende fazer 
um estudo preciso e completo do campo de actuao dos impulsos humanos e referir-se muito 
particularmente ao papel desempenhado pela agressividade neste sistema. Para se correr o risco de um tal 
empreendimento torna-se necessrio ter a coragem de apresentar novas teorias, mas a cincia no 
avanar se no se efectuarem iniciativas do gnero.

KONRAD LORENZ Altembergue-sobre-o-Danbick

junho, 1971

AFORISMOS SOBRE A VIOLNCIA

1. A violncia pretende ser a soluo de um problema que s

existe porque ela existe.

2. Os problemas que s se sabem solucionar pela violncia de-

vem ser expostos de outra forma.

3. A fora bruta  a forma de expresso visvel, (divre e sem

cadeias da agresso. Nem toda a agresso  sinnimo de violncia, mas toda a violncia representa 
agresso.

4. A violncia  to contagiosa como a clera; deve o seu vrus

ao pretexto da justificao que a torna epidmica.

5. Violncia  igualmente tudo o que se considera justo como

contraviolncia.

6. A violncia-delito, que  proibida por lei, torna-se permitida

e justificvel como sano: mudar o nome  violncia significa legitim-la.

7. A justificao provoca e aumenta desmesuradamente o que

pretende negar e dissimular: a prpria violncia.

8. A violncia sob justificao leva  imitao, tanto da justificao como da violncia.

9. A legitimao da violncia apoia-se no seguinte subterfgio:
uma mudana de rtulos; a nossa prpria violncia  des-

AGRESSIVIDADE

,c,rita e sentida como necessidade, direito natural, autodefesa e sacrifcio ao servio das mais altas causas.

A negao e represso da nossa agresso projectada sobre o inimigo aumenta a probabilidade do 
aparecimento da assim chamada e aceite contraviolncia.

11. A violncia  simples, mas as suas variantes complexas.

12. O oposto da complexidade  uma simplificao. agressi     .va e
no a verdadeira simplicidade. O preo da simplificao chama-se violncia.

13. Dissimular e monopolizar a agresso sob Pretexto de refrear
a violncia  provocar e justificar a violncia.

14. A exploso, de violncia no seu mximo est Para a aco planeada a frio, da mesma forma que o 
sintoma para a estratgia.

15. A estratgia pode determinar e utilizar os sintomas. Mediante
o emprego da violncia sintomtica, a manipulao dispe de uma expresso espontnea.

16. A razo pode ser um mtodo prefervel  violncia, sob nica

condio de no se tornar sua advogada e cmplice.

17. Ensinar a violncia pela no-violncia significa perpetuar a

violncia, que se quer evitar: adapta-se o mtodo de ensino e esquece-se o seu objectivo.

18. Faz-se condio natural de violncia a necessidade de violncia engendrada pela violncia.
 19. As excepes  proibio de violncia tornam-se as regras da
sua aplicao.

20. A violncia meramente aconselhada ou imposta aos outros

 uma dissimulao da nossa prpria agresso e Prepara a aplicao da violncia, justificando-a como 
contraviolncia.

AGRESSIVIDADE                              19

21. Somente os respectivos detentores da violncia, e no os que

no a podem utilizar, tm possibilidade de impedir a brutalidade mediante restries e absteno do 
emprego da violncia.

22. A violncia  a mensagem secreta dos meios de informao;
para resoluo dos conflitos que surgem, encoraja-se a utilizao justificvel imediata e at mesmo 
preventiva da violncia. O heri no  menos violento do que o bandido, s que mais rpido e mais bem 
sucedido.

23. Para tornar legtima a violncia Preferem-se ignorar as alternativas que se poderiam empregar em sua 
substituio. Ser verdadeiramente adulto no consiste na recomendao de, mas na renncia a padres e 
lemas falsos, bem como numa larga tolerncia em relao  complexidade do ser humano.

24. No existe uma linguagem de violncia; os que s a ela entendem no passam de autmatos Pensantes e 
desconhecem sentimentos.

25. Podem-se tirar ensinamentos da violncia sem a imitar nem

lhe ceder.



A MINHA OPINIO

no sou contra a agresso, mas sim contra a violncia. Esta

minha profisso de f s tem, no entanto, validade com restries e especificaes, pois que num mundo de 
violncia todo aquele que, por princpio e sejam quais forem as circunstncias, renuncia, a priori,  
violncia priva-se, bem como s pessoas e s causas que serve, de toda a verdadeira influncia sobre a 
evoluo da realidade e estrutura do mundo. Tenho absoluta conscincia de que esta restrio comporta 
traos caractersticos que serei levado a apontar ao descrever os laos que unem a violncia  legitimao. 
O facto de a razo poder ser colocada ao servio da racionalizao, a simplicidade ao da simplificao e os 
ideais ao da idealizao no implica que se torne necessrio negar a existncia  razo, aos ideais e  
simplicidade.  mesmo pelo contrrio provvel que estes tenham maiores possibilidades de se defender 
contra as sedues da racionalizao, da simplificao e da idealizao, dado estarem a par da sua 
existncia.

Considero todas as outras formas de agresso preferveis  violncia. Penso que a oposio, a 
desconfiana e at mesmo a hostilidade em relao  violncia no s so justificveis mas realmente 
justificadas. No provm, pelo menos exclusivamente, da negligncia, do hbito e de um preconceito 
arbitrrio quanto aos valores ou da preferencia de um voluntarismo exacerbado. Parece-me, porm, ainda 
mais necessrio insistir no facto de que em certas e determinadas circunstncias (muito mais raras na 
realidade do que actualmente se considera) a prpria violncia pode ter um valor positivo e tambm que 
este positivismo que s muito invulgarmente se verifica e poderia muito mais frequen-

@2                    AGRESSIVIDADE

temente evitar-se - serve de modelo a um nmero enorme de manifestaes violentas, simultaneamente 
suprfluas, evitveis e manipuladas.

violncia  condenvel por razes de ordem moral. Ameaa, maltrata e destri o nosso pr6x m    que 
apresenta caractersticas semelhantes s nossas e possui portanto em princpio os mesmos direitos. Privamo-
nos a n s mesmos do nosso direito  solidariedade humana quando ultrajamos esse direito em relao ao 
nosso semelhante. A violncia transforma-o em objecto e meio, ofende-o, rebaixa-o e submete-o a todas as 
formas de desumanidade, acabando finalmente por o conduzir ao seu aniquilamento irremedivel. Redu-lo 
numa palavra a esse objecto chamado cadver.

A utilizao da violncia  a longo prazo uma estratgia medocre. Fascina e paralisa por intermdio, dos 
seus primeiros sucessos, chamando as atenes pela brutalidade e condicionando a opinio pblica  
repetio. Determina consequentemente a contraviolncia, o aumento da violncia e a exploso geral da 
brutalidade. O xito dos primeiros actos no implica o de toda
* estratgia.  uma atitude puramente insensata pretender que
* violncia cure as feridas que provoca. A verdade reside precisamente no plano contrrio. A violncia 
encontra-se sujeita  repetio e no pode portanto triunfar sobre si mesma. S  possvel domin-la 
tomando conscincia das circunstncias e condies que a desencadeiam e evitando-as.

Proporcionalmente  totalidade das manifestaes agressivas a violncia pode equiparar-se  entropia no 
mundo fsico. A segunda lei da termodinmica demonstra que no seu conjunto os processos fsicos tm 
tendncia a um mximo de desorganizao (entropia),,ao desaparecimento das diferenas existentes e para 
finalizar  simples morte trmica do universo. A entropia diminui no ntimo dos seres vivos que se 
conservam a um elevado nvel de organizao. Os diversos fenmenos agressivos tm analogamente 
tendncia para a violncia, quer dizer, para o estado mais primitivo e menos organizado. S se conseguir 
evitar o aniquilamento pela violncia se se organizar uma resistncia consciente a esta tendncia e se se 
puser em funcionamento uma verdadeira ordem isenta de qualquer aparncia falsa e ilusria.

A violncia constitui um retorno  expresso mais primitiva da agresso. Adquire vida graas aos processos 
de polarizao,

AGRESSIVIDADE                              23

idealizao e crtica do adversrio, bem como a mecanismos e processos semelhantes de reduo e de 
simplificao. Este o motivo por que exclui todas as outras alternativas, elimina todas as possibilidades 
superiores, interessantes e originais do homem ou apenas as utiliza rigorosamente como um instrumento de 
legitimao. A violncia repete-se sob constrangimento de um impulso sempre ligado  destruio. S 
conhece uma dimenso;  una e montona.  o sistema de uma desorganizao ou a estratgia favorita dos 
que no sabem fazer outra coisa, dos que no so capazes de sentir nem de participar nos sentimentos dos 
outros.  o produto de uma preguia espiritual, de uma pobreza de sentimentos e de uma falta de 
imaginao.

As diversas teorias, na medida em que at aos nossos dias apenas consideraram o fenmeno da agresso 
humana sob aspectos isolados, dedicaram-se sobretudo  descrio dos impulsos de morte e agressividade 
ou das frustraes, das formas de agresso derivadas da patologia cerebral ou da sociedade, da gentica 
ou da manipulao. Segundo estes diversos padres, o homem foi definido como um animal feroz, um 
boneco condicionado aos instintos, uma marioneta manipulada pela sociedade, um actor encarregado de 
desempenhar um papel, um ser incompleto ou inteligente. Todas estas metforas possuem o seu qu de 
verdade. No h dvida de que para classificar o conjunto existem apenas imagens aproximadas: a do 
capito que governa o seu navio com tanto maior segurana quanto mais consciente est do perigo e da 
incerteza da viagem; a do artista que, conhecedor e amante do material com que trabalha, o modela 
segundo a lei adequada e igualmente de acordo com o seu desejo. As metforas e os padres fazem surgir 
o homem como um ser complexo, variado,  dinmico e multiforme, dotado da faculdade de conhecer e de 
se conhecer; um ser activo, criador e investigador. De forma alguma  retratado como uma simples 
caricatura de tirano brutal e dominador, autmato e cego pelos instintos.

O homem no  mais individual do que colectivamente dono e senhor do seu destino.  condicionado e 
governado pelas caractersticas biolgicas da sua constituio natural, que lhe permitem e inevitavelmente 
o conduzem  transformao, melhoria ou ,destruio simultnea do mundo e de si mesmo.

S quando se conhece a agresso no seu conjunto, em todos os seus aspectos e manifestaes,  que a 
mesma nunca mais se

4                   AGRESSIVIDADE

poder dissimular. S quando forem postos de lado todos os falsos rtulos e toda a negao da sua 
existncia  que a agresso poder -preterir os caminhos que conduzem  morte e  destruio, mediante 
um recurso exclusivo  violncia, e escolher os que so colocados ao servio da felicidade e da vida.

O FUTURO DA DESUMANIDADE

era de barbrie e de insegurana inventou a bomba ica e o cocktail Molotov, aperfeioou a tcnica do 
terror e o terror da tcnica e descobriu quase involuntariamente este novo valor: a relevncia do homem. 
Ao mesmo tempo que a antiga maneira de ser do homem cedeu lugar  nova, o Homo sapiens, o rei da 
criao,, transformou-se no Homo brutalis, a fera sem restries. H 150 anos, no Ocidente civilizad<> a 
percentagem mnima de assassnio de um homem pelo semelhante cifrava-se numa unidade em cada minuto 
do dia ou da noite, quer em guerras, atentados polticos, conflitos ou crimes. Nos ltimos 50 anos, durante os 
quais a mdia de esperana de vida triplicou, o intervalo entre os assassnios diminuiu para um tero, ou 
seja para cerca de vinte segundos.

Estas e outras estatsticas do gnero h muito que perderam a sua aco, de choque. A dimenso 
assustadora que a brutalidade atingiu nos nossos tempos no reside na exploso continuamente crescente 
da violncia individual e colectiva (principalmente provocada mediante planos pr-estabelecidos), mas na 
sua crescente habituao e regularidade. A violncia tornou-se uma bagatela banal aplicada nos 
acontecimentos dirios costumados e desfruta nos nossos pensamentos e sentimentos do direito 
consuetudinrio da tradicional inevitabilidade.

j estamos to embotados que se tornam necessrios actos de brutalidade extraordinariamente dramticos 
para nos sobressaltarem e nos arrancarem  pretensa impotncia e surda indiferena. A regularidade de 
aplicao da fora  o resultado simplificado dos processos de habituao. A ocorrncia diria da

26                    AGRESSIVIDADE

violncia deve-se a complicados processos de banalizao. A naturalidade da fora  o produto de 
mecanismos artificiais. O facto, porm, passa-nos despercebido e no o podemos tomar em considerao 
porque, se quisssemos e pudssemos observar estes complicados processos ao servio da naturalidade e 
simplificao, ver-nos-amos obrigados a sentirmo-nos impotentes e responsveis.

A criminalidade de ndice sempre crescente, a tortura, o rapto de refns e a extorso impiedosa, a 
liquidao em massa

e o genocdio foram aceites como fazendo parte da ordem do dia (porque a ordem tem de existir), 
exactamente com se se tratasse de catstrofe da natureza tal como as inundaes ou terramotos. Dentro da 
mesma linha de conhecimento e simultaneamente de desconhecimento dos acontecimentos apocalpticos 
destruidores do mundo que no acontecem por si mas so provocados manifesta-se tambm o erro crasso 
da velha recusa e no entanto ainda aceite nos nossos tempos de considerar a agressividade como factor 
consciente,

A existncia de todas as formas explosivas de desenvolvimento e que at ainda h pouco eram 
consideradas impossveis (tais como a evoluo das comunicaes, exploses demogrficas e tambm as 
exploses atmicas) tende ainda a reforar a analogia entre os acontecimentos sociais e as erupes 
vulcnicas. Nada podemos contra eles; so acontecimentos em relao aos quais no temos o mnimo de 
responsabilidade ou de culpa. E por exploses de violncia, tambm no? Por essas de modo algum!  o 
que tradicionalmente responde a nossa conscincia tranquila. Apenas nos defendemos; estamos e 
estaremos sempre numa posio defensiva. Defendemos o nosso espao vital, o nosso territrio, as nossas 
leis e a nossa estrutura econmica, a nossa verdade e a nossa cultura, a nossa concepo do mundo, os 
nossos ideais e acima de tudo o nosso desejo de paz, Quem ou o que nos ataca, tornando assim necessria 
a proclamao de defesa, que nos  econmica e psicologicamente to cara? Ser o crescente 
desenvolvimento tcnico que se tornou autnomo, a burocracia, que pela sua abstraco se tornou 
abstracta, o superpovoamento ou o aumento populacional? Ser o facto de tudo ter assumido propores 
excessivas quanto a tamanho e anonimato ou por haver homens em demasia?

Todos estes factores constituem respostas ao moderno problema do aprendiz de feiticeiro. Os espritos que 
tnhamos invocado subtraram-se ao nosso controle, tal como na balada de

A G R E S S I V I D A D E               27

Goethe, os objectos que nos deviam servir adquiriram vida e no querem voltar  condio que lhes fora 
atribuda.

Para suscitar a mobilizao entusiasta de instintos de defesa , no entanto, necessrio algo mais do que uma 
enumerao de ameaas abstractas; o mal deve ser simplificado, dramatizado e personificado. Deve 
aparecer com vivncia real, na sua feio de dio ao prximo, a fim de que desperte e mantenha o desejo 
de defesa do bem.

A agresso, injustificada e autntica, a nica verdadeira,  sempre considerada como inveno diablica 
dos outros. O que lhes d a categoria de outros  precisamente o facto de serem capazes desta agresso 
destrutiva, destruidora e assassina. Eles so os culpados de tudo, so eles os responsveis por todo o mal 
do mundo, so eles os maus e os dotados de sentimentos baixos e eles tambm os que comearam a 
dominar pela violncia, ou poderiam ter dominado se ns no tivssemos cuidadosamente estabelecido de 
antemo mecanismos preventivos de defesa. Os outros, ou seja os que a violncia caracteriza, defendem 
por seu lado o seu espao vital, o seu territrio, as suas leis e estrutura econmica, o seu direito, a sua 
verdade, a sua cultura, a sua concepo do mundo e o seu desejo, de paz. Para eles somos ns os outros; 
acusam-nos a ns de violncia.

Os campos opostos participam no mesmo, desacordo, como por exemplo os Americanos e os Norte-
Vietnamitas, os rabes e os Israelitas, os estudantes e a polcia, os governos e os terroristas. Em cada um 
deles existe em relao ao outro, uma mesma e primitiva convico, da sua prpria inocncia e desejo de 
paz. E a mesma boa f que os impele  reciprocidade das maiores violncias. Uma vez que o adversrio perturba a paz e 
 o agente e representante da agresso destrutiva, deve ser exterminado e eliminado. Fazem-no, para que a paz reine 
sobre o mundo em nome do bem!

Pode-se demonstrar objectivamente o constante paradoxo desta simetria, que se traduz nos campos antagnicos pela 
experincia vivida da conscincia absoluta de valores e legitimao existente em cada um deles.

Um e outro procuram assim legitimar a sua prpria agresso mediante complicados sistemas de justificao que tanto 
mais se assemelham quanto mais possibilitam e perpetuam a violncia que explicam. Assim foi sempre e talvez sempre 
assim seja, enquanto ignorarmos as possibilidades ainda no exploradas do

28                   AGRESSIVIDADE

futuro e as submetermos s motivaes estereotipadas do passado, para ns tanto mais dignas de confiana 
quanto mais poeirentas e deformadas so.

O homem moderno, que procura a liberdade, a independncia e o amor, descobre, com profunda surpresa 
e desespero, a escravatura, a tirania, a agresso e finalmente, por detrs de todas as realidades, descobre-
se a ele mesmo.

A nova relevncia do homem, que desta forma ascende de criatura a criador, de necessitado de justificao 
a justificador, de vtima a carrasco, do que sofre o mal ao que o comete, reside na descoberta de si mesmo, 
no desenvolvimento do ego como estrutura e transformao da realidade.

No est ainda devidamente esclarecido se o sbito e continua do aumento de poder e de 
responsabilidade do homem  para ele uma beno ou uma praga. S uma coisa  certa: a violncia e a falta 
de segurana so gerais, determinam e estruturam a nossa conscincia como smbolo, sintoma, como causa 
e efeito visvel de uma inevitvel transformao do mundo.

O que determina em certas circunstncias a passagem de homens honestos a carniceiros impiedosos do 
prximo? Como e por que meio  possvel que at mesmo crimes terrveis sejam, de um momento para o 
outro, considerados no como agressivos mas como unia necessidade de legtima defesa? Como permitimos 
aces. por parte do Estado que de modo algum tornaremos como agressivas se a ele pertencermos, mas 
que assumidas por um indivduo o levariam  priso sob acusao de violncia?

Atravs de uma provisria viso global da agresso, que s mais tarde vai ser diferenciada pela exposio 
dos seus diversos aspectos e disfarces, pode-se desenvolver uma breve teoria conjunta deste fenmeno e 
que, at nova informao, nenhuma investigao comprovada anulou. Ela encontra-se alm do mais de 
acordo com as concepes desenvolvidas a partir da teoria dos instintos e com as que se baseiam nas 
teorias da frustrao.

A partir da agresso individual, biolgica ou organizada e legitimada socialmente estende-se um longo 
caminho cheio de etapas. Graas ao seu monoplio de responsab1 idades e de justia a organizao social 
contribui para um tal fortalecimento da agresso biolgica e uma to grande aquisio de poder da 
agresso socialmente organizada,  qual concede liberdade dentro de

AGRESSIVIDADE                              29

determinadas vias, que os resultados agressivos de barbarismo e violncia colectivos vo 
muito para alm do que o indivduo mais descontrolado poderia efectuar ao pretender 
destruir.

A comprovar a nossa tese segue-se uma exposio de diversas manifestaes de violncia 
ocorridas na actualidade e situadas entre as mais conhecidas e espectaculares. A fim de 
conseguirmos uma plausibilidade e simplicidade simultneas, utilizamos na citada 
descrio esta mesma tcnica de simplificao, dramatizao e polarizao por ns 
acusada como incitao  violncia. Pretendemos, porm, acima de tudo ser plausveis, a 
fim de despertarmos a dvida e a desconfiana contra a plausibilidade. Procuramos a 
simplicidade para conferir maior intensidade s palavras que proferimos relativamente  
simplificao. Esperamos que, uma vez despertado o interesse, no o vejamos recuar ante 
o esforo de uma anlise aprofundada das relaes mais complexas.

A crnica dos ltimos meses relata a guerra entre protestantes e catlicos da Irlanda, a tortura de presos 
polticos no Brasil, rapto de diplomatas, captura de refns, terror e contraterror, a crueldade dos panteras-
negras e a brutalidade contra os panteras-negras; refere-se tambm ao rapto e assassnio do americano 
Mitrione pelos tupamaros do Uruguai, bem como ao do antigo presidente Aramburu da Argentina, ao 
assassnio do conde Von Sprati, embaixador da Alemanha na Guatemala, e s assassinas Manson, que 
falaram sobre os crimes cometidos sem o mnimo remorso e at, pelo contrrio, com satisfao, como se 
tivessem participado em qualquer agradvel rcita de amadores. A crnica foca igualmente a prolongada 
Guerra do Vietname, o enrgico tenente Calley, heri do povo e autor de uma carnificina, sem esquecer 
uma referncia  crescente criminalidade universal, especialmente nas camadas da juventude. Crianas 
cometeram crimes de assombroso terror. Os polcias organizam grupos de autoridades que julgam os 
suspeitos sem necessidade de processo. No Quebeque, membros do partido separatista francs 
estrangulam o ministro de gabinete Laporte com uma corrente de ouro, donde pende um medalho com um 
smbolo religioso, Os padres catlicos Barrigan so acusados de urdir uma conspirao tendo como fim 
incendiar a Casa Branca e assassinar o conselheiro do presidente para acabar com a guerra no Vietname.

30                   A G R E S S I V 1 D A D E

Correm boatos de que se encontra iminente o assassnio do chanceler alemo Willy Brandt. Explodem 
bombas todos os dias e ultimamente tambm na Casa Branca, em Washington. Em So Rafael, no estado da 
Califrnia, tenta-se libertar presos pela fora: so mortos quatro homens, incluindo, um juiz. O grupo 
Menhoff libertou o jornalista Baader seguindo os processos dos westerns. Em Burgos, em Moscovo 
proferiram-se sentenas de morte.

Profetiza-se um futuro importante  desumanidade, mas os resultados presentes so j de monta. As pessoas 
habituam-se a tudo. A prpria rotina da violncia tornou-se um hbito bem aceite; as pessoas sentiriam a 
falta de qualquer coisa, se os jornais e a TV no referissem diariamente novos e terrveis actos de 
violncia. A brutalidade do mundo passa insensatamente despercebida, contanto que no nos afecte 
pessoalmente. Somente o outro, o adversrio directo, nos assusta pela sua falta de escrpulos e selvajaria 
sem barreiras. Nunca a humanidade deu provas de um tal engenho na formao e aperfeioamento de 
smbolos do inimigo e na produo e fortalecimento da prpria conscincia do bem. A maior das sensaes 
seria um detentor do poder ou um terrorista que no estivesse seguro de lutar por uma causa justa; no 
estaria predestinado a um papel de detentor do poder nem saberia exercer o terror. Todos se encontram, 
na generalidade, dentro de um procedimento justificado, quer actuem em palcios, faam parte da 
Resistncia, ocupem domnios senhoriais ou aquartelamentos miserveis em todos os continentes, inclusive 
o Terceiro Mundo. A realidade vem ao encontro do leader nas suas mltiplas formas, colocando-o num 
dilema e obrigando-o a escolher isto ou aquilo, mas em todas as situaes ele acaba impreterivelmente por 
optar pela soluo mais violenta: a clera legtima, o desespero legtimo, a necessidade legtima de 
afirmao pessoal para a defesa legtima do supremo bem.

A melhor definio do homem moderno  a de um ser complexo autnomo e perspicaz, mas que procura    
     a simplificao e as certezas morais, que comea primeiramente por encarar os factos com violncia e 
estende em seguida essa      mesma atitude  percepo dos mesmos e ao que, pelos mesmos       motivos, 
aplica a violncia contra si.

AGRESSIVIDADE                              31

Mais importante do que a descoberta da bomba atmica  a do cocktail Molotov, o acto universalmente 
acessvel de violncia explosiva, cujo   fabrico, pode ser aprendido nos livros sobre preparao de 
bombas, a preo reduzido. Ainda mais explosiva do que as exploses demogrficas ou da cincia  a 
exploso da legitimidade. A justificao contnua de tudo e de todos  to ilimitada como a violncia que 
preconiza e permite.

Os pases democrticos protestam contra a extrema severidade da pena de morte pronunciada em Espanha 
contra os separatistas bascos e contra uma justia fascista que no permitiu uma verdadeira defesa aos 
acusados. Em muitas provncias espanholas verificaram-se manifestaes espontneas em massa. Em 
Madrid, Franco  acolhido com jbilo pelo povo e entusiasticamente impelido a medidas mais rigorosas. As 
mesmas e outras democracias protestam contra a pena de morte na Rssia por tentativa de desvio de avies 
e contra a justia comunista, que no permitiu qualquer defesa aos acusados, na maioria judeus. Mediante 
aprovao das massas russas, que exigem maior severidade contra os assassinos, os Russos ignoram 
todos estes protestos e, tal como os Espanhis, recusam todo e qualquer gnero de interveno (se bem 
que, como os Espanhis, transformem a pena de morte na pena relativamente mais suave de priso 
perptua). Uns efectuaram contra os bandidos bascos assassinos o que os outros tinham efectuado contra 
os bandidos assassinos judeus e o que se pensa fazer contra os bandidos assassinos inimigos do Estado nos 
E. U. A., Canad, Brasil ou onde quer que seja.

O mtodo s descoberto nos ltimos anos e universalmente adoptado quanto ao desvio @de avies e 
reteno de refns  uma prova drstica de que o mundo moderno se tornou mais vulnervel e fcil de 
destruir do que antigamente. As fronteiras e bens nacionais j no constituem um impedimento mas antes 
uma atraco. Os modernos piratas do ar e, a fortiori, os autores dos raptos dos diplomatas transformam-se 
em intermedirios de negociaes de Estados soberanos e copiam-lhes os mtodos e justificaes de 
soberania. S recentemente  que o uso do terror foi descoberto, no s como propagao de medo e 
despertar de atenes pela sua aco destruidora, mas como possibilidade de negociaes e trfico de 
homens. A apropriao do monoplio de justificao geralmente ligado aos direitos de soberania era para 
os guerrilheiros a nica maneira possvel de obter a libertao dos

32                     AGRESSIVIDADE

camaradas. A usurpao da fora, que no conhece poderes ou limites que no sejam os seus, permitiu o 
que nenhum outro apelo  humanidade ou  justia conseguira. Tambm os tupamaros, os guerrilheiros e 
revolucionrios de todas as raas e nacionalidades. respondem  condenao moral feita pelos adversrios 
com invectivas contra os crticos e intrometidos e tomam medidas severas em relao aos que se opem. 
Pela imitao a par e passo da tcnica da violncia, tomam-se soberanos nos seus prprios domnios. A 
usurpao da soberania d-lhes um sentido crescente de identidade e valor prprio que por seu lado 
justifica tudo o que fazem e principalmente o emprego da violncia no seu prprio campo. Os processos de 
legitimidade necessitam de justificao; uma vez que todos os povos e Estados e hoje tambm at mesmo os 
pequenos grupos e indivduos podem Procurar e encontrar a legitimao que simultaneamente autoriza e 
absolve a violncia, os mtodos de elaborao e aplicao dos nossos juzos devem ser submetidos a um 
julgamento crtico.

Em Espanha, como na Rssia, Grcia, Checoslovquia, no Brasil, como nos E. U. A., os tribunais 
organizados por lei so detentores da justia e utilizam a mesma violncia que tinham por misso controlar 
e limitar. A pretenso de exercer uma soberania absoluta e ilimitada na prpria casa, na famlia, em cada 
grupo e em cada Estado  a tirania do monoplio da violncia que no tolera no seu mbito outras 
influncias e restries seno as que ela prpria impe e fora. Cada um  dono e senhor de si mesmo; 
todos os loucos e criminosos, cada grupo e cada seita fabricam, tal como os Estados, o seu prprio esquema 
justificativo. Os tribunais encontram-se sobrecarregados, dado o estado de urgncia continuamente 
renovado. Tm por dever descobrir a justificao do motivo j apresentado pelo Estado. Antes de o 
enforcarmos, ele deve ter um processo justo, disse uma vez um juiz nos bons velhos tempos do Oeste no 
civilizado. Hoje em dia existe na verdade a justia, mas a espanhola apenas na Rssia

e na Europa Central, a russa em Espanha e na Europa Central e a americana em todo o mundo menos na 
Amrica.

Tambm na Alemanha, em Frana e na Amrica impera o descontentamento em relao aos prprios 
tribunais, mas apenas porque no so suficientemente severos. Em Frana 800 juizes protestaram (,pela 
primeira vez desde 1785) contra a acusao de excesso de complacncia e at mesmo de cobardia que lhes 
foi feita por importantes dirigentes gauleses, que esperavam a justo

AGRESSIVIDADE                              33

ttulo uma vitria eleitoral. Nos Estados Unidos, do mesmo modo se imputa frequentes vezes a 
responsabilidade do aumento de agitao e do crime  complacncia dos juizes do Supremo Tribunal  e  
excessiva aceitao da pressuposta inocncia do culpado. Sem que verdadeiramente se d conta do que 
acontece por toda a parte, se reclama mais intolerncia e mais severidade. Como oposio  violncia 
segue-se um contra-ataque e um sobreataque at no se poder avanar nem descer mais.

A utilizao da violncia  geralmente o distintivo ds tempos em que vivemos e que, juntamente com as 
receitas de preparao de poder explosivo, coloca a justificao da mesma ao alcance de todos. A violncia 
sem fronteiras e a sua justificao, como ela ilimitada, encorajam uma nova tcnica de intimidao que se 
apoia na agresso como fim e estratgia. O terror moderno descobriu que a sua eficcia aumentaria se se 
servisse de indivduos a um tempo inocentes e no implicados na teia que urde. A deciso por parte dos 
poderes mximos elimina todos os graus e diferenciaes que se ligam aos problemas difceis, atravs da 
conscincia da sua prpria justificao. A crueldade ilimitada provoca em contrapartida uma justificao 
ilimitada, que por seu lado tem como consequncia um novo alargamento cio monoplio da violncia. No 
 o apelo dos que possuem a fora que ser capaz de incitar os outros  renncia da sua utilizao. A 
reciprocidade de brutalidade e de violncia s poder talvez cessar nos outros e em ns mesmos mediante 
a conscincia e o reconhecimento do oculto desdobrar de um ciclo de agresso e da existncia de uma 
perigosa tendncia ao emprego da violncia.

ALGUNS CASOS

1WSHIMA: Suicdio ritual M

Muitos so os que vem no ressurgir de virtudes tradicionais, tais como o cumprimento do dever, a 
tmpera, a dis`ciplina e o patriotismo, foras de renovao da actualidade. No sejam loucosb) Com estas 
palavras o comandante da guarnio de Tquio, manietado na cadeira, tentava demover os cinco intrusos, 
vestidos  maneira tradicional, de praticarem um acto to brbaro. Estes fanticos eram, porm, movidos por 
uma fora que se impunha a toda a razo e at mesmo ao prprio instinto de conservao, uma sagrada 
legitimidade vinda de tempos imemoriais e que no conhece consideraes nem mesmo pessoais. O ritual 
do harakiri foi consumado com movimentos precisos. Em obedincia absoluta s regras, Yukio Mishima, o 
conhecido poeta, actor, desportista e comandante de um exrcito privado ultranacional, trespassou o seu 
prprio corpo com um punhal. Morita, seu confidente e executor, decepou-lhe a cabea, antes que uma 
dor insuportvel pudesse provocar uma humilhante perda de moral. O executor ajoelhou-se seguidamente 
praticou o harakiri e foi por sua vez decapitado pelo amigo que se encontrava atrs dele. Os trs homens 
que restavam saudaram os amigos mortos com lgrimas nos olhos e entregaram-se sem resistncia ao militar. 
(Acto de loucosb), foi o comentrio feito pelo presidente do Conselho japons ao brbaro ritual. 
Palhaada sangrenta dos samurase prova de um regresso ao militarismo, chamaram-lhe os comunistas. 
H j muitos anos que Yukio Mishima, o genial poeta e candidato ao Prmio Nobel, lutava por palavras e 
por escrito contra o materialismo, a decadncia de costumes, a pro-

36                     AGRESSIVIDADE
*/*
cura desenfreada do prazer, a corrupo, a industrializao e a poluio do ambiente. As suas armas eram 
as do actor, panfletista, orador e fundador de um exrcito privado, constitudo por cem jovens entusiastas e 
decididos a tudo. Mishima esperou por um dia luminoso do Outono de 1970. O cu, de um azul forte, 
@pres@:ntava uma limpidez extraordinria (um verdadeiro tempo imperial). Mishima fez-se anunciar ao 
comandante das tropas.
O clebre poeta foi recebido com quatro dos seus seguidores.
O comandante recusou-lhe, no entanto, o pedido insistente que lhe dirigiu de poder falar s tropas. Tal 
recusa levou os intrusos a manietar o general e a dominaros guardas que acorreram em auxlio deste 
ltimo. Mishima apareceu  varanda e dirigiu um entusistico discurso s tropas. Incitou-as a rejeitar o 
degradante estado de paz e a tomar conscincia da velha tradio de guerra do exrcito, em lugar de se 
deixarem reduzir  categoria de simples polcias sob o rtulo insultuoso de fora de defesa nacional.
O discurso no resultou. Os poucos que o ouviram tomaram-no por idiota ou bobo. Rram-se do homem 
que gesticulava e gritava, tendo a rodear-lhe a cabea as fitas distintivas dos samurais adornadas de 
crisntemos e agitadas pelo vento. Mishima em breve se apercebeu da ineficcia do seu apelo; regressou 
ao gabinete do comandante, anunciou que selaria o seu protesto com a morte e, gritando (Niva o 
imperador!, enterrou a ponta do punhal no lado esquerdo do ventre.

Sacrificou arrebatadamente a vida pelo imperador, como tantas vezes dramatizara em inmeras peas e 
celebrara em poesia lrica. Os seus compatriotas, os milhes de activos e zelosos japoneses, que se sentiam 
felizes com a conjuntura econmica e o seu moderno pas, consideraram o acto como romantismo 
incompreens vel na era presente, como o gesto intil e histrinico de um literato e mmico senil que 
misturara a realidade com a literatura.

Este jovem talentoso, proveniente de uma distinta e abastada famlia, publicou o seu primeiro livro aos 
dezanove anos; o tema da nsia da morte transparece nas suas novelas, poesias e peas teatrais. Era um 
homem ertico e romanticamente fascinado pela morte epela violncia. Desde muito cedo que submetia o 
corpo franzino a uma disciplina de ferro a fim de viver e morrer na beleza C dignidade. Obrigava-se 
diariamente durante horas seguidas a exerccios fsicos para poder enfrentar sem receio e Com firmeza 
tudo o que surgisse. Este homem rico e famoso des-

AGRESSIVIDADE                               37

frutava com a mulher e os filhos de uma vida economicamente desafogada e, no entanto, nas suas obras 
literrias e no treino do corpo nunca deixou de ser asceta, rigoroso e enrgico. Era severo para consigo 
mesmo, a fim de poder exigir o mesmo dos outros. Desdenhava a fraqueza do seu pas,@ que, na sua 
opinio, atraioara vergonhosamente o ideal de gloria militar pela certeza da abastana da sociedade de 
consumo. A renncia  guerra como direito soberano da nao parecia-lhe insuportvel; somente a 
reposio  dos antigos valores e das virtudes tradicionais de cavalheirismo -da tite dos samurais, ou seja a 
abnegao absoluta, a alegria no sacrifcio, o incondicional cumprimento do dever e a obedincia absoluta, 
podiam libertar o pas da sua ignomnia. Para o caso de o seu ltimo apelo se perder sem ser -ouvido, 
preparara o cenrio de uma morte herica, efectuada de acordo com o antiqussiffio ritual. Ele prprio 
dirigiu o acto e foi actor principal. Seguindo os moldes do harakiri cumpriu a misso intrnseca  sua 
personalidade.

O mpeto pr@veniente da desiluso e da clera  acalmado pelo ritual da cerimnia; os homens do grupo 
de Mishima expressaram com preciso de mquinas a sua violncia fogosa e cheia de dio desesperado 
ante a indiferena cobarde do povo. Tinham em vo tentado tudo antes para arrancar o povo ao estado 
vergonhoso de passividade em que este se encontrava, pretendendo arrast-lo ao rigorismo e ao alegre 
cumprimento do dever. Os panfletos e as ameaas provaram-se inteis. O exemplo herico posto em 
prtica pelo seu esp rito de sacrifcio tinha como finalidade a demonstrao de que h valores mais 
elevados do que o prazer egosta. Uma vez que no podiam mover nem arrastar as massas, quiseram pelo 
menos envergonhar e acusar. Ao provocarem as consequncias da sua prpria derrota e insucesso muda-

ram a passividade que lhes fora imposta na actividade da morte que escolheram. Protestaram em nome da 
liberdade contra a submisso. O avano ameaador do eterno pacifismo, o desaparecimento de uma 
autoridade incondicional e de uma hierarquia precisa era para eles a crise que procuravam remediar 
mediante o restabelecimento da necessidade da existncia da disciplina. Estavam sedentos de 
compromissos; tinham de encontrar esses conipromissos atravs da. agresso. Eles mesmos os 
estabeleceriam se preciso fosse com a ajuda da violncia. S pela obrigao imposta e exigente se sentiam 
verdadeiramente livres. Os soldados tinham troado de Mishima e recusavam-se a seguir as suas

38                  AGRESSIVIDADE

ordens, preferindo a passividade. Mishima no podia suportar tal atitude e, portanto, em obedincia s 
regras de um ritual que h muito perdera todo o sentido, encontrou na morte o que a vida lhe recusara.

Os monges budistas queimaram-se como protesto contra a guerra; o checo Jan Palach - tomando o exemplo 
do heri nacional, Jan Ilus, morto da mesma forma pela sua crena -fez o mesmo como protesto contra a 
ocupa o sovitica; houve igualmente jovens franceses que se imolarampelo fogo como protesto contra o 
vazio da vida... e encontraram seguidores. A violncia  contagiosa. A sua aco epidmica, verifica-se da 
mesma forma, quer tenha a finalidade externa do crime ou seja dirigida ao prprio, sob forma de suicdio. 
Seguiram-se imitadores do exemplo, que se tornou escola de moda. Se o acto cometido demonstra a 
existncia de uma convico deve arrastar a actos semelhantes como garantia de autenticidade e cada acto 
constituir um enaltecimento -dessa -convico que legitima de forma sensata ou insensata, real ou ilusria. 
Soldados e polcias, guerrilheiros e -defensores da ordem, todos tm a mesma crena ilimitada e a certeza 
pura e inocente de que esto preparados para despertar sentimentos semelhantes. A rivalidade poltica ou 
tambm apenas a necessidade universal de paz considera casos psicolgicos e de criminalidade os que 
cometem casos semelhantes e apelida-os de loucos e criminosos, contra cuja utilizao da violncia se 
devem empregar todas as foras. Os verdadeiros dementes e criminosos agem, por outro lado, sob a 
etiqueta de seguidores de um idealismo. Do finalidades polticas e ideolgicas aos seus crimes, atribuindo-
lhes rtulos de smbolos de protesto e actos
* favor da disciplina, ou contra a presso e ainda pr ou contra
* tirania.

HEYDip.icH: A lealdade  a minha honra!

Reinhard Heydrich, comandante das foras SS, chefe da Polcia de Segurana e da SD, chefe dos Servios Secretos 
alemes e vice-protector dos Bomios e Moravos, foi ferido gravementenum atentado de que foi vtima em 27 de Maio 
de 1942,

AGRESSIVIDADE                              39

vindo a sucumbir aos ferimentos oito dias mais tarde. A Gestapo. respondeu ao atentado com uma reaco 
de superextermnio. Sem esperar pela captura dos culpados (a intensa busca imediatamente efectuada foi 
praticamente infrutfera, embora o preo oferecido como recompensa tivesse ascendido gradualmente a 
meio milho de marcos alemes), as autoridades escolheram arbitrariamente a povoao de Lidice para 
servir de exemplo. Lidice no tinha a mnima relao com o atentado; foi, porm, arrasada. Cento e noventa 
e nove homens foram mortos a tiro nos seus postos, as mulheres envia-das para campos de concentrao e 
as crianas levadas para vrios asilos. As autoridades alems esforara,m-se por ocultar o facto de se terem 
servido da aldeia como bode expiatrio, mediante alegao no provada de atitudes subversivas 
demonstradas pela mesma.

O Governo checo no exlio em Londres decidira assassinar Hey,drich, que era pessoalmente responsvel 
pelos mais significativos actos nazis -desde l933,. uma vez que, aps uma breve fase de terror manifesto, 
conseguira atravs de perigosas manobras psicolgicas insinuar-se na confiana, do povo que brutalmente 
oprimia. Lisonjeou a conscincia nacional checa servindo-se da glorificao do santo padroeiro bomio, 
So Venceslau, que teria ordenado aos ;Checos a dependncia sob um pas alemo.

Dois jovens exilados ch,ecos, Jan, Kubis e Jose Gabcik, que tinham sido esp@e@ialmente treinados na 
Esccia para execuo de misses especiais, foram lanados de pra-quedas nas proximidades de Praga, 
onde entraram em contacto com a resistncia checa, depois -do que planearam o golpe em to-dos os 
pormenores, tendo-o seguidamente executado.

A resistncia de Praga previra a carnificina de represlia que se seguiria e por isso informara o Governo 
checo no exlio em Londres relativamente aos inconvenientes do atentado. Este tinha igualmente a certeza 
de que a vingana dos Alemes significaria a morte ou a priso para centenas de milhares de homens do 
seu povo. Foi apesar de tudo dada ordem de execuo.

Curda, um checo exilado que foi enviado para Praga juntamente com Kubis e Gabcik, mas que mais tarde 
se escondeu na casa da me, numa aldeia do Sul da Bomia, assistiu horrorizado  liquidao de Lidice. 
Quando a Gestapo anunciou mais medidas de represlia em massa, no caso de os autores do atentado no 
serem descobertos, dirigiu-se a Praga e contou  Polcia Secreta o que sabia sobre o atentado. Curda no 
sabia, porm,

o                    AGRESSIVIDADE

revelar  Gestapo o lugar onde se encontravam os dois bombis @tas mas levou-os at junto de um outro 
combatente da Resistnlca, de nome Morawetz, que recolhera os -dois checos descidos em pra-quedas 
aps a sua chegada a Praga. Morawetz e o filho foram -Presos; a Sr., Morawetz turtou-se  priso no ltimo 
instante, suicidando-se. Mesmo sob tortura, pai e filho mantiveram um silncio obstinado. Quando o pai 
sucumbiu, no entanto, s torturas infligidas pelos carrascos em frente do filho, este deixou finalmente 
escapar o esconderijo dos autores do atentado, na igreja ortodoxa de Cyril e Methoius, que ficava situada 
no bairro antigo de Praga.

Na manh seguinte as foras da SS tomaram de assalto a construo barroca, que foi defendida at.ao 
imposs vel por sete elementos da Resistncia escondidos na cripta e no plpito. Pouparam as ltimas balas 
para eles mesmos. Curda identificou os sete -checos mortos, que conhecia do treino recebido em conjunto 
e efectuado na Esccia. As perdas sofridas pela SS neste recontro, e que nunca chegaram a ser 
verdadeiramente conhecidas, foram to elevadas que a Gestapo, nas suas actas, teve de aumentar o 
nmero de sete para cento e vinte.

As represlias continuaram. Pelo Conselho de Guerra de Praga foram condenados  morte e executadas 
936 pessoas e
395 pelo Conselho de Guerra de Brnn. O cabo Curda, que denunciara,os camaradas  Gestapo, foi 
logrado quanto  recompensa e recebeu apenas um quarto da quantia prometida, ficando ao servio da 
Gestapo. Quando a guerra terminou Curda, apesar de ter mudado de nome, foi descoberto, preso, julgado, 
condenado  morte e executado. De todas as mulheres e crianas de Lidice que tinham sido enviadas para 
campos de concentrao, apenas uma pequena percentagem sobreviveu ao fim da guerra.

Em Agosto de 1958, o Quarto Senado do tribunal da polcia do pais decidiu sem agravo nem a,1?elo que 
Heydrich encontrara a morte no desenrolar dos acontecimentos da guerra e que portanto cara como 
soldado, pelo que de acordo com as leis federais de assistncia s vivas de antigos combatentes deveria 
ser concedida uma penso vitalcia  viva. j em 1953 fora adJudicada esta penso  viva; nas disposies 
ocorridas posteriormente imperou, porm, o severo parecer de que Heydrich fora, vtima de um atentado 
poltico e que por isso a viva no tinha direito a qualquer penso. O tribunal social eslvico voltou a tornar 
justificvel esse direito. A Sr. Heydrich passou a receber a pen-

AGRESSIVIDADE                             41

so. Abriu um hotel para estrangeiros, situa-do numa ilha do mar Bltico, e adquiriu extensas propriedades; 
o seu hotel servia principalmente de ponto de encontro s mulheres de antigos comandantes do Servio 
Secreto.

O Governo checoslovaco prestou as devidas honras  cidade de Lidice; foi colocada uma cruz feita de 
troncos de rvore por desbastar, tendo no cimo uma coroa de espinhos de arame farpado, sobre a vala 
comum que servia de s@pultura aos homens de Lidice. Ergueram-se quiosques com a inscrio 
internacionalmente aceite de souvenirs e negociou-se amplamente com a tragdia nacional; 
transaccionaram-se devotadamente postais, decalc(>manias, abre-cartas e -todo o gnero de bugigangas. 
No grande livro de honra, que inmeros visitantes e delegaes de todos os pases assinaram, relia-se esta 
frase continuamente: Jamais o mesmo!

Tantoo assassnio -de Heydrich como o extermnio de Lidice, os dois provenientes de cuidada 
premeditao, foram actos de agresso brutal e frio clculo de mobilizao da violncia. Os chefes -e 
responsveis pelas ordens estavam sentados em Londres e Berlim e separados dos executantes e da sua 
longa cadeia de agentes de ligao e intermedirios hierrquicos. O Governo checo de Londres 
pronunciou a sentena de morte de Heydrich e,  distncia, mandou-a executar por delegados que enviou 
ao local. Hitler glorificou o homem de corao de ferro, concedeu-lhe a mais alta condecorao a ttulo 
pstumo (o correio alemo dedicou-lhe um dos seus selos de maior valor), apelou para o povo alemo no 
sentido de que no se poupasse a esforos em sua memria e ordenou o extermnio em massa dos homens, 
a expulso das mulheres e a destrui o das casas de Lidice.

Heydrich fora sempre o mestre incontestado da agresso brutal de que acabara por ser vtima. A sua figura 
tinha o efeito. de uma chicotada; era como o fio de ao. Com a sua mania fria e racional de criticar 
qualificava os complexos de fidelidade condicionados a sentimentos como sinais de fraqueza; foi ele 
tambm que, segundo se diz, aps o assassnio de Roelira e de outros chefes da Polcia Secreta, 
pronunciou as palavras:  A lealdade  a minha honral Ele prprio era a desconfiana em pessoa, w 
inventor da superdesconfiana, como Hitler lhe chamava. Sabia tudo sobre todos e fora ao ponto de 
organizar dossiers sobre Hininiler e Hitler, bem como um registo volumoso de dados referentes a si 
mesmo.

42                     AGRESSIVIDADE

Oficial da Armada, Heydrich, depois de julgado pelo Tribunal de Honra, foi obrigado a deixar a Armada 
por motivos que nunca chegaram a ser totalmente esclarecidos. Ainda muito mais graves eram, porm, as 
provas existentes no seu prprio dossier e que ele podia dissimular mas nunca apagar, ou seja a mancha da 
sua descendncia, em parte judia. Ele conhecia a tenso constante, o medo paranico de que descobrissem 
a verdade e o dio insacivel que a si mesmo votava e que sabia existir por detrs da fachada de uma sede 
nunca satisfeita de prestgio e conquista de poder incomensurvel. Foi a cabea da conspirao contra os 
generais Blomberg e Fritsch, preparou a Noite de Cristal, movimentou os fios da aliana com a ustria e 
anexao da Checoslovquia. Planeou e dirigiu o assalto ao emissor de Gleiwitz, que iria ser o pretexto 
para o estalar da Segunda Guerra Mundial, e durante a guerra levou a cabo a tentativa de desvalorizar a 
moeda inglesa com a ajuda, de notas de banco falsificadas (segundo E. Nolte).

Aos olhos dos poderes do Terceiro Reich, das foras executivas da SS e do Servio de Segurana, a 
Opera o Lidice surgiu como uma aco -da Polcia Secreta conduzida dentro de meios legais. Hitler 
manifestara a sua clera pelo sucedido, comparando, a morte de Heydrich a uma batalha perdida. A derrota 
s no se torna vergonhosa quando  compensada por actos de desforra, punio e advertncia. O 
extermnio de uma povoao fora., por conseguinte, no s oportuno mas pura e simplesmente 
imprescindvel. Depois de a investida alem at Moscovo ter fracassado por razes de ordem polltica e 
militar, no se podia usar de benevolncia: tornara-se de importncia vital fazer da ChecoslGvquia uma 
zona absolutamente segura. Para impedir casos semelhantes noutros pases devia ser dado um exemplo 
significativo, com vista a uma intimidao geral. As foras defensivas da autoridade, levadas pela ambiciosa 
pretenso de criar uma -nova estrutura europeia, no podiam deixar passar em branco um acto fantico, 
provocador e que demonstrara rebeldia e desprezo pelos seus direitos de soberania e autoridade, pois 
que tal acarretaria graves e penosas consequncias. A renncia por parte do Terceiro Reich quanto  
apresentao de qualquer justificao do procedimento adoptado relativamente s acusaes contra Lidice 
 sintomtico -do cinismo e indiferena caractersticos baseados na violncia e que de modo algum via -
necessidade de prestar contas do mnimo dos seus actos que n o fosse ante o

AGRESSIVIDADE                               43

tribunal da Histria. Os corpos de delito levam, segundo uma ideologia,  sentena e castigo dos culpados; 
mas a praxe quotidiana recorda mais a histria do juiz que profere a sentena antes de instaurar o 
processo. Arra-njam-se sempre provas, invertem-se culpabilidades, a sentena fundamenta as culpas, o 
castigo incompreensvel demonstra a culpabilidade quando, como ,no caso de Kafka, a fora se encontrar 
inteiramente monopolizada pelo poder e o indivduo reportado a um plano ignorado.
O autoritrio poder de Hitler, porm, que -nessa altura j no era to irresistivelmente vitorioso, no podia 
deixar de satisfazer a necessidade -de justificao no mnimo mediante a atitude explicativa da subverso 
de Lidice. Foi pela procura de legitimao que a justia pagou o seu tributo  virtude.

S existe possibilidade de demonstrar arrogncia e orgulho quando j se venceram todas as batalhas, ainda 
que por pouco tempo. Os atacantes devem fazer-se passar por defensores, a fim de poderem atacar, e os 
governantes por servidores do povo que mais tarde pretendem dominar. Tambm h que justificar os actos 
mais abominveis de violncia se a querem repetir.. Esta justificao surte sempre -o efeito desejado. quem 
pratica cinica- @nente o'acto de violncia-quer seja um criminoso isolado, um estadista ou um governo-e 
recomenda a poltica da fora aplicada abertamente no s.e pode furtar  obrigao de dar um carcter de 
legitimidade defensiva ou adicional a.uma injustica e de transformar uma vtima inocente em criminoso 
culpado, merecedor de castigo.

Tambm os autores de atentados terroristas (e contraterroristas, pois que Heydrich era ento o mestre 
mundial do terror) formaram escolas polticas como rebeldes e tpicos opositores das modernas formas de 
domnio. O opositor  todo aquele que, ,nas suas aces, se declara do lado da raa, da  ptria, da certeza 
espiritual e da conscincia individual e que representa pois o direito antigo frente a um usurpador vindo     
  de dentro ou de fora. Diz representar a legitimidade daquilo     que o destruidor do seu universo ou do 
universo em geral pretende derrubar. Situando-se acima de todas as leis e para l das mesmas, o opositor, 
sempre preparado para enfrentar a morte, sente-se justificado pelo seu sacrifcio desinteressado e 
incondicional e pelo apelo a valores tradicionais, ao contrrio do revolucionrio, que faz apelo aos valores 
de uma nova poca, que se deveria criar primeiramente. Tiranos e dominadores, opositores e revolucio-

44                    ACRESSIVIDADE

nrios, todos se sentem dentro da legitimidade, todos servem as mais elevadas causas, sendo apenas umas 
diferentes das outras: quer seja a imposio legtima de domnio de um povo, a libertao da ptria, a 
revolta ante atrocidades insensatas, a democratizao e estabelecimento definitivo da paz ou a afirmao 
de que tal violncia s deixar de ser possvel no futuro. O exemplo do horror torna-se tradio, a 
apoteose da violncia um hbito e o rtulo Jamais o mesmob) transforma-se em Sempre o mesmo!

Para o mundo, Lidice constitui um record de crueldade que se sobreps a todo o horror da Segunda 
Guerra Mundial. Se bem que no se pudesse medir quantitativamente a violncia ou apreciar -todas qs 
consequncias,  enorme a desproporo entre o acto e as represlias; a morte de um indivduo- ainda que 
ocupando.uma posio elevada-no foi unicamente vingada com o aniquilamento e destruio de uma 
povoao: o cruel veredicto prescrevia, igualmente que o nome do lugar fosse banido da lista das 
povoaes checas. Lidice passaria a no ter categoria de povoao e os seus habitantes tinham como 
destino a morte ou o resto da vida em campos de concentrao.

Os nacionais-socialistas pouparam pelo menos as mulheres

e as crianas, embora por fim poucas delas conseguissem sobreviver. No massacre de My Lai 
anecessidade de uma maior violncia de guerra vai servir como justificao parcial quando comparada com 
oplaneamento a frio da Operao Lidice. A aldeia vietramita dos americanos foi, porm, arrasada. Todo o 
ser ali vivente foi reduzido ao silncio para sempre, porque os habitantes tinham sido considerados 
culpados de simpatia e coligao para com o inimigo. My Lai constituiu, todavia, o smbolo de uma aco 
poltica semelhante  de Lidice contra uma resistncia activa de opositores. O exrcito americano intentou 
um processo contra os seus oficiais acusados de abuso de poder na sua misso de matar e de violao do 
p@in@pio de que os crimes de guerra so apangio exclusivo dos inimigos. A crueldade da Operao 
Lidice no teve precedente nem paralelo histrico, mas houve no entanto o cuidado de poupar pelo menos 
as mulheres

e as crianas em vez de as matar no prprio local. Em My Lai, pelo contrrio, s mulheres e crianas foram 
intencionalmente inculcadas responsabilidades de culpa; a ordem foi a de todas serem mortas sem 
excepo. Tal atitude suscitou grande agitao por parte da opinio pblica, discutindo-se se tudo no s.e 
teria passado de forma completamente diferente e o extermnio de

A G R E S S I V I D A D E                  45

My Lai de facto militarmente permitido, mas acima de tudo se seria necessrio tornar publicamente 
conhecidos os horrveis acontecimentos, repis-los e proporcionar aos inimigos valioso material de 
propaganda. Teria sido de qualquer modo mais vantajoso e -em prol da moral manter em segredo o 
conhecimento deste facto e foi o que certas camadas do exrcito americano tentaram. Melhor ainda seria a 
possibilidade de acusar os culpados de loucura;  deste modo que a psiquiatria, to escarnecida pelo@ 
representantes de realidade brutal, pode ser colocada ao servio da violncia. A comprovaao de doena 
mental retira toda a culpabilidade ao que confere a ordem, bem como a todo o povo. Uma vez recebido o 
selo de crueldade motivada por fenmenos de ordem psicolgica, a regularidade e habituao do emprego 
da violncia abusiva perde todo o horrvel e torna-se independente da acusao de sangue inocentemente 
derramado e assassnio em massa premeditado.

Hoje em dia os opositores operam na mais profunda calma. Punem e raptam inocentes; seguindo uma cpia 
fiel dos governos contra os quais lutam, no se limitam a fazer presos, mas submetem-nos  tortura ou 
negoceiam-nos por troca. O facto de ameaarem exerer violncia e de a poderem aplicar s suas vtimas 
inocentes torna-os aceitveis como intervenientes naquela moderna variante do acordo por troca que hoje 
 posto em equao pelos caadores de homens, como outrora pelos caadores de autgrafos: quantos 
Uwe Seelers por um Kiesinger? Quantos Picassos por um Franco? - ouvia-se ontem. Hoje as perguntas so 
diferentes. Quantos presos polticos por um ministro canadiano, um embaixador poltico ou um enviado 
ingls raptados? Os dominados aprenderam dos dominadores o que os torna seus iguais.

A evoluo da violncia nos nossos tempos no principiou com Heydrich e Lidice, mas apenas alcanou 
um ponto elevado que a partir da j foi frequentemente ultrapassado. A relatividade e arbitrariedade da 
diferen@ entre violncia ao servio do bem e do mal, da justi@a e injustia, entre uma violncia legal e 
ilegal, disciplinada e violadora da ordem, construtiva e destrutiva, admitida e proibida tOTna-se 
especialmente significativa atravs da observao da interligao dos actos de violncia. Os conceitos de 
valor modificam-se, variam e invertem-se segundo o ponto de vista do observador e a do participante e 
segundo a posio de invasor ou invadido. O que a-os olhos dos invasores

46                    AGRESSIVIDADE

de ento, com o ttulo de protectores, aDarecia como um assassnio desprezvel, prfido e indigno, ur@a 
afronta irreparvel e uma perda insubstituvel, foi considerado pelos invadidos como urna execuo mil 
vezes justificvel de um verdugo sanguinrio e um acto de libertao.

No crculo abrangido pela violncia, os actos proibidos (crimes ou loucura) transformam-se em actos 
autorizados, comandados pela necessidade ou pela legtima defesa. Os actos de violncia so quase 
sempre apresentados e sentidos pelos que os cometem como necessrios e legtimos. Na sua opinio trata-
se de uma causa ao servio de objectivos elevados ou at mesmo um bem para as vtimas.  medida que 
formos estudando a agresso sob toa-os os seus aspectos, metamorfoses e disfarces, encontraremos sempre 
esta mesma super-hierarquia simplificadora. Esta ideia de que a perda de um indivduo considerado 
particularmente importante pode ser compensada ou equilibrada por um nmero elevado de vidas 
humanas sacrificadas expressa uma espcie de miragem de nmeros, de pura abstraco. H anos que as 
foras americanas registam, com a ajuda de relatrios oficiais referentes aos diversos cenrios de 
operaes no Sueste Asitico e de uma forma que  distncia soa a falso, o bodycount, ou seja, o nmero 
das baixas dirias, quer dizer, o nmero dos inimigos mortos diariamente em confronto com o das prprias 
baixas sofridas. Nunca aconteceu o partido que faz a estatstica apresentar baixas superiores; a relao, 
que  publicada nos moldes de um resultado desportivo (80-12, 230-8, 17-O), reveIa-se sempre a favor do 
macabro, autor do cmputo. O triunfo dirio e o elevado nmero de records atingidos so uma 
compensao capaz de fazer esquecer que no se avana e se est a perder terreno. S a crena e a 
demonstrao da eficcia da prpria agresso, evidentemente apenas utilizada com finalidade defensiva, 
levantam o moral e eliminam a dvida quanto  justia das causas. Os Alemes assassinaram alguns milhares 
de checos como vingana pela morte de Heydrich, e por cada um dos seus que caem os Americanos matam 
em mdia cerca de 80 norte ou sul-vietnamitas, embora neste caso o facto no tenha carcter sistemtico. 
No prprio princpio de contagem, segundo o qual cada um dos mortos contados no americanos  
considerado como inimigo, encontra-se manifesta uma posio do emprego indistinto de violncia para 
embelezar o resultado.

AGRESSIVIDADE            47

NAsH: Assassnios em srie e publicidade

Em janeiro de 1957 tivemos ocasio de investigar, na qualidade de perito jurdico, o acusado, Stephen 
Nasli, autor de morticnio. A nossa misso era a de apurar o grau de responsabilidade que lhe cabia. 
Provara-se j a culpabilidade de Nash em trs mortes. Ele mesmo se vangloriava, mediante revelaes 
exageradamente dramatizadas, de ter assassinado oito pessoas mais; na totalidade pesavam sobre Nash 
onze assassnios cometidos num espao de seis meses. Algumas testemunhas no tinham palavras que 
chegassem para elogiar a amizade e solicitude que o assassino sempre demonstrara para com elas. Nash s 
praticava os seus crimes, de um sadismo inacreditvel, em desconhecidos e inocentes, apenas como 
passatempo e na crena fantica e louca de dever vingar-se da sociedade que o destrura. Qualificava-se 
alegremente e mesmo com alvio de ser o nico homem feliz na Terra; sabia que tinha de morrer e era 
grande a sua ansiedade em relao a esse momento, iporque s ento ficariam saldadas as suas contas e s 
ento sairia vencedor do duelo que travava com a sociedade. Da-do que s podia morrer uma vez, o 
resultado seria de 11 para 1 a seu favor; ainda que avaliasse a sua vida com importncia triplicada 
relativamente  de qualquer das suas vtimas, a proporo final seria de 11 para 3.

Talvez este caso no venha absolutamente nada a propsito inserido na crtica feita aos acontecimentos da 
histria mundial
- ou vir?

Em comparao com a perda de vidas humanas, de bens materiais e espirituais que as organizaes sociais 
provocam em tempo de paz e de guerra e relativamente ao monoplio de violncia na se legal de Estados 
soberanos, cada assassino como o que referimos no passa de um pobre sapateiro remendo. Na sua 
guerra de exploso instintiva ou de premeditao dirigida contra a sociedade repete e reflecte em 
miniatura e numa caricatura paradoxal muitos traos decisivos, tendncias explosivas, manobras 
estratgicas e padres de justia do todo. A semelhana no  igualdade e a analogia no constitui 
identidade. O Estado no  nenhum macro-indivduo, e nenhum criminoso, nem mesmo, o pior dos 
indivduos,  uma instituio criada, mas um ser biolgico de carne e osso.

O horrvel morticnio que se verificou nos Estados Unidos e

48                    AGRESSiVIDADE

cujo autor foi Stepheu Nash  considerado o crime do decnio.
O horror causado pelos terrveis e sdicos assassnios de vtimas escolhidas arbitrariamente, mas na sua 
maioria mulheres e crianas, levou o governador californiano dessa poca a opor-se  suspenso da pena 
de morte, j pronunciada pelo Parlamento. Servindo-se de uma faca de mato, Nash tinha ao que parece 
rasgado as carnes, mutilado cruelmente e s depois morto, pelo que consta indiscriminadamente, uma srie 
de homens desconhecidos, entre os quais figuravam homossexuais encontrados casualmente, e tambm 
mulheres e crianas. Antes da priso, Nash devorara com entusiasmo -os ttulos dos jornais que o 
designavam como a fera mais desumana   1co mais impiedoso assassino da histria da Califrnia. Durante 
muito tempo, e apesar da descrio pormenorizada feita por algumas pessoas, a polcia,no o cons@guiu 
apanhar, se bem que Nash enquanto decorria a investigaao tivesse sido detido por uma infraco de 
trnsito e lhe tivessem encontrado entre as suas coisas o instrumento dos crimes. Pelo seu genuno e no 
fabricado sangue-frio, aliado a uma completa indiferena, conseguiu convencer as autoridades de que 
nada tinha a ver com o caso; soltaram-no. Quando, porm, acabou por ser preso confessou solcita e 
imediatamente os trs assassnios de que era acusado. Descreveu pormenorizadamente e com visvel 
prazer todos os seus actos, que uma crueldade inacreditvel caracterizava e no demonstrou o mnimo 
remorso, vangloriando-se ainda de ter assassinado oito pessoas mais.

Mediante honorrios a combinar declarou-se pronto a fornecer os nomes das vtimas e pormenores ainda 
desconhecidos dos seus actos s autoridades e imprensa. A princpio as autoridades no o acreditaram. Em 
seguida, tanto as autoridades como a imprensa acabaram por aceitar a oferta do culpado pela qual, atravs 
do pagamento de somas sempre redobradas -que ele apenas podia utilizar livremente para melhoramento 
da comida na priso-, lhes vendeu informaes relativas a trs outras vtimas. As indicaes  foram 
seg@iidas, -e as vtimas mutiladas prontamente encontradas nos locais que ele mencionara. Aps a 
descoberta da sexta vtima as demandas econmicas feitas pelo acusado atingiram um ponto elevadssimo e 
alm disso as autoridades estavam j convictas de possurem material que chegava para a condenao do 
assassino. Os restantes cinco assassnios que o acusado dizia ter cometido nunca foram, por conseguinte, 
esclarecidos; ainda hoje no se sabe se a sua histria era verdadeira.

AGRESSIVIDADE                             49

Segundo o que ele contou e no foi provado, nunca conhecera os pais; Nash foi criado num orfanato e 
finalmente adoptad(> por um casal de fanticos religiosos. Desde a mais tenra idade nascera em si um dio 
profundo contra a mentira de todas as religies e atribua culpas aos pais adoptivos e  sociedade por 
nunca ter aprendido uma profisso a srio. O seu carcter formou-se -na mentira; viera ao mundo como 
filho das autoridades e da assistncia e portanto tambm devia morrer pela interveno das autoridades.

Cumprira o seu primeiro tempo de priso a arquitectar planos de vingana contra a sociedade e 
compartilhava-os com os companheiros de priso e com os guardas. Na priso reflectia precisamente no 
que queria pr em prtica depois de sair em liberdade; organizou complicados esquemas e planos de como 
faria descarrilar comboios em pontes para poder assistir ao afogamento das vtimas. Tambm planeou 
atentados com bombas e cargas de dinamite dentro de um perfeito conhecimento de que o uso de meios 
tcnicos modernos aumentava o potencial de extermnio. Aps prolongada meditao desistiu, no entanto, 
de pr em prtica estas possibilidades de utilizao instrumental de armas de fogo e detonadores. Tais 
processos pareciam-lhe demasiado frios e impessoais; pretendia gozar pessoalmente o doce sabor da 
vingana at ao ltimo instante, olhando as suas vtimas bem nos olhos; acabou finalmente por se decidir 
pelo assassnio individual.

Pouco depois de ter sido posto em liberdade, comeou a sua lista de assassnios, que obedeciam numa 
totalidade a um plano estipulado. Deixava passar um certo espao de tempo entre os assassnios, mudava 
sempre de residncia e, no entanto, deixava a escolha das suas vtimas ao acaso, contanto que estivessem 
dentro do tipo de pessoa pretendido. A primeira srie de nove pessoas seria constituda por marinheiros 
ou por pessoas que lhe lembrassem marinheiros. A segunda srie, mais uma vez de nove pessoas, devia 
ser constituda por crianas e a terceira por mulheres. Depois do undcimo assassnio- segundo o seu 
relatofoi impedido de cometer mais crimes, por ter sido preso, mas jurou apesar disso que no caso pouco 
provvel de ser posto em liberdade era sua inteno dedicar-se a completar a sua srie de crimes.

No decorrer dos diversos exames clnicos a que foi submetido mostrou-se inteiramente consciente da 
realidade e extremamente

so                    AGRESSIVIDADE

solcito relativamente a falar de si e dos seus problemas, enquanto no pressentiu o p@rigo de ser acusado 
de perturbao mental. Trazia sempre consigo cpias dos certificados dos psiquiatras da priso, que j lhe 
tinham reconhecido inteira responsabilidade pessoal por. delitos anteriormente cometidos. Durante o 
tempo em que estivera preso, adquirira um considervel conhecimento de leis e um extenso vocabulrio 
polmico, lendo e decorando passagens das trs obras que considerava mais importantes: A Minha Luta., 
de Hitler, Guerra e Paz, de ToIstoi, e o Cdigo Penal. No via qualquer contraste entre as descries 
detalhadas da sdica brutalidade com que assassinou as vtimas e o simultneo protesto da sua identidade 
com a doura de Jesus. Alm de poupar uma inevitvel desiluso s suas vtimas, prestava-lhes um servio 
tanto maior quanto mais cheio de esperana fosse o futuro delas. Ele prprio encontrara nesse momento 
uma profunda tranquilidade interior, ao passe, que dantes estivera sempre dominado pela tenso e pelo 
medo. Agora era mais poderoso e importante do que o Ministrio da Guerra, que no podia ordenar 
mortes, ao passo que ele podia matar pessoas  vontade. O nico facto que o assustava era poder ser 
tomado por -demente e internado numa clnica. Tal como na sua infncia, seria um roubo feito aos seus -
direitos como pessoa; ele tinha o direito a ser morto.

Nash nunca nem em nenhum momento teve dvidas quanto ao xito do caso no sentido pretendido. A sua 
certeza na vitria, que, depois de a sentena ser pronunciada, ele expressou por um grito de alegria, 
nunca sofreu o mnimo abalo, porque ele sabia que a sua prpria narrao dos crimes sdicos, a que ainda 
acrescentava mais pormenores conferidos pela imaginao, moveria os jurados contra si e lev-los-ia a 
pronunciar um veredicto de culpabilidade, independenteinente do que os psiquiatras tinham a dizer sobre 
ele. Foi precisamente isso o que aconteceu depois.

Os trs peritos judiciais designados pelo tribunal para exame da sua imputabilidade classificaram-no como 
uma personalidade sdica e psicopata (psicopata fantico, no sentido empregue por K. ScImeider). Dois 
dos psiquiatras afirmaram tambm peremptoriamente que o acusado sofria de megalomania, alucinaes 
ocasionais e de loucura sistemtica e classificaram-no como esquizofrnico, paranico.

Embora o acusado no se cansasse de afirmar que sabia perfeitamente ter atentado contra a sociedade e 
estar plenamente

AGRESSIVIDADE                              51

consciente das consequncias dos seus actos, devia, em cumprimento do direito californiano, ser dado 
como responsvel por todos os psiquiatras, incluindo ns.

Aps breve conferncia, todos os jurados o consideraram totalmente responsvel, embora um outro 
psiquiatra e mesmo ns expressssemos pormenorizadamente o absurdo da aplicao textual do Cdigo 
Penal neste caso. Foram unnimes em declarar depois que nenhum duvidara da demncia do acusado. 
Tinham-se servido do pretexto da lei apenas para poderem aniquilar uma tal fera humana. As suas 
esperanas de que ele pudesse melhorar eram mnimas; para eles seria um absurdo aliment-lo at ao fim 
da vida ou correr o risco de um dia ele se poder escapar ou ser posto em liberdade por equvoco. Os 
jurados tinham, no seu prprio dizer, condenado Nash  -morte sem remorsos, porque ele era um doente 
mental incurvel.

A feio exibicionista e histrinica do comportamento de Nasli, o seu negcio com as informaes a que 
chamava venda de cadveres e a sua bizarra e horrvel habilidade relativamente a despertar e explorar 
o prazer da sensao nunca se poderiam ter manifestado desta forma sem o toque eficaz da imprensa e a

solicitude das autoridades quanto a comprarem informaes sobre o crime.  provvel que a evoluo 
psicodinmica de Nash no tivesse sido menor no plano da loucura, mas no teria sido porm to perigosa 
se os diversos acordos e cmbios das autoridades no tivessem reafirmado em si a convico de que a 
justia e a moral no passavam de mercadorias comprveis que se podiam transaccionar. Era esta a sua 
opinio, que, apesar do exagero que a loucura lhe conferia, a realidade -em grande parte confirmava. Foi-
lhe permitido e at mesmo o tinham incitado a vender as informaes das suas vtimas por bom preo, 
relativam-ente ao que ele frisou continuadamente (e com razo) que a

sua compensao representava, apenas uma pequena parcela do lucro obtido pelos jornais.

Ainda antes da audincia principal uma grande companhia produtora de filmes contactou-o para a aquisio 
de direitos sobre a histria da sua vida e dos seus crimes, que deu depois realmente origem a um xito do 
cinema: O Vagabundo (The Hitchhiker). A elevadssima quantia destinada a essa aquisio de direitos no 
poderia ser paga se o diagnstico clnico o considerasse mentalmente perturbado e irresponsvel; s 
poderia cobrar

52

AGRESSIVIDADE

o dinheiro sob condio de uma total culpabilidade, o que tambm significava, no entanto, a sua condenao 
 morte.

Nash representava de forma quase perfeita o prottipo do criminoso de que o pblico se serve como 
contraste na defesa e afastani,ento das suas prprias tendncias inconscientes  loucura. Ele era, de facto, o 
diabo em figura de gente que o pblico julga reconhecer em todos os criminosos, ou seja o satanismo puro, 
a encarnao de to-do o mal. Nele existia tudo o que de pior e mais condenvel h e que muito dificilmente 
se permite  prpria imaginao, tornado realidade concreta e palpvel. No papel do mais odiado e do 
maior inimigo, do estado, que ele representava com orgulho, a sua morte  violentamente reclamada como 
expiao por   ele e por todos. Era uma expiao necessria para restabelecimento de um equilbrio.

As consideraes de carcter psicolgico tm de se limitar a hipteses. A interpreta@o natural reside no 
aparecimento de uma agressivida-de primitiva, arcaica e incontrolada que, na verdade, aliada a erotismo, 
mas sem mecanismos ocultos de inibico, pudesse continuar a finalidade impulsiva de destruio e 
ex'terminio. O regresso a uma fase de desenvolvimento infantil, em que os instintos de destruio 
encontram directa e imediata expresso, est de acordo com o diagnstico clnico que refere a grande 
serenidade e alvio com que o assassino relatou fielmente os seus crimes sem experimentar os mnimos 
remorsos ou sentimentos de culpa. Talvez seja por outro lado demasiado simples limitarmo-nos  
explicao da existncia de uma funo indubitvel de escape pela descarga e libertao de foras 
agressivas.  luz de uma anlise profunda, os crimes de Nash no so assim to explosivos e impulsivos, 
mas obedecem a um plano preciso, na verdade psictic.o, premeditado e calculado. No momento da 
execuo do acto foi dominado por uma excitao enorme que o arrastou ao sadismo e animalidade 
izualmente J includos no plano.

As funes do, ego e do superego no foram de forma alguma eliminadas, mas postas pelo contrrio ao 
servio do mal (o ego ao servio da regresso), pois se assim no fosse o assassino no podia ter 
permanecido tanto tempo sem ser descoberto. As suas vtimas no eram, na verdade, pessoas escolhidas de 
antemo; enContravam-se divididas em categorias. A maneira como os crimes foram praticados e o 
desaparecimento de vestgios indicam @L aietuao do ego, numa regio consciente e conhecedora da 
rea-

AGRESSIVIDADE                             53

lidade. A funo do superego esteve sempre presente nas fantasias pervertidas de expiao e execuo e 
nas tentativas nioralistas de justificao. O sentimento narcsico de excelncia no se expressa na fantasia 
de unia origem elevada, mas precisamente no plo contrrio. Ele sentia-se eleito de Sat e comportava-se 
analogamente a esta imagem; a sua loucura levava-o a identificar-se simultaneamente com a figura do 
Salvador.

A sociedade dota o criminoso de traos projectivos das suas prprias tendncias inconscientes e 
reprimidas,, para se livrar de sentimentos de culpa. Ao desempenhar este papel p-rojectivo de super e 
ultracriminoso, levado a extremo por presso consciente, ficou subjectivamente livre de todo o sentimento 
de culpabilidade por intermdio destes mesmos mecanismos projectivos.

MANSON: A famla de assassmos

O crime do sculo-foi assim que Hcllywood baptizou a srie de crimes instigados e encenados por Charles 
Manson. Foi um escolher perisado de superlativos para classificar uma unicidade sem precedentes. O certo 
 que no caso presente a costumada fbrica de sonhos no exagerou. O quadro real situado na zona de 
Hollywod colocava na sombra os os actos de violncia at a cometidos e as mais horrveis cenas que 
pudessem existir na imaginao de argumentistas e publicistas.

O massacre dos milionrios, ao que se diz na sua totalidade pervertidos sexuais, ajusta-se na perfeio ao 
falso clich de Hollywood segundo o qual os ricos e despreocupados, mas verdadeiramente incapazes de 
amar e sempre infelizes, acabam por ser castigados por esse mesmo destino que por outro lado os 
favoreceu.  a lei da compensao (co@mplexo de Polcrates).

A dona da casa, a bela actriz de cinema Sharon Tate, estava nessa altura em adiantado estado de gravidez. 
Polanski, o marido, e que ento se encontrava em Londres,  especialista em cenas profundamente 
semelhantes  cena representada pelas onze horrveis mortes verdadeiras, Encontrou-se num automvel 
,parado em frente da manso dos Polanski, situada em Beverly Hills, o cadver de um jovem atingido com 
trs tiros e no jardim os corpos de um homem e de uma mulher mutilados por mais de setenta facadas; no 
luxuoso living roam encon-

54                    AGRESSIVIDADE

trava-se o corpo sem vida de Sharon Tate e de um dos visitantes, igualmente mutilados por inmeras 
facadas na regio do peito, nas castas e do lado de fora das pernas. O pescoo de Sharon Tate e o do 
visitante estavam envolvidospor urna corda de ny1on, cuja extremidade fora presa a uma das vigas do 
tecto. Em cima do sof estava uma bandeira americana enrolada; traada com um trapo -embebido no 
sangue das vtimas via-se uma palavra na porta da frente da casa: Pig (porco). Tudo se assemelhava s 
cenas de terror, se bem que por enquanto ainda incompreensveis, do Grand Guigno-1 e do drama de 
horror; era a teatralidade de Hollywood na verdadeira Hollywood.

A morte do jovem do automvel, executada  maneira dos gaingsters, que constituiu, ao que parece, urna 
vitima acidental da carnificina, bem como o corte das lgaes telefnicas no exterior, demonstraram a -
existncia de um plano frio, e a mutilao das vtimas dunto, dos homens, para alm dos vestgios das 
facadas, havia os de tiros) mais do que a embriaguez do sangue. Depois do estudo feito a mais de 300 
fotografias tiradas pela polcia no local dos crimes conclu que os assassnios teriam sido planeados e 
cometidos por mais de duas pessoas, e portanto por um grupo ou bando. As circunstncias horrveis em 
que os crimes tinham sido praticados deixavam adivinhar que alguns dos implicados agiram num estado de 
loucura, provavelmente sob poder de drogas, mas no, todos, devido ao sangue-frio revelado pelos 
processos empregues. O Gabinete do Coroner (servios pblicos do exame de corpos e respectiva 
autpsia de todos os casos em que se suspeita de homicdio) tinha-me convidado a que fizesse uni 
psicograrna dos criminosos implicados; quer dizer, baseado na minha experincia psiquitrica eu devia 
indi-

car os possveis motivos e fazer de detective. As minhas hipteses transformaram-&e em certezas, 
principalmente a de que os criminosos se sentiam como vingadores e carrascos e pertenciani a urna seita 
mais ou menos restrita de convices pseudo-religiosas. No exclu, porm, a participao de raparigas em 
crimes de urna violncia to caracteristicamente masculina.

Na noite seguinte verificou-se um duplo assassnio de igual violncia e em circunstncias semelhantes em 
Los Feliz, um outro bairro de Los Angeles. As vtimas foram o casal La Bianca, donos de vrios 
supermercados. Tinham-lhes atado as mos com correias de couro e mutilado os corpos com sucessivas 
punhaladas. O corpo de Rosemary La Bianca apresentava mais de qua-

AGRESSIVIDADE                              55

renta punhaladas. No corpo do marido tinham gravado trs X e a palavra War. Do estmago saa-lhe 
uma faca de trinchar. Escrita a sangue nas paredes e no frigorfico viam-se as frases Death to,pigs, 
Rise e (Melter Skelter (o ttulo de um dos discos dos Beatles).

A semelhana das circunstncias em qi@e os crimes foram cometidos originou imediatamente a suposio 
de culpabilidade dos mesmos assassinos, mas a polcia ocultou propositadamente estas informaes. O 
receio da existncia de um bando de criminosos loucos e extremamente violentos, que prosseguiam os 
seus actos sangrentos em liberdade, podia ter transformado em pnico o medo sentido pelo pblico.

Explicou-se portanto imediatamente o segundo crime como uma cpia do caso de Sharon Tate. Os crimes 
particularmente violentose dramticos provocam quase sempre imitaes e algumas vezes ondas de crimes 
e epidemias de violncia. H que contar com a propagao do vrus da violncia.

Nas duas sries de assassnios faltaram os indcios de um motivo razovel e, portanto, foram chamados os 
psiquiatras na sua qualidade de peritos do absurdo. Apesar dos esforos despenddos a polcia no 
conseguiu descobrir a menor pista quanto  identidade dos criminosos. Toda a nao se precipitou 
febrlmente na emocionante operao da caa aos criminosos e procura de motivos. Foram postos a correr 
os rumores mais inconcebveis e arrepiantes, em que se misturavam a fantasia e o exagero. Os jornais e 
revistas noticiavam em letras gordas todos os horrveis pormenores e deturpavam-nos. Ainda hoie circulam 
e so acreditadas histrias incrveis de actos sexuais praticados nos cadveres mutilados, da violao das 
vtimas femininas e da mutilao da criana arrancada, a(> que se diz, do ventre da mulher grvida. A fora 
comprovatria das fotografias tiradas pela polcia e que me foram fornecidas no deixa lugar a dvidas: os 
cadveres das vtimas foram, na verdade, apunhala-dos repetida mente e atingidos por tiros; verificou-se 
porm que as zonas genitais e abdominais de Sharon Tate no tinham sido tocadas. Toda a cena, a que no 
faltavam bizarros pormenores, no deixava antever a existncia de perverses sexuais. A investigao 
que posteriormente s.e efectuou demonstrou, alis, que os criminosos eram na verdade feixes de impulsos 
desenfreados e assassinos desumanos levados por uma infinidade dos Piores motivos, mas queno eram 
criminosos sexuais. Torna-se imperiosa a pergunta

56

AGRESSIVIDADE

de qual a fantasia mrbida que dotou os crimes de macabras variantes de perverso sexual.

O comeo esclarecedor dos casos aconteceu quatro meses mais tarde e foi devido a surpreendente traio. 
Susan Atkins (Sadie Glutz), que se encontrava detida na priso de mulherios de Los Angeles por suspeita 
de delitos de pouca importncia, fez s companheiras de priso um relato pormenorizado de como se 
tinham dado os crimes, que ela dizia cometidos por dois componentes do grupo a que ela prpria 
pertencia. Sentindo-se importante por terparticipado activamente num acto de violncia conhecido em todo 
o mundo, no podia suportar por mais tempo o -encerramento numa cela, mantendo-se annima e 
desconhecida por todos e misturada com delinquentes vulgares. Repetiu as suas afirmaes, sem indcio de 
remorsos, ante o procurador da Repblica e o Supremo Tribunal. No se considerava culpada, uma vez 
que cgmetera os crimes obedecendo a ordens e sob influncia opressiva de Charles Manson, o chefe do 
grupo. Depois da enumicra o de todos os pormenores terminou a confisso com o cmico pedido de um 
gelado de banana.

O seu relato sensacional foi imediatamente viendido e tornado pblico. A Procuradoria da Repblica 
assegurara a iseno de pena a Sadie pelas suas declaraes. (Pela lei anglo-saxnica pode ser legalmente 
concedida  testemunha Kla Coroa e nos E. U. A. pela Procuradoria da Repblica a reduo de pena ou a 
imu-nidade, como compensao pela confisso, ainda que tenha havido participao pessoal no crime.) 
Susan Atkins desmentiu, no entanto, a sua confisso sob presso de Mans-on, a quem, algumas semanas 
mais tarde, permitiram que visitasse as suas cmplices como advogado do seu caso. Mas, uma vez que as 
testemunhas de acusao podem ser substitudas, mudou-se simplesmente o. seu papel de testemunha 
principal.  agora uma outra participante importante no assassnio, Linda Kasabian, que Canta e 
descreve pormenores do crime  Procuradoria da Repblica. Foi, alis, de entre os acusados a nica 
tratada como pessoa pelos delegados da Procuradoria da Repblica, aio passo que Susan Atkins desceu 
novamente  qualidade de fera disfarada de pessoa. Com o @

roduto da venda das suas memrias Linda quer recolher ao eserto e dedicar-se  contemplao e procura 
do seu prprio eu.

Pela sua integrao na famlia Manson entregara como dote a Manson cinco mil dlares pertencentes a um 
amigo do marido. Quando o ainigo, depois de descobrir o roubo, se apresentou nos

AGRESSIVIDADE                             57

alojamentos da comunidade para pedir explicaes a Linda, encontrou-se frente a frente com Manson, que 
estava -rodeado por meia dzia dos do seu bando. Durante o dilogo que se seguiu Manson manteve uma 
atitude filosfica em moldes amigv.eis. Emprimeiro lugar informou o jovem de que ele, Manson, no 
acreditava na existncia do roubo; como  que algum podia roubar, uma vez que tudo pertencia a todos? 
Em seguida pronunciou algo mais significativo: Se fosse da vontade de Deus que tivesses o teu dinheiro, 
a rapariga no teria sabido onde ele se encontrava! Exps em seguida uma das suas teorias filosficas 
favoritas, segundo a qual no podia haver uma morte individual, uma vez que cada ser -existente ao cinio 
da Terra estava contido em cada um dos seus semelhantes e o seu conjunto fazia parte de um ser 
misterioso que os englobava. No havia, portanto, mortes, mas apenas uma mutao permanente. Ele estava 
disposto a demonstrar-lhe a verdade do que dizia naquele mesmo momento. Afirmou Manson, ao mesmo 
tempo que desembainhava a sua enorme faca de mato: Toma; pega nessa faca e mata-me! Como o outro, 
atnito, no respondesse ao desafio, Manson continuou no -mesmo tom: Bom. E que tal, se eu agora te 
matasse para provar que a morte no existe? E com estas palavras terminou a entrevista. O amigo de 
Kasabian, tomado de um medo de morte, afastou-se sem tomar qualquer atitude e o dinheiro ficou na posse 
de Manson.

Esta forma de impressionar sem violncia no s serviu para a obteno imediata do fim pretendido como 
igualmente aumentou o prestgio do Mestre e com ele a submisso dos seus discpul,os. Pode-se fazer 
uma ideia do efeito conseguido em Linda Kasabian ao ouvi-Ia falar da forma elegante e convincente como 
o seu chefe aniquilara as consequncias de um roubo de cinco mil dlares, o que se assemelhava a torn,lo 
legtiino. E tudo sem utilizar a foral

Manson no tinha muito a perder. O facto de sobre ele pesar a ameaa de morte no o assusta. (M muito 
que estou morto!, afirmou ante o tribunal, mas -nunca por!@ diante do jri. Durante o tempo em que 
permaneceu na priso, onde alis passou a maior parte da sua vida, nunca se considerou mais do que um 
cadver em p. Tambm no tinha a certeza se no seria realmente Jesus Cristo. Ainda no decidira o que 
ou quem era na realidade, mas sabia o que os outros viam nele: na verdade um monstro sdico. Querem 
ver em mim o que na verdade

58                    AGRESSIVIDADE

existe em vs. Porque todos me so, completamente indiferentes, se pudesse arrancaria -este microfone e 
partiria com ele os vossos crnios. Merec-lo-iam bem ...  Discursou depois da forma que -lhe era 
peculiar, utilizando uma mistura de padres existencialistas com uma presuno esotrica e -um toque de 
misticismo. Referiu-se aos anjos do abismo, aos reis da vida eterna e  verdade que apenas ele e os da sua 
famlia conheciam.

Mainson, filho de uma prostituta dada ao vcio da bebida e cedo incurvel, era um homenzinho pequeno 
de quem ningum falava e em quem ningum reparava antes de o horrvel crime cometido ter feito com que a 
sociedade lhe atribusse poderes hipnticos irresistveis e o visse como Rasputine ou com a atraco de uni 
Che Guevara de Hollywood. Manson no  um hippy nem um revolucionrio, mas um simples criminoso 
medocre no s em essncia,mas tambm no corpo, inculto, se bem que versado e cheio de todas as 
imagens fantasistas da astrologia e de um fascismo elementar e primitivo. O que para os outros corresponde 
 noo de heri no passava para ele de palavreado pseudocientfico de Hubbard e do mundo fantstico 
de Robert Heinlein (Um Homem Num Mundo Estranho).

Preguioso e fanfarro, Manson sentia-se um artista s porque sabia tocar um pouco de guitarra e cantar. O 
seu talento  pouco, mas convence no entanto facilmente os do seu bando de que  um gnio 
incompreendido e que so apenas a corrupo e a maldade do mundo que o impedem de conquistar o 
reconhecimento que lhe  devido. Nos seus pensamentos infantis misturam-se o sonho e a realidade; a 
fora do seu dio indmito e pleno de ressentimento iguala-se  dos loquazes discursos sobre a redeno 
do mundo. A mistura do desespero de quem nada mais tem a perder, aliada  clera da autocompaixo, 
provocam -lhe uma maneira de olhar a que os do seu bando atribuem um carcter sobrenatural.

Na penitenciria, adquiriu a fria insolncia pragmtica dos presos experimentados. Conseguia um efeito 
magntico sobre os jovens sentimentais e indolentes q@i@ procurou na colnia Haight-Ashbury de So 
Francisco e vivia  custa deles. Servindo-se de um autocarro d.e escola que trocara por um velho piano 
roubado e que as raparigas, obedecendo s suas ordens, haviam pintado de cores psicadlicas, atravessou 
a Califrnia, cantando o amor, falando de amor e fazendo amor.

As mulheres e raparigas da sua famlia tinham-se separado

AGRESSIVIDADE                             59

voluntariamente das suas famlias e da sociedade de consumo para seguir Manson, que lhes falava 
confusamente de gr@ndes acontecimentos iminentes. Manson ensinou-as a pedir, a introduzir-se -
furtivamente em casas desconhecidas e industriou-as igualmente na utilizao de facas. Dessa tctica 
nasceu um ritual de hbitos e uma espcie de religio que se compunham de aforismos pouco 
amadurecidos, filosofias orientais, frmulas mgicas de alquimia, culto infantil de Sat e fantasias msticas 
sexuais. Todos faziam amor uns com os outros e de preferncia com os candidatos  integrao no grupo.

O fundador, chefe e guru, o pax e patro da famlia, induzia as suas filhas, como ele lhes chamava,  
prostituio. Manson empregava mtodos inteiramente pacficos; no dominava o seu grupo pela presso e 
pela violncia, mas pela ddiva de um elevado objectivo de vida que inclua a preparao incondicional 
para matar e ser morto. Discursava sobre o fim do mundo e anunciava a forma de o evitar proclamando uma 
verdade que s o seu grupo possua.

O seu tema favorito era o levantamento de todas as raas, o que na sua opinio estava iminente. Os negros 
assassinariam os brancos at ao ltimo. S -ele, Manson, e o seu squito estavam destinados a sobreviver 
p.oMue, a devido tempo, se recolheriam no deserto. Da, seguiriam o aniquilamento. Quando tudo 
terminasse, os negros pediriam ajuda a Manslon e torn-lo~iam seu chefe, porque -e aqui terminava a 
filosofia de Mansonno s o establishment, como a polcia, a sociedade de consumo dos brancos (e afinal -
os negros), e portanto todos os homens que no pertencessem  sua famlia, que no reconhecessem a 
sua autoridade e no usassem a cruz gravada na testa como smbolo de amor e de sofrimento inocente eram 
pigs e caminhavam para um certo e merecido naufrgio.

Apesar dos preparativos para o iminentee apocalptico levantamento das raas, Manson entrou em contacto 
com Terry Melcher, o filho da clebre actriz Doris Day, com vista a efectuar um contrato para gravao de 
um disco com as suas canes. Uma vez que asnegociaes ficaram sem efeito, Manson sentiu-se 
enganado e repelido por um representante famoso do establishment: pertencia-lhe o sabor da vingana. O 
melindre sentido pelo apstolo da paz levou-o a ordenar que se estabelecesse um exemplo sem sequer 
conhecer as vtimas ou as querer conhecer. Terry Melcher habitara outrora na casa que Polanski e 
Sharon.

60                   AGRESSIVIDADE

Tate tinham alugado. Esta casa tornou-se o objectivo legtimo do castigo que Manson queria aplicar. 
Tudo o que fosse dotado de vida e movimento na casa devia ser eliminado. Os rgos executivos 
concordaram sem hesitaes; Manson descreveu-lhes as futuras vtimas de assassnio como pigs, sub-
homens e objectos legtimos de agresso. A forma como os apelidou surtiu o efeito pretendido. Os soldados 
da morte no tinham que examinar as inspiraes legtimas -mas apenas que as executar. Manson, no papel 
de representante, porta-voz e general de causa elevada, ditou as suas ordens do aquartelamento geral. O 
seu bando, dirigido  distncia, desempenhou-se da sua misso. Apenas Charles Watson, que por distrbio 
mental no pde at agora ser chamado a depor em tribunal, j tinha experincia no desempenho de actos 
de violncia; as mulheres, que nunca tinham cometido assassnios, estavam um tanto inibidas e precisamente 
por isso, levadas a um estado de pronunciada histeria por meio de drogas, mostraram-se particularmente 
selvagens e de uma violncia grotesca. Depois de ter recebido a notcia da carnificina de Sharon Tate e 
dos seus convidados, Manson, para quem a matana fora mal executada, decidiu imediatamente preparar 
uma segunda, desta vez exemplar...

O perito em assassnios e que, no entanto, nunca matara pelo prprio punho, queria que fosse executado 
melhor trabalho,.que se matasse mais fria e profissionalmente. Primeiro, introduziu-se sozinho na casa das 
vtimas, escolhidas inteiramente ao acaso, e ao fechar o casal La Bianca em quartos separados utilizou o 
truque de lhes falar calmamente para evitar a possibilidade de pnico e de histeria. Assegurou-lhes em tom 
convicto que na-da de grave lhes sucederia e depois mandou entrar Watson e mais duas raparigas, que 
desta vez tinham de efectuar a carnificina de uma forma mais (diropa. Com o ritual dos assassnios, Manson 
pretendia demonstrar toda a sua dureza, frieza e impassibilidade e -Com o sangue derramado pelas vtimas 
a alian a indestrutvel da famlia.

O pro @esso contra Mansone as cmplices foi quase to bizarro e inverosimil como os actos com que s.e 
relacionava. Manson nunca foi submetido a um exame psiquitrico. A princpio pde desempenhar o seu 
papel de advogado de defesa e levar Susan Atkins a renegar a confisso feita. Em seguida so-lhe negadas 
capacidades intelectuais de autodefesa. Ele renuncia a usar da Palavra no debate em sua defesa; f-lo 
depois, no entanto, mas

AGRESSIVIDADE                               61

no na presena do jri que tem de pronunciar a sentena. S numa coisa  que 1\/Ian&Gn est 
inteiramente de acordo com o pblico,que, com ou sem provas, com ou sem culpabilidade PTOvada, o quer 
saber neutralizado: o processo  tambm para ele uma farsa morosa e suprflua.  preciso levar Manson a 
participar. Os advogados de defesa -discutem entre si e impedem as suas clientes de depor, porque tm 
medo -de que elas se culpem para ilibar Manson. Um dos advogados, que contava trinta e cinco anos e se 
chamava Ronald Hughes (reprovou trs vezes no exame final de advocacia e no tinha a mnima 
experincia de processos), foi pacientemente aguentado por Manson como advogado de defesa de uma 
das trs raparigas, sob condio de deixar crescer a barba; Hughes deixou crescer a barba. Passado 
pouco tempo    orm, no regressou de um passeio de fim-de-semana; a

Pri@Cp

pio pensou--se que ele apenas pretende retardar o processo, que j dura h seis meses, mas ele 
desaparece para sempre. Suspeita-se da sua morte; talvez tivesse sido morto. p@or.um dos membros da 
famlia Manson ou um dos seus inimigos. Os jurados e substitutos passaram todo o tempo que durou o 
processo sob vigil ncia -no Hotel Embaixador (c, mesmo em que Robert Kermedy foi morto) e eram 
levados para o tribunal em autocarros blindados. O compreensvel desejo dos jurados de poderem retomar 
a sua vida familiar, desorganizada por um to prolongado perodo de ausncia, foi-como garantia de uma 
completa objectividade -recusado a princpio pelo juiz e.finalmente concedido. Ante a impacincia dos 
jurados, que insistiam pelo fim do processo fosse por que preo fosse, tornava-se um perigo atender a 
objectividades. Deipois de te-rem ficado detidos durante sete meses e meio num hotel, os jurados recebem 
subitamente permisso para regressar a suas casas. O processo continua.

Na Califrnia,  sentena de homicdio Premeditado, segue-se um processo quase to demorado como ela, 
para deciso da extenso -do castigo a aplicar pelo jri. Manson est em risco de priso perptua ou de 
condenao  morte. A sentena de culpabilidade era para toda a gente-e tambm para Manson-um facto j 
assente antes do incio do processo. Nixon no tinha qualquer necessidade de intervir para influenciar a 
deciso. O presidente americano, advogado de profisso, sabia no entanto o que fazia quando interveio na 
sua qualidade de presidente e acima de tudo como zelador da paz e da ordem. O veredicto de Nixon,

62                    AGRESSIVIDADE

Manson  culpado, era a voz do povo. O resultado do erro in,volUTitrio que mais tarde se desculpou 
no poderia ter tidoo niaior popularidade do que se tivesse sido calculado.

Nixon fez essa declarao durante um comentrio filmado, ern que -expressou um contentamento de 
ordem esttica em relao a um papel desempenhado por John Wayne como xerife, um xerife 
extremamente violento, mas justapondo sempre a justia a essa violncia. Fez seguidamente observaes 
relativas ao agradvel gnero de westerns em que se adivinha a diferena moral entre o mal e o bem, 
sendo j ilustrada na televiso colorida: cavalos brancos para os bons e negros para os maus. A cadeia de 
associao  bem clara: os xerifes so bons= inocentes =justos; os criminosos sao maus =culpados.  justa a 
violncia contra eles. Manson  mau; Manson  culipado.

Os jurados no tinham, ao que se diz, assistido a esta reportagem de, faux pas de Nixon. Manson no 
deixou,,porm, escapar a oportunidade de triunfo que assim se proporcionava s suas ideias megalmanas 
mediante a dorava-nte histrica ligao do nome do presidente americano ao seu: mostrava orgulhoso aos 
jurados o jornal obtido clandestinamente e que o considerava culpado. Tudo se passou como num filme:  
o triunfo de HollywGod sobre si mesma. O esquema torna-se um facto; o chamado clich de Hollywood na 
sua polarizao simplificada torna-se urna realidade horrvel, brutal, inverosmil, a nica verdade existente.

Neste fundo cinematogrfico, Charles Manson, apesar de ou precisamente devi-do  crueldade irracional 
que se associa ao seu nome,  para a sua famlia a viso cada vez mais perfeita de pai, heri e mrtir. As 
raparigas e rapazes, assassinos sem conscincia nem restries, so o iproduto de um mundo que pretende 
a salvao e que pela runa da sua vida familiar e concepes erradas de valores ainda sente a pardia 
familiar do cl Manson com compaixo e as suas maquinaes como legtimas. At mesmo um indivduo to 
mau e sem interesse como Charles Man&Qn consegue levar as conscincias boas a praticar actos de uma 
violncia inacreditvel, arrastando tanto honiens corno mulheres.

Na caricatura do excepcional acentuam-se exageradamente as caractersticas do habitual. Apesar de todos 
os esforos para no se ver nem pensar, dificilmente sepodem ignorar as muitas anlogras com o comando 
 distncia e uma brutalidade permitida e

AGRESSIVIDADE                            63

indiscriminada em nome de um objectivo encontrado ou a encontrar. Tambm so portanto de julgar os 
que julgam. Enquanto no vivermos de facto -num mundo em que os Mansons no possam ser tomados 
como heris ou mrtires por ningum por um momento que seja, eles devem ser -estigmatizados como 
sats, como perigosos, prfidos e detestveis diabos, mas, por amor de Deus, nunca como pobres diabos!

DUNCAN: Uma assassina da sociedade

Urn s voto no tem qualquer influncia nas eleies nacionais. Se, de facto, a maior parte de todos os 
cidad os, com base nesta teoria egosta e racional, fossem passear em vez de votar, o acontecimento 
eleitoral e o prprio processo democrtico tornar-se-iam essencialmente falsos, sem valor e irracionais.

Quando a polcia detmclois cmplices implicados num crime, mantm-nos sob priso e interroga-os em 
separado. No caso de confessarem os dois, podem contar com uma pena moderada; se forem ambos a 
negar, escapam com uma pena leve, rnas se  apenas um que confessa  posto em liberdade (pela lei 
anglo-saxni-ca) como testemunha de acusao. O outro, obstinado em no confessar, recebe apena 
mxima. Com base no clculo matemtico das probabilidades, pode-se comprovar que os cmplices se saem 
melhor quando confiam um no outro, ainda que sem acordo expresso e quando um deles no tenta 
conseguir o maior nmero de vantagens a seu favor sem considerao pelo outro. Neste caso a 
racionalidade  evidentemente amoral se apenas a definirmos no pia-no de vantagem para o criminoso. Na 
vida real a irracionalidade do autor do delito  muitas vezes a melhor ajuda para descoberta de crimes que, 
caso contrrio, mediante utilizao de uma imoralidade racional, ficariam ocultos.

No caso do estranho assassnio de Santa Barbara, o criminoso cadastrado Gus Baldonado, de 26 anos, ficou 
to irritado com a injusta acusao de extorso feita contra ele pela Sr.@ Elizabeth Dancan que tudo se lhe 
tornou indiferente, at mesmo o prprio destino. Metido na priso por tentativa de extorso, contou urna 
histria fantstica s autoridades. Afirmou que, juntamente com o seu cmplice, Lus Moja, um jovem de 21 
anos, ladro e escroque igualmente com longo cadastro e tambm de origem mexicana, tinha morto e 
enterrado imediatamente, em 17 de

64                   AGRESSIVIDADE

Novembro de 1958,     a nora da Sr.@ Duncan, em obedincia a ordens desta ltima.  A me Duncan-em 
parte com conheciniento de testemunhas -contratara os dois rapazes mexicanos para, mediante pagamento 
de 6000 dlares, a livrarem da nora, a quem odiava e Ve estava grvida de sete meses do seu filho, um 
advogado. Limitara-se porm a pagar 175 dlares da quantia combinada e estava a tentar desembaraar-se 
dos dois insistentes credores median.te uma queixa de extorso, o que fizera com que os dois mexicanos 
fossem presos.

A bonita esposa do advogado, que contava trinta anos e era uma estiniada e hbil enfermeira de Vancver 
(Canad), desaparecera -h semanas sem deixar rasto. Duas das suas amigas, enfermeiras tambm, ainda a 
tinham visitado na noite de 17 de Novembro de 1958 e comunicado o desaparecimento, dado que no dia 
seguinte Olga Duncan, sempre extraordinariamente pontual, no comparecera no trabalho nem atendera o 
telefone. A princpio ps-se a hiptese do suicdio. Devido s suas difceis relaes com a sogra, a jovem, 
nos ltimos tempos, parecia bastantedeprimda. O marido, a quem imediatamente informaram do que se 
passava, confirmou conflitos conjugais ocasiona-dos por discusses contnuas -entre a -mulher e a me; 
dizia ter sempre tomado, o partido da mulher, mas no mostrara energia suficiente ante a me, de quem 
tambm gostava e por razes de ordem pro,@issional que o detinham em Los Angeles tinha de deixar 
muitas vezes a mulher sozinha na sua casa comum em Santa Barbara.

Passara um ms desde o misterioso desaparecimento da jovem e as autoridades no tinham ainda 
conseguido descobrir qualquer pista de interesse. Fosse como fosse nem sombra de suspeita pairava sobre 
a me Duncan, cujo papel s mais tarde se analisou pormenorizadamente quando as declaraes de 
BaldonadG, a princpio postas em dvida, foram confirmadas pela descoberta no local indicado do cadver 
de Olga Duncan, j em decomposio. S -nessa altura se descobriram na verdade factos surpreendentes 
em relao  me Duncan, que ocupava uma posio conceituada na vida social das elegantes termas de 
Santa Barbara! H dezenas -de anos que Elizabeth Duncan vivia em Santa Barbara, onde em 7 de 
Novembro de 1928 dera  luz o seu filho Frank, que amava acima de tudo e que mais tarde se viria a tor-

nar um advogado famoso que fizera carreira rapidamente. Nunca se pde apurar a data de nascimento da 
me. As suas prprias

AGRESSIVIDADE                              65

informaes oscilavam entre os anos 1900 e 1913. Elizabeth Duncan, que foi considerada pelos psiquiatras 
do tribunal corno mentirosa patolgica, dizia ter-se casado antes de vir para Santa Barbara de 11 a 20 vezes 
(algumas delas com vrias pessoas ao mesmo tempo). Contradizia-se com frequncia e j no se recordava 
dos factos com preciso. Esta respeitvel senhora recebia os seus re-ndimentos como interveniente em 
negcios de prdios. Desde que vivia em Santa Barbara -estivera sempre sozinha. Sem quaisquer outros 
recursos alm dos que granjeava com o seu prprio esforo, proporcionara a melhor -e mais dispendiosa 
educao ao filho ama-do; tinha por ele um orgulho superior a tudo, desejava mas no podia afastar-se 
dele, admirava a sua forma de conduzir os processos no tribunal e durante muito tempo soube impedir que 
ele tivesse relaes ntimas com mulheres. Um ano e meio antes do assassnio surgira uma grave discusso 
entre me e filho por causa de uma transaco comercial. A me sentiu-se to ofendida que castigou o seu 
filho Frankie (que ao que se diz partilhou a mesma cama com ela) tentando suicidar-se com narcticos. 
No hospital foi tratada pela enfermeira Olga Kupczky, que teve assim oportunidade de travar 
conhecimento com Frank. Casaram pouco tempo depois, apesar dos protestos violentos da convalescente 
Elizabeth Duncan. Levada pela idolatria que nutria pelofilho, no conhecia o significado da palavra 
barreira quando se tratava de tudo o que com ele se relacionasse. A princPio tentou evitar o casamento 
por todos os meios; ameaou Olga pessoalmente e pelo telefo-ne, insultou-a e tornou-se sua inimiga 
declarada. Frank casara com Olga secretamente, mas no ousava confess-lo  me, a cuja casa regressava 
obedientemente todas as noites. Em breve, porm, a astuta e enrgica me se encontrava na posse do 
segredo. A sogra reforou a sua campanha de ameaas mediante inmeros telefonemas e visitas  nora, 
sem que o filho a conseguisse impedir. Olga fugiu; num perodo de poucas semanas mudou de casa quatro 
vezes, manteve secreto o nmero do telefone, mas acabava sempre por ser descoberta pela sogra. O 
advogado, usualmente to hbil e enrgico, oscilava desamparadamente entre as duas mulheres. Tentou 
concili-las, pediu-lhes calma, zangou-se e discutiu com a me, mas, no entanto, apesar de todo o amor que 
dizia ter pela mulher, que entretanto ficara grvida, abandonou-a ao seu destino.

A me Duncan espalhara o boato de que Olga no era casada com o filho e esperava uma criana de outro 
homem. Foi mesmo

66                    AGRESSIVIDADE

mais alm na sua farsa e @hegou ao ponto de conseguir que Ralph Winterstein-um criminoso defendido 
em tempos pelo filho -se fizesse passar por Frank Duncan no tribunal e a sua melhor amiga, a Sr.@ Short, 
por tia de Olga. Com base em falsas declaraes de testemunhas e identidades forjadas, a me Duncan 
conseguiu de facto a anulao do casamento do filho. S alguns meses mais tarde  que Frank descobriu 
que algum requerera em seu nome a anulao do casamento no tribunal. Quando quis esclarecer o 
assunto com a m e, esta afirmou-lhe ter agido apenas no interesse dele, uma vez que Olga no o merecia e 
a devia deixar. Frank recusou indignado separar-se, dada a gravidez da mulher, -mas no foi porm capaz 
de cortar relaes por completo com a me. Continuou a no a tomar totalmente a srio, via as razes da 
sua atitude  luz de um excessivo amor maternal e esperou confiadamente que mais tarde ou mais cedo ela 
viria a reconciliar-se com a nora que detestava.

Enquanto isso, porm, a me Duncan no ficara inactiva e tentou todos os meios para contratar assassinos 
pagos que matassem a nora. Com a ajuda da sua amiga, a Sna Short, que era conceituada dona de uma 
penso e j desempenhara com xito no tribunal o papel de falsa tia para a anulao do casamento, a Sr.a 
Duncan entrou primeiramente em contacto com uma criada de nome Barbara Reed. A Sr     a Duncan 
contou-lhe que Olga a ameaava continuamente e fazia chantagem com ela, que era uma mulher indigna do 
filho e a quem, portanto, convinha a todo o custo eliminar. De acordo com um plano estudado em todos os 
pormenores, a Sr.a Reed deveria atingir Olga com cido, depois do que a me Duncan a anestesiaria com 
clorofrmio.
O plano prosseguia com um passeio de automvel que terminava numa queda para o mar do alto duma 
falsia. Prometeu 500 dlares  Sr.a Reed pela sua ajuda. Esta pediu-lhe um prazo para pensar; ainda nesse 
mesmo dia os escrpulos sentidos levaram-na a entrar em contacto com Frank Duncan. Contou-lhe a oferta 
que a me lhe fizera. Mais uma vez o advogado foi falar indignado com a me, mas deixou-se convencer 
facilmente por ela de que a Sr. Reed inventara toda a histria.

Mediante interveno da sua amiga dona da penso, a Sr. Dun.can fez uma proposta idntica a um dos 
marinheiros, que a primeira conhecia de passagem, mas ele no pareceu tom-Ia muito a srio. Recorreu 
em seguida a Ralph Winterstein, o antigo cliente do filho, que se fizera passar pelo advogado Dun-

AGRESSIVIDADE                                 67

can quando do processo da anulao, Winterstein no quis de de modo algum aceitai@ as propostas da 
me Duncan, mas tambm no a quis denunciar, pois receava meter-se em dificuldades. A Sr.a Duncan 
recorreu seguidamente  Sna Diana Romero, esposa de um cliente do filho. A princpio a Sr.a Romero 
mostrou-se inclinada a aceitar oplano Duncan; comprou luvas bra-ncas para no deixar impresses digitais 
e dois pacotes de cido, mas no ltimo momento desistiu porque se recordou de que Olga a tratara h 
alguns anos atrs. A Sr.a Duncan tentou ento tu.do para convencer o -marido da Sr.a Romero a entrar no 
plano. Este, porm, n o se mostrou particularmente interessado apesar da elevada recompensa. Ento a 
incansvel Sr.a ShoTt PrOPOTCiOnGu-lhe o conhecimento com a Sr.a Diaz, a dona da casa dos Romero, que se 
mostrou inteiramente de acordo com o plano do assassnio, mas que pediu algum tempopara procurar entre 
os seus conhecimentos algum que estivesse disposto a executar o crime.

J nada menos do que oito pessoas estranhas conheciam nessa altura os pormenores dos intentos 
assassinos da Sr.a Duncan, entre outras a Sr-a Franklin e evidentemente a irrepreensvel Sr.a Short, que 
devotamente se dedicara a procurar um assassino e presenciara inmeras negociaes.

Quando da posterior inve@tigao do crime foi assegura-da uma total iseno de pena  Sr.a Short, como 
compensao pela sua completa franqueza. Declarou ter agi-do sob completo domnio da Sr. Duncan, que 
ali s nunca a tinha ameaado ou obrigado p@Ia fora a fazer fosse o que fosse. A     Sr.a Short dissera-se 
impressionada ante o amor que a Sr.8 Duncan votava ao filho e convencera-se de que a morte da nora 
redundaria no interesse de todos. Por outro lado, o plano da Sr. Duncan sempre lhe parecera destinado a 
ficar apenas em imaginao. No banco das tes-

a temu.nhas a Sr. Short vangloriou~se de sempre se ter recusado a tomar parte activa no assassnio da nora 
da Sr.a Duncan. Esta ltima sugeria-lhe convi-dar Olga para ir a sua casa e estrangu-l-Ia na altura do ch 
com uma corda preparada para o efeito.
O cadver deveria ser metido seguidamente, com a ajuda da Sr.& Duncan, no espaoso guardafato, onde 
ficaria at ser noite. Mais tarde seria lanado ao oceano com uma pedra atada. A Sr.a Short recusara 
indignada; era-lhe insuportvel a ideia de esconder um cadver no seu guarda-fato, sempre to arrumado.

Apesar de tudo isto auxiliaria a Sna Duncan a procurar um

68                    AGRESSIVIDADE

a~i-no e acabou finalmente por encontrar uni contacto apropriado na pessoa da Sna Esperanza Esquivel, 
uma mexicana em adiantado estado de tuberculose, dona de uma taberna miservel e que emigrara 
ilegalmente, o que a fazia viver num terror permanente de deportao. A Sr. Duncan e o seu grupo de 
damas da alta burguesia sabiam precisamente qual o grupo a contactar na procura de assassinos dispostos a 
executar o seu plano. Nada pergunt@rani  toa, mas apenas dedicaram ateno aos indivduos cuja vida 
sabiam ser pouco limpa ou encontrarem-se numa situao de degendncia em relao ao advogado 
Duncan; tratava-se essencialmente de chefes de pequenos grupos. (Santa Barbara no  unicamente uma 
estncia termal para milionrios e artistas junto do oceano Pacfico, dotada de bosques magnficos, relvados 
cercados de palmeiras, museus, o imponente edifcio em que se criou o Centro Hutchins for the study of 
democratic institutions;  tambm habitada nalguns dos seus bairros por inmeros mexicanos pobres e 
outros agrupamentos miserveis.) A Sr.a Esquivel era realmente a pessoa desejada. Conhecia dois rapazes 
frequentadores da sua taberna e que no tinham trabalho. Charnavam-se eles Baldonado e Moja. 
Proporcionou pois um encontro entre os dois mexicanos, a Sr. Duncan e a Sr.a Short. Os -dois mexicanos, 
que tinham recebido um pequeno adiantamento, arranjaram um automvel de um amigo e uma pistola. 
Esperaram em frente da casa da nora da Sr. Duncan at as duas enfermeiras amigas sarem, pouco antes 
da meia-noite; com o pretexto de lhe vireni trazer uni recado do marido conseguiram que Olga lhes abrisse 
a porta, atordoaram-na com repetidas pancadas na cabea, aplicadas com a coronha da pistola, meteram-na 
no carro e dirigiram-se para as montanhas. Olga, que nessa altura j recobrara os sentidos, lutava com todas 
as foras para se defender. Os dois rapazes, que ao aplicarem as fortespancadas tinham inutilizado a 
pistola, estrangularam a vtima, que continuava a defender-se. Acabaram por enterrar Olga Duncan num 
stio escondido sem terem a certeza de ela estar realmente morta j nessa altura. Depois de executarem o 
crime regressaram de manh cedo cobertos de sangue, trabalharam ainda durante todo esse dia para 
limparem as manchas de sangue do automvel, comunicaram  Sna Duncan o bom termo da sua misso e 
esperaram pacientemente durante alguns dias pelo pagamento da ;soma estipulada. S quando a cobrana 
no correu como foi estabelecido e a Sr.a Duncan ainda acusou de extorso os executores

AGRESSIVIDADE                               69

das suas ordens  que Baldonado, furioso com a sua atitude, confessou.

Elizabeth Duncan nunca confessou; no manifestou quaisquer remorsos ou pena. Afinal tudo o que fizera 
tinha sido por amor do filho. As suas ltimas palavras foram para o filho, que debalde se esforou para 
conseguir que o governador prorrogasse a execuo. A inevitvel sentena de morte pareceu no afectar 
grandemente os dois jovens: a seus olhos fizera-se justia, uma vez que a sua hipcrita e impostora cliente 
morria com eles. A Sr.a Duncan recusou qualquer interveno psiquitrica; o seu comportamento, 
explicava-se pelo amor de mee, portanto, ponto final! (O.advogado de defesa em vo a tentou submeter a 
tratamento psiquitrico por membros da nossa clnica.) Os dois mexicanos no tinham justificao para os 
seus actos. O padre Byron Eslielman, que exercia a sua profisso h mais de uma dezena de anos nas celas 
de morte de San Quentin, conseguiu finalmente conquistar-lhes a confiana. Na sua opinio os dois 
rapazes no eram piores do @que um sem-nmero de outros jovens depravados entregues a si mesmos e 
pertencendo a uma maioria desprezada pela sociedade. No se tinham conseguido furtar s ordens 
enrgicas de uma senhora distinta e nobre. Apenas se tinham tornado dois bodes expiatrios, arrastando 
o peso da culpabilidade de toda uma sociedade. Foram estas as palavras do padre da priso, pronunciadas 
na luxuosa, alegre e pacfica Santa Barbara, nove anos antes da sentena Calley.

Em 8 de Agosto de 1962 o trio foi executado na cmara de gs de San Quentin. O caso recebeu assim ponto 
final; os juzes, procuradores da Repblica, advogados de defesa e carrascos tinham cumprido o seu 
dever. O destino dos dois      pT@o@uto5 tpicos da subcultura do gueto e da priso pouca compaixo 
despertou. A Sr.a Duncan levara to longe os seus cuidados de me que foi descrita como um caso 
estranho e patolgico e portanto facilmente esqueci-da. No fora o desespero do executor do crime, que 
desprezou o prprio instinto de conservao, e a assas sina, frequentadora habitual das -mesas de brdege, 
nunca teria sido chamada  responsabilidade. A confisso do miservel mexicano fora intil: nuncalhe 
tinham prometido isen o de pena ou a sua reduo. O que perdeu os culpados nada teve a ver com 
dvidas ou escrpulos morais dos implicados no caso e que por preo algum desejariam ver-se metidos em 
complicaes. Nem sequer foram sentimentos de culpabilidade pelo assassnio come-

70                   AGRESSIVIDADE

tido, mas a raiva o que provocou a reaco impulsiva da confisso imprudente e movimentou as mquinas 
da justia, que, logo ap@s @ sentena ser pronunciada, voltarani.a parar. Quando os principas culpados 
foram eliminados, os muitos cmplices -ver gonhosamente muitos-fizeram o possvel para que o 
acontecimento fosse rapidamente esquecido.  vedada qualquer interveno -em assuntos alheios; no 
ver, no ouvir, no pensar e no sentir determinam, cada vez mais, a tctica limitada de uma autoproteco 
egosta que cr ter o direito de se permitir descurar a estratgia da moral, da razo e da solidariedade 
humana.

Muitos lamentaram o advogado Frank Duncan, que continua a exercer a sua profisso. Perdeu as duas 
pessoas que mais amava: a mulher que esperava um filho seu e a me. As honestas americanas amigas da 
Sr.,% Duncan desapareceram de Santa Barbara e continuam provavelmente a sua vida noutras pequenas 
cidades americanas, onde dividem o tempo entre clubes de brdege e outras associaes femininas; a sua 
vida nunca voltar a ser to emocionante como durante o episdio da me Duncan. Agora provavelmente 
mostrar-se-o revoltadas contra o monstro Manson e emocionar-se-o com o pobre Calley.

FANTASIA E REALIDADE

P

OUCA admirao poder causar o facto de que os criminosos e os loucos, em esp@cial os criminosos loucos, 
sejam estranhos, agressivos e violentos. So estas mesmas caractersticas que os tornam criminosos e 
loucos. Podem-nos desper- ,tar compaixo ou indignao, benevolncia ou um desejo de -vingana, mas 
reportar-nos-emos impreterivelmente a um plano superior. Quanto mais baixo eles descem maior  a nossa 
certeza de -nos encontrarmos dentro da razo e da moral e mais acreditamos na diferena fundamental que 
deles nos distingue. -nos tanto mais fcil negar e desconhecer a agressividade em ns existente quanto 
mais a apercebemos nos outros de uma forma to violenta e manifesta,

A moderna psicologia das profundidades expressa algumas .dvidas relativas  existncia e conservao 
das barreiras que separam os sos de esprito (ns) dos doentes mentais (eles).
O afastamento da tradio e da autoridade abalou igualmente a crena de que os loucos se encontrariam 
fechados para (nossa) segurana por detrs das paredes do manicmio, ao passo que todas as outras 
pessoas em liberdade seriam normais. A justia tem, alis, de se agarrar a esta iluso e considerar no seu 
per- feito juzo to-do o que no  expressamente declarado como louco.

Sempre houve e haver perturbaes mentais. Tal com(> a desumanidade  uma possibilidade e uma forma 
de expresso do ser humano, tambm a loucura  uma possibilidade e forma de expresso do pensamento. 
Existem relaes e pontos de transio entre a humanidade e a desumanidade, entre os pensamentos 
normais e a fantasia patolgica, entre a sanidade mental e a loucura.

AGRESSIVIDADE

01n,nios doesprito de todos os homens so povoados por iitos e fantasias que ignorarn as leis da lgica, do 
tempo ealidade. A psica,nlis@'designa como id a esfera de tens e conflitos o-cultos e ocupa-se da dinmica 
dos fenmenos inconscientes, do carcter organizado dos processos primrios e da lgica do ilgico. Os 
mecanismos que permitem o conhecimento da realidade e uma adaptao  mesma, bem como os processos 
secundrios do consciente e da razo (o ego), desenvolvem-se lenta e gradualmente e numa proporo 
que varia de indivduo para indivduo. Todas as pessoas, sem excep@o       so, porm, influenciadas e 
motivadas por fenrne-nos inconscientes que sem-

pre o foTam ou assim se tornaram. As concepes de desejo ligadas ao princpio do prazer podem ser 
levadas pela actuao do princpio de realidade a uma renncia parcial das suas exigncias e a uma 
modificao de objectivos; nunca deixaro, no, entanto, de exercer uma certa influncia no comportamento 
humano, que ser tanto maior quanto menor for o conhecimento da sua aco. A mensagem racional 
includa na psicanlise afirma que o primeiro passo para a cura  a tomada de conscincia, o, conhecimento 
e mais precisamente a introspeco.

Os processos conscientes representam apenas uma parte da vida psquica, que na totalidade se define pela 
influncia e jogo recprocos dos processos primrios e secundrios, lgicos e ilgic,os, racionais e 
irracionais. O inconsciente no se encontra numa posio exclusivamente antagnica em relao ao 
consciente, mas tambm dialctica. As barreiras erguidas pela censura, a regresso e a.represso dos 
impulsos impedem o acesso dos impulsos inconscientes ao consciente e igualinente a sua realizao. Por 
outro lado, os processos primrios s se podem manifestar sob formac pela interveno de fenmenos 
parcial ou integralmente conscientes. A razo  dona e senhora, mas em determinadas circunstncias  
igualmente serva obediente da irracional ida-de.

Os mecanismos do ego de represso dos impulsos instintivos apenas permitem, de acordo com as 
exigncias da realidade e o /

O'ff e. Ia Iti o@c

5 e

c

comando do, superego, o ingresso de uma pequena parte das tendncias do id na conscincia ou mais 
precisamente na realizao da aco. A maior parte destas tendncias  reprimida, negada, modificada ou 
camuflada de qualquer outra forma;  tambm mantida no inconsciente onde se v rejeitada.

A racionalizao  a justficao, inconsciente de uma aco atravs da substituio de um motivo 
verdadeiro e muitas vezes

AGRESSIVIDADE                               73

incompreensvel que a determina por um motivo confessvel, quer dizer, compreensvel. Se este 
fenmeno for efectuado conscientemente deixa de se chamar racionalizao para ser referido como 
mentira. O processo de racionalizao comporta sempre uma percentagem -de razo. Da mesma forma que 
a justia aparente se torna necessria para a justificao da injustia, tambm no se pode dar uma feio 
racional a um desejo sem recorrer  razo. A racionalizao no  pura e simplesmente falsa, mas apenas 
unilateral, parcial e sim@plficada. De entre a multiplicidade existente de razes e motivos (esta 
multiplicidade de motivos e impulsos que conduzem a uma determinada aco -recebem em psicanlise a 
designao de superdeterminao ou multideterminao), a racionalizao detm os que mais se adaptam  
estrutura da personalidade, aos conceitos de valor e  realidade social do indivduo; estes ltimos, que so 
os nicos com acesso  conscincia, so, na verdade, percepcionados como as nicas motivaes 
existentes Todas as tormas de autojustifica-

justi o, tudo o que tende a criaT uma aparencia de             a e de racionalidade, provm da -
racionalizao. Dado o      seu carcter eliminatrio e a seleco que opera entre o conjunto das nossas 
inotivaes em benefcio das nicas confessveis, a racionalizao Tevela-se essencialmente corno uma 
fonte de iluses para os outros e para a prpria pessoa. A ideologia est para a colectividade .como a 
racionalizao para o indivduo: tal como se encontra a razo na racionalizao, tambm se observa a 
presena de ideias na ideologia. A racionalizao  uma ideologia individual; a ideologia  uma 
racionalizao colectiva.

As racionalizaes e as ideologias so basicamente inconscientes e subtraem~se  anlise e contrle do 
consciente. A tentativa de as tornar conscientes e de as interpretar, de sacudir padres rgidos ou anular a 
sua aco repressiva encontra uma resistncia que por seu lado se serve naturalmente de um processo 
racional e ideolgico, quer dizer, sabe apenas apresentar os motivos estritamente confessveis, ainda que 
no correspondam  rea- lidade, para justificar a sua persistncia.

A descoherta do poder do inconsciente consolida a desconfiana justificada contra as cama-das superficiais 
do psquico, que simultaneamente reflectem e ocultam as profundezas do esprito humano. As motivaes 
inconscientes podem, na verdade, representar a expresso ou dissimulao das motivaes inconscientes. 
At mesmo a completa honestidade e franquezapodem no repro-

74                    AGRESSIVIDADE

duzir conscientemente processos que por definio, uma vez que so inconscientes, devem ficar ocultos. 
As interpretaes que se baseiam -nas formas de expresso de tendncias inconscientes desconhecidas e 
ocultas no podem esperar uma confirmao imediata do indivduo a que se referem.  este o paradoxo da 
psicologia das profundidades, cujos doentes so os nicos clientes que nunca tm razo. A exactido e 
verdade de unia relao significativa afirmada pela interpretao no se vem imediatamente prova-das 
nem desrilentidas pelo assentimento ou recusa que provocam.  inteiramente possvel que sejam na 
realidade a exactido e a verdade da interpretao as causadoras da resistncia e da recusa. No se 
pode,portanto, ter confiana na razo ou na sinceridade. Este facto, uma vez reconhecido, presta-se mais 
do que qualquer outro  manipulao, estratgia do poder e arbitrariedade. At mesmo s a possibilidade 
de acusao de perturbao mental e a hiptes@ -totalmente contrria  psicologia, mas psicologicamente 
muito eficaz -da existncia de motivaes inconscientes nos outros (semprenos outros) bastam para se 
depreciar os argumentos do opositor e votar as suas opinies  troa e ao desprezo. A recusa de uma 
teoria basta portanto para provar a sua exactido aos olhos do que a formula; este apenas precisa por sua 
vez de se convencer que o que a recusa - tal como o doente mental -nega a sua adeso por motivos 
inconscientes e por conseguinte para ele inteiramente desconhecidos. Com base nas suas interpretaes, 
que encontram na forSa a legitimao dos seus objectivos, os governantes podem criticar uma falta de 
objectividade, se bem q e a pessoa desta forma no seja tornada culpada de qualquer t io subjectiva e 
nem sequer tenha conscincia ao ponto de ustificar e racionalizar todas as iluses sensoriais e as mais 
primitivas deturpaes da realidade, que a seus olhos se encontram assim legitimadas. Ningum acredita 
mais fantica e sinceramente na prpria razo e justia do que o doente mental;  precisairiente na 
obstinao da sua crena que reside a perturbao do seu esprito.

u r i

No mbito das alucinaes sente vozes imaginrias e imagens invisveis que adquirem carcter de 
percepes exteriores: Ningum mais as ouve ou v. Este facto, no entanto, apenas vai servir ao louco de 
consolidao da sua ideia de personalidade de eleio.  ele o nico que tem acesso especial aos aspectos 
ocultos da realidade; os outros no querem ver nem ouvir; esto aliados contra ele e empregam os seus 
sorrisos compassivos e srios esfor-

AGRESSIVIDADE                              75

os para o convencerem da inexactido e insanidade das suas percepes; demonstram apenas estar a 
urdir uma conjura contra ele e que evidentemente negam.

As representaes perturbadas que lhe surgem no implicam necessariamente a presena de alucinaes. 
Devem-se  projeco exterior de percepes interiores, q@e assim se encontram confundidas com a 
realidade. Os acontecimentos podem ser percebidos como se apresentam na realidade, mas depois so 
interpretados -de tal forma que apoiam e consolidam a distoro causada pela loucura. O encontro casual 
com um conhecido  apercebido como uma tentativa de ataque h muito planeada; a amabilidade que lhe 
testemunha o criado, com toda a certeza ,es'pio,  um mtodo particularmente refinado de extorquir 
informaes e a indiferena do -transeunte um sinal de inimizade ou uma tctica para iludir a sua vigilncia; 
a sua mente perturbada assume que depois todos falani e riem poT detrs das suas costas e urdem 
conspiraes para a sua runa. A realidade do mundo, tal como , no o pode convencer. O nico mundo 
em que acredita  o seu mundo de loucura.

O seu mundo distorcido  em primeiro lugar vincadamente privado, idiossincrsico, apenas acessvel  sua alienao. O 
mundo que o rodeia acabar, porm, por reagir s suas alucinaes; as pessoas rir(> e faro comentrios em relao aos 
seus olhares desconfiados de revs, s suas expresses bizarras e exploses absurdas de clera. As pessoas passam 
realmente a rir e a falar nas suas costas e forjam planos (de como o ajudar ou como dele se proteger), que tomam cuidado 
em dissimular. O paranico tem agora razo para se sentir plenamente justificado, porque a sua parania actuou sobre a 
realidade e transformou-a. Os seus vaticnios de conspirao aconteceram realinente e a sua desconfiana produziu a 
situao que, a princpio, no passava de imaginao absurda. Quando o delrio no s justifica as suas representaes da 
realidade, mas tambm se mostra capaz de a transformar de acordo com as suas tendncias prprias, desaparecem todas 
as fronteiras entre a loucura e a realidade, o facto e a sua representao.    .

A nossa suposio de que o inimigo que garante a nossa disciplina interior  agressivo, violento, mau, astuto, traidor e 
per@ verso parece normal (patritica e conveniente) por j estar to divulgada. Corresponde no entanto a uma projeco 
espontnea ou dirigida,  exterorizao de tenses e conflitos internos que

76                    AGRESSIVIDADE

quando atingem um determinado gra@i @e intensidade se tornam paran'icos. Muitos so, alis, de 
opinio que perante o mundo como ele  na realidade de modo algum poderamos ser suficientemente 
paranicos para podermos perceber os perigos reais a tempo e deles nos defendermos. Pois no existem 
afinal verdadeiros criminosos e doentes mentais perigosos, bem como conspiraes secretas de comunistas 
e capitalis@as, de estudantes e da Mafia, de movimentos sionistas e terroristas fascistas?

Torna-se difcil fazer a distino entre a realidade e a aluci-nao quando o poder faz desta ltima uma 
realidade. Foi a parania de Estaline quando a julgar-se permanentemente rodeado de inimigos que o 
levou a causar todas as mortes muito reais. Foi da idrena nazi quanto  suspeita de uma conspirao 
internacional dos judeus que nasceu o 111 Reich, e muitos outros exemplos se poderiam citar para 
demonstrar o carcter alucinante que pode ser capaz de apagar a -realidade palpvel.

john Frazier est convencido de que  necessrio assassinar cinco pessoas totalmente desconhecidas e 
inocentes, a fim de chamar as ateri5es relativamente ao perigo da poluio do ambiente. Consideramo-lo 
louco porque no seramos capazes de seguir a sua linha de pensamento. Manson considera-se corno o 
salvador do mundo -e no tem at a certeza se no ser Jesus Cristo. Tambm Nash na sua condio de 
megalmano descobre analogias entre si e Jesus. Uma vez que dificilmente poderamos encontrar uma 
relao entre a grotesca violncia dos seus actos e esta sua afirmao, consideramos os dois casos 
caractersticos de perturba o mental. O suicdio de Mishima parece-nos to ,extremista, que !no podemos 
evitar srias dvidas quanto ao seu equilbrio mental.

Heydrich era tambm um doente mental? E Hitler, e o estado-maior alemo, e Estaline, Beria e as dezenas 
de milhares de russos e alemes que foram seus auxiliares, so loucos tambm? Os descrentes e cpticos 
ser o os nicos com sanidade mental? Os guerrilheiros, os tupamaros, Castro, Che Guevara, Mo Ts-
Tung, Ho Chi Minh, Franco, Papadopoulos, Nixon, sero tambm loucos?

Os seus inimigos descrevem-nos como feras, ces furiosos e psicopatas. So tarribm loucos todos os que 
neles acreditam e cumprem as suas,ordc-ns? E se no o so, porque seguem ento os loucos?

A violncia  contagiosa.  em si a desordem que pretende

AGRESSIVIDADE                              77

curar. No  s o seu sucesso que atrai, fascina e incita  imitao e ao respeito.  precisamente porque a 
viol ncia  a forma bruta, desenfreada e impudica de agressividade que obtm um xito to retumbante.  
tomada a srio porque no admite brincadeiras; porque escarnece de todas as regras de jogo sociais  
admirada como a nica certa e verdadeira; porque no se envergonha -do seu primtivismo  adorada 
como inocente e pura.  o apelo  violncia que, pelo efeito que produz sobre o mundo, o transforma de 
modo a que ele mesmo a pratique. O homem ou o sistema de violncia convencem atravs da sua 
autoconvico.
O carcter extremista do seu delrio rene as tendncias paranicas isoladas, que, quando tal acontece, se 
reforam mutuamente. Dada a sua aparente boa f, autenticidade e -radical independncia, o apelo  
violncia provoca um entusiasmo que pode conduzir s lutas mais encarniadas. A violncia da loucura 
comea por fabricar um mundo deformado que imagina seguidamente ter necessidade dessa loucura 
chamada violncia.

OS critrios que presidem necessariamente  definio de doenas mentais e de criminosos so de 
riatureza social e cultural. No se pode imaginar a existncia de uma cultura em que as formas mais 
extremas de perturbao mental no sejam -reconhecidas corno doenas, dadas as incapacidades 
funcionais a elas inerentes. Muitas perturbaes, porm, nem sempre so visveis atravs de deficincias 
funcionais. Casos extremos de irraconalidade podem ocuItaT@se eficazmente por detrs de uma 
fachada aparentemente racional. Por outro Ia-do, nem sempre uma excepo  regra dos valores mdios 
tem carcter patolgico. Caso contrrio, o gnio seria louco devido a tudo o que o diferencia da maioria, o 
mesmo acontecendo ao no comunista numa sociedade comunista, ao comunista numa sociedade democrata 
e aos fascistas nas duas.

Ainda no existe um mtodoto imparcial, .neutro, -racional e cientfico que se encontre isento de uma 
utilizao, e por vezes uma m utilizao, para determinadas finalidades. A psicologia tornar-se- 
fatalmente um instrumento de difamao e de desvalorizao se se considerar a loucura e a rracionalidade 
corno sua fonte  nica de interesses. Na medida em que s se faz apelo  psicologia (e  psiquia-tria) 
apenas e s quando todas as tentativas de explicao pelos sistemas usuais se esgotam, o -resultado s 
poder redundar na transformao da um parecer pr-estabelecido num diagnstico psiquitrico. Hitler, 
Mussolini, Esta-

78                     AGRE S SI VIDA DE

line, Castro, Nasser e Mao Ts-Tung so seguramente loucos, visto no se terem cingido s nossas 
craveiras e imagens racionais.

Assiste-se assim  cxPlorao da psicologia para fins polmicos, ideolgicos e agressivos e converso 
obstinada e inexplicvel dos adversrios em sistemas psicopatolgicos. A parania, a esquizofrenia, a 
histeri.a e actos de violncia so diagnsticos de fcil aplicao aO OPOsItOr qUe se defende ao servir-se 
dos mesmos ou de diagnsticos semelhantes tornados insultos. A nossa moderna fbrica de imagens ao 
Servio da nossa necessidade de inimigo criou a caricatura do HOmo psychologicus e do Sat louco, cuja 
loucura  a primeira c ltima razo da sua maldade, perfdia, esperteza e perigo. A descoberta de doena 
nos outros pressupoe-por opbsio-a afirmao de uma sanidade pessoal; a atitudede fazer do adversrio 
um psicopata  o meio mais seguro de urna colocao pessoal ao abrigo de toda a interpretao 
psicolgica.

A psicologia granjeia a possibilidade de se tornar o depreciado, escarnecido e diablico adversrio em 
algu m para nO se tomar a srio ou em algum que  preciso neutralizar.

As personalidades <autoritrias, os reaccionrios e polcias sofrem da cegueira da autoridade, Devem ser, 
portanto, esclarecidos, se necessrio, com o emprego da fora. Os estudantes revoltam-se devido a um 
complexo de dipo no solucionado. O seu protesto  infantil, neu@rtico ou uma reaco psictica contra 
a figura do pai. Deveriam, se necessrio, ser trata-dos pela fora. Os pilotos rabes, que so loucos, porque 
as pessoas normais de forma alguma procederiam to brutal e impiedosamente, devem ser levados  fora a 
UM psiquiatra e se possvel a um psiquiatra sionista?... Em nome da sua prpria defesa, a sociedade sente o 
direito e o dever deneutralizar ou de se encarregar de dominar os elementos marginais que, ao 
a_fastarem-se das normas estabelecidas, afectem as suas leis escritas ou no escritas.

A atitude da sociedade para o criminoso a que atribui ms intenes ou agressividade  determinada por 
consideraes ditadas por um desejo de villgana, de contra-ataque e da sua segurana. Este facto  urna 
verdade, se bem que estas medidas de castigo e segurana sc destinem simultaneamente a corrigir, 
reformar e racionalizar o criminoso. No caso do pretenso louco, a necessidade de cura adquire, pelo 
menos aparentemente, relevncia de primeiro plano, O facto de o privarem dos seus direitos e da sua 
liberdade, o que  interpretado pelo doente como

AGRESSIVIDADE                              79

uma medida primitiva,  apenas uma consequncia secundria do auxlio que se lhe presta.

Se -no existissem criminosos e loucos (e existem), haveria que os inventar, a fim de que oferecessem um 
objecto legtimo aos impulsos agressivos da colectividade. Como bodes expiatrios e malhadeiros da 
sociedade desempenham a importante funo social de desviarem tendncias agressivas que teriam de ser 
reprimi-das, se no se pudessem libertar atravs deste escape representado pelo recurso  fora e ao 
poder de castigar. Uma vez que a colectividade, alm do monoplio do poder, se v na posse do 
monoplio -da legitimidade, a definio de doentes mentais , seno simples, pelo menos incontestada. A 
situao s se torna difcil na medida em que existem poderes independentes e portanto sistemas de 
legitimidade opostos; uma deciso no interior de cada grupo no produz assim qualquer eleito. Os polcias 
no se deixam esclarecer, a nova vaga de cabelos compridos no quer ser analisada por psiclogos, 
Nixon, Castro e Habash no consultam o psiquiatra. Cada um recusa o papel que o sistema lhes quer 
atribuir, o que s serve para convencer os includos no sistema de que estes perturbadores merecem 
realmente o papel que desempenham. . Os psiquiatras so muitas vezes acusados de tratarem com simpatia 
os infractores e criminosos, mas no as vtimas inocentes dos seus crimes. No seu desejo de quererem 
compreender so considerados como capazes de perdoar ou, o que  pior, consolidar nos delinquentes 
reduzidos  qualidade de do-entes a opinio de que no h nada a perdoar nem nenhum castigo a aplicar; 
a culpa pertence ao inconsciente ou  sociedade e no ao acusado. Tal teoria convm plenamente aos 
senhores criminosos; dentro des-ta viso e com um pouco de dificuldade, acabaria por se encontrar sempre 
uma explicao para tudo e tambm um motivo por que se tornava necessrio, depois de se ter sido vtima 
destes fora-da-lei, assumir urna atitude de compreenso e estar  sua disposio. A fraqueza excessiva que 
se liga  faculdade de compreenso no  o sentimento popular que pensa provar a sua sanidade mediante 
um afastamento dos que se encontram  margem da lei e a sua sensibilidade ou falta de sentimento para com 
eles. Essa mesma populao, no entanto, que insiste no castigo quando a culpa pode ser provada tem 
logicamente de renunciar  aplicao do castigo se no existiTem culpas pessoais. S determinadas formas 
de psicose, que so,

80                     AGRESSIVIDADE

alis, em nmero muito restrito e que no excluem a possibilidade de actos perigosos por parte do doente, 
o inibem de toda a culpabilidade, porque ele no pode lutar contra elas da mesma maneira que no poderia 
impedir a febre provocada por urna inflamao nos pulmes. A existncia, se bem que pouco frequente, 
da possibilidade (na Califrnia, menos de 4 % de. casos) de que um acusado, mediante 
pare@eres.p@iquitricos, seja subtrado ao justo castigo torna o psiquiatra inimigo daquela ordem que se 
esfora por manter.

A psiquiatria de modo algum segue fielmente as regras e critrios que lhe so prescritos pelas autoridades, 
juzes e legisIa-dares, mas tenta meramente interpret-los e aplic-los a casos concretos. Acontece muitas 
vezes, no entanto, que o psiquiatra se v obrigado a adjudicar a etiqueta de doen@a ao delinquente. 
Consegue assim o direito a tratamento, que priva a sociedade do direito de castigar.  por isso que o 
exerccio da funo do psiquiatra  considerado, por e ante o tribunal, como suspeito ou pelo menos 
suprfluo. Quanto mais detestado  o acusado mais alto soa o grito de represlia e de vingana. O momento 
em que a lei deixa de reconhecer  sociedade o direito de punir  precisamente aqi@ele em que este 
direito no lhe deve ser retirado. Nash foi precisamente condenado  morte e executado no apesar de, 
mas porque o jri estava convencido de que ele era um do-ente mental incurvel.

Com Manson deu-se um caso diferente. A princpio foi-lhe permitido actuar como seu prprio advogado de 
defesa. Oito semanas depois, que de facto foram suficientes para lhe proporcionar um contacto com Susan 
Atkins, que j confessara o crime cometido, e lev-la a retirar essa confisso feita, foi privado desse direito 
e nomeou-se um advogado oficial. A sua sanidade mental e espiritual nunca foi, no entanto, posta em 
questo ou investigada. A quem convinha alis o exame psiquitrico? Nada fazia estremecer mais o 
Ministrio Pblico do que a ideia de furtar Manson ao justo castigo mediante diagnstico ou suspeita de 
perturbao mental. Ao esprito do juiz tambm aparentemente no ocorreu a ideia, ta.ntopelas estranhas 
declaraes de Manson como pelos actos praticados, da possibilidade de uma perturbao mental. O que 
existe assim to de a-normal na ordem de uma carnificina em massa e no sacrifcio de inocentes com vista a 
urdir um combate entre as raas? O juiz deveria obrigatoriamente ter ordenado um exame psiquitrico se, 
em qualquer

A C R E S S I V 1 D A D E                  81

momento, tivesse duvidado da sanidade do comportamento de Manson. Ele porm no duvidou e to 
pouco o pblico. Evitou-se a interveno da -psiquiatria e pela psiquiatria.

Existem, de facto, formas de interveno totalmente diversas da psiquiatria judicial e prisional. Sob a 
etiqueta do termo tratamentG -podem ser efectuados castigos mais sdicos do qu@ sob o termo 
represlia. As penitencirias ascendem  categoria de centros de tratamento e exige-se aos detidos no s 
uma impecvel subordinao, mas tambm repetio de confisses e protestos da sua necessidade de -
tratamento psicolgico; d-se um certo conforto s celas gradeadas para poderem ser utilizadas mais tempo 
como -lugar de deteno preventiva. Tanto na Europa como na Amrica as pessoas que so consideradas 
perigosas para os outros e para si mesmas vem-se assim, sob pretexto de tratamento, privadas da sua 
dignidade humana dentro ou para l do tempo fixado pela justia. Na Rssia todos os rebeldes 
indesejveis, que no se pode nem se quer julgar por pTeocupao da  Op    o pblica, so enviados para 
centros de TCCI1PCrao e de re     cao. Correm boatos de que outros regimes totalitrios se tero j 
inspirado nesta brilhante tcnica administrativa. Tudo se processa de acordo com o clssico sistema de 
justificao: os atingidos por estas medidas consderam-nas como castigo, se bem que tenham, na verdade, 
como fim o bem deles. Uma vez, porm, que no o querem compreender, continuam atomar-se medidas. 
Entra-se num crculo vicioso. A vtima no dispe de qualquer recurso, dado que as autoridades que 
apTeciam a oportunidade oferecida pelas medidas teraputicas e controlam a sua aplicao so as mesmas 
que as ordenam e as consideram necessrias. A psiquiatria, que  em princpio uma cincia crtica, serve de 
mscara  opresso de que  escrava e abafa todas as crticas com o protesto de que no priva os detidos 
da sua liberdade exterior seno para os levar a obter uma liberdade e esclarecimento interiores.

Quando do processo contra Sirhan Sirhan, o assassino de Robert Kennedy, os psiquiatras de defesa e de 
acusao vieram emitir de forma erudita, disciplinada e cada um por sua vez, os seus juzos contraditrios, 
que variavam de acordo com a pessoa para quem trabalhavam. O espectculo oferecido no era sublime 
nem de fcil deduo. Se um psiquiatra, depois do exame ao acusado, no estivesse disposto a depor no, 
interesse do seu cliente no -teria muito simplesmente sido chamado a faz-lo.

82                     AGRESSIVIDADE

A essncia do processo penal articricano assenta na suposio de que a comparao de pontos de vista 
opostos, por mais extremos e falsificadores que possam ser, cria as condies mais favorveis  verdade: tal 
como a Fnix da fbula, acaba por ressurgir das cinzas da mentira e do exagero.

No caso do tenente Calley, o heri de My Lai, como foi chamado, a defesa pretende demonstrar mediante 
diagnstico psiquitrico o que at ento nunca se tinha tentado em processos de criminosos de guerra 
alemes. A necessidade de obedincia deve representar urna limitao da conscincia psiquiatricamente 
definvel, um estado psquico que exclui as hipteses de insubordinao e consequentertiente toda a 
responsabilidade pessoa.I. Como seria de esperar, os,psiquia

so@ tras da acusao consideraram o tenente Calley como no         endo de qualquer perturbao mental 
e portanto com(> totalmente responsvel. .

Poderiam apresentar-se inrneros exemplos representativos da vergonhosa degradao de uiiia cincia 
que se quer pura e pretende demonstrar a sua neutralidade, mostrando-se igualmente utilizvel para os 
que o pretendem. Fala-se cada vez mais do pretenso perigo de uma PS'cocratia-o domnio da sociedade 
atravs de mtodos psiquitricos ou psicolgicos; o verdadeiro perigo reside, no entanto, ua tentativa 
contrria e muitas vezes bem sucedida da utilizao da neutralidade para satisfao de interesses de forma 
alguma ricutros.

Um juiz revoltado ante o comportamento agressivo de uni condenado ordenou urna vez ante um tribunal 
alemo que fosse feito o exame do culpado. Este prestou-se de boa vontade, na condio de que o juiz se 
submetesse ao mesmo exame. Era, na verdade, um pedido incongruente, provavelmente formulado numa 
base de insolncia e de provocao; nele se manifesta algo de uma reivindicao de igualdade em que 
tanto a justia corno a cincia se apDiarn. Espera-se que ambas sejam desinteressadas, neutras e imparciais. 
S assim podero reivindicar crdito e autoridade. A cincia que coloca a sua neutralidade ao servio de 
um poder ou de um partido no se torna unicamente auxilar, mas tambm cmplice da maquina@o. 
Assume a responsabilidade principal, uma vez que permite aos interesses que representa dissimularem-se 
sob a capa do desinteresse. No h tirania mais injusta e injustificada do que aquela que faz ostentao da 
justia para assegurar o triunfo das suas ambies e lhes dar uma aparncia de legitimidade.

8. AGRESSIVIDADE             O

 indubitvel que se tornam necessrias certa coragem e deciso para se estudar sistematicamente o 
fenmeno da agresso. Significa um oferecimento voluntrio a que a nossa prpria agresso seja criticada. 
A identificao dos autores com os assuntos de que. tratam fornece  psicologia vulgar os exemplos de que 
necessita na sua preocupao de idealizao e difamao dos outros para se furtar a ter de explicar e 
analisar as suas prprias motivaes. O critico  censurado pela sua inadaptao pessoal e o investigador 
de assuntos sexuais por um mrbido interesse em relao  sexualidade. Talvez seja por esse motivo que 
tanto se apreciam os temas referentes a esperana, naturalidade, espontaneidade e amor.

Ao velho conceito de interpretao do mundo veio juntar-se um novo princpio-o mundo como ideia, ser 
vivo, frmula matemtica ou teatro; hoje em dia as naes e as pessoas normais comportam-se como se sem 
loucos. A realidade est perto da ideia do mundo como um gigantesco manicmio. Quer se trate do mundo 
ilusrio da imaginao, da realidade, da arte ou poltica, a situao extrema da loucura aparece- ligada  
condi o natural do homem. Este facto consolida a autoridade do psiq"iatra relativamente a proferir 
pareceres sobre fenmenos sociais e objectivos q@e a sociedade almeja. A sua familiaridade com 
anomalias psquicas faz ascender o especialista de perturbaes mentais, mediante acentuao e 
alargamento da sua autoridade,  categoria de perito e crtico da cultura e civilizao, uma vez que esta 
cultura e civilizao apresentam sintomas que se prestam a confuso quando comparados com os de 
perturbaes mentais.

Uma sociedade no    , no entanto, um macrocosmo comparvel ao ser biolgico e como ele equipado com 
os mesmos instintos e processos de desenvolvimento. Se bem que a interpreta- @o da realidade colectiva 
segundo o padro de solidariedade .gnica.(em oposio. a uma sociedade apenas mecnica) seja o mito 
a que mais frequentemente se recorre quando se trata de justificar o constrangimento colectivo, a 
colectividade no sofre, no fica doente nem  tratada da mesma forma que o indivduo. Tal no impede 
alis que possa provocar o sofrimento humano e possa reflectir a doena e loucura indvduais ou 
colectivas.

A regularidade e monotonia que presidem ao desenvolvi-

84                   AGRESSIVIDADE

mento e utilizao, em circunstncias diferentes, dos mesmos mecanismos psquicos representam um 
fenmeno psicolgico especialmente digno de estudo. A camuflagem.e justificao existentes em cada um, 
relativamente  sua prpria agresso, so

causa e consequncia da descoberta da agresso nos outros.
O ciclo demonaco que se processa da violncia  justificao da violncia forma-se e encerra-se sob a 
necessidade de carcter essencialmente psicolgico. A psicologia pode (mediante recurso a outras 
cincias) analisar e ao faz-lo quebrar esse ciclo em benefcio de outras possibilidades.

O CICLO DA AGRESSO

D

EFINimos agresso como esta tendncia, esta energia inerente ao homem que originariamente s.e manifesta 
pela actividade e posteriormente sob as mais diversas formas individuais e colectivas socialmente 
aprendidas e difundidas, desde a simples afirmao pessoal  violncia.

A violncia no  idntica  agresso;  a expresso manifesta, viva e principalmente fsica da agresso.

As primeiras manifestaes agressivas expressam-se p?r intermdio do sistema muscular; a actividade de 
cada um  inerente ao prazer relacionado com a funo. A criana sente os estmulos de prazer como parte 
de si mesma e transfere para o mundo exterior todas as suas aces desprovidas de prazer. A transferncia 
inconsciente de conflitos internos para o exterior designa-se como exteTiorizao ou projeco. O 
fenmeno contrrio, ou seja a absoro de fenmenos externos pelo interior, chama-se interiorizao ou 
ntroJec@o.

A criana tem tendncia a reagir agressivamente ante frustraes exteriores, inclusive as que representam 
a pr?jeco das suas angstias e tenses interiores. Tenta assim suprimir e destruir a fonte de frustrao e 
de insatisfao.

O contrle infantil da agesso processa-se atravs das representaes e prescries do meio em que 
vivelprimeiro pela imitao mmica e depois pelo medo ao castigo ou perda de amor em.relao ao@ gue o 
rodeia. A educao, independentemente dos meios que utiliza, consiste em fazer compreender  criana 
que s em determinadas circunstncias pode expressar e manifestar

a sua agressividade. O contrle da agresso, absolutamente imposto -e necessariamente forado pelas 
regras de educao e . de

86                    AGRESSIVIDADE

cultura da pessoa, efectua-se de duas formas. interior e exteriormente. O comportamento da criana na sua 
fase de crescimento de-pressa deixa de ser meramente determinado pelo receio do castigo ou falta de 
carinho, A criana identificou-se to completamente com os antigos educadores que interiorizou as suas 
exgncias e conceitos de valor. Formou-se em si uma instncia (uma estratifcao do ego, uma 
conscincia) que toma  sua conta as funes de censura e jugo at a exercidas pelo ambiente. A presso 
original do exterior  substituda pela interor. Graas  sua capacidade de aprendizagem e aptido 
simblica, a criana , logo de incio, integrada nas estruturas da organizao social. As instituies 
existentes, que com o seu poder natural e inevitabilidade se impem  criana, oferecem-lhe facilidade de 
participao nos seus privilgios e possbildades, desde que cam elas se submeta s. suas regras e 
conceitos. Na instncia interior que  a conscincia existia j urna percentagem de agresso livre; o 
cumprimento das reW-as fixadas pela sociedade, a obedincia s regras do, jogo, quer se trate de lingua, 
tradies ou hbitos, transformam agora pela segunda vez a agresso livre em agresso subjugada s 
instituies. A agresso desaparece e dissmula-se por detrs das instituies e nelas se flissolve, Fica 
submetida  previso e regras, circunscrita, domi~ I)a,da, dirigda num determinado sentido.  agora uma 
agresso latente, controlada e domesticada.

Ao observar e cz@nalzar a agresso livre, que  para o individuo origem de angstia, a socializao 
proporciona-lhe a libertao do medo e urna obrgatoriedade de dever. A ritualizao, Social fora os 
impulsos individuais agressivos a uma aco conitinta que reflecte a existncia cultural da comunidade e 
perrflite que os indivduos libertos de sentimento de culpabilidade se revelem como representantes 
cumpridores da sociedade a que Pertencem. A ritualzao torna-se assim irrevogvel mediante Ic,ciPToca 
identificao dos interesses gerais e ndividuais e Rarante o desenvolvimento de uma identidade terior e 
ndePQ,ridente (Erkson). O ideal reside em que o resultado da sociali@@ao seja to estereotipado 
como o individual; a individualidade alcana-se mediante uma ititerorizao. A liberdade resulta

Presso e est acinia dela. A represso dos instintos da agresso, livre e desenfreada  Compensada, pelo 
menos parcialmente. atravs da permisso d@> direito  agresso dado pelas instituies. As organizaes

AGRESSIVIDADE                               87

internas e externas no se limitam a exigir a represso dos instintos, mas outorgam igualmente a satisfao 
dos instintos e a expresso dos mesmos em seu nome, desde que estejam de acordo com as regras 
estabelecidas. A agresso, que  permitida, exigida e legitimada pelas instituies internas e externas de 
estruturao e funcionamento agressivo, j no  sentida e aplicada como tal. Oculta-se sob a sua 
justificao agressiva e aparece ento sob um rtulo falso, sob bandeiras como autodefesa, legtima defesa 
e defesa de objectivos elevados.

Este o motivo por que toda a atitude, por mais agressiva e violenta que,possa ser, nunca considerada nem 
entendida como tal desde que este3a em conformidade com as instituies, as razes de Estado, as 
tradies e a voz da conscincia.

Os indivduos e os grupos somente podem suportar urna certa quantidade de. agr@sso livre sem risco da 
pr'pria vida. Servindo-se da sua imaginao e capacidade criadora trn de criar instituies que 
interceptem, absorvam, regulem e dirijam a agresso livre dentro de certos limites. Todas as instituies, e 
as boas tambm, so desde o princpio e na sua essncia praticamente agressivas muito antes talvez de se 
tornarem agressivas na prtica. As regras institucionais so o nico mtodo de contrle colectivo da 
agresso que possibilita a vida em comum; quer voluntrio ou imposto, este contrle responde pela 
proteco e segurana e garante a preveno e continuidade. As instituies so as garantias estveis e 
estabilizadoras de uma disciplina continuada, a agresso que lhes  inerente tem urna fun~ o de. 
fortalecimento e de apoio. O contrle da agresso, que nos animais  feito pela represso dos instintos,  
feito no homem @por intermdio da razo ou mais exactamente pelas instituies baseadas nessa mesma 
razo, O ritual de formao de grupos resume-se a um conjupto de compromissos, laos e vnculos com um 
significativo sentimento de identidade e  por esse meio que o homem se diferencia dos animais e adquire 
um carcter de particularidade. As criaes humanas individuais dos grupos com uma mesma origem, lngua 
ou histria comportam-se como entidades  parte. So as pseudoespcies (Erikson) que desde sempre se 
sentem predestinadas s mais elevadas finalidades, se entrincheiTam contra os outros por detrs de 
preconceitos e os qualificam de estranhos  espcie e opositoTes em relao s verdadeiras aspiraes 
humanas. A identificao e integrao em tais grupos confere o sentimento de felicidade superindi-



88                    AGRESSIVIDADE

vidual sublime sob a aura da abnegao. O desaparecimento ou a decadncia do ritual produz no s uma 
indiferena mas igualmente uni vcuo a que est inerente o perigo de exploso, de uma agresso livre de 
peias. @k agresso colectiva regulada. por instituies subordina o indivduo isolado, organiza-o e exige-
lhe em nome do colectivo todos os actos e crimes que lhe probe para sua satisfao pessoal. So as 
prprias instituies que tornam manifesta a agresso que nelas se conserva latente e controlada. O 
potencial de agresso do indivduo, que estava consideravelmente controlado pela sociedade, v-se agora 
socialmente organizado e em parte igualmente liberto, mobilizado e justificado por essa mesma sociedade.

Os princ@ios que servem para legitiniar o poder, e so a longo prazo imprescindveis para a sua 
conserva o, acabam por entrar em conflito com as reivindicaes do poder da organizao. Os 
indivduos emancipados com a ajuda da organizaac, e que levam a srio as. justificaes e promessas 
institucionais descobrem a discrep^ncia entre a praxe do poder institucional, que s.e fundamenta na fora, 
e os princpios por ela proclamados nos quais se apoia. Em breve de nada serve a afirmao de que esta 
discrepncia  apenas o resultado de um lento desenvolvimento necessrio, que diminuir pela 
aproximao da justia prometida; nem mesmo resulta a referncia a outros sistemas, em que ainda  maior 
o abismo entre a praxe e a promessa, entre o facto e a retrica. O con.traste entre poder e princpios  
concebido como malquerena internacional; a tentativa de o ocultar  denunciada como hipocrisia. Os que 
esto sob contrle interpretam a agresso contida na organizao, e at a considerada fidedigna,, legtima 
e desconhecida, repentinamente como obrigao, perigo, ameaa e mesmo violncia. Esta tomada de 
conscincia f-los fugir ao contrle e liberta a sua prpria agresso contra a organizao.

A conscincia individual, que, cunhada pelas instituies, as servia porque por elas sc sabia legitiniada e 
utilizava as mesmas legitimaes frente ao eu, dirige-se ento desiludida e revoltada contra essas mesmas 
instituies. As reivindicaes individuais, que at a eram dissimuladas, reprimidas e ocultas em nome, a 
favor e com a ajuda das instituies, voltam-se agora indignadamente contra a hipocrisia das mesmas. De 
acordo com este novo esquema de legitimao, a conscincia individual (ou

AGRESSIVIDADE                               89

muito mais frequentemente uma nova instncia colectiva) torna-se fonte de legitimao, Toda a agresso, 
inclusive a violncia, reveste-se da conscincia de -ama nova legitimao, de um novo conceito de 
honestidade e de uma melhor moral, em oposio s velhas e malditas instituies. Em breve, -porm,  
novamente inserida, controlada -e ritualizada por meio, de novas organizaes. A revolta contra as 
intituies v-se por seu turno necessitada de uma organizao e -reivindica a mesma ou ainda uma mais 
cega obedincia do que a instituio recusada, que fizera surgir a@insuTrCio.

Hoje em   dia encontramo-nos nesta mesma situao de crise. As antigas tradies e instituies perderam a 
sua aceitao precisamente devido  emancipao que elas mesmas introduziram e utilizaram para sua 
legitimao.

As primeiras causas e os ltimos objectivos identificaram-se durante muito tempo com instncias sobre-
humanas; a violncia mais aviltante era justificada por uni ideal. O conceito do ser divino, a sabedoria da 
escolha e a conservao das tradies eram simultaneamente a razo e o fim e constituam as fontes 
inabalveis de legitimao. Tudo seprocessou de acordo com a ordem humana enquanto esta pareceu 
regulada por um conjunto de causas, finalidades e justificaes sobre-humanas e a autoridade Teguladora 
da -razo e legitimao permaneceu essencialmente (e misteriosamente) diferente -do que legitmava. Log? 
que a humanidade se tornou capaz.de subjugar a natureza, inventar e controlar os mais diversos sistemas r 
vencer a necessidade e a pobreza perdeu, devido  sua emancipao, a ingnua mas firme conscincia 
dos seus objectivos e direitos de existncia. A tradio e a crena to-rnaram-se discutveis; os rochedos 
inabalveis Ida Igreja, Estado, Famlia e Moral comearam a oscilar. Tudo o que era absoluto tornou-se 
relativo, -tudo o que era inabalvel adquiriu mobilidade, porque o homem acabou por se descobrir 
finalm,ente a si mesmo como im"tante criador e planificador, centro de fora e legitimao e 
smultaneamente como ser potencialmente emancipado, ntegro e responsvel.

A pretenso louca e audaciosa de que a -realidade-e o homem tambm-se pode modificar infinitamente 
pertence, em presena dos factos, ao reino das fbulas e fico cientfica. Igualmente insustentvel e 
irresponsvel  a concepo, que afirma a total fraqueza do homem e se iguala a um libi h muito 
comprovado como falso. O homem exerce urna permanente influn-

90                    AGRESSIVIDADE

Cia no Inundo que o rodeia, Da sociedade e suas instituies, na conscincia, no seu consciente e na sua 
pr pria natureza; tal no corresponde a uma possibilidade utpica ou a uma profecia, mas  um tacto que 
corresponde  realidade pelo menos desde que o homem foi expulso do paraso terrestre.

O actual estado de desenvolvimento da tcnica e da cincia ,permite, e at mesmo implica, a nova tomada 
de conscincia dos antigos factos que deveria levar ao aumento da dimenso da aco e responsabilidade 
humanas. Hoje em dia torna-se impossvel ignorar que os homens no so apenas sujeitos, mas obj@ctos da 
Histria, e que, diferentemente dos animais, no tm unicamente de se sujeitar ao seu nicho ecolgico, mas 
podem tambm escolher e formar o seu ambiente, deixando de ser vlida a antiga desculpa de que no 
somos responsveis pelo nosso destino e histria, pela nossa sociedade, ambiente e por ns mesmos. No 
somos, porm, seres com igual responsabldade, Com o fundamento de quetambm eles obedecem  fora 
inevitvel da necessidade, os que detm o poder e influncia de

exercer uma aco eficaz conseguem privar os outros da sua liberdade de aco sob ipretexto, de lha 
conceder.  evidentemente impossvel prever todas as consequncias do comportamento humano a longo 
prazo (na maioria das vezes nem sequer a curto prazo); este facto devera precisamente encorajar um 
planeainento e um contrle crticos em cada um e no justificar a passividade e uma confiana cega nas 
autoridades superiores.

A honestidade e integridade pessoais so hoje em dia to importantes (e raras) corno sempre o foram, s 
que agora no conseguem por si fazer justia s reinvindicaes modernas de aco e de 
responsabilidade. Desde que se aprendeu a camuflar a ordem sob a capa da obedincia a elevados fins,  
tradio e  ideologia, a obedincia s ipor si j no chega para servir de critrio a uma aco responsvel. 
A substituir o imperativo categrico da moral encontra-se muitas vezes a expresso categrica de uma 
ordem que justifica a imoralidade e obriga  adeso interior do que a recebe.

Nem mesmo se pode ter confiana na voz da conscincia; tambm ela reflecte e oculta o poder e a fora 
que foram os padrinhos do seu desenvolvimento. No pretendemos com uma tal apreciao reduzir ou 
tornar relativa a significao da conscincia e da moral, mas apenas insistir na necessidade de uma 
conscincia rnais elaborada e de uma moral mais rica que se

AGRESSIVIDADE                             91

tornem conscientes das condies em que se processam a sua origem e desenvolvimento. Esses mesmos 
reflexos moTais que adq@iirimos e a que nos habitumos, urna vez que nos foraram e orientaram 
nesse sentido, revelani-nos com uma rapidez instintiva e um intenso poder de convico que ns, numa 
generalidade, no somos agressivos ou apenas o somos quando se torna necessrio ou justificvel, mas 
sempre com as melhores intenes, em defesa prpria ou ao servio dos mais elevados objectivos. Os 
outros (o indivduo, o grupo, a nao), que consideramos Verdadeiramente agressivos, so igualmente 
instrudos pelos seus reflexos morais. Vem em ns tudo o que vemos neles e, principalmente, a ameaa, o 
perigo e a agresso que -tornam inevitveis as medidas de contra-ataque. O expediente mais eficaz do 
Diabo foi sempre o de fazer acreditar que no existia ou que, se existia, era sempre nos outros e nunca em 
ns.

Os -povos colonizados libertam-se violentamente do jugo dos senhores coloniais e, possudos de uma 
indignao moral ante as mentiras, traio e explorao, acusam-nos de urna opresso violenta ao longodos 
sculos. Aplicando e modificando a violncia liberta de todo e qualquer domnio, os oprimidos sentem-se 
finalmente como indivduos, como pessoas, livres de um anonimato a que at ento tinham estado 
condenados porn o lhes ser permitida a agresso.

Todos os oprimidos ou os que assim se consideram do provs da mesma dinmica. Embora a revolta dos 
guetos negros nos Estados Unidos fosse sangrentamente abafada, o bem-estar psquico dos negros 
insurrectos recebeu um impulso enorme. Deixaram, de sbito, de se sentir como vtimas; lembravam-se, 
com orgulho, de que eram capazes de contra-atacar. O mundo que os rodeava vu-se obrigado a tom-los 
em considerao. Emergiram do anonimato das massas sem rosto e sem nome para a identidade histrica de 
um grupo capaz de chaniar a ateno sobre si e digno dessa mesma ateno. Se bem que os objectivos da 
agresso no fossem atingidos, a luta contribuiu para lhes dar um sentimento mais forte de dignidade e 
orientar esta comuni~ dade que at a permanecera mergulhada na apatia e no anonimato no sentido de 
unia tomada de consci ncia de si mesma.

Para os judeus do mundo inteiro, igualmente a Guerra dos Seis Dias contribuiu, no plano psicolgico, no 
sentido de uni aumento considervel de dignidade, que encontrou expresso no carcter particularmente 
agressivo dos objectivos nacionais da

92                    AGRESSIVIDADE

comunidade. Apesar da tradio secular da no aplicao da violncia, o batalho vitorioso alcanou sem 
esforo o que diversos Prmios Nobel no conseguiram: a solidificao e, consolidao da identidade 
colectiva graas  afirmao agressiva desta identidade, ao prestgio. monetrio e  demonstrao de uma 
atitude de for a.

O conceito ideologicamente falso e propagandista de que pela violncianada se modifica verdadeiramente 
contradiz tudo o que se pode coinbater  luz da Histria, da psicologia e da poltica. A violncia no s 
transforma a realidade eficazmente, como tambm cunha em medida crescente as caina-das profundas e 
superficiais da realidade. Mediante as tcnicas da chamada p@larizao_h. apenas. aliados ou inimigos; 
quem no  por mim  contra mim -cria-se a simplificao, uma das condies prvias da violncia. Cada 
deciso fiumar,@ assenta num processo de simplificao, uma polarizao que, tal corno na tcnica dos 
nossos computadores, se adapta exactamente a esquemas mecncos. O mesmo princpio est igualmente 
implicado nos nossos sistemas de justia e educao. Nas situaes importantes no existem, 
frequentemente, outras alternativas que n o sejam a inocncia ou a culpabilidade, a vitria ou a derrota. 
Esta afinidade da polarizao com a aco prtica representa, precisamente,na sua eficaz simplificao, um 
convite implcito e secreto  violncia.

Da violncia nasce a inquietao; a agresso faz-se acompanhar de indcios peculiares. O desejo de atrair a 
ateno, de acentuar um estado de coisas considera-do insuportvel e injustificado desempenha um papel 
importante nas marchas de protesto, violentas ou no, nos atentados terroristas, nos desvios de avies e 
pedidos de resgate. Tambm o japons Mshima, que foi candidato ao Prmic, Nobel, no pretendeu 
unicamente, atravs do suicdio, que ele servisse de protesto, mas ao assumir o papel de vtima quis tambm 
atrair as atenes para uma situao que lhe parecia intolervel.

A mesma posio  vlida para os que, os tens ivamente, se transformam em tochas vivas.

A violncia, aplicada ao inundo exteTior, pode, tal como a agresso pessoal do suicdio e da mutilao, 
representar um grito de socorro e urna expresso de desespero. Quando se trata de

AGRESSIVIDADE                               93

motins, rebelies e revoltas, a agresso ameaadora mas ainda latente ou a violncia casual ou planeada 
constituem um sinal de esperana; apenas os parca-Imente emancipados podem sacudir a apatia paralisante 
da docilidade e provar ao mundo e a eles mesmos que j no tencionam suportar as realidades at a 
existentes.

A exteriorizao da agresso, principalmente quando assume h forma, de violncia manifesta, tem uma 
funo de escape. acilita a descarga afectiva e favorece a catarse. Aplica-se pois desde sempre como 
tentativa de uma nova orientao. Nos perodos de agitao, os detentores do pod5r desviam a agresso 
latente ou explosivap@ra inimigo@ exteriores e atravs deles encobrem os defeitos existentes no interior 
do seu prprio campo, que se une e forma um bloco ante a ameaa exterior. O facto .explica que.a 
proclamao do estado de emergncia, a descoberta de um perigo ou de um inimigo comum sejam de uma 
to grande eficcia na manipulao destes grupos, cuja agressividade poria.em perigo a coeso interna se a 
mesma no encontTasse no inimigo uma alternativa e um escape,

A regresso e a recada na violncia verificam-se sempre que no existam mais alternativas que (possam 
absorver os efeitos resultantes -dessa violncia. A violncia constitui a ultima ratio, o ltimo argumento, a 
que s se faz apelo quando e porque mais na-da -resta. A violncia, atravs da simplificao e da 
polarizao, cria aquela situao -em que se apresenta como nica sada possvel.

Em todas estas funes e em muitas mais, a forma manifesta de agresso e a violncia podem perfeitamente 
constituir objecto de uma planificao funcional, nacional (ou pelo menos considerada como tal) e, muitas 
vezes, ser olha-da como um fim. O facto de se considerar exclusivamente a violncia (e at mesnio a agre--
-sso) segundo o p@dro da perda de contrle, exploso e sintoma patolgico permite urna verdadeira 
falsific@o. Prejudica-se, assim, o meio de designar outras formas muito mais perigosas -de agresso e de 
violncia. Por detrs da agresso sintomtica oculta-se a estratgia da agresso. At hoje, o ciclo da 
agresso nunca foi descrito de forma sistemtica. Parece-nos, pois, necessrio resumir uma vez mais o seu 
desenvolvimento. A agresso livre, que se expressa pela fora bruta e sem peias,  a violncia e est 
condicionada por institui es interiores (conscincia e carcter) e instituies exteriores (regras, normas, 
grupos e orga-

94                    AGRESSIVIDADE

nizaes). Assim,  drgda, controlada e intensificada por estes factores. Transforma-se em agresso 
dissimulada, oculta e frequentes vezes inconsciente, que apenas  mobilizada por circunstncias bem 
determinadas em nome da necessidade, do dever e da autodefesa; quer dizer, de um todo superior que 
no necessita ser legitimado.

A agresso contida nas instituies resulta, pois, inicialmente, do processo de ligao da agresso humana 
(biolgica). O seu poder superior reside na apropriao e colocao da violncia individual numa posio 
de reserva; so os indivduos que, livremente ou a tal obrigados, renunciaram  utilizao da violncia em 
benefcio das instituies. O poder do todo  para o indvduo isolado, qualquer coisa de inacessvel, quase 
inconcebvel. Um simples acto de conscincia -no pode, s por si, reduzir imediatamente a violncia 
contida -nas instituies. No se ousa enfrentar o todo bem nos olhos, pois se verifica imediatamente * 
desespero de no o poder transformar. Continua-se, Portanto, * obedecer e a seguir cegamente, e cada 
um cumpre o seu dever de acordo com os moldes impostos pelas instituies. O fantico faz -do dever um 
instrumento de brutalidade impiedosa e inimiga da vida, o que o pode levar mesmo  autodestruo. O 
ndiferente u-tliza, pelo contrrio, a rotina do cumprimento do dever ao servio de um Titual cuja 
monotonia no  menos prejudicial ao homem. Se bem que a agresso institucional reprima a agresso 
individual, na qual estabelece uma ligao, as instituies legitimam, por outro lado, certas formas de 
agresso, sobretudo as que se submetem s suas -exigncias e servem os seus interesses. Libertam assim a 
agresso  ,que de outro modo estaria reprimda sob efeito da angstia e conscincia moral. A autonomia do 
ser humano, que engloba igualmente a conscincia e desenvolvraento do seu potencial de agresso,  
apenas permitida em determinadas condies que negam esta autonomia.

A libertao do homern, quer dizer, o contrle humano sobre as instituies em vez do contrle do homem 
pelas instituies, talvez possa comear por uma libertao da agresso, mas s se poder ating-la se esta 
agresso se encontrar estruturada e controlada: portanto, seexistirem novamente organizaes e 
institui,es. Estas so, por um lado, um produto e forma de expressao da agresso colectiva e individual e, 
por outro lado, contribuem para a moldar e canalizar graas  sua influncia retroactiva. Somente o 
reconhecimento dos disfarces e transformaes da

AGRESSIVIDADE                             95

agressopossibilita a sada do homem do crculo vciosc, que perpetua a eterna atribuio da 
responsabilidade dos homens  sociedade que criaram e da sociedade aos homens que ela manipula.

Nem o equilbrio interior nem a convivncia humana so compatveis com a violncia. Quer seja um 
sintoma ou uma estratgia, a violncia arrasta, por seu lado, o aparecimento e consolidao de autoridades 
destinadas a controlar e a canalizar a agresso livre, a unific-la e dirigi-Ia -num determinado sentido.  
este o ciclo da agresso.

O nosso -propsito no consiste em lamentar e censurar a espiral diablica do aumento de violncia e 
brutalidade, mas sim em descrever e talvez explicar de uma outra forma as condies que regem o 
pluTalismo, da agresso. Esperamos, assim, descobrir em muitos fenmenos sociais e psicolgicos da 
realidade leis at aqui ignoradas ou a que no foi atribudo o devido valor.

A mitologia reala o que a experincia profana confirma. De forma sempre nova, os velhos temas 
dramticos so modificados, metamorfoscados, desempenhados e ultrapassa-dos: dipo e Ssifo, com as suas 
tentativas e fracassos sempre renovados; Polcrates, cu@as vtimas os deuses desprezam e cuja perda 
provocam por lhe invejarem a felicidade, e, finalmente, Prometeu, o ladro criminoso e o libertador 
herico, o libertador atravs do crime.

AS TEORIAS

O estudo da agresso

O

s factores hereditrios especficos, natos e genticos, as

influncias psicolgicas -e culturais, as estruturas do sistema nervoso principal, bem como as hormonas e os 
padres sociais, constituem, na sua reciprocidade e nterligao, o fenmeno -denominado agresso. Para 
mencionar apenas o caso ingls, foram publicados nestes ltimos cinco anos seis mil livros versando o tema 
da agresso e da violncia, no incluindo as dezenas demilhares de artigos inseridos em jornais e revistas. 
As opinies sobre a agresso so quase to diversas como os autores que se dedicam a este tema: somente 
um nmero limitado se atreve, no entanto,  elaborao da sntese dos diversos factores em benefcio de 
uma concepo global do fenmeno. A teoria mais popularizada defende que no h necessidade de uma 
teoria para a descrio de fenmenos agressivos.; no se consegue uma compreenso completa do todo, 
mediante a observao isolada. O brilho das diversas partes des-lumbra, como se se tratasse de -mosaicos, e 
impede a percepo da totalidade do fenmeno.

Dada a multiplicidade quase infinita das origens e dos efeitos da agresso, esta possui um efeito vital para os 
mbitos da investigao referentes  biologia, gentica, cincia comparada do comportamento, medicina, 
farmacologia, qumica, psicologia, psj_ quiatria, sociologia, antropologia e, con"uentemente, a filosofia, a 
teologia -moral, a poltica, a cincia das comunicaes, pedagogia, etnologia, religio e portanto quase 
todos os -ramos de investigao, cincias fsicas, naturais e do esprito. A restrio a apenas um ou a Aguns 
destes mbitos, com excluso ou com uma meno ocasional dos outros, torna mais precisos os resultados

98                     AGRESSIVIDADE

da investigao, mas pouca informao fornece no que se refere  iruportncia da totalidade do problema.

A investigao da agresso reflecte, assim, a confuso que pretende esclarecer. A tentativa de uma anlise 
dos resultados existentes demonstra, acima de tudo, que a investigao suscita um interesse real que 
aumentou quase inacreditavelmente nestes ltimos tempos, mas tambm que os conhecimentos obtidos so 
confusos, contraditrios e caticos. Os eclctcos que se orgulham da sua independncia no queirem 
aderir a qualquer sistema particular; fazem uma escolha entre os diversos sistemas, sem sistematizao, sem 
fornecerem uma razo especial para essa escolha ou eliminao e sem tentarem estruturar urna 
compreenso uniforme..A no adeso a princpios estabelecidos e reconhecidos como essenciais, a recusa 
de teorias por razes te ricas -em nome da preciso quantitativa -dividem e fragmentam o fenmeno total 
numa multiplicidade de elementos que so vlidos em si, mas que, longe de estabelecerem a relao que os 
une ao conjunto, so a negao desta relao. A mesma cincia que sacrifica a relevncia do entendimento 
 preciso mensurvel dos seus mtodos ocasiona os mitos populares que denuncia.

O bom senso humano , pois, levado a pedir ajuda  inteligibilidade para adiar o, fracasso, a tendncia  
inrcia e  repetio. O conhecimento de cada um -quer dizer, o que lhe pareceu plausvel e o que aceitou 
-representa o conhecimento em si, tantomais que se trata de um conhecimento relativo  totalidade,  sua 
complexidade e ipossibilidade de transformao.

e em dia as mitologias tm, no entanto, de recorrer ao prepu091o da cincia para serem dignas de crdito. 
 extremamente difcil, em particular no domnio da agresso, dstinguir entre o conhecimento cientfico e a 
sua lenda, a verifica@ experimental da verdade e a sua utilizao com objectivos polMicos, porque a 
necessidade de plausibilidade causa, frequentemente, na demonstrao, aquela simplificao e 
dramatizao que constituem uma deformao da realidade.

O homem, agressor instintvo

Basta consultar a Histria e olhar em volta para se tornar imediatamente claro que o homem  um agressor 
instintivo. De acordo com a sua verdadeira essncia  e permaneceu uma fera

AGRESSIVIDADE                             99

que, graa@ tanto  sua inteligncia e poder criador como  falta dos mecanismos de inibio existentes em 
todos os animais, se torna particularmente perigosa e rpida. De acordo com esta teoria, -a violncia e a 
agresso so a verdadeira essncia do homem, a sua caracterizao original, o instinto e princpio bsico 
de toda a vida. Por detrs da fachada pouco segura da civilizao e atravs do verniz que lhe  dado pela 
cultura, o homem esconde, por cobardia e comodidade, a sua verdadeira natureza agressiva: a violncia.

A agressividade natural do homem tem, pois, um carcter inato e hereditrio, uma realidade que nada 
poderia, portanto, modificar. A investigao da agresso  recente, mas a agresso  antiga, to antiga como 
o homem. A tendncia recentemente visvel neste ltimo para se tornar ele prprio objecto de reflexo, 
para se dedicar ao estudo e domnio dos seus instintos, no poderia modificar os instintos em si. Quem no 
acredita na natureza bestial e inaltervel do homem  demasiado comodista, cobarde, ignorante, ou 
demasiado preso a esta moral de escravos que  a moral da igualdade para reconhecer a nica verdade 
natural e evidente: sempre e em qualquer lugar o mais forte venceu o mais fraco. A lei da selva  a lei da 
vida e a selvagem natureza humana s poder ser domada temporria e limitadamente. A exploso,dos 
instintos inergulhados nas trevas  tanto mais de esperar quanto mais fortemente se encontram reprimidose 
negados pelas fronteiras antinaturais que lhes so impostas. A popularidade desta opinio, que os  jornais 
propagaram, dotando-a de um cunho de convico,  em si um fenmeno digno de investigao.

Pretende-,se atribuir um importante valor de adaptao ao instinto de morte do homem historicamente 
programado. A verificao inevitvel da agresso como adaptao  sobrevivncia em breve se torna num 
elogio da agresso e, simultaneamente, numa glorificao dos meios radicais da agresso que constituem a 
sua forma mais pura: a violncia.

Robert Ardrey defende a teoria de que no foi o homem quem descobriu as armas, mas as armas que 
criaram o homem, quando a jovem espcie humana triunfou do seu Concorrente, o Australopithecus 
afficanus. A descoberta e aperfeioamento das armas e a sua utilizao nunia luta contra os opositores 
constituem mecanismos genticos, programados de antemo. Da mesma forma que a ave constri o ninho, 
tambm o homem obedece a

100                   AGRESSIVIDADE um imperativo territoral. Devido a uma obrigatoriedade biolgi,ca natural 
existenteno seu ser, o homem luta pela posse, bem corno pelo maior prestgio possvel. A obteno do 
respeito dos seus companheiros de raa, que ele apenas pode conq@iistaT por luta violenta,  para si uma 
necessidade fortemente instintiva. A violncia rege o mundo. Foi ela que gerou o homem e lhe concedeu a 
sua preponderncia sobre os animais. O homem s pode sobreviver atravs da violncia. O perigo de 
morte que o ameaa consiste em (poder esquecer este princpio natural e biolgico para se deixar embalar 
pela iluso da eliminao da violncia e

pela crena na possibilidade de aprendizagem e educao.

Nenhuma investigao comprovada da Pr-Hstra indica que o bpede carnvoro denomina-do 
Australopithecus africanus tenha vivido na mesma poca que o Homo sapiens. Este ltimo no teve, pois, 
ocasio de o exterminar, e muito menos com armas qu@ apenas inventou para se defender dos seus 
semelhantes ou aniquil-los e que utilizou, quase exclusivamente, para esse fim.

Desmond Morris profetiza que a nossa sociedade, cada vez mais montona, ver aumentar a necessidade 
de violncia inerente  natureza biolgica do homem. O homem moderno, saturado de bem-estar, evadir-
se-ia pela violncia, de acordo com esta ,teoria, da existncia annima destes zoos humanos que so as 
nossas cidades, destas gaiolas que ns mesmos edificmos. A violnca permitir-lhe-ia afirmar-se e 
encontrar-se a ele mesmo.

F. Meyer distinguia seis espcies de agresso, obedecendo a diversas formas de ecloso e biologicamente 
organizadas em ,determinadas partes do crebro, designadas como centros lmbicos: a agresso 
depredadora, a agresso por rivalidade, a agresso por medo, a agresso por irritabilidade, a agresso 
territorial e a agresso maternal. Falta ainda acrescentar a agresso nstrumental, pela qual se reconhece 
que o comportamento agressivo , tambm, um -comportamento aprendido e que se revelar, 
provavelmente, em todas as situaes que lembrem a fase prirativa de aprendizagem.

Graas  feliz combinao de um dom artstico relativo  percepo das formas e relaes, de uma 
exactido cientfica e de um poder de descrio a que confere feio literria, Konrad Lorenz tornou-se o 
pai da moderna cincia do comportamento, na qual as suas descobertas exerceram influncia decisiva.

No decurso de experincias particularmente inventivas, Lorenz demonstrou que, quando submetido a 
estmulos apro-

AGRESSIVIDADE                             101

priados e a objectos correspondentes, o comportamento instintivo revela-se marcado (geprgt) de forma 
definitiva e decisiva.

As experincias de sensibilizao (Prgungsexperimente) confirmam a nfase que na psicanlise se atribui 
 importncia decisiva, se bem que noexclusiva, das impresses e experincias precoces que influenciam 
a forma como as impresses posteriores so filtradas, enriquecidas, organizadas e assimiladas. Lorenz 
recusou o instintode morte freudiano como uma hiptese intil, e estranha  biologia, para afirmar, 
inversamente, a funo produtora do instinto de agresso e a sua utilidade para a conservao da espcie. 
Sob o termo agresso englobou o instinto que leva cada um a lutar contra os membros da sua prpria 
espcie.

A.po@sibilidade de aprendizagem individual  assegurada pelos instintos que fazem parte da herana da -
espcie, mediante instrues programadas que lhes so inerentes; esta possibilidade acontece quando se 
verifica uma flta ou unia falha no interior ,do centro informativo filognico. A maleabilidade do instinto  a 
condio que possibilita a aprendizagem individual. O homem possui somente um pequeno nmero de 
programas herdados dentro de uma absoluta rigidez e que respondem por reaces sempre semelhantes a 
estmulos definidos. A plasticidade das suas reaces instintivas confere-lhe uma capacidade de 
aprendizagem quase ilimitada (,mas de forma alguma integral).

Segundo a teoria de Konrad Lorenz, os mecanismos de inibio que no animal se traduzem por 
comportamentos anlogos  morab) so to inatos e instintivos como os impulsos inibidos por um vasto 
reportrio de gestos de -calma e submisso. A natureza  racional; utiliza o instinto de agresso do animal 
sem permitir que o mesmo degenere. A agresso destruidora  uma falha no funcionamento do instinto, mas 
no o prprio instinto, que, sob a -etiqueta de um opretenso negativismo, tem todo o gnero de utilidades: 
aquisio e ritualizao de hbitos, debates comba,tivos mas limitados que modelam e conservam a 
hierarquia social, a formao de uma comunidade de combate amigvel dirigida contra o inimigo exterior e 
til  conservao da espcie.

Konrad Lorenz defende que as relaes individualizadas, o elo do amor pessoab), nasceram da 
ritualiza o da ameaa e do ataque, que se vem orientados numa nova direco. A amizade, o amor, a 
camaradagem e o verdadeiro entusiasmo so sentimentos calorosos originrios da unio e comunica@o e 
que no existiriam sem a agresso. A tendncia do entusiasmo combativo con-

102                   AGRESSIVIDADE

diciona largamente a organizao social e poltica da humanidade. Esta no  comb&tiva nem agressiva 
pelo facto de se encontrar dividida em partes que se defrontam hostilmente; a sua estrutura deve-se, pelo 
contrrio,  possibilidade de desencadeamento da agresso social.  esta a dupla face do homem:  o 
nico ser capaz de se consagrar aos mais elevados valores morais e ticos, mas que tem necessidade, para 
atingir os seus fins, de um mecanismo de comportamento filogenicamente adaptado: as caractersticas 
animais deste -mecanismo contm em si, no entanto, o risco de o levar a matar o irmo, convencido de que 
ao faz-lo age no interesse destes mesmos valores. Ecce homo.

Na sua posio de optimismo Konrad Lorenz depe grandes esperanas num alargamento da 
ritualizao, num enfraquecimento dos conflitos humanos e no elodir da agresso subordinada aos moldes 
do desporto, concorrncia pacfica, tal como se -verifica na conquista do. espao, do conhecimento pessoal 
e utilizao a-poltica dos conhecimentos cientficos e do humor. Tal como aconteceu com Fretid, foi 
criticado por especulao e fabulao, porque tudo o que provm da imaginao,.e ultrapassa as fronteiras 
estabelecidas parece de antemo suspeito aos estudiosos do conhecimento. O medo, quase pnico, de que 
se possa confundir o homem e o animal faz com que se ponha em dvida o direito de aplicar analogamente 
ao homem as conclus es tiradas a partir do comportamento animal. O conceito do instinto como modelo de 
comportamento inato, programa-do e filogenicamente herdado, apenas poderia, ao que se diz, ser 
limitadamente ou mesmo nada aplicvel ao homem.

Os comportamentos humanos, particularmente os comportamentos agressivos, no seriam determinados por 
estas condies instintivas, mas  condies sociais e psicolgicas. No haveria no homem o instinto 
especificado ligado a um enraizamento impulsivo de agresso como tal, mas unicamente tendncias 
agressivas adquiridas e provocadas sob o efeito da frustrao. Lorenz  continuamente acusado de 
desculpar e justificar a agresso: a psicanlise, por seu lado, tambm no conseguiu eliminar totalmente a 
suspeita de ter, seno inventado, pelo menos proposto como modelo a imitao de diferentes formas de s-
exuaIidade que descrevia pela primeira vez. O facto de Lorenz afirmar que a agresso no  um 
comportamento adquirido, mas uma realidade instintiva inata, no significa a aceitao da imutabilidade e 
inevitabilidade dos efeitos destruidores da agresso. Tenta, pelo con-

AGRESSIVIDADE                             103

trrio, descobrir a analogia com os processos evolutivos do rei-no animal, bem como novas possibilidades 
de ritualizao e de estruturao da agresso, ao mesmo tempo que acentua o carcter especfico do 
homem e o incita a usar mais larga e criadoramente o seu humor e a razo. A continuidade de evoluo, 
biolgica que se processa desde o animal at ao homem ou -para empregar uma linguagem mais objectiva- 
natureza animal do homem aparece imbuda de um cunho to relevante como a descontinuidade desta 
evoluo, quer dizer, o facto de o homem ser diferente do animal: melhor ou pior, digno de mais amor ou 
dio, mas de qualquer modo radicalmente diferente.

Este omotivopor que as analogias retiradas do reino animal, se bem.que indispensveis, so igualmente 
insuficientes e podem conduzir a erros perigosos quando se lhes pretende atribuir uma feio de fonte 
nica de -explicao. Toda a concluso analgica fundamenta-da na observao deveria ser acompanhada 
pelo, reconhecimento explcito da no analogia resultante do carcter especfico que define a natureza 
humana.

Glorficao da violnca

Os partidrios e defensores da violncia podem ir buscar afinidades tericas a uma longa histria e 
testemunhos ilustres. Georges Sorel, tpico representante do movimento antiliberal e antidemocrtico 
originrio de Frana e significativamente em ligao com as obscuras maquinaes do escndalo do 
Panam e do caso Dreyfus, afirma: (A violncia existe desde o princpio -da vida e no precisa de 
aprovao do direito e de ideais.
O apelo  violncia tem por fim agitar a burguesia, que, demasiado preocupada com o seu conforto, se 
transforma numa classe degenerada pronta a comprometer-se seja de que forma for. Sorel apregoa e 
deseja a violncia para pr fim ao capitalismo bancrio e a outras decadncias e corrupes da burguesia; 
pers@gue e inventa o mito. A fora proletria ou se tomar vitoriosa mediante greve geral ou, apelando 
por sua vez ao contra-ataque, far vir  superfcie as energias da burguesia, que, em vez de p@Gcurar 
civilizar o proletariado uma vez mais, se tornar consciente da sua misso e cumpri-la- atravs da fora. A 
violncia, segundo Sorel, representa a nica funo criadora da His~ tria. Para ele, que reconhece a 
vitalidade irracional de Bergson.

104                   AGRESSIVIDADE

como reaco ao positivismo cientfico, a violncia constitui a paixo suprema, a energia mtica interior e o 
poder criador. Irracional por definio,  por esse mesmo motivo autntica e pura.

Karl Marx. ap@lidou a violncia de parteira da nova sociedade e designou os motivos sangrentos como 
uma necessidade por vezes indispensvel de -desenvolvimento, desde que sejam postos ao servio do 
movimento racionalmente determinvei da Histria.

Sendo a violncia o indcio e expresso de qualquer soberania, os anrquicos (anarchea: ausncia de 
domnio), que recusam todo o ipoder e soberania apelidando-os de desumanos, so radicalmente 
desumanos, so radicalmente contra a violncia e praticam-na radicalmente. Protestam contra a violncia e 
utilizam-na de forma ilimitada em todos os lugares e sem escolhas. A teoria de Bakunine, segundo a qual o 
prazer de destrui o poderia ser talvez igualmente um desejo criador, pretende reivindicar o -direito de 
determinao do homem na sua relao com a realida,de, mas perde simultaneamente esse direito pele, seu 
aipelo a uma violncia irracional que no tem outra justificao do que ela mesma e coloca a poltica e o 
crime em planos idnticos.

No se. poderia dizer mais a favor do statu quo. Uma vez que as anarquias explicam todo o acto criminoso 
como feito poltico, torna-se fcil -paira o establishment punir uma oposio poltica como crime. A 
provocao permanente no desmascara a violncia latente, obrigando-a a concretizar-se, mas 
desencadeia-a e m,obiliza-a. Ela fornece-lhe umanova justificao, permitindo-lhe apresentar-se no s 
como atitude legtima, mas como necessidade absoluta. A fuga  realidade  uma atitude apoltica e 
antipoltica. Leva  troca das possibilidades realizveis, que so necessariamente de ordem poltica pela 
justificao da sua indignao. Cai assim inesta violncia e na cegueira que teoricamente condena, mas que, 
 precisamente, devido  radicalidade da sua (degti,ma indignao, IpratiZindiscriminadamente ao mesmo 
tempo que as provoca e   egiti   por parte do adversrio.

Wilfredo Pareto, nascido em Gnova no ano de 1848, declarou que o poder, o sinal mais manifesto de 
superioridade,  o que define as lites. Todo o poder  alcanado pela violncia e conservado pela 
astcia. A nica forma. de organizao natural assenta nas diferenas e desigualdades e exclui as classes 
domina-

AGRESSIVIDADE                             105

das de qualquer participao no poder; esta s existe nas promessas e derivaes, (hoje denominadas 
racionalizaes) falsas e enganadoras de democracia. Cada modific@o no regime no passa de 
substituio do domnio de uma minoria pelo domnio de uma outra.  esta uma lei tanto da vida biolgica 
como da social e pode-se demonstrar -matematicamente. (Pareto e Sorel eram engenheiros civis.) Os 
indivduos ou grupos  com crebros destrudos pela praga de sentimentos humanitrios esto destinados 
a morrer. A violncia desempenha uma funo positiva como -reaco vital histrica que manifesta a 
capacidade de expanso e o pod@r de sobrevivncia da colectividade. A violncia constitui o meio e a 
realidade da Histria. O direito das pessoas (dos regidos) tem o mesmo valor de um pedao de papel. Os 
poderosos fazem o que querem com ele. Pareto considera a violncia como o clima natural da vida em 
sociedade.  alheia a valores, uma vez que no necessita de valores nem de legitimao econstitui em si um 
valor. Rege os homens ao mesmo tempo q@e os eleva acima dela elhes permite exercer a sua vocao 
irracional, que est de acordo com o mais ntimo da sua natureza.

No captulo intitulado Da guerra e dos guerreiros, que faz parte da obra Assim Falou Zaratrusta., 
Nietzsche escreve: Pro-

curam um inimigo? Faam uma guerra com o vosso pensamento... Dizem-me que a boa causa  o que 
santifica a guerra? Eu afirmo que  a verdadeira guerra que santifica todas as causas. A guerra e a audcia 
fizerammaiores coisas do que o amor ao prximo... Um bom guerreiro gosta mais de ouvir ---Deves do 
que Eu quero. Mesmo que prefiram fazer o que  melhor cumpram as ordens recebidas... Levem uma 
vida de obedincia e de guerra. Que importa uma vida longa! Qual o gueTreiro que deseja ser poupado?

J. P. Sartre elogia Franz Farion, que aprova sem hesitao todas as atrocidades cometidas em nome da 
violncia legtima contra os senhores coloniais, e atesta que nem um sangue demasiado ardente nem uma 
infncia infeliz tinham conferido a Fanon uma predileco especial pelo crime. Interpreta a situao 
meramente como ela  na realidade. Para Fanon, esta violncia descontrolada no representa um 
temporal absurdo nem o irromper dos instintos selvagens nem sequer o resultado de qualquer 
ressentimento:  o homem a reorganizar-se.

Sartre acrescenta:  preciso ficar aterrorizado ou tornar-se terrvel, quer dizer, abandonar-se aos 
processos de soluo de uma

106                  AGRESSIVIDADE

vida falsa ou conquistar a unidade original... Sartre acredita na santificao da violncia pela violncia. 
Sim, a violncia p?de, tal como a lana de Aquiles, cicatrizar as feridas que produziu.

Elogo da volnca legtma

 inmero o grupo de seguidores deste aspecto particular de violncia - a sua , na verdade a nica ao 
servio de uma causa superior. A literatura comunista, fascista, da esquerda, da direita, revolucionria ou 
contra-revolucionria de todas as pocas justifica a violncia da sua prpria causa em todas as lnguas e 
dialectos mundiais, glorifica-a e celebra-a como princpio de criao, como essncia do homem e o nico 
meio de que disp e para desempenho da sua misso como auxiliar e executante da Histria, liberdade, 
humanidade, justia, bondade, -paz, igualdade e fraternidade. A violncia  designada como sinnimo de 
valentia, coragem, deciso, fora e virilidade.  celebrada como o nico meio que o homem possui de 
alcanar a verdade e autenticidade do seu ser, bem como o sentimento e afirmao de identidade;  
igualmente vista como bem de consumo, uma vez que permite combater o tdio.

A defesa do espao vital e a da s@grada integridade territorial apresenta-se como argumento convincente 
para o que gosta de ces ou o que uti-liza o caminho de ferro: o co fiel afugenta de forma agressiva todo o 
intruso, tal como para os ocupantes de uma carruagem de comboio cada recm-chegado  recebido como 
acrscimo indesejvel e repelido agressivamente. O intruso representa primeiramente o exterior, mas 
depois torna-se igualmente parte do grupo e trata o prximo passageiro da -mesma forma como foi tratado. 
Cada indivduo e cada cultura possuem o seu prprio espao vital, que consideram sagrado, e a sua 
invaso parece-lhes um atentado  sua independncia e dignidade; a agresso que  posta em movimento 
para a defesa deste territrio sagrado  elamesma sagrada e santificadora. Vrios animais possuem um 
duplo espao vital: um, mais pequeno, destinado ao ataque e defesa e outro, maior, que utilizam como 
espao de fuga.

Tambm em muitos animais, porm, as necessidades do espao vital esto condicionadas ao treino e ao 
hbito. O co bem adestrado defende o extenso parque do seu dono com a mesma veemncia que a 
pequena casota que constitui o seu territrio.

AGRESSIVIDADE                             107

O espao vital dos animais domsticos e de grande parte dos selvagens (quer dizer, aqueles que os 
homens mantm selvagens dentro de certos limites territoriais) depende das complexas leis sociais que 
regem as concepes de propriedade entre os homens. Muitos consideram uma carruagem de comboio 
cheia quando leva quatro pessoas, enquanto outros se satisfazem quanto s suas exigncias de integridade 
territorial com uma lotao de oito pessoas. Os particularmente cor@plexos pretendem mesmo evitar a 
ameaa de uma lota o excessiva mediante comboios ou vages suplementares ou expulso pela violncia 
dos que chegam atrasados.

A delimitao do espao vital encontra-se condicionada a regras de propriedade arbitrrias que pretendem 
ser naturais. Onde termina pois o meu territrio e onde comea a invaso do territrio alheio? Os Ingleses 
defendem o seu direito de posse na fndia e Singapura, os Alemes o seuespao vital em Estalinegrado e 
Dnkirchen, os Franceses na Indochina e no Norte de frica e os Americanos no Sudoeste Asitico e na 
Europa. As possesses espalhadas pelo mundo inteiro e pertencentes a milionrios, industriais e grandes 
potncias so suas legitimamente. Tm o direito e at mesmo o. dever da sua defesa. Os citados elementos 
tm igualmente o direito de alargar o seu poder e pode este direito recorrer  autoridade do imperativo 
territorial?

Sartre, Fanon, EldrigeCleaver, Che Guevara, Ho Chi Minh, Mo Ts-Tung elogiam, celebram e fazem um 
ritual da sua prpria violncia; apresentam-se como instrumento de libertao, como fonte de unio e de 
abnegao. O egosmo das suas ideologias, que nada tem de sagrado, santifica a violncia como contra@ 
violncia e celebra a destruio do homem como triunfo da humanidade.

Os apstolos da violncia afirmam que esta no passa para eles de um instrumento destinado a instaurar 
uma melhoria da ordem, que desejam seja por que preo for-este preo  precisamente o da violncia. 
Cegos e fascinados pela atraco que sobre eles exerce esse processo que glorificam, acabam por ver no 
meio um fim absoluto, se bem que tal como os romnticos e anarquistas sejam fundamentalmente conta 
ela.

108          AGRESSIVIDADE

Ncolau Maquiavei no sentia a paixo da violncia, mas sabia no entanto acord-la nos outros e utiliz-la 
para os seus intentos. No era um profeta mas um tecnocrata do poder. Demonstrou que, embora as 
convices nasam das palavras, no  necessrio tom-las  letra e que a lgica e a razo apenas 
representam uma parcela relativamente pequena dos acontecimentos polticos e sociais. No pretendia 
glorificar a irracionalidade da violncia, mas pod-la usar racionalmente ao servio do seu prncipe.

Maliatma Gandlii, violenta e tragicamente assassinado, pregava e utilizava as armas da desobedincia civil e 
do confronto pacfico. A Satyqgraha, de Gandlii, relata a experincia purificadora do pacifismo, que pouco 
mal inflige ao inimigo ou se limita mesmo  ameaa. A no utilizao da violncia acentua a comunho final 
de interesses dos dois parti-dos e mantm em aberto a possibilidade -da sua evoluo recproca numa 
atitude de respeito mtuo. Esta estratgia do pacifismo, que se apoia no respeito e considerao mtuos, 
implica uma compreenso anterior dos adversrios no sentido de -evitar o emprego da violncia, sejam 
quais forem as circunstncias. - a pressuposio de uma situao ainda no inteiramente polarizada em que 
o adversrio nunca  verdadeiramente destrudo.  altamente discutvel s.e o princpio do pacifismo seria 
eficaz no caso da no existncia de uma personalidade dirigente carismtica e acima de tudo quando o 
conflito no tem logo de incio feio cavalheiresca. Um Estado totalitrio no teria suponado os 
sacrifcios voluntrios de um Gandlii, nem os teria tornado pblicos. Nenhuma crnica fornece informaes 
sobre a tentativa de resistncia infrutfera, que a violncia impiedosa aniquila, abafa e reduz ao silncio.

O homem como experncia frustrada

Niko Tinbergen, o pioneiro da etologia, apelida o homem de assassino sem freio. Quer ele dizer com esta 
afirmao que ao homem faltam os instintos natos inibitivos que impedem os ani-mais de matar os da sua 
espcie. Pela razo e pelas regras que lhe do a possibilidade de viver em sociedade o homem deveria 
primeiramente criar em si as inibies que o animal recebeu instintivamente. Tinhergen refere o curioso 
paradoxo pelo qual

AGRESSIVIDADE                              109

o prprio desenvolvimento e perfeio do crebro humano, que representam a mais elevada forma de 
adaptao realizada pela evoluo natural, arrastam uma discrepncia entre as funes intelectuais do 
crtex cerebra,1 e os aspectos emotivos do sistema lmbico: a razo e o sentimento encontram-se em luta 
constante.
O homem criou uma vida interior e um ambiente ( ele o nico dos animais capaz de o fazer), que sero 
talvez o motivo da sua perda. O crebro  ameaado. pelo inimigo que ele prprio criou.  ele o inimigo 
implacvel de si mesmo.

A,rthur Koestler defende a teoria de que o indivduo s.e encontra de facto no cume de uma hierarquia 
orgnica, mas est no ponto mais baixo de uma hiera@quia sociab). Nem todas as formas de agressividade 
so necessariamente prejudiciais, porque nunca haveria progresso sem a existncia do descontentamento 
como estmulo para a originalidade. A agressividade quando utilizada em pequenas doses  umestmulo, e  
um veneno se empregueem grandes doses. Acrueldade e a violncia no nascem do egosmo individual. 
As tendncias integracionais do indivduo so iucomparavelmente mais perigosas do que as de auto-
afirmao. Utilizando um processo de exposio anlogo ao de Tinbergen, Koestler refere-se ao 
extraordinrio desenvolvimento do crtex cerebral humano, com todos os seus milhares de clulas 
nervosas que possibilitaram a evoluo desde o machado de pedra ao avio e  bomba atmica e da 
mitologia primitiva  teoria quntica. No mbito dos nossos instintos no s.e verifica, porm, idntica evo-
luo tendente a um aperfeioamento moral do homem.

A redescoberta das antigas estruturas cerebrais (que regem os sentimentos e emoes) atravs de uma 
nova estrutura, mas sem um contrle defin  ido. sobre as antigas, provoca forosamente confuso e 
conflitos. Nada poder impedir que a raa humana se aniquile a ela mesma, a no ser que se consiga 
descobrir, sob ,forma de -medicamento., um meio teraputico para contrle da actividade contraditria e 
destruidora do esprito humano. O que se.deve ento procurar reside (meste estado de equilbrio dinmico 
que concilia a razo e a emoo e volta a instaurar uma ordem hierrquica.

Nenhuma descrio por mais simples que seja pode permitir que se ignore.a complexa constituio do 
homem. Este  apresentado sucessivamente como ser poltico (zoon Politicon), um ser com inteligncia e 
capacidade criadora, apto a uma auto-reflexo (selbst reflexion) e poder de representao. Dada a sua 
feio

110                   AGRESSIVIDADE

a

ti-racional e antidemocrtica, bem como a glorifica p                                                     id@o dos sentimentos do 
inconsciente instintivo e da irracional       de, vrias destas teorias do provas de um curioso sentimento de 
inveja em relao ao animal, de um por assim dizer desejo nostlgico de brutalidade. Lamentam a falta de 
certeza do instinto no homem

e a sua capacidade de aprendizageme formao. Para eles o desenvolvniento do intelecto  a 
compensao de uma falta, um expediente da natureza transformado em virtude. Somente o homem 
necessita de intelig ncia e de auto-reflexo porque lhe falta a

rurana do instinto. A razo humana  a tentao que, de ilusegso em iluso, o induz em erro e o expe s 
subtilezas e perigosos enigmas do esprito. A sua continuamente enaltecida capacidade de simbolizao. 
no passa da expresso de dotes naturais inferiores e pobreza de instinto. O homem  o nico ser que, 
graas  inteligncia,  capaz de cometer suicdio individual ou colectivo.

As opinies contrrias consideram o desenvolvimento do esprito humano como a maior conquista da 
evolu o. A seus olhos o perigo no reside na falta, mas no excesso de semelhana entre o homem e o 
animal, no facto de apesar de -racional se deixar dominar por impulsos e necessidades animalescas. A sua 
patologia encontra-se pois num contrle insuficiente da razo pelos instintos.

Para uns o perigo reside na razo demasiada ou na capacidade de raciocinar e para outros num mnimo de 
 ntelectualizao, na escravatura -do esprito s emoes que inconscientemente o dominam. Para Koestler 
e muitos outros, as predisposies psicofsicas do homem so em si uma construo faltosa. O homem visto 
por tal prisma assume caractersticas de ser doentio e patolgico, constituindo uma experincia falhada, um 
passo em falso, um capricho da natureza.

O homem: uma maroneta condicionada aos impulsos

Segundo uma concepo popularizada e vulgarmente aceite, o homem, regido por impulsos inconscientes, 
no passa de uma simples marioneta sujeita aos seus impulsos e instintos.

A psicologia das profundidades teria desprovido o homem de toda a responsabilidade pessoal; uma vez na 
impossibilidade de .conhecimento dos impulsos inconscientes, que, no entanto, o

AGRESSIVIDADE                               111

controlam, no lhe poderia ser imputada responsabilidade pelos actos praticados. Da mesma forma que o 
conceito de agresso como instinto, ao realar a inevitabilidade da agresso, serviria para j@stificar as 
estruturas do pode-r, a psicologia das profundidades seria um convite canalizado (de bom grado aceite), 
ainda que talvez inconsciente  fuga de responsabilidade; seria uma desculpa gigantesca para a fraqueza 
pessoal e a passividade social.

Siginund Freud insistiu sempre numa concepo de impulsos estritamente dualista. A rgida separao 
origin ria entre os impulsos do eu e os impulsos sexuais foi substituda pela diferenciao posterior, 
igualmente radical, entre impulso de moirte e de vida. Freud definiu o impulso como uma tendncia 
inerente ao organismo vivo, que o impele  reproduo e restabelecimento de uma situao anterior. 
Realou o instinto de conservao do ser vivo e acentuou que todos os instintos orgnicos so factores 
de conservao adquiridos historicamente e que tendem para a regresso e reproduo de situaes 
anteriores.

Podemos tomar como facto incontestvel, continua, que tudo o que tem vida morre e regressa ao 
estado anorgnico; morre por razes internas. Declara que a finalidade de toda a vida  a morte e 
inversamente: oqueno tem vida  anterior ao ser vivo.

A defesa do carcter regressivo do instinto assenta na observao do fenmeno da obrigatoriedade de 
repetio. O princpio do iprazer parece precisamente encontrar-se ao servio do instinto de morte. 
Siginund Freud apelidava a doutrina psicanaltica dos instintos por assim dizer como a nossa mitologia e 
via no instinto um conceito fronteirio entre o psquico e o somtico. Antes de se resolver a aventar a 
hiptese de um impulso de morte primrio, teve muitas dificuldades a ultrapassar. Sabia que qualquer 
descrio relativa a este assunto deveria necessariamente produzir uma impresso quase mtica; 
modificou porm a sua opini o anterior apesar das oposies exteriores e interiores e realou a natureza 
primria do masochismo e a transposio do instinto agressivo contra o prprio ego. Nesta perspectiva o 
instinto de morte  originariamente dirigido contra o prprio organismo, e s pela sua mistura com o lbido 
se orienta paira o objecto externo.  esta a diferena terica decisiva em relao, ao instinto de agresso 
referido por Alfred Adlers, que considera a necessidade humana de prestgio e ambio do poder como 
compensao de uma suposta ou real desigualdade, como

112                   A G R E S S I V 1 D A D E

expresso de uma agressividade dirigida desde a origem para o exterior.

Na sua obra Man against Hmself, escrita h mais de dez anos, Karl Merminger descreve as formas 
manifestas ou ocultas do suicdio (autodestruio inconsciente pelo lcool, tabaco, acidentes, doena 
psicossomtica, etc.). Acontece, no entanto, frequentes vezes que a agresso dirigida para o interior se 
torna paranica mediante o mecanismo defensivo da projeco. As necessidades interiores agressivas que 
ameaam envolver o indivd,uo em conflito com a sociedade, a suamoral e a sua prpria conscincia 
projectam-se em grupos que lhe so estranhos e que assim se transfwinam automaticamente em inimigos.

Paula Heimann afirma que -entre as atitudes que caracterizam o reportrio psquico do homem faz parte a 
procura de objectivos nobres, corri a ajuda dos quas realiza e dissimula o seu desejo de destruio: Na 
experincia subjectiva o impulso de destruio, essa energia que impele o homem  crueldade contra si 
mesmo e contra os objectos, encontra-se em ligao com a representao da morte, como medo e 
simultaneamente desejo da mesma.

Alexander Misterlich considera a agresso corno faculdade vital essencial; defende que a agresso to 
inerente  existncia humana como os rgos que a constituerri. De forma semelhante  diversidade 
existente entre a sexualidade pr-genital e genital, ele,pretende diversificar a agresso incontrolvel e a 
controlvel. A ltima representa a actividade adaptada a um fim ou  realidade. Os actos regressivos 
caractersticos da primeira -a regresso , na verdade, possvel tanto no domnio da agressividade como no 
da sexualidade - podem nesse caso ser imaginados como actos no diferenciados, no adaptados a um 
objectivo nem  realidade e que outrora representaram uma fonte de prazer ao permitir o fim da tenso.

Ren Spitz atribui  agresso um papel que se assemelha s ondas de uma emiso de rdio. O 
desenvolvimento do indivduo e do seu mecansmopsquco, bem como a demonstrao das suas 
capacidades, seriam impossveis sem a agresso.

At mesmo os psicanalistas mais conhecidos (com as excepes citadas e algumasoutras) recusam, no 
entanto, as afirmaes freudianasno que se refere s suas ltimas -teorias da agresso. Dentro

AGRESSIVIDADE                             113

e fora do mbito da psican-lise foi feita a objeco de que a experincia clnica no pende mais para uma 
demonstrao do que para uma refutao da hiptese do instinto de morte, o que a torna suprflua. Com a 
sua Trietafisica do instinto de morte Freud ter-se-ia desviado para o campo da especulao.

Otto Fenichel rejeita pura e simplesmente a hiptese do instinto de morte e outros psicanalistas (como 
Hartinann, Lwenstein e Kris) estabelecem diferenas entre os aspectos de adaptao e organizao da 
agresso, enquanto Sierling eleva a agresso ao plano de momento central. A agresso permite ao homem 
um consolidar do ego e o desenvolvimento do sentimento de valorizao de si e da vida. A tenso 
acumulada desaparece, produzindo-lhe um sentimento de bem-estar e de satisfao.

Alois Becker define como agresso todos os fenmenos internos e externos que implicam uma destruio 
dos objectos aos quais a agresso se dirige, quer esta,destruio seja fantasista ou s.e mantenha num plano 
de ameaa ou de realizao. Chamamos agressividade  predisposio de comportamento agressivo que 
em muitos indivduos se exteriorizapor tendncias de particular intensidade e temporariamente por uma 
predileco por modalidades particularmente activas.

B. Lantos estabelece uma diferenciao entre as energias agressivas que servem a conservao do eu e 
as agresses que visam o homem como objecto; agresso subjectiva e agresso objectiva, entre as quais  
difcil estabelecer diferenas.

A teoria oposta, que assegura ser a ausncia de teoria a melhor posio, levanta o argumento de que a 
pressuposio cientificamente insustentvel e suprflua de impulsos e instintos representa a mitologia e a 
utilizao imprudente de energias originrias do animismo. As representaes concretas e sugestivas 
permitem ao leitor menos especializado esta falsa conscincia de um pseud,o-entendimento. Satisf-lo de 
tal forma que n o levanta perguntas quanto  exactido das representaes bsicas. No  por acaso que 
as teorias relativas  predisposio inata e instintiva no homem no sentido da brutalidade alcanaram uma tal 
divulgao e popularidade nos nossos tempos. Uma vez que a agresso e a brutalidade fazem parte 
integrante, essencial e constitutiva da natureza humana, no ter qualquer sentido uma revolta contra estas 
tendncias inatas e programadas; tal significa que sempre haver guerras e conflitos sangrentos.

114          AGRESSIVIDADE

O homem erudto

A opinio inversa apresenta as mesmas certezas no que se refere ao assunto.

Afirma que todo o comportamento humano  o resultado de uma aprendizagem; as atitudes e as reaces 
emocionais que o acompanham podem ser reforadas ou reprimidas. Todo o comportamento no  
herdado, mas formou-se sob influncia de vrios factores, entre os quais esto presentes os de ordem 
gentica e ambientais; a anarquia social representa uma das principais causas de violncia,destrutiva.

 verdade que o crebro, um complicado sistema impeditivo e simultaneamente impulsionador, representa 
a fonte interior mais importante do comportamento agressivo, no existindo, porm, um enrazamento 
especfico da agresso no instinto, nem umaparte determinada do crebro, que possa ser responsvel pela 
agresso como tal.

J. P. Scott introduz o conceito do comportamento agnstico, que, a corresponder a umaconduta inata no 
aprendida, no constitui um instinto especificamente agressivo, mas sim um aspecto colectivo de fuga, 
ameaa e agresso. Trata-se de um sistema de comportamentos interligados, que desempenham uma funo 
geral de adaptao a situaes de conflito. O aparecimento da agresso, quer dizer, de um comportamento 
abertamente combativo, depende de uma multiplcidade de factores ecolgicos, sociais, orgnicos, 
fisiolgicos e moleculares, de acordo com dversos graus de organizao. Toda a explicao do fenmeno 
agressivo torna-se, Dortanto, necessariamente complexa e multifactorial. O compoAaniento agnstico do 
homem neste campo  geneticamente diferente do, apresentado para outras espcies, sendo. pois de valor 
muito limitado as analogias bsicas com o comportamento do animal. Na medida em que o homem  o nico 
ser capaz de tradio e de comunicao, s ele pode transmitir os conhecimentos adquiridos de gerao, 
para gerao,. As experincias anteriores e o treino podem fazer surgir quase sempre o resultado 
desejado. Um insucesso nas primeiras experincias em sociedade pode ligar-se a uma falta ou excesso de 
agresso, a um excesso de contr le ou de agressividade incontrolada.

O comportamento agressivo no  to fundamental como a r~rdao, a reproduo e a educao, mas 
serve como compo-

AGRESSIVIDADE                              115

nente de outras formas de comportamento, principalmente a funo de aviso do perigo. As causas 
originrias de um comportamento agressivo residem na frustrao e na ameaa do perigo.

A imipossibilidade de uma actividade atingir o fim a que se destina transforma-se em agresso; o ataque 
verifica-se sobre a fonte verdadeira ou fictcia de frustrao. 1@ certo que nem todo o gnero de 
frustraes desencadeia necessariamente uma reaco agressiva, mas esta pode diminuir a presso 
exercida pela agresso e provocar um sentimento de satisfao que destruir a origem da frustrao. Um 
acontecimento que ponha a vida em perigo, a no satisfao de uma necessidade fundamental, bem como 
uma ofensa pessoal, um conflito. a propsito da personalidade social, uma esperana desfeita ou uma 
promessa quebrada, podem representar frustraes.

Para Leonard Berkowitz a fonte mais importante da agresso  a ameaa, a espera da agresso, que 
assume a forma de medo. A violncia impe-se, portarito, como a soluo mais oportuna, pelo menos  
primeira vista, quando nada mais resta e no caso de o recurso  violncia at a utilizado ter sido sempre 
coroado de xito. As experincias passadas determinam as futuras. Nos casos de medo e desespero 
extremos, todas as estratgias so postas de lado. A violncia faz ento o seu aparecimento como sistema e 
perda de contrle e como fora indiferenciada dirigida contra todos, ao passo que a violnciaestratgica 
significa, inversamente, mais uma tentativa de adaptao.

Talcott Parsons considera que se recorre  violncia coffi um objectivo de dissuaso e de castigo ou para 
se provar a capacidade de aco. Mediante uma insuficincia de adaptao e interiorizao de valores 
aumentam-se as probabilidades de reaces =,vs      C Iprincipalmente violentas. A falta de objectos 
interio-

s e pensamentos definidos evita a formao de inibies e a canalizao de impulsos agr-e@sivos. O 
conjunto de experincias anteriores, no decurso das quais a violncia se revela fonte de satisfao e 
resoluo -de conflitos, bem como de tenses insuportveis, tais como a clera, a angstia e a irritao, 
engendra a agresso. A simples procura de excitao dentro de um esquema de distraco e estimulao 
pode, no entanto, igualmente favorecer o aparecimento da agresso. As dificuldades de identificao com 
pais e professores ou a imitao dos pais que -tambm se encontram -perturbados constituem igualmente 
uma fora motriz Aviolncia; verifica-se a interaco de mecanismos internos e acon-

116                   AGRESSIVIDADE

tecimentos externos, bem como de experincias ligadas  aprendizagem. social. A clera, a angstia ou a 
raiva no acarretam necessariamente manifestaes agressivas, mas aumentam, todavia,

as suas probabilidades de existncia; a clera aumenta sobretudo mediante o sentimento de injustia que 
nasce da frustrao, quer dizer, da tenso, entre uma esperana que se encontra justificada e a satisfao 
injustamente negada da mesma. A intensidade da clera depende -do grau de discordncia entre a 
esperana e as suas possibilidades efectivas de realizao, da intensidade desta esperancae da existncia 
ou inexistncia de alternativas de satisfao.

A concepo, levada a extremo quepretende que a frustrao e a ameaa sejam as causas nicas da 
agresso conduz  percepo do homem como uma marioneta social; tudo se passa como se tivesse sido. 
cria-do no stimo. dia da existncia do mundo. Os iconoclastas mais -ousados, que chegaram mesmo a 
desmascarar e a destruir o mito arreigado de instinto, impulso e hereditariedade, mitologizam a sociedade. 
Partindo do princpio, de que o homem se pode, na verdade, modificar e  capaz de aprender, defendem a 
hiptese absurda da sua total iplasticidade. A negao da importncia decisiva de factores biolgicos 
inatosno significa de facto o fim da biologia, mas o comeo, de uma tentativa de uma manipulao, social 
sem fronteiras por parte da sociedade baseada na crena de que  possvel moldar o homem 
ilimitadamente. O descontentamento provocado, pelas limitaes humanas leva os indivduos 
particularmente impacientes a exigir de forma imperativa a transformao imediata e total do homem em 
qualquer coisa inteiramente nova e incomparavelmente superior.

O realce dado unicamente aos impulsos biolgicos conduz a uma simplificao brutal e sacrifica as 
possibilidades de transformao do homem na concepo que o torna um ser feroz que nada ser capaz de 
modificar. O realce dadc, unicamente  aco orienta,doTa da sociedade reduz o homem a uma simples 
marioneta social, um ser moldvel at ao infinito e cuja constituio biolgica no se encontra submetida a 
um processo de transformao, mas negligenciada e por esse, mesmo facto explorada. Na simplificao 
polarizada do dilema entre a biologia ou a sociedade, entre a criao individual ou a afirmao colectiva, 
entre a inteligncia ou o sentimento, surge esta mesma violncia que se trata de evitar mediante 
considerao de todos os factores que se condicionam

AGRESSIVIDADE                         117

reciprocamente e por uma atitude de aceitao tolerante quanto  complexidade, bem como mediante a -
reflexo, sobre o fenmeno da agresso no conjunt.

Teoria do pluralismo da agresso

A agresso  esta tendncia e energia inerentes ao honiem que completam os impulsos sexuais; com eles 
s.e combina ou se lhes opoe e expressa-se nas -mais variadas formas individuais e colectivas aprendidas ou 
transmitidas socialmente. O assim chamado espectro da agresso abrange desde a actividade  destruio, 
desde a agresso sintomtica como perda de contrle em todos os acontecimentos conscientes e 
inconscientes at  agresso como estratgia planeada, desde a estrutura planeada at  violncia, ou seja, 
a forma de expresso manifesta da agresso.

As impresses -recebidas na infncia, e sobretudo a educao, constituem um entrave e urna represso da 
agresso livre; encoTaiam, impoem e organizam a ligao (Bindung) da agresso.  normal-mente de 
forma agressiva que se ensinam as crianas a no serem agressivas; mediante recurso a exemplos, padres 
pessoais e culturais, almde mtodos educacionais como promessas, recomf enas, ameaas e punies, 
reala-se a feio negativa da maniestao da agresso, o que constitui um perigo para a criana e o que a 
rodeia.

H determinadas excepes  proibio da agresso: a agresso livre  permitida e at mesnio fomentada 
como autodefesa ou defesa de objectivos elevados. A proibio da agresso transforma-se assim num 
incitamento da mesma. A agresso no se encontra, porm, geralmente livre, mas  absorvida e dirigida 
por -estruturas internas e externas. Os valores dominantes, conceitos culturais, interpretaes da realidade 
e padres de resoluo de conflitos, que para a crian@a se encontram encarnados nas pessoas que a 
rodeiam na infncia, so sistematicamente interiorizados graas aos mtodos de educao e 
comportamento. Os pri- ,ineiros conflitos da criana. com o ambiente que a rodeia contribuem assim para o 
aparecimento de uma conscincia uniforme queexerce no interior do indivduo o contrle at a imposto 
sob efeito de presses exteriores. H uma outra percentagem de agresso codificada pelas instituies 
cujas estruturas, de princpio pouco rgidas, se, vo gradualmente complicando. A ordem

118                     AGRESSIVIDADE

social  a obra do homem. As ~as sociais foram pois produzidas; so transformveis, mas aparecem  
criana como princpios naturais e imutveis nos quais ela participa de acordo com o papel qi@.e lhe  
atribudo. Mal comea a exercer as actividades determinadaspelo seu desenvolvimento biolgico e as 
normas culturais da sociedade, a criana desempenha o papel que dela se espera. Apreunde a andar, a 
falar, adquire hbitos e o saber viver. Cada vez compreende melhor as regras do cdigo social.

As instituies sociais -formais e informais, a educao, a famlia, a profisso, o -direito, a Igreja e o Estado 
so conceitos e regras destinados ao contrle da agresso. So instituies cujo objectivo  o de captar e 
dirigir a agresso individual, que desta forma fica reprimida e presa a uma estrutura. As instituies 
recebem toda a sua energia e justificao mediante a percentagem de agresso que retiram aos indivduos 
sob o seu contrle. A sua funo consiste -na absoro e canalizao da agresso individual com o 
objectivo de a submeter ao contrle da colectividade e de a utilizar de forma produtiva, racional, altrusta e 
se possvel sem violncia.

As instituies transformam a agresso livre em agresso condicionada e a individual em colectiva.

O condicionamento institucional interno ou externo exerce assim um contrd1e sobre o indivduo, que se v 
obrigado a renunciar obrigatria ou voluntariamente os impulsos da agresso livre. Em contrapartida, a 
organizao satisfaz a necessidade de segurana e identidade do indivduo pela continuidade, solidarieda-
de e estabilidade. Garante o futuro e assegura proteco e assistncia na vida prtica.

Entre as vrias instituies existem diferenas importantes de qualidade e de valor. Nada  mais fcil e 
confortvel do que a acepo de que uma organizao  to boa como qualquer outra e que podem ser 
substitudas entre si. Ainda mais essenciais do que as semelhanas so as diferenas existentes entre as 
institui5Cs; estas medem-se pela afeio moderada ou abusiva de coaco que exercem, pela qualidade 
de agresso que legitimam e pela quantidade de agresso que permitem, bem como pelos objectivos e 
estruturas que servem ou fingem servir.

A transformao organizada de agresso livre em agresso controlada (permite a existncia da agresso 
nas regras de organiZao e legitima-a enquanto ao servio da organizao. A organizao no controla 
a totalidade da agresso livre. Detm uma

AGRESSIVIDADE                              119

parte ntima em reserva, a fim de a ostentar ante o indivduo, mediante recurso a atitudes ameaadoras.

A existncia da agresso estruturada numa organizao,  fonte de legitimidade. A agresso inerente  
conscincia interior ou instituies exteriores encontra-se justificada; apenas muda de forma e de funo. 
O elemento agressivo foi renegado e acaba por -desaparecer completamente da conscincia. A agresso 
permitida assume uma feio de virtude: a obedincia (levada a extremo sob forma de obedincia cega, 
totalmente autornatizada e inconsciente), cumprimento do dever (levado a extremo como suicdio) e -
defesa dos mais elevados valores (levada a extremo pela ddiva total de si mesmo).

As -organizaes detentoras do poder s atravs da autoridade que lhes  dada pela legitimidade 
conseguem suscitar a adeso voluntria por parte dos indivduose grupos que dirigem. A legitimao 
institucional permite ao indivduo considerar como justificada a agresso imposta e exercida ao servio da 
organizao, mesmo quando degenera em violncia, e igualmente dissimul-la. A agresso assim justificada 
recebe o rtulo de necessidade, inevitabilidade e dever. Evita-se assim o aparecimento de crticas, mas a 
incapacidade de ipercepo da agresso como tal no  de modo algum considerada como aspecto 
negativo: a cegueira e o preconceito tornaram-se condies de funcionamento.

A legitimao serviu, por outro lado, para transformar ideologicamente, racionalizar, dissimular e dar feio 
natural  agresso utilizada ao servio da organizao; pretendia-se por este meio eliminar todas as 
inibies individuais e acalmar o medo e os sentimentos de culpa, a fim de se conseguir um equilbrio 
interior. A legitimao tem alm disso uma fun@o de apoio. Graas  agresso legitimada e permitida pela 
organizao, os indivduos perderam a conscincia da agresso sancionada como tal. Em troca da perda da 
sua independncia e capacidade crtica recebem a garantia de uma boa conscincia que, ao servio da 
orgranizao, lhes permite cometer actos agressivos sem sentimentos de culpa ou medo. Nem mesmo se 
apercebem do carcter agressivo das suas aces. Brutalizaram-se no Por coa co, mas por um sistema 
eficaz de legitimao, e possuem o direito e at mesmo o dever de exteriorizar a sua violncia e 
contraviolncia justificadas contra os objectos de.agresso .legtimos: os inimigos, os outros, os 
criminosos, as minorias, o establishment, etc.

Apesar de todas as suas tendncias de expanso, a organizao

120                   AGRESSIVIDADE

necessita de um inimigo, externo, representado o -mais dramaticamente possvel e transformado em 
smbolo, a fim de justificar incessante e renovadamente a sua existncia. Este facto permite-lhe utilizar e 
libertar parcialmente a agresso individual na medida em que lhe d uma aplicao. Um perigo, real ou 
pressuposto refora a legitimao e com ela a unidade da agresso individual. As ameaas reforam as 
antigas e criam novas organizaes. O indivduo descobre ou imagina inimigos sobre os quais projecta as 
tendncias agressivas q?e se viu obrigado a reprimir, negar e dissimular em si; tal perm-ite-lhe 
consequentemente legitimar o, seu prprio contra-ataque.

As organizaes internas e externas tendem simultaneamente para a simplificao e expanso. Um 
monoplio governamental permite um contrle mais eficaz. As grandes organizaes modernas e 
tecnicamente aperfeioadas tendem de forma particularmente manifesta a apropriar-se do monoplio do 
poder e sobretudo da totalidade da violncia disp?nvel. Aspiram igualmente ao monoplio da legitimao. 
As instituies estabelecem as diferenas entre a justia e a injustia e decidem o que  proibido e 
permitido. A sano institucional, que tanto pode ser a santificao de um comportamento considerado 
positivo como o castigo de uma conduta repreensvel, autoriza a expresso individual e colectiva da 
agressividade e at -mesmo da violncia quando ao servio da organizao ou dos seus elevados 
objectivos.

O condicionamento da agresso anteriormente desenfreada significa sempre tambm um arrefecimento 
parcial da violncia sentimental e apaixonada. Ao retardar a satisfao dos impulsos, as instituies acalmam 
a emoo pessoal que pode levar ao dio e  exploso. Obtm assim uma eficcia de contrle e 
canalizao. S o afastamento antecipado da clera e do dio possibilita a anlise fria e pormenorizada da 
situao. A qualidade de no actuar impulsivamente mas de utilizar o raciocnio  no s respeitada pela 
organizao, mas por ela elevada  qualidade de princpio.

As emoes -fortes e os sentimentos pessoais intensos perturbam os processos automticos. A organizao 
aspira pois a condicionar os indivduos que dirige a um conjunto de regras, em vez de os abandonar a 
emo es individuais. Os sentimentos so impeditivos das funes. Um funcionamento perfeito depende do 
apoio em indivduos com o maior grau de insensibilidade possvel e com capacidade de obedincia 
automtica. A racionalidade funcional (,Mannheim) dos meios necessrios para realizao de um determi-

A G R E 8 S 1 V 1 D A D E                 121

nado objectivo no deve tomar em considerao a racionalidade substancial ou a qualidade do objectivo. 
Entre o responsvel pela ordem e os subordinados  organizao existem muitos intermedirios, que so 
tanto mais numerosos quanto maior e mais bem estruturada -ela . Cada um deles cumpre, pois, apenas uma 
parte diminuta de uma misso que no conhece nem compreende a fundo e cujo verdadeiro objectivo 
tambm no lhe deve ser revelado se ele manifestar curiosidade em relao ao, mesmo. Qualquer que seja 
a posio do indivduo na estrutura hierrquica, a estreita diviso de trabalho significa a fragmentao de 
responsabilidades. O indivduo que ocupa a posio de maior responsabilidade tambm se encontra ao 
servio de poderes por as-sim dizer annimos, de smbolos abstractos ou dos que o servem. Qualquer que 
seja a posio do indivduo no interior da organizao, esta responsabilidade assim desmultiplicada tornou-
se to suave que lhe aparece como inconcebvel e nem mesmo dela se apercebe.

A violncia fria e organizada reparte as responsabilidades de tal modo que a ningum se podem imputar. O 
chefe est muito afastado no tempo e no espao da realizao das suas decises; no v as consequncias 
das suas ordens e  apenas informado pelo -processo frio das estatsticas. As entidades que se encontram 
abaixo dele limitam-se a obedecer e a desempenhar a pawte que lhes compete na aco. Transmitem as 
ordens, cumprem coni satisfao o seu dever e vigiam os executantes, que por seu turno tambm executam 
as ordens  letra. At mesmo quando a realizao dos seus actos  destrutiva no mais elevado grau no so 
violentos ou odiosos, mas apenas leais e obedientes. A violncia fria permanece fria at ao mais ntimo das 
entranhas e racional desde o princpio ao fim. A agresso tecnicamente perfeita, Tacionalmente 
organizada e planeada, isenta de toda e qualquer rsponsabilida,de de premeditao pode transformar-se 
em violncia atravs de manipulao, propaganda e sublevao.  este o seu maior triunfo: a obteno do 
irracional por meios racionais, a mobilizao de -emoes inconscientes mediante uma vontade consciente 
e dirigida e o despertar de sentimentos verdadeiros ao servio da insensibilidade. A organizao protege-
se das ameaas que sobre ela pesam pela limitao da agresso anteriormente condicionada. As 
provocaes fazem surgir a violncia por pane da organizao. As estratgias da guerra fria (c"stitudas por 
ameaas e negociaes) so evidentemente agressivas, mas no

122                    A G R E S S I V 1 D A D E

abertamente violentas. A rivalidade entre as in;stituies arrasta a mobilizao e recurso  violncia quando 
estas estratgias no conseguem atenuar - pelo menos para um dos adversrios - o carcter insuportvel da 
si-tuao.

Por outro lado, os indivduos e grupos desorganizados transformam a sua agresso livre e sem peias em 
violncia declarada todas as vezes que as outras alternativas nada resolveram. A clera e o dio, que no 
se detm ante quaisquer barreiras, mas acima de tudo o desespero e a indiferena de cada um frente  
prpria vida, bem como os ideais frustrados, conduzem  exploso da violncia. A ausncia de poderno 
oferece oportunidades ao, con~ dicionamento da agresso e favorece a violncia. Nesse sentido, mas 
tambm unicamente nele, existe uma contradio entre o poder (os disfarces de uma agresso 
condicionada e oTganizada) e a violncia (a agresso declarada e desenfreada).

O exemplo mais perfeito de agresso sem peias  a tirania que se impe pela ameaa e terror, no suporta 
qualquer agresso livrenem a mnima liberdade que no seja por ela ditada e ao seu servio. Frente  
tirania, a libertao e desbIoqueio da agresso significam oenfraquecimento da rigidez do poder, a 
libertao, e

o progresso.

O tipo ideal de agresso livre e individual  a anarquia, a recusa de todo o condicionamento da agresso, 
bem como a luta violenta e ilimitada de todos contra todos. Frente  anarquia, o condicionamento da 
agresso em estruturas e organizaes  snnimo de: a ordem, o fim do -caos e da escravatura e o 
progresso.

A relao, da polaridade entre a agresso livi-e e condicionada pode-se verificar no de forma abstracta, 
mas de forma muito concreta atravs de experincia e conhecimentos. A concretizao e manuteno de 
um equilbrio verdadei*Lro so, em princpio, i@nteiramente possveis. As situaes em que a violncia 
no est presente no constituem uma utopia, mas foram inmeras vezes alca.nadas neste mundo sem 
tirania ou caos, se bem que nunca se ,tivessem mantido durante muito -tempo. O equilbrio encontra-se 
entre o desejo de condicionamento, -que, em nome das agresses colectivas, conduz  violncia, e a 
necessidade irre-primvel de aco, que se vai opor ao condicionamento e tambm se traduz pela 
violncia. O contexto mais favorvel  manifestao dos efeitos produtivos da agresso livre  um slido e 
ritualizado enquadramento sem feticismo nem presso excessiva. Estes efeitos

AGRESSIVIDADE                              123

chamam-se: curiosidade, explorao, descoherta, originalidade e eliminao da aco previsvel a favor da 
novidade.

O desejo de criar a novidade deve poder apoiar-se nos hbitos e slidas estruturas da tradio 
interorizada, caso pretenda transform-los de forma eficaz. Heinz Hartmann disse uma vez: O eu no 
deve apenas poder, mas tambm poder dever. S os vnculos duradouros, foTtes e slidos possibilitam a 
verdadeira liberdade de aco e pensamento. A fim de concretizar a esperana humana de liberdade e 
impedir a destruio da liberdade atravs da violncia, a agresso deve poder transformar-se par-
cialmente em agi esso condicionada e ser capaz de, e mesmo desejar, assim permanecer.

O impulso  repetio da violncia ocasiona a violncia destrutiva a que se encontram ligados os mesmos 
mecanismos montonos da legitimao. Polariza-se e excomunga-se para se acalmar a necessidade de 
inimizade; entra-se numa rotina para se ir ao encontro do, hbito e tTivializa-se pelo mesmo motivo; 
idealiza-se para se dax superioridade s coisas e naturaliza-se para se simular uma verdade natural; para se 
conseguir uma fachada de racionalidade e compreenso racionaliza-se, e simplifica-se para se atingir a 
simplicidade.

9s mltiplos e complexos problemas da realidade exigem multas vezes solues igualmente mltiplas e 
complexas. S se pode recorrer a tais solues se a tenso conflituosa for provisoriamente suporta-da, se 
ficarem em aberto perguntas complicadas e se se puserem  prova diversas alternativas.

A simplificao reduz a multiplicidade de causas e motivos a uma causa nica em que unifica o verdadeiro e 
 nico motivo; os outros no passam de elementos insignificantes da superstrutura e possuem carcter 
secundrio e no essencial. As explicaes monocausais funcionam como prefcio que trabalha para a sua 
realizao: a ideologia. A ideologia que pretende unicamente reconhecer motivos econmicos acaba por 
fazer surgir um valow unicamente material. O nacionalismo fantico produz finalmente a realidade de 
outras naes que se combatem amargamente. Os que acreditam que somente a linguagem dafora  vivel 
criam um mundo violento e brutalizado, que nada -mais quer ou pode compreender do que a violncia.

A monomania de repetio de uma e da mesma explicaa? age sobre os sentimentos com a mxima 
intensidade ao dramati-

zar os problemas e se possvel personaliz-los. Tudo o que de mau

124                   AGRESSIVIDADE

existe no, mundo, as as dificuldades e problemas, todas as insatisfaes e tenses so originadas pelo 
capitalismo ou comunisino, quer organizadas no Krenilin ou em Wall Strect, e so causadas pelos poderes 
annimos, -por um establishment criminoso ou por Mo Ts-Tung (ou Ho Chi Minh, Castro, Nixon, Hitler, 
Mussolini, et,c.). A soluo  simples:

Ceterum Censeo, diz Cato: Cartago deve ser destruida ... 
O capitalismo, bem como o comunismo, o Kremlin ou Wall Strect, o establishment, Mo Ts-Tung (ou Ho 
Chi Minh, Castro, Nixon, Hitler, Mussolini, Estaline, etc.) deveriam ser destrudos ou eliminados por 
qualquer preo. A hiptese de e@Qplicao torna-se conceito de esperana; somente um acontecimento 
catastrfico, dramtico ou violento pode trazer a libertao e a paz. Tudo o, mais s.e resume a imperfeio, 
hesitao e conformao. A nova era deve comear ao som dos tambores como um acto dramtico 
elibertador visvel aos olhos do mundo inteiro. Uma vez que todos os motivos podero ser reduzidos a um 
nico, bastar a expulso radical deste nico para seprocessar um novo milnio.
O problema da simplificao, mediante a expulso de todos os outros motivos, consideraes e alternativas, 
apenas deixa lugar para a violncia, naturalmente a violncia defensiva ou preventiva, mas tambm a 
violncia que se, defende preventivamente ainda antes de se ter processado o ataque. A simplificao 
violenta constitu uma preparao, consequncia, condio preliminar e auxiliar da violncia. A 
simplificao que possibilita e impe a violncia conduz atravs da violncia a uma pura e simples 
destruio. @) pluralismo significa a aceitao (Tealista) da existncia de muitas causas, influncias e 
princpios diferentes que no se reduzem -necessariamente uns aos outros, -nem tm uma origem 
recproca, mas se encontram numa relao de mtua interaco e antagonismo. A polarizao representa o 
aparecimento, afirmao e reforo de contradies irredutivelmente opostas que mutuamente se excluem e 
tendem a -um confronto brutal. Inswnsciente ou propositadamente, todos os conflitos existentes ou 
consequentes so levados a uma situao de dilema que nenhuma outra escolha conhece alm da vitria ou 
derrota, do triunfo ou do aniquilamento. A partir de um certo grau de polarizao rpida e 
conscientemente atingi@o,todas as outras alternativas so excludas. Quem no  por mim,  contra mim 
e no existe uma terceira hiptese, dado que o perdo tambm no existe. A solida-

A G R E S S I V I D A D E                 125

riedade de grupo existente em cada um dos partidos encontra-se reforada pela projeco, individual e 
colectiva da agressivdade sobre o adversrio, que, atravs de uma simplificao dramtica, se torna 
perigosa e ameaadora fonte de agresso que  preciso eliminar a qualquer preo. A polarizao traduz-
se por uma acumulao e seleco de valores; cada um v a represen:taI@ do bem e da justia no seu 
partido, que alis se limita a uma posio de defesa.  volta deste crculo de valorres renem-se e 
hipertro~ fiam-se todos os valores pos,itivos imaginveis: Nunca anterior~ mente existiu uma causa to 
justa, nobre, elevada, bela, pura e sublime como a minha. Um -movimento estritamente paralelo, ou seja a 
proliferao dos valores negativos, : Nunca antes houve um inimigo to mau, perverso, odioso, manhoso 
e baixo como o que me ataca. As autojustificaes tomam forma e transforinam-se em slidos padres que 
se expressam por clichs e slogans. A acumulao de -valores positivose negativos confere a cada um a 
certeza dada pela legitima,@; a tentao do curto-circuito de violncia acaba por se tornar irresistvel. 
A imagem do inimigo, enquadrada pela polarizao, actua como um centro de cristalizao,  volta do qual 
se agrupam outras imagens semelhantes ou ,mais fortemente polarizadas. Desempenha igualmente a funo 
de filtro perceptivo, que, por escolha consciente, apenas permite a passagem das observaes que 
reforcem a polarizao. A recusa que cada um faz da sua prpria agressividade e a sua exteriorizao 
sobre outrem traduz-se por uma sensibilidade particularmente desenvolvida em relao  agresso do 
inimigo. A projeco imaginria mistura-se assim com a realidade e a exterioTizao com o aspecto do 
mundo exterior. V-se o argueiro no olho do vizinho porque no se consegue ver a trave no prprio 
olhaT.

As personalidades e grupos de tendncia autoritria projectam a sua hostilidade controlada relativa aos 
representantes da autoridade sobre os objectos de agresso (degitimados, os outros, os estranhos, os 
inimigos, os grupos que vivem foTa das regras estabelecida.s e a-os quais atribuem um comportamento 
imoral susceptvel de provocar a destruio dos costumes. Quer tenham ou no provas, encontram-se 
persuadidos e como que possudos desta convico. A limitao simplificada da concepo e percepo de 
um adversrio nico como origem de todo o mal desenvolve-se -em ritmo crescente, o que significa mais 
ameaas e justi-

126                   AGRESSIVIDADE

ficaes, maior polarizao, mais forte percepo do -perigo ou, por outras palavras, um estado que 
comporta riscos crescentes de contraviolncia at  exploso. A influncia mtua da revolta e da ameaa 
traduz-se por uma situao explosiva e um equilbrio -instvel que ameaa acabar de um momento para o 
outro. A imagem que fazemos do inimigo assemelha-se extraordinariamente quilo que somos na realidade. 
O inimigo atribui-nos exactamente os inesmiDs vcios que lhe condenamos e julga-se na posse das mesmas 
virtudes que pensamos ser os nicos a possuir.

O antroplogo Bironson Brownen mostrou fotografias de uma avenida a crianas entre os dez e os onze 
anos e perguntou-lhes qual pensavam ser o significado e o objectivo das rvores que ali s.e viam. quando a 
fotografia representava uma avenida americana as crianas consideravam as rvores como oferecendo 
sombras acolhedoras e impedindo a acumulao de poeira, mas se a fotografia mostrava uma avenida russa, 
as crianas diziam que as rvores tinham sido plantadas para ocupar os presos ou para servirem de 
esconderijo.

Os elementos formais necessrios  designao do inimigo so estranhamente durveis e inalterveis. 
Apenas o contedo do smbolo muda com uma rapidez que a bem dizer nada tem de surpreendente. Em 
1942, a esmagadora maioria dos americanos utilizavam as palavras: agressivos, violentos etraioeiros em 
reiao,aos Alemes e japoneses, e em 1966 aos Russos, a quem no. se aplicavam estas caractersticas em 
1942. Os violentos, odiosos e simescos japoneses de 1942 tornaram-se os eruditos, trabalhadores, 
encantadores e atraentes japoneses de hoje.

Tanto russos como americanos explicam reciprocamente as suas diversas -estratgias, quer como um 
processo de expanso ou tomada de poder, quer como defesa contra ataques no provocados ou uma 
tctica de eliminao de conspiraes tendentes a pr emrisco, a sua segurana. Os comunicados oficiais de 
americanos e russos aps a ocupao da Repblica Dominicana e da Checoslovquia poderiam trocar-se 
s.e se mudassem os nomes. Nos dois casos, a agresso foi justificada como contraviolncia em nome de um 
todo que transcendia a prpria soberania nacional e de uma solidariedade totalmente americanizada ou 
comunista.

Cada um dos lados estava sempre convencido de que o adversrio pretendia unicamente reforar a sua 
posio no poder e que se servia das justificaes como pretexto. At os prprios gestos de conciliao 
que deve-riam tornar a situao menos tensa so

AGRESSIVIDADE                            127

muitas vezes falsamente interpretados como sinais de fraqueza. Num grau avanado de polarizao, os 
factos reais j no desempenham qualquer papel. Os Americanos vem a poltica externa russa como uma 
conjura magistralmente organizada, cujo perigo aumenta pela forma imprevisvel do poder dos dirigentes. 
Os Russos consideram a poltica externa americana como uma conspirao magistralmente fomentada em 
todo o mundo pela C. 1. A. e que vem agravar as reaces imprevisveis dos militaristas dementes do 
Pentgono. Ambos acreditani que o sistema do outro acabar por se arruinar devido s contradies e 
fraquezas internas. A populao do pas contrrio  para eles honesta e amigvel, mas corrompida ou 
explorada por um pequeno grupo de tiranos sedentos de poder e de vantagens materiais. As entidades 
mximas do opoKsitor servem de alvos perfeitos de agressividade; os malvados para um partido so os 
heris e idealistas para o outro.

A imagem do inimigo tem tendncia a concretizar-se em verdadeira animosidade. Acorrida para os 
armamentos, que h muito atingiu um potencial suficiente, permitindo a destruio do inimigo aos que os 
possuem, assegurou at este momento a paz pelo medo (H. Prtisch), -mas fez aumentar de forma 
irracional os investimentos em armamentos de cada um dos lados a fni de manterem a posio -de ameaa e 
para proteco do poder interno. As dificuldades de comunicao contrbueni para o processo de 
consolidao da imagem do inimigo. Depois de se ter alcanado um determinado limite de valor j no 
se,pode fugir  polarizao, mas rola-se automaticamente at ao fim violento.

Num catripo de frias, M. 8cherif provocou uma polarizao artificial de dois grupos de jovens mediante 
vrias situaes de competio. Depressa os dois grupos se comportavam como duas naes inimigas. Os 
esforos exercidos em conjunto para desvio de um perigo, (trabalhos; de reparao numa conduta de 
gua) diminuram a desconfiana que afastava os dois grupos e acabaram finalmente por restaurar a 
camaradagem inicial. , no entanto, muito, duvidosa a questo de at que ponto se pode aplicar este 
exemplo a uma necessidade de inimizade profundamente radicada nos hbitos e sentimentos. Os habitantes 
de Marte, que estabeleceram. uma unidade entre os homens relativamente a uma ameaa sentida por todos, 
ainda so, por enquanto, fruto de uma fantasia. Uma vez que a polarizao permite que o indivduo 
eXteriorize as suas angstias de forma habitual e automtica,

128                   AGRESSIVIDADE

serve de tubo de escape  agressividade; este o motivo por que se torna irresistvel e encarna essa mesma 
violncia que prepara e cuja exploso provoca.

Para que os complicados -processos de desenvolvimento e acontecimentos possam -mobilizar intensas 
reac es sentimentais tm de se poder encarnar e representar -numa pessoa ou num facto, graas  
polarizao. Quanto :mais obscuras so as foras reais, mais claramente devem ser dramatizadas atravs de 
exemplos facilmente compreensveis e explcitos para provocar a aco. Cada um glorifica e celebra os 
seus actos agressivos do passado, que foram coroados de xito como vitria do bem, tiriunfo do heri 
sobre os drages e o mal.

A agresso sofrida tambm cria, no entanto, um condicionamento. O suportar do prprio sofrimento justifica 
o sofrimento que se inflige. Organizaram-@se guerras sangrentas e a Inquisio em nome da Cruz e da 
Paixo de Cristo. O assassnio do. prncipe herdeiro do trono austraco, Franz Ferdinand, desencadeou a
1 Guerra Mundial; o martrio e morte de Hoirst Wessel, Engelbert Dollfuss e Martin Luther King (a 
desigualdade de valor moral dos exemplos aqui cita-dos ,intencional) levaram  violncia e 
contraviolncia e ambas serviram de justificao.

Em todo -o processo criminal assiste-se a uma draniatizao do antagonismo e a um agravamento da 
polarizao. Tal como num palco de teatro, encontram-se -representados complexos contraditrios e 
conflitos sociais, mas o ritual da repetio simplifica-os e refor'a_os em lugar de os resolver e diminuir. 
Nem o coronel francs Dre@fus nem o tenente americano Calley se encontravam particularmente 
dispostos a representar o papel, que lhes foi por todos atribudo, de heris e mrtires; o mesmo foi-lhes 
iniposto pela colectividade, que tinha necessidade de um exemplo representativo. Uma polarizao 
agressiva inantm a opinio pblica dividida em dois campos inimigos durante anos seguidos e impede-a de 
se,interessar por qualquer outra coisa. Apesar de ou em virtude da sua funo de desencadeamento, esta 
polarizao nunca permitiu que se resolvessem ou se submetessem a uma anlise realmente crtica nem as 
causas nem as consequncias do anti-semitismo francs, da gu=. a do Vietriame ou do clima de antagonismo 
contra a guerra nos Esta-dos Unidos. A realidade espectacular dos pr@ces em Moscovo, provam 
simplesMente o poder quase ilimitado da manipulao, que arranca s suas vtinias um assentimento interior 
quanto  sua prpria

AGRESSIVIDADE                             129

destruio. Os processos de Nuremberga contra os criminosos de guerra confirmam os direitos dos 
vencedores, que adoptaram os princpios injustos dos vencidos e reivindicaram para o castigo do 
adversrio um direito superior -no escrito que traduz os sentimentos do povo e da humanidade.

Os pr@cesso,s de concretizao, materializao e personificao constituem um sinal: chamain a ateno. 
Ao fim de um

certo tempo provocam, no entanto, a indiferena e depois retomam a feio banal e montona que a 
princpio tinham modifica-do. A polarizao moral apoia-se numa idealizao pessoal e no satanismo do 
adversrio. A acumulao de valores positivos em relao a um provoca uma aglutinao negativa do 
outro. A agresso, muito antes de se tornar manifesta, comea com as ms palavras, a crtica despreziva e a 
acusao de heresia inerentes  necessidade de existncia do, inimigo. A agresso utiliza um vocabulrio 
ordinrio e obsceno, quando provoca e insulta. A regresso  violncia  introduzida e seguida por um 
retrocesso de linguagem, por u @@1lizao de termos provenientes de um nvel lingustico primitivo. As 
tiradas de insultos em que o adversrio  acusado de perfdia, imoralidade e preguia apem como certeza 
a existncia do emprego da violncia.  acusado de instintos perversos, designado como porco, bruto, 
escroque, fera humana e aborto. Recusa-se-lhe toda a qualidade de homem. A invaso da poltica pela 
obscenidade (poltica pornogrfica ou pornografia poltica)  um indcio seguro da subida de temperatura 
da agresso, que se aproxima do ponto de ebulio.

Os atributos idealizados de valores pessoais so crescentemente elevados, tornados abstractos e 
incompreensveis. Comea-se por autodefesa e chega-se -normalmente  qualidade de representantes de 
todos os interesses bons e verdadeiros da humanidade. O adversrio deixa de ser considerado digno de 
confiana; -tambm no mais se poder entrar em dilogo de negociaes e, graas  sua maldade 
progressivamente satnica, presta-se apenas ao papel de objecto legtimo de aniquilamento.
O inimigo desencadeia esta atitude devido ao satanis-mo que lhe  atribudo. Ao acusar-se o adversrio 
criou-se uma imagem de Sat surgida da necessidade de uma idealizao p@ssoal e de uma fuga  suspeita 
de se ser possudo pelo demnio.

A violncia propaga-se com a mesma intensidade da clera, s que ainda se desconhece qualquer vacina 
contra a mesma.

130

AGRESSIVIDADE

Graas ao Seu p@d melhor @ roi a @4 @,r ascinante e virulento, a violncia  a sua demons                     
rogi, Ista. A organizao tcnica da fora fria

43 @@ . P @@iVa @mento      a 1 l C,.           ente a banalidade -do mal. Este aconteciconscinci                 
.- Ia 7eZ oduz um princpio destina-do a acalmar as a agress c                CI,@C-SC    e, ial  banal, o que  
banal  mau e de surpree ,               et@         estilo de vida habitual que nada tem meios de                  or    vi 
l cia  que  igualmente descrita pelo3 hbito. Passa-se                 t i i 1, anal e quotidiana, tornou-se um 
factos pouco i                   er    1 iolncia mesmo quando se trata de que do provas             tarites. (Estamos a 
pensar na agressividade de festa por um Vo condutores de automveis e na que se mani- %Irio grosseiro 
e gritos contra os subordinados.) Cria-se 2t.s@ ferena que prep,1'I1 urna rotinada agresso, um estado de 
indi-

As                      ..talil a brutalidade e a violncia generalizadas.

analogias 11 so e da violnci I`Istram e simplificam as justificaes da agreshistrico e 21 nece&, O 
rliiagre da vontade divina, o imperativo lizao -e ideol,O @dade natural constituem exemplos de 
racio(na- . . @Jk * guerras sociais legtima, A natural izao de organizaes * procura d                
adquirem feio de ddiva natural que poupa

e mai,, 1 . - * construo artifi . egitimao. A aparncia da natureza oculta meno,nalural, PaT          cIal; o 
que se faz pode-se justificar como fenoadas como circu@ liada ter de se justificar. As aces so disfar- ,I, 
Stncias ou se ter responsabi                          simples acontecimentos para no no homem COMO !dade 
sobre as mesmas. O que  gerado e existe influncia e co            14    -1 e lheio, est para l do mbito da 
sua @ce tal como a sua                   sa    e.torna-se, portanto, destino inevitvel,

ndo, a             Yez         ri itiva. uc       -          I Ia        ao  abertamente utilizada chama-,se-lhe%da ao,          
    ro Quando a ma,n,             @ a,        a, ersuaso, reclamo ou publicidade. as situaes que           aO  
dissimulada, provoca, pelo contrrio,

c1CIVem     servir  motivao e explicao das aces que s.e prop, apagar os sei              ()c. A 
verdadeira manipulao sabe, de facto, ,I'S vest As suas manifesta , os e ermanece irreconhecida e              
                 Ilimitada. simples acon               ci    o, e    ento surgire ser entendidas como

 te M aparece simula a ,,        tos.          anipulao, a agresso estratgica, feio de condi o               a 
arncia de inevitabilidade; -lhe dada o fora a o e iQ',,a.tural , o mundo, e mediante essa 
justificaofuscado pelo desi@ Cia e a concordncia ntima do indivduo,

Toda a proble Ilibramento. simplificada atraZltica da agresso  resolvida, polarizada e @C1C, Problema 
da violncia. A agresso male-

A G R E S S 1 V 1 D A D E                131

vel e multiforme  to complexa, dinmica e mutvel como, a violncia  fixa, rotineira, imutvel e simples. 
Uma vez que exclui e abafa todas as outras alternativas de agresso, a violncia  o problema que 
pretende resolver.

Se se persistir na ideia de que tudo tem de ser necessariamente simples, tudo, se poder processar dentro 
da maior brutalida,de e crueldade.

Histria natural e cultural da violncia

A descrio -da histria natural da violncia e condies do seu aparecimento -condies naturais ou 
reduzidas a esse estado atravs -da polarizao, simplificao, ideologia, racionalizao, etc-deve 
contribuir para explicar, esclarecer e -desmascarar a agresso, antes que esta execute a sua obra 
destrutiva, eliminando todos os disfarces.

A supresso do fenmeno da agresso -na realidade apenas idealizvel como hiptese-teria de significax a 
recusa de toda a vida, pois que esta  determinada e estruturada pela agresso. A recusa da agresso 
existente em cada um, mediante a represso e @projeco, possui o efeito agressivo que pretende evitar. 
A completa condenao da agresso, quando @no  demaggica, resulta da limitao arbitrria do 
conceito de agresso, que se procura tornar malfico para legitimar a luta contra uma determinada forma de 
agresso.

Para se reconhecer a agresso nos seus vrios disfarces e aspectos,  preciso represent-la quer por 
fenmenos importantes e famosos, quer pelos pouco importantes e desconhecidos. A localizao da 
agresso nos seus esconderijos no s acentua a heterogencidade moral, sociolgica e psicolgica das 
formas de agresso, como revela simultaneamente os mecanismos e manobras de que a agresso se serve 
para as transforma es que opera.

Esta obra no pretende ser uma Bblia e muito menos um ABC da forca, nem mesmo uma directiva para o 
seu emprego ou um incit@mento. No s.e pretendeu fazer um tratado moral

nem uma justificao do, mal e do bem; o objectivo pretendido resume-se a uma descrio -de factos, 
acompanhada de comentrios e observaes socio-psicolgicas que ascendem a dife- ,Tentes domnios 
cientficos. Entre a resignao existente num reconhecimento pragmtico,.da realidade como ela pode ser 
pre-

132                  AGRESSIVIDADE

cisamente e um certo tom quixotesco de uma melhoria irreal, existem muitos caminhos que nem sempre vo 
dar ao mesmo fim, sob efeito de uma contnua repetio.

A ocupao profissional que engloba seres perturbados, mtodos ou instituies que que= ajudar e 
pretendem curar (e algumas vezes fazem sofrer) permanece a base e ponto de partida para o estudo 
aprofundado da agresso. A observao clnica demonstrou que o fenmeno universal da agresso se 
subtrai a uma observao exclusivamente desse tipo. Para a sua apreenso total torna-se necessrio 
examin-lo sob as mais diversas perspectivas, diferentes nveis e diversas fases de cristalizao.
O carcter mutvel, sedutor, fascinante e assustador da agresso s se pode abranger se se seguir a 
agresso para onde quer que esta v e se oculte.

Todos os gregos so homens, mas nem todos os homens so areeos. Toda a violncia  agresso, mas -nem 
toda a agresso  @ioi'ncia. A agresso e a violncia confundem-se muito faciln-wnte, porque a violncia 
pretende ser a nica forma eficaz de agresso. Impe-se uma diferenciao rigorosa entre as duas. Todas 
as formas de agresso podem afinal levar  violncia.
O grau e a profundidade do conhecimento minoram o perigo de uma regresso  vio-lncia. Uma 
persipectiva concreta das manipulaes e manobras, que,  fora de decretarem que a violncia  
inevitvel, acabam por a criar,  imprescindvel como parte desse conhecimento. A forma manifesta, crua, 
desenfreada e primitiva da agresso, na verdade a violncia, que, alm disso, de forma alguma  to 
espontnea, natural, necessria e eficaz como pretende ser, quer constituir a soluo que exclui todas as 
outras. Torna-se assim um perigo que aplicatodas a-s outras alternativas como necessidade de 
sobrevivncia.

AS FONTES DA AGRESSO

T

Mos os p@nsamentos ou sentimentos alienados provm da

desorganizao de um conjunto de clulas? O prprio Freud dizia.que, num futuro distante, todos os 
fenmenos psquicos iriam -ser atribudos a uma origem fsico-qumica.  medida que se vo tomando em 
maior considerao as interaces do esprito -e do corpo, mais evidente se torna que as caractersticas 
biolgicas, a acumulao de conhecimentos primxios, a fonte de experincia e desenvolvimento e os 
rgos executivos determinam de forma decisiva o comportamento humano.

Pr-programao biolgica e aprendizagem social

O comportamento agressivo do homem e do animal tem mlplas causas e efeitos. A agresso desempenha 
em vrios aspectos uma funo de adaptao individual e colectiva, na medida em que conserva a 
integridade do indivduo e do grupo. Os mecanismos nervosos do sistema nervoso central, que podem ser 
postos.em funcionamento mediante influncias hormonais e psicossociais, expressam as coordenadas 
genticas e hereditrias. Os dez a cem bili&s de clulas existentes no organismo humano obedecem todos, 
ao mesmo padro de fabrico e a sua complexidadeest contida num cdigo de extrema simplicidade que 
apenas se compe de quatro elementos-base: adenina, guanina, citosina e timina.

Toda a estrutura  uma espcie de gramtica. As quatro (detras programam a interveno dos vinte cidos 
que so as

134                  ACRESSIVIDADE

palavras; estas transformam-se por sua vezem frases e aptulos, cuja sintaxe determina os 
processos de metabolismo no interior da clula. O cdigo gentico segue os mesmos princpios -de 
formao em todas as clulas; a funo especfica de cada clula resulta do bloqueio parcial (diferente 
segundo. as cluIas) do programa gentico.

As bases qumicas de hereditariedade so o cido dexobonucleico (A. D. N.) do ncleo celular, que  
constitudo por duas longas cadeias de elementos interligados. Nas molculas deste cido esto contidos 
todos os planos, pr@,granias de desenvolviniento e directivas de produo do organismo; so elas que 
presidem a-os fenmenos vitais segundo o esquema de hlice dupla, quer dizer, urna -escada de corda 
formada em espiral (como se fossem duas espirais enroladas uma na outra em que as voltas reunissem duas 
molculas vizinhas). Se as cadeias que formam o A. D. N. se desenrolassem teriam um comprimento de 
milhares de quilmetros e, -no -entanto, estas cadeias, que contm o programa gentico, de to-dos os seres 
humanos, -ocupam o espao de um dedal.

Oorganismo contm um relgio qumico que determina antecipadamente a durao aproximada da vi-da. O 
envelhecimento @e a morte no so qualidades, mas consequncias de reaces qumicasde molculasde 
albumina; as regras da senilidade e, finalmente, da morte so deterininadas com exactido por protenas 
instveis (asparagi,na e gluta,mi,na). Quanto mais instvel  uma molculade protena, mais fraca a sua 
esperana de vida. A tendncia ao envelhecimento e morte est contida no pTograma da clula: a morte 
faz parte do programa da vi-da.

O sexo masculino  em regra determinado geneticamente por unicromossoma Xe um Y e o feminino por 
dois cromossomas X. A existncia ocasional -de um segundo cromossoma Y e, powtanto, a duplicao, de 
inasculinidade foi durante algum tempo considerada respons 1 por um excesso, de agresso anormal em 
certos indivduos. A guns criminosos so absolvidos por

ve
1 suspeita de uma superagressividade gentica, fundamentada na existncia desta dupla masculinidade. 
As investigaes recentemente efectuadas por KessIer e Moos contestam, no entanto, qualquer relao, 
entre os cromossomas XYY e a tenso, agressiva.

No decurso da evoluo humana, as reaces de defesa e sobrevivncia tornam-se reflexos neuromotores 
que fazem parte do @programa gentico. O crebro trabalha de acordo com um

A G R E S S 1 V 1 D A D E                  135

complexo sistema regulador de travagem e acelerao. As regies principais que determinam a agresso 
encontram-se -nas camadas mais profundas do inconsciente e nas estruturas subcorticais, formando o 
sistema lmbico. Este sistema estende-se desde a parte anterior do crebro ao tronco cerebral e  
constitudo pelo hipotlamo e partes do tlamo.

Os centros superiores do c<STtex inibem a agresso e quando so afectados conduzem a um 
comportamento violento e desenfreado que, segundo Mark e Ervin, se expressa por brutalidade absurda, 
embriaguez patolgica, ataques sexuais e graves acidentes de automvel. O mesmo comportamento pode 
ser provocado por afectao (@u su,perestimulao) do sistema lmbico e cama- ,das -do inconsciente (por 
exemplo, depois de uma encefalite). A afectao das partes lmbicas do crebro, pelas diversas formas de 
epilepsia determina por vezes uma diminuio do contrle dos impulsos e actos violentos. O 
desaparecimento desta inibio cortical desinibe as zonas mais profundas do crebro; pode ser devida a 
leses cranianas, estados de senilidade e embriaguez causada pelo lcool ou drogas. O lcool enfraquece 
o poder nibi,tivo@ do crebro. A Icb.o.tomia da regio parafrontal nos doentes mentais afectados por 
agressividade crnica neutraliza os centros cerebrais que estimulam a agresso.

No existem, porm, partes especficas do crebro que provoquem ou libertem a agresso. As 
modificaes do comportamento agressivo so determinadas pela destruio do equilbrio das influncias 
de estmulo e contrle, inibio e desi@nibio que partem dos diversos centros.

Os infinitamente complexos mecanismos -do crebro, que reciprocamente se influenciam, so -
determinados pela estrutura psicoqumica, do, crebro, estmulos recebidos do exterior e interior do corpo, 
a informao retida no crebro pelas experincias anteriores e relaes que se estabelecem entre o 
conhecimento actual e o anterior. As hormonas, os produtos das glndulas de secreo, interna, protegem 
pelo seu funcionamento conjugado o balano neural entre a inibio e desinibio agressiva; quando, as 
glndulas endcrinas so afectadas, pode verificar-se a agressividade.ou a apatia. Nos perodos em que a 
actividade hormonal  mais intensa, como, por exemplo, durante a puber dade, que intensifica a secreo 
das hormonas sexuais, observa-se temporariamente um aumento de agressividade. A expresso exagerada 
ou a falta de expresso (que oculta muitas vezes uma

136                  AGRESSIVIDADE

,represso excessiva) de agresso so sempre um indcio de urna aberrao mrbida, que tanto pode ser 
endgena. (provocada por causas internas) corno exgena (provocada pelo meio ambiente), e, na rnaior 
parte dos casos, de uma combinao dos dois factores.

Para compreenso do fenmeno, da agresso humana tornam-se indispensveis as experincias com 
animais, se bem que os investigadores cientficos declarem sempre que os fenmenos observados, nos 
animais no se podem transferir automaticamente para o plano humano. Investigaes recentes 
demonstram, no entanto, de modo significativo que tambm nos animais, e surpreendentemente, a 
influncia psicossocial tem um papel absoititamente decisivo. As estimulaes do crebro ou os estmulos 
dolorosos s provocam um comportamento agressivo no macaco @

uando  utilizado como objecto de agresso um companheiro ierarquicaniente inferior. A agresso  
reprimida frente a ani-mais cuja posio hierrquica lhes  superior.

H.arry e M. Hairlow demonstraram em experincias clssicas que o isolamento  nascena do macaco 
conduz normalmente a violentos ataques agressivos quando.o animal  adulto. Os seres criados 
isoladamente tornam-se animais de uma agressividade brutal Ou apticos e passivos que os companheiros 
atacam. o iniedo  um sentimento dominante quando os macacos so educados no isolamento. Afastam-se do 
grupo; mais tarde s podeni contactar com animais que tenham sido criados sozinhos. Algumas vezes 
acontece que, passados meses de uma apatia total, irrompe um,a c@ise de agressividade que se expressa 
mediante desprezo do perigo e, quandoem extremo, mediante uma temeridade suicida contra fortes e 
fracos. Verificam-se, na generalidad,e, profundas perturbaes do comportamento ldico sexual ou social. 
Os contactos a,fectvos -precoces com a me ou companheiros de idade levam o animal  aprendizagem e 
assimilao de formas ritualizadas de comportamento agressivo e regressivo. Os camaradas podem 
substituir a me e a me os camaradas. Os macacos bebs que tm a infelicidade de ser -tratados de forma 
brutal por uma nie educada isoladamente (o mesmo se passa em relao s crianas mrtires) encontram 
compensao nos companheiros mais velhos. ;Contrariamente ao conceito simplificado de que a 
aprendizagem individual apenas modela. e influencia as formas de comportamento biolgicas inatas, deve-
se assumir hoje em dia que os

AGRESSIVIDADE                             137

padres de comportamento sociais aprendidos constituem uma inibio de valor positivo e podem impedir 
completamente o desenvolvimento e manifestao de formas de comp?rtamento naturais e biolgicas, 
mas tambm de valor -negativo, como no caso da agresso destrutiva.

O rato isolado que  submetido a um choque elctrico doloToso tenta fugir ou fica paralisado pelo terror. 
Quando o mesmo choque doloroso  aplicado simultaneamente a vrios ratos, estes atacam-se uns aos 
outros. A dor torna-os indiscriminadamente agressivos. Tambm se pode fazer a mesma afirmao 
relativamente a outras espcies de animais, como por exemplo cangurus, pombos e macacos. A intensidade 
da dor  o elemento que desen- cadeia a agresso: a aco agressiva dirige-se indiscrminadamente a 
objectos vivos ou sem vida. A agresso provocada por dor fsica ou psquica.no s.e processa, no entanto, 
de acordo com um esquema estereotipado, mas pode ser orientada e educada segundo padres 
aprendidos.

Calhoun demonstrou experimentalmente os efeitos agressivos das massas sobre a agressividade: no centro 
superlotado do recinto os ratos aglom-eravam-se, atacando-se e ferindo-se uns aos outros de forma brutal, 
vio-lavain. as fmeas, no respeitavam hierarquias e comportavam-se desenfreada e agressivamente 
segundo os moldes de uma cidade superpovoada. Na periferia do recinto a quantidade de ratos existentes 
era muito menor; a reinavam a paz, a ordem e a calma; criavam-se e conservavam-se as costumadas 
hierarquias e respeitavam-se as- mesmas. Foi interessante, no entanto, a observao de que os ratos 
disciplinados se sentiam atrados pela agitao catica do centro (ou talvez precisamente por esse 
mtivo) e passavam voluntariamente para o mesmo, provavelmente para trocarem a monotonia da vida 
calma pela excitante variedade que o caos lhes oferecia.

J. P. Scotte Zuckermann forram capazes de demonstrar numa experincia efectuada com macacos que o 
fenmeno, das massas pode estar na origem de uma agresso destrutiva e violenta, mas que esta pode ser 
igualmente provocada por todo o gnero de desorganizao social.

A agresso  uma forma bsica de comportamento que pode ser provocada, reforada ou reduzida pela 
dor, medo, clera, provocao, ameaa quanto a posio hierrquica, repleo e outros estmulos internos 
e externos; ipode ser influenciada de forma decisiva por experincias de aprendizagem.

138                  A GRE S SI VI DAD E

A suspenso de um plano de aco provoca os sentimentos agressivos de raiva e de clera. Estes 
sentimentos afirmam ou modificam o propsito primitivo na relao de iniportncia dada ao objectivo a 
atingir pela ac o e  considerao das possibilida,des de o conseguir. A -clera, a raiva e o medo tambm 
funcionam como a angstia enquanto sinais subjectivos que indicamo perigo e o fracasso, inas tambm so 
reaces  interrupo do projecto OU frustrao do, objectivo. As esperanas desenganadas e frustradas 
aumentam a probabilidade de agresso, se bem que Bei---kowitz e Lazarus tenham deirionstrado que nem 
to-das as frustraes conduzem necessariamente a exploses de ,clera ou a actos violentos. Ignoramos 
frequentes vezes o que inos atormenta; o nervosismo e a agitao so os sinais visveis de urna agresso 
controlada. (As variaes atmosfricas trn um efeito semelhante; o siroco e os ventos do deserto 
provocam a apatia; o vento quente das mntanhas aumenta a irritao e a agressividade). Os pensamentos 
de vingana encontram a sua justificao na raiva; a esperana que se colocou num determinado objectivo 
para o qual se trabalhou e em que se investiu tempo e relativamente ao qual se receberam promessas ou se 
acha que h muito se tem direito transforma-se, quando frustrada, mediante os sentimentos de clera, raiva 
e dio ante a injustia, no motivo mais importan,te da agresso.

A sensao subjectiva de presso, de no se ter sido compreendido ou de se ter sido alvo de injustia 
provoca a raiva e a clera, que, por sua vez, conduzem a um comportamento agressivo. Nem ;mesmo a 
clera mais intensa s.e expressa obrigatoriame,nte em agresso declarada. Na maioria esmagadora dos 
casos a reac o de clera-na opinio de McKellar -apenas se expressa por ofensas ou insultos ou  
desviada para um objecto sem vida. (Parte qualquer coisa barata, minha querida! -aconselha o marido  
mulher enfurecida.)

Neir. a clera nem a raiva arrastam necessariamente a violncia. Na inaior parte das vezes esfumam-se 
rapidamente e cedem lugar  razo@ e ao contrle. O dio, porm, que se dirige sempre contra alguma 
coisa ou algum tem, como o amor, feio de compromisso; permanece-semuitas vezes fiel durante toda a 
vida ao objecto que provoca o dio. Estes sentimentos so muitas vezes reprimidos de forma agressiva, mas 
no declaradamerite violenta. Transferem-se, ritualizam-se e projectam-se sobre uma imagein do inimigo 
sem se atingir o plano de agressividade

AGRESSIVIDADE                            139

manifesta. Muitas neuroses so devidas a esta represso e podem em seguida exprssar-se em agresso 
dirigida para o interior, apatia e depressafl.

Dentro do esquema humano, de deciso, os hbitos ritualiza-dos, e acima de tudo a considerao das 
probabilidades de contra-ataque, actuam muitas vezes como factores de represso. Este processo de 
apreciao parte-se pela base, quando apenas so, consideradas as necessidades -momentneas e pessoais 
e a aco se torna em si mesma um fim.

Este facto confirma a nossa prpria teoria da agresso. Existe violncia quando da eliminao das 
complexas possibilidades de escolha que exigiriam reflexo, ponderao e alternativas. O acto agressivo. 
s se torna a  nica possibilidade de resoluo, de um conflito se se tomar apenas em considerao o 
instante presente, bem como- a pessoa e o grupo em causa.

O lcool e as drogas

O lcool, mesmo quando. ingerido em pequenas doses, aumenta o potencial de violncia, perturba a mente 
e enfraquece o contrle. Quando tomado em doses maiores afecta os centros superiores do crebroe 
suprime o contrle dos instintos sem aumentar a fora destes instintos, apesar da impresso subjectiva. 
Todas as estatsticas criminais demonstram a inegvel correlao positiva entre o abuso do lcool e a 
multiplicao de crimes e acidentes.

A aco farmacolgicado, lcool em certas partes do crebro no sentido da falta de contrle desempenha 
neste processo apenas um papel de agente secundrio e no decisivo. O lcool aumenta o sentimente, de 
valor prprio e autoconfiana, se bem que os bbedos se tornem muitas vezes hipersensveis e desconfia-
dos quanto a promessas quebradas, esperanas frustradas e sentimentos de cime. O lcool aniquila a 
recordao do passado, bem como a imagem de possibilidades futuras e reduz acima de tudo. o significado 
destas consideraes. A restrio exclusiva do indivduo, ao momento presente pode lev-lo a cometer um 
acto de violncia caso s.e -proporcione (se tem uma

arma ao alcance). A diminuio do sentimento, do medo pelo prazer do lcool s est cientificamente 
comprovada quando

140                   AGRESSIVIDADE

ingerido em doses muito elevadas. De incio, o lcool quase sempre aumenta o sentimento de fora e de 
independncia.
O desejo de afirmao pessoal, -prestgio e de triunfos fceis no campo sexual adquire relevncia de 
primeiro plano, havendo neutralizao de todos os factores de contrle. Afirmou-se que o lcool provoca a 
revela o do superego.

As sociedades onde se bebe mais distinguem-se <Ias que bebem menos mediante um aumento de 
actividades agressivas, como a caa, uso regular de instrumentos cortantes e recurso  violncia. A 
temeridade, a gabarolice e a vaidade, que geralmente so acompanhadas de um desejo acentuado de 
conquista de objectos de prestgio, tais como jias, armas ou um carro, so apangios do bebedor. Os 
indivduos frustrados no seu desejo de posio e de poder tm tendncia a beber e por outro lado o lcool 
leva o bebedor a imaginar-se poderoso apesar das realidades. O crculo infernal termina com o processo 
de consolo e compensao no lcool.

O lcool significa o tubo de escape da agresso e segurana que proporciona um consolo catrtico e uma 
ilus o de intimidade com os companheiros de bebida. O efeito do lcool no  apenas farmacolgico, mas 
igualmente condicionado por esiperanas de realizaes sociais. Os Americanos bebem porque o 
lcooldiminui a teriso, os Franceses Porque faz bem ao fgado e auxilia a digesto; muitos vienenses 
so de opinio que o vinho poupa despesas -com o psiquiatra, porque o prazer da bebida numa atmosfera 
de amizade satisfaz de forma mais econmica e agradvel do que uma consulta psiquitrica a necessidade 
de expanso e a expresso inocente de uma agressividade verbal. A descarga directa de agresso , na 
verdade, um efeito indiscutvel do lcool.

O efeito catalisador do lcool no que se refere  violncia s  ultrapassado pelo de uma outra categoria de 
drogas: as anfetaminas, que se utilizam em pequenas doses como estimula@ntes e para emagrecimento. 
Quebrani o ritmo do sono e produzem um desarranjo motor que  acompanhado de concentrao 
exclusiva no prprio eu, indiferen@a em relao s consequncias futuras e desconfiana paranica.

Os Americanos falam de speed kills e querem com isso dizer que a combinao extremamente forte de 
anfetaminas chamada metradina  to mortal para os outros como para ns mesmos.

A G R E S S I V 1 D A D E                  141

O despertar de sentimentos acentuadamente eufricos e multas -vezes msticos mediante a ministrao 
intervenosa da droga em breve se transforma numa tenso insuportvel que conduz a uma procura de 
excitantes, seja em que aspecto for, acompanhada de completa indiferena pelas consequncias.

Muitos alcolicos e todos os que se drogam com anfetaminas desenvolvem um sentimento de exasperaao 
quanto aos seus direitos que muitas vezes chega a atingir a aberrao e a loucura. Processa-se uma 
parania que os leva a sentiT-se troados, escarneci-do,s, postos de parte, feridos na sua dignidade, 
lesados na posi o que lhes compete, desiludidos devido a promessas por cumprir e atraioados por 
amigos falsos. Muitas vezes so cometidos crimes por drogados que se sentem pTejudica@dos quando da 
compra ou venda de drogas. O restabelecimento do equilbrio de justia (pa,,ra colocar as coisas no seu -
devido lugar), a vingana e o castigo so uma necessidade vital para o seu rgido cdigo moral. O uso da 
droga comporta um risco de exploso, no s porque a droga excita e aumenta as tenses ou porque 
suprime os contrles cerebrais, mas tambm porquereala a 1,egitimidade da violncia como justo castigo 
do suposto culpado.

As outras -drogas hoje ingeridas com uso e abuso, e contrariamente s esperanas da opinio pblica, no 
tm qualquer correlao manifestamente di,,recta com a violncia. Quando muito teriam um efeito negativo. 
Todos -os calmantes e soporferos favorecem um -estado de descontraco fsica e diminuem tambm 
consequentemente a tendncia  violncia. Alguns sopoTferos, principalmente os barbitricos, 
podeninaturalmente e POT vezes ocasionar actos -de viGlncia contra a prpria pessoa mediante tentativas 
de suicdio ou suicdio.

Os narcticos, em particular os derivados do pio, como a herona, etc., provocam uni estado de 
dependncia e so pyejudiciais  sade, bem como muito perigosos em relao  sociedade. Os estados 
eufricos e de embriaguez experimentados pelos drogados no favorecem por si a agressividade, mas os 
drogados cometem muitas vezes crimes brutais, quando o seu desejo de obteno da droga s pode ser 
satisfeito por esse meio. O meTcado internacional e nacional de drogas continua sob contrle de elementos 
criminosos. No  a herona, mas o comrcio da herona, que actua no sentido de um aumento da 
agressividade, se bem que o crime comercial, graas a uma organizao excep-

142                  AGRESSIVIDADE

cional que garante uma enorme margem de lucro, s raramente recorra  violncia. Um quilo de pio 
vendido ilegalmente pelos camponeses turcos custa cerca de vinte dlares; depois de os cristais 
pardacentos terem sido purificados por vrios processos e dis-tribudos aos consumidoTes de Nova 
lorque, o quilo passa a custar cerca de 10 000 dlares. O lucro redunda em cerca de cinquenta mil por 
cento.

O haxixe e a marjuana, que provm do cnhamo indiano, provocam uma modificao de percepo do 
tempo, espao, cores e sons, acompanhada de uma leve perturbao da memria e muitas vezes da fala. A 
disposio adquirida  geralmente eufrica e agradvel; depois de a droga ser ingerida verifica-se um 
decrscimo da actividade fsica e uma fraqueza de concentrao.
O haxixe conduz  apatia, falta de mo,tivao e uma diminuio significativa das tendncias violentas.

Algumas drogas provocam alucinaes; so elas a mescalina e o LSD, descoberto por uma experincia 
acidental. Produzem estados de -embriaguez acompanhados de iluses visuais, impresso de 
despersonalizao e modificaes das fronteiras do eu que fazem crer num alargamento de conscincia. O 
aplanar de fronteiras entre o, interior e o exterior ocasiona frequentemente um sentimento de participao 
num todo ou numa vasta comunidade humana; o sentimento subjectivo de exaltao da actividade, de onde 
se poderia esperar um -efeito teraputico e aumento de aptides artsticas,  infelizmente muitas vezes 
acompanhado de um notvel decrscimo das reais capacidades.

A embriaguez da droga significa uma fuga e evaso para l da priso cultural e pessoal do real e possibilita 
a viso de uma realidade expandida e de um eu que no  o verdadeiro eu que a pessoa espera encontrar. 
A habituao s drogas provoca geralmente estados psicticos em que os drogados particularmente 
influenciveis ficam indiferentes aos actos de violncia que cometem e sofrem. Sob influncia das drogas, o 
perigo n o  habitualmente levado a srio. Os drogados saltam despreocupadam-ente de janelas de 
andares altos ou passeiam indiferentes ao trfego de automveis. At mesmo, no entanto, nas viagens 
difceis, em que esto presentes a tenso do medo e uma desconfiana paranica, quase nunca acontecem 
actos de violncia. Em resumo, tanto -o haxixe como a marijuana e tambm as drogas alucinogneas 
diminuem geralmente os impulsos violentos.

AGRESSIVIDADE           143

O medo

O medo teve um processamento, s-emelhante ao da agresso: primeiramente consi-derou-se como 
pato,lgico, depois apenas quando numa percentagem quantitativamente elevada, at que poT fim se 
tornou um fen ,rneno humano universalizado. O medo  unidos fundamentos da existncia; pensa-se que 
desde sempre @existiu com os outros instintos, sendo semelhante a estes em muitos aspectos e fazendo 
parte da primitiva constituio do ser humano. Muitos filsofos e investigadores tiveram esta concepo, 
desde sempre. O medo  a percepo de uni perigo, interior ou exterior, real, imaginrio ou antecipado. O 
medo  um sinal ,que mobiliza e coloca o rganismo num estado de alerta, o predispe  fora,  defesa ou 
ao ataque. (9 medo nas suas caractersticas gerais no se distingue do receio, enibora se considere 
basicamente que o receio tem causas totalmente determinadas e o me-do, causas gerais e indetexmnadas. 
A transformao do medo em receio atravs da localizao r dramatizao das causas arneaadoras 
aparece-nos como resultado de um mecanismo de simplificao.) O medo  unia emoo primitiva que, 
segundo M. Schuy, constitu a expresso de uma reaco biolgica no homem e rio animal e cuja origem 
filogentica poissui carcter hereditrio. Talvez o medo da sepaxao provocado pelo nascimento seja o 
primeiro padro e o primeiro motivo de medo. Segundo a teoria de MIanie Klein, o medo primrio  a 
reaco quase instintiva ao perigo da autodestruio. A projeco da nossa agressividade para o -exterior  
a primeira tentativa de superar o medo dos outros. Pretende-se destruir para no se ser destrudo -e matar 
para no se ser morto. Esta regresso como ponto, de partida e esta motivao da agressivida,de por medo 
de destruio pessoal desempenharo um papel importante. Observam-se recursos semelhantes  violncia 
criminal ou poltica, perda de contrle individual e exploses colectivas da mesma natureza. O medo sem 
contrle apresenta perigos; quando o medo tem um carcter vago e geral, os perigos enco@ntram-se 
sempre presentes em todo o lado. Tambm o organismo procura concretizar o medo em sintomas e limit-lo 
a determinadas situaes.

O inedG primitivo, corresponde a urna agressividade que no se pode expressar e encontra-se localizado 
no id, nas camadas

146                  AGRESSIVIDADE

temente, ao mecanismo de defesa da transferncia que, alis, se assemelha ao da.inibio.

Frente aos mais fracos, manifesta-se a agresso que no se ousa apresentar ante os mais fortes. O pai pode 
gritar com os filhos Porque foi repreendido por um superior a quem no ousou responder. A agressividade 
reprimida e armazenada vai-se acumulando, muitas vezes, at poder ser descarregada em grupos de 
adversrios que o permitam. S muito raramente e em casos patolgicos  que a tenso se torna to 
insuportvel que a agresso tem de ser descarregada em qualquer objecto. As agresses so s vezes 
reprimidas com aenergia do desespero, at aparecer um objecto que, permita a sua exploso sem risco. 
Todas as minorias e maiorias oprimidas, as mulheres, as crianas, os negros e os subordinados, se prestam a 
este objectivo.

Uma represso excessiva da agressividade por medo (ou para eliminao do medo) ou tambm um 
rigorismo excessivo da coinscincia (sob efeito, do medo) provocam um contrle conformista do 
comportamento, mas tambm uma maior predisposio ao medo,. A conscincia de agresso pode ser 
eliminada, mas a represso no. pode.

A regresso das tendncias agressivas aumenta, por contTrio, a agressividade, a brutalidade e a 
predisposi o agressiva.
O medo,do perigo exterior, que comporta tambm o perigo interior exteriorizado, mobiliza a agresso, 
que defender o indivduo e o conduzir a uma auto-afirmao e  eliminao do inimigo externo. Neste 
aspecto, o medo,  a causa mais frequente, se bem que algumas vezes dissimulada, da agresso;  tambm, 
simultaneamente, um pretexto. Todavia, a espera da reaco violenta de um inimigo superior pode, por 
outro lado, retardar e impedir a agressividade ou mant-la no subconsciente.

O excesso de uma agresso, reprimida inconscientemente con-duz, por seu lado, novamente ao medo e 
provoca um desencadear de -descargas explosivas e regressivas. Uma exagerada disponibilidade ao 
medo, quer -dizer, diminuio das ondas de medo, mediante experincias traumatizantes, provoca um 
comportamento impulsivo e agressivo que pe fora de combate as funes inibitivas do ego.

O contrle intencional da agressividade atravs da manipulao do medo, por meio de castigos e ameaas, 
pode levar o indi-

AGRESSIVIDADE                             147

vduo a recorrer, precisamente,  agresso por medo. O medo

roduz a represso; uma represso excessiva produz um medo incontrolvel que se -expressa em apatia, 
agresso, explosiva, numa combinao de letargia e tenso ou num estado permanente de ressentimento e 
sintomas neurticos.

O medo pode, portanto, ser motivo e estmulo, bem como inibio e substituto da agresso. Neste ltimo 
caso, em que a agresso  reprimida, a disponibilidade  agresso aumenta paralelamente  paralisia da 
actividade. A passividade  inteiramente compatvel com a :tendncia  agresso explosiva e estes dois 
elementos resultam do medo. O medo incontrolado, tal como o supercontrolado, transforma-se em pnico, 
pressente ameaas e perigos em to-da a parte -e recorre, de bom grado,  fo,r@a desenfreada. A 
imposio@ e.intimidao, de outrem so muitas vezes -defesa contra o proprio medo, um desejo de 
compensao de complexos de inferichridade (Alfred Adl.er), bem como renegao e reaco contra esse 
medo.

O medo  em diversas circunstncias fonte de agresso ou meio, de contrle da agressividade. As 
agresses inconscientemente reprimidas sob essemedo no se expressam, na generalidade, directamente, 
porque tal poderia dar a conhecer instintos destruidores ocultos, provocar reaces violentas e dar origem 
a um -medo @exasperado.. Inmeras expresses de agresso permanecem inconscientes. Mais numerosos 
ainda so os mecanismos de dissimulao, atravs dos quais a agresso, para os outros visvel, permanece 
oculta para o agressivo.

Uma ou outra observao ofensiva no eram intencionais: talvez nos -escapassem muito, simplesmente. 
No existiu realmente nenhuma inteno consciente ofensiva, uma vez que a observao partiu de uma 
agressividade reprimida. A irritao teve, na verdade, uma origem totalmente diversa, mas ofendemos, no -
entanto, o nosso interlocutor. Atingiu-se o efeito certo talvez poirque no se pretendesse consegui-lo.

Quando a nossa agresso inconsciente obtm como resposta uma contra-agresso, h toda uma sensao 
de ser atacado e ferido sem razo. H os agressivos mimosos: so hipersensveis porque so 
inconscientemente agressivos e atribuem as suas prprias agresses aos outros e, por outro lado, 
superagressivos porque, por ausncia de projeco da sua agresso vivida sobre os outros, julgam-se 
permanentemente atacados.

148          AGRESSIVIDADE

Esprto e humor

O esprito desencadeia-se e expressa a agressividade. O riso franco do ouvinte  um escape de 
agressividade. Uma vez que adere e participa na graa, sempre inesperada e inesperadamente agressiva, 
pode libertar-se despreocupadamente das suas prprias tenses agressivas. O alvo do gracejo sente-se 
agredido, atingido no seu amor-prpro atravs da troa e do sarcasmo. Nada cria, frequentes vezes, to 
facilmente inimizades profundas como um gracejo a propsito.

O gracejo comporta uma simplificao, uma concretizao e dra-matizao -do real (ulma boa piada deve 
ser concisa, curta e de fcil apreenso). Contm os mecanismos de -polarizao que derivam da 
agTessividade e a favorecem. So particularmente visiveis nas imagens cmicas e caricaturas. As 
particularidades fisionmicas ou as caractersticas da pessoa que  alvo de troa so particularmente- e 
algumas vezes exclusivamente- acentuadas e exageradas. A aco agressiva intencional do carcaturista 
vai mobilizar publicamente as agresses latentes e no pronunciadas contra o objecto caricaturado. O 
prazer sentido pelo observador em relao  caricatura, que  um meio de expresso da sua agresso,  
tanto maior quanto o caricaturado  um seu rival poltico. No ri com tanto prazer ante a depreciao do 
amigo poltico; se bem que por vezes tenha humor suficiente para reconhecer a semelhana, considera a 
caricatuxa grosseira e exagerada. Na figura ambivalente do palhao, simultaneamente alegre e suscitando 
a Co@mpaixao, encontra-se esquematizado o antagonismo do dilema da agresso. O palhaopode, na 
verdade, quebrar o tabo da agressividade e expressar agressivamente na sua liberdade de louco o que 
ningum ousaria dizer, mas no , porm, leva-do a srio. As suas apreciaes inteligentes de nada lhe 
servem, porque ningum o teme. Diverte o pblico e permanece, no entanto, desamparado e triste. 
Mediante a imagem do cmico desamparado, o palhao torna-se um objecto legtimo de agresso. Pode-se 
rir impune e malignamente do pateta simplrio e provoc-lo, porque se sabe, de antemo, que dele no 
advir qualquer represlia.

O humor  muito apreciado e considerado como aptido de reconhecer as nossas fraquezas e defeitos 
pessoais, submetendo-se a uma autocrtica agressiva e s@em uma fuga ao papel de alvo de

AGRESSIVIDADE                              149

apreciaes trocistas. Diferenciando-se do bom ponto, o humorista troa de si mesmo e interiormente 
sente-se com a segurana e liberdade suficientes para oportunamente se tornar alvo da agresso para si 
mesmo. As publicaes satricas e os gags polticos tm o seu apogeu durante os perodos de opresso; 
cabe-lh,es a funo de escape de agressividade e -lhes permitido uma crtica agressiva vedada  opinio 
pblica.

As piadas polticas e as caricaturas mobilizam a agresso e ,polarizam-se sobre um objecto concreto. Resta 
saber se satisfazem verdadeiramente a inteno agressiva dos outros ou se desviam o pblico de actos 
agressivos mais eficazes mediante esta libertao inocente da sua agressividade. Em todo o caso, e ao que 
se diz, hbeis sistemas de manipulao dos espritos e polticos argutos divertem-se a inventar e a espalhar 
piadas contra si mesmos, a fim -de evitar manifestaes agressivas mais perigosas.

Depresses e parania

A depresso  o nome generalizado para a diminuio da autoconfiana, que  sempre sentida com 
desagrado e, algumas vezes, se torna dolorosa, aflitiva e insuportvel. Quase todas as pessoas 
experimentaram, ocasionalmente, depresses ligeiTas, desgostos e desnimos. So reaces normais a 
desiluses, fracassos e perdas. A diminuio da autoconfiana, o sentimento de desamparo edesespero, 
bemcomo as inibies de actividade e ausncia de impulsos, podem ser uma resposta a estmulos exteriores 
(depresses exgenas reactivais), mas tambm terem oirigem em causas internas bastante obscuras 
(depresses endgenas). Estas causas podem, em casos patolgicos, conduzir  loucura, desespero, 
sentimento de impotncia, auto-acusao ou uma completa letargia.

A psicologia das profundidades acentua o papel decisivo representado pelo superego no caso das 
depress es. Uma conscincia severa, impiedosa, algumas vezes insensata e mesmo estupidamente 
inexorvel sobrecarrega o ego de censuras e ameaas, priva-o de afecto e de considerao. O ego, 
quando ameaado e torturado, multiiplica as censuras contra si mesmo, acusa-se de defeitos e negligncia, 
d largas a manifestaes de doir e de tristeza, desejando pr fim ao seu -tormento eventualmente atravs 
do suicdio.

150                   A GRE S SI VIDA DE

A depresso  uma agresso voltada para o interior, como, alis, o fenmeno normal da -tristeza. A perda 
de uma pessoa amada leva  libertao e manifestao da agresso,  inistura corn impulsos erticos at a 
liga-dos  pessoa. Esta agressvidade  acompanhada de trsteza e, ao expressar-se, algumas vezes em 
sentimentos violentos e de culpabilidade, volta-se, muitas vezes, contra a prpria pessoa. Nas observaes 
de casos de psicoses depressivas torna-se particularmente visvel a ambivalnca e reversibilidade da 
agresso. Na fase manaca o doente apresenta sintomas de urna alegria sem limites, optimismo indestrutvel, 
excitao e tambm de uma agressividade desnibida e ilimitada acompanhada de um sentimento 
patologicamente exagerado de valor e eficincia pessoais. Nafase posterior do desenvolvimento da 
doena, -e sem qualquer causa ex-terna, o mesmo indivduo mostra-se des,encoraiadG abatido e inibido; 
sente-se indigno, desprezado, e abandonado, O quadro clnico  dominado por pensamentos de suicdio, 
que tm como objectivo permanente a elirflnao de UM Cil detestado, desprezado e indigno. Neste 
estado de agresso completarnente dirigi-da para o interior, o eu do indivduo toma-se o nico objecto de 
agresso. A tentativa de efectuar o acto agressivo contra si mesmo verifica-se na PeTigosa fase de 
transformao do doente, em que as fantasias depressvas e autodesti-utivas so acompanhadas por uma 
activao geral do indivduoseguidamente  -recada na fasemanaca, Em situaes ntermdias, verifica-s-e 
uma combinao de agresso dirigida para o interior e de atitude depressva com urna projeco 
smultnea de agressividade em pessoasesituaes vista sob um ngulo paranico. s vezes o superego 
tambm s.e torna objecto de dio mediante um mecanismo de interiorizao de uma agresso 
primeiramente, Proicctada e que  muito vulgar -na criana de tenra idade. Na tentativa de suicdio, o 
infeliz doente.pretende destruir o seu ego indigno ouo carrasco agressivo que vive no seu ntimo, o 
superego, e cujas exigncias ele no consegue satisfazer.

O suicdio -ou a tentativa de :s@uicd-io so agresses que no tm a autodestruio como fini nico. 
Muitos suicidas preteridem, atravs do seu acto, chamar a ateno dos que os rodeiam para si e para os 
seus problemas. Servem-se deste nicio extremo para abalar os que no lhes prestaram a ateno devida 
nem os arna,ram suficientemente. Utilizam a agresso para levantar o alarme. Esto impacientes; no 
querem nem podem esperar mais nem experimentar outras alternativas, Escolhem o meio de vio-

AGRESSIVIDADE                              151

lncia dirigida contra eles mesmos como ultima ratio, uma vez que, destrudas todas as possibilidades, nada 
mais lhes resta.
O acto do suicdio destina-se a por fim  tenso insuportvel (e dadas as circunstncias tambm ao 
sofrimento insuportvel). A maioria dos suicdios que se concretizam no obedecem, no

entanto, a planos, mas representam reaces primitivas para chamar as atenes. As tentativas de suicdio 
so, tambm naturalmente dramticos pedidos de auxlio, gritos de socorro e sinais de desespero. A 
agr@sso suicida possui tambm, algumas vezes, uma funo, cognitiva; comporta uma esperana de obter 
um novo e extraordinrio conhecimento, conferido por uma situao nova. Mais frequentemente  ainda o 
motivo de, atravs do sacrifcio da vida, atingir os impiedosos que causaram o seu prprio sofrimento, 
mostrando-lhes sentimentos de culpa, e lev-los, talvez, a uma modificao inteTior. Em muitas sociedades 
primitivas o des.esperado.suicda-se, normalmente, em frente da casa da pessoa que considera responsvel 
pelo seu sofrimento. Esta pessoa ser desterra-da pela sociedade. A aco agressiva contra ns mesmos 
encontra-se, portanto, visivelmente ao servio de uma agresso violenta contra a violncia sofrida.

Emuitas vezesquestodo acaso o facto de a agressoprimtiva e primitivada da fora desenfr<,-a<la se 
exercer contra o prprio ou contra os outros. Muitos assassinos acabam suicidando-se ou tm de ser 
impedidos pela foTa. de se suicidarem. O que, a princpio, se queria suicidar acaba muitas vezes por matar 
os outros. Pelo que -nos ,dado deduzir do. -material clnico que temos em nosso poder, vinte e oito 
assassinos afirmaram convietamente que apenas tinham cometido crimes paraeles mesmos serem 
executados. Klaus Hoppe fornece-nos excelentes exemplos relativos  transfoTmao e converso,da 
agresso. Analisou criticamente e descreveu os casos -de cento, e noventa doentes antigos detidos em 
campos de concentrao e perseguidos. Estes indivduos durante longo tempo, e mediante situaes 
extremas, tinham aguentado desesperadamente um sofrimento indevido e terrvel. Decorridas dezenas de 
anos, ainda deram provas de graves perturba es psqucas e frequentes depresses crnicas reactivas, 
com siritornas de medo, sonhos de perseguies e sentimentos de culpa por terem sobrevivido aos 
companheiros de infortnio. Eram tambm frequentes os casos de perturbaes psicossomticas, perda de 
sentimento, de autoconfiana, apatia e falta de reflexos. Em muitos doentes verificava-se, em contrapaxtida, 
um esquema

152                    AGRESSIVIDADE

quase dametraliriente oposto ao descrito por Hoppe, como agresso reactva crnica. Consiste numa 
espcie de obsesso feita de dio que foytalece, Yitualiza e repete a antiga posio de defesa contra um 
ambiente hostil.

As tendncias depressivase as suas causas, quer tenham fundamento real ou existam unicamente na 
irnagina@o, so normalmente compensadas e aliviadas, mediante uma vi-Tagem para o exterior da 
agresso dirigida para o interior e atravs de um condiciona,mento da agresso. Se se conseguir provocar 
reaces agressivas nos doentes depressivos, est-se no caminho da cura. A mobilizao e a expresso 
verbal de uma agresso anteriormente dominada, reprimida e dirigida para o prprio indvduo, que so 
afinal os acessos de clera e raiva, so consideradas como sinal teraputico de valia.

Acima de tudo, no entanto, h que entusiasmar o doente, por exemplo, mediante terapia de ocupao e de 
trabalho, a uma viragem de agresso para o mundo exterior. A reconquista de uma velha rotina ou o esta 
belecimento de uma nova rotina rtualizada acalmam a -necessidade de um condicioriamento  agresso e 
desviam a agresso dirigida ao prprio eu, atravs de urna ocupao pessoal. Dentro desta teoria, todo o 
gnero de trabalho tem tambm um efeito tcraputco, como escape de a"so, legitimada, portanto 
relativamente isenta de todo o sentimento de culpabilidade ou angstia. Cr-se, geralmente, que, se no 
existisse urna rotina de trabalho, @a ociosidade  o come@ de todos os vcios), haveria indubitavelmente 
um tdio ainda maior e urna mais vincada dsposio@ a exploses agTessivas violentas. Uma vez na 
presena de laos criadores por obrigaes familiares e profissionais e da integrao dos indivduos na 
sociedade atravs dos mesmos, os revolucionrios, ique tm necessidade de dispor de um potencial de 
agressividade livre e malevel, tm muito maiores dificuldades. Por outro lado, a geraowais antiga utliza-
se do trabalho em relao aos jovens como castigo ou como terapia, a fim de que eles possam tomar 
conscincia de como  difcil ganhar a vida e para poderem ter outro6 peusamentos ou mais precisamente 
para os desviar de certos pensamentos. O trabalho cumprido e decretado, unicamente como terapia falha, 
no entanto, geralmente no seu objectivo teraputico. Tem de      Ser * ustificado por um objectivo com 
sentido (pelo menos o do dinheliro), a fim de produzir o condiciona-mento e a legitimidade da agresso.
O trabalho tornado ppetensa ou efectivamente sem sentido, -pelo

A G R E S S 1 V 1 D A D E                  153

menos para o indvduo, actua como obrigao desumana e desumanizada; tem um efeito deprimente e 
provoca, contrariamente, motivos de depresso.

O excesso de exteriorizao projectiva das fontes de perigo interiores, acompanhado da crescente 
sensibilidade e agressividade,  considerado paranico a partir de um certo grau de intensidade. A 
adulterao paranica e a adveniente falsa percepo, da realidade podem atingir o estado de loucura 
permanente e sistematizada, em que, por exemplo, o inimigo aparece como perigo participante ou 
organizador de uma conspira o, justificando, portanto, naturalmente toda a agresso que lhe seja dirigida. 
As perturbaes paranicas de menor gravidade, que deformam e falsificam a realidade por meio de 
mecanismos simplificadores de projec o dramtica, mas com menos ntensidade, levantam paradoxalmente 
problemas mais delicados; em nada diferem da habitual estrutura da imagem inimiga.

A necessidade de um inimigo implica uma certa. polarizao; a exteriorizao paranica de impulsos 
agressivos ntensifica e satisfaz esta necessidade, Uma vez que a percepo da realidade exterior e 
exteriorizada se torna um e o mesmo facto para o indivduo, a deturpao paranica f-lo, imaginar um 
perigo iminente que o alerta e mobiliza a sua agressvidade. A agresso oculta e dissimulada presta-se  
exteri'OTiza  o paran ica. A parana mobiliza a agressividade. O indivdC sente um desejo insacivel de 
poder paTa se defender contra os perigos imaginados que cria. Para sercapaz de se afirmar, o doente 
necessita de utilizar inconscientemente ou intencionalmente Mecanismos Paranicos. O poder absoluto 
provoca uma corrupo absoluta porque as suas caracteristicas paranicas facilmente se intensificam.
O poder deturpa e nega a realidade e, finalmente, acaba por a -reger segundo e mediante a fantasia 
paranica. A parania do poder absoluto significa a percepo de um perigo, primeiro imaginyioe depois 
tornado realidade, que pTovoca o que ela acaba Por legitimar: a violncia.

PRIMEIRA EXPERINCIA: PRIVAO DE ESTMULOS

O

homem resiste a muita coisa, mas no a tudo. Nem s de po vive o homeni; a excitao e os estmulos no 
so uma necessidade de luxo, mas uma necessidade vital.
O homem precisa do mundo que o rodeia para poder manter o seu equilbrio interior e capacidade 
funcional.

Os estudantes canadianos esperavam em longas filas para poderem tomar parte nesta experincia. Tudo o 
que havia a fazer ,era no fazer nada. Tratava-sc de estar deitado numa cama confortvel -e a viso 
eradirigida por binculos, numa determina-da direco; calavam luvasc as mos eram presas, mas de forma 
a no impossibilitar totalmente -os movimentos. Podia-se comer e beber, quando e tanto quanto se quisesse. 
A participao na experincia, que tambm se podia interromper logo que se desejasse, era 
generosamente paga. Este repouso dentro das maiores como- ,didades, altamente remuneradas e sem 
obriga5es, era o que de melhor se podia desejar.

Pouco -depois do comeo da experincia, quase todos os participantes adormeceram. Decorridas algumas 
horas, a maioria acordou e comeou a dar mostras de crescente aborrecimento. Muitos cantavam, 
assobiavam, falavam consigo e tentavam tirar o'm(-lhor partido do mnimo de movimentos que lhes era 
permitido. Por fim o tdio dificilmente se tornava suportvel; os participantes na experincia mostravam-se 
incapazes de coordenar ideias. Decorridas mais algumas horas todos davam sinais de impacincia e 
consideravam a situao como tortura. Sentiam-se mal naquele estado de passividade obrigatria e, apesar 
da elevada

156                   AGRESSIVIDADE

remunerao, muitos desistiram da experincia. Pela utilizao de teses simples, corno problemas 
aritmticos, anagramas e cubos, verificou-se em todos os testados,  medida que a experincia ia 
ava,nai@do, urna diminuio das capacidades intelectuais. As pessoas mais teimosas, que aguentarani mais 
de vinte e quatro horas, comearam sem excepo a sofrer de alucinaes. As alucinaes, 
predominantemente visuais, iam de simples figuras geomtricas a complexas cenas semelhantes a sonhos. A 
principio as pessoas aguentavam as alucinaes, que consideravam um substituto do mundo que 
habitualmente as rodeava. Em breve a diverso cedeu, porm, lugar ao receio e  apatia angustiosa; 
passou-lhes o prazer de procurar significados e a capacidade de interpretao das vises que os 
assaltavam.

Os expermentadores viram-se finalmente obrigados a pr termo  experincia, urna vez que os testados, 
agora completamente controlados pelas suas alucinaes, no eram capazes de aguentar mais.

A repetio desta experincia, realizada em 1954 por Dexton, Herron e Scott, verficou-se em 1956, por 
Lillie. A ausncia de estmulos, ainda mais completa, mediante encerramento dos testados numa c6u1a 
subinarna, demonstra iguais resultados.

As concluses so significativas. Os efeitos permanentes da privao de est,rnulos so o tdio, 
per.turbaes motoras e sentimento. de mal-estar, que se tornam insuportveis e que, com a continuao, 
da experincia, provocam a desorganizao inevitvel das funes superiores, sintticas e de seleco 
intelectual, acompanhada de enfraquecimerito, por falsa percepo e alucinaoes estranhas  realidade.

A princpio as pessoas @estadas ocupavam-&e a pensar nos estudos, nos amigos, na famlia e nos 
acontecimentos felizes do passado. Tentavam recordar em pormenor um.filme que tivessem visto 
recentemente ou lembrar-se de unia viagem que tivessem feito. Depois comeavam a contar at mil, 
acabavam por desistir e diziam: O meu crebro est completamente vazio; no consigo pensar -em mais 
nada. Nesta altura da expcr 'ncia, as pessoas tornavam-se irritveis e crescentemente infantis; inuitas 
chegavam mesmo ao estado do balbuciar infantil. No h dvida: a monotoniatorna as pessoas estpidas, ar-
aba por as enlouquecer e, de qualquer forma, f-las sempre infelizes.

A teowa neurofisiolgica para esta descoberta atribui grande inipoTtncia ao -tecido reticular actvante do 
crebro. Esta parte

AGRESSIVIDADE                              157

do crebro s consegue ter actividade satisfatria mediante peTmanente bombardeamento. dos estmulos e 
s depois estimula as outras regies do crebro. A monotonia provocada por condiciona-mento de 
estmulos ou repetio dos mesmos, devido a um ambiente imutvel, suscita um funcionamento anormal do 
crebro, que por seu lado faz surgir um comportamento anormal. A mudana no  a essncia da vida, mas 
a sua substncia.

O que h muito se sabia, j pelos relatrios das expedies polares, pelos operadores de -radares, q@e 
so obrigados a olhar continuamente para o mesmo ponto, e ainda pelos condutores de camies, que tm 
de conduzir os seus veculos por estradas montonas,  agora afirmado experimentalinente. A ausncia de 
estmulos provoca- como consequncia quebras na coordenao do -pensamento, nervosismo e 
melancolia, bem como alucinaes. Os estmulos dados pelo mundo exterior correspondentes ao estado de 
desenvolvimento, do indivduo, mediante riqueza de variedade e complexidade, toyna-m-se necessrios 
para garantir o equilbrio e a capacidade do pensamento. Os estmulos simples e uniformes s durante 
pouco tempo e insatisfatoriamente conseguem desemipenhar esta funo. No caso de o mundo exterior 
no fornecer estmulos suficientes, a pessoa v-se obrigada a recorrer a falsas percepes.

 evidente que fenmenos semelhantes desempenhem um papel essencial, quando se trata delonga 
ausncia de estmulos, viagens especiais e tambm na higiene psquica das crianas. Spitz descreve casos 
de depresso verificados em crianas criadas em orfanatos e asilos, o que confirma em muitos aspectos a 
experincia da ausncia de estmulos,. A inteTpretao psicanaltica explica que a apatia e o nervosismo 
existentes na criana abandonada pela me resultam da falta de amor materno. As demonstraes de afecto 
devem ser toconstantes como variadas, a fim de podeTem Ser apredadas como tal. Todas as boas mes o 
sabem e por isso procuram encontrar companheiros de brincadeiras para os filhos; a privao de estmulos 
nos primeiros meses de vida e na infncia conduz normalmente s mais graves perturbaes psiquicas, que 
permanecem vinculadas para sempre. A -privao Mais tardia de estmulos tem tambm consequncias 
igualmente nefastas, que, no entanto, podem ser vencdas imediante regresso a condies satisfatrias.

Quera controla a nossa corrente de estmulos controla igualmente os nossos pensamentos e sentimentos 
mais profundos. Os

1581                  AGRESSIVIDADE

anncios, a publicidade e finalmente as lavagens ao crebro so as formas escalonadas de influnciana 
opini o, mediante manipula@ e seleco de estmulos que, em quantidade suficiente, respectivo 
requinte de escolha e intensidade suficiente, provocam, ,normalmente as consequncas desejadas. A 
aplicao prtica de todas estas tcnicas, atravs de padres de venda, demagogos e poderes soberanos, 
precedem a utilizao cientfica destes fenmenos.

Impressionados pelo efeito irresistvel da mainipulao dos estmulos, os cientistas reflectem na forma de 
criar um processo contra a lavagem ao crebro.

Os estmulos de informao so normalmente oferecidos dentro de uma possibilidade suficiente de escolha. 
Cada indivduo -escolhe de preferncia os que confirmam as suas opinies e preconceitos e evita os que 
possam entrar em conflito com as suas noes e tomadas de posio anteriores. O indivduo deseja 
preservar as suas convices, o que o leva a p@ocuraT criar  sua volta um ambiente isento de bacilos, 
no seio do qual no corre o riscode ser contrariado. S este sistema de informao, ciosamente preservado 
 verdadeiro---e slido, ao, passo que as contradies do ambiente permanecem num plano discreto. 
Quando a situao muda, o sistema revela-se surpreendentemente frgil e instvel. A resistncia do 
indivduo s influ6ncias exteriores pode consolidar-se graas a estmulos que mobilizam os seus reflexos 
de defesa sem que, no entanto, se imponham com a foira suficiente para os vencer e paralisar,

Estas -dedues nem sempre so, todavia, regular e inteiramente confirmadas ?ela realidade: h muitos 
homens que, para quebra de monotortia, curiosidade ou necessidade de mudana, procuram -situaes de 
estimulos de carcter um tanto perigoso para o seu equilbrio, ,mas que os entusiasmajrn e excitam. 
Interrogaram-se vrios indivduos sobre mximas banais universalmente aceitesque pertencem  esfera da 
medicina e est o libertas de feio moral (a penicilna  um bom processo de cura, a limpeza frequente dos 
dentes  saudvel, torna-se aconselhvel um ,exame mdico anual, @etc.). As respostas demonstraram que 
estas ideias resistiam melhor aos hbeis esforos persuasivos dos interlocutores, quando anteriormente 
submetidas a uma anlise e discussGerticas. O indivduo que adere a uma opinio desde sempre aceite e 
nunca posta em dvida re,neg-la- com facilidade.
O indivduo julga~se na posse de uma verdade slida, inas se a

AGRESSIVIDADE                               159

vir seriamente posta,em dvida acabar por a abandonar, muitas vezes sem se dar conta da viragem que 
em si s.e processa. Em co-ntrapartida, o indivduo imunizado por uma crtica anterior na base da moderao 
e objectividade resistir  tentao de mudar de parecer, -mesmo frente a promessas aliciantes ou ameaas 
de castigo.

Existe uma diferena enorme entre a mudana de opinio e a mudana do comportamento. Todos os 
inquritos feitos quanto  aco psicolgica sobre as massas demonstram que as estruturas do pensamento, 
motivao e comportamento se encontram em estreita correlao e que, devido ao estado de 
desenvolvimento que atingiram, s admitem uma modificao numa base de paralelismo em determinadas 
circunstncias. As primitivas categorias de seleco, -de estmulos servem como, padro e escolha para as 
futuras. A princpio, os estmulos na base da confirmao so preferi-dos aos contestatrios. Toda a 
informao  primeiramente analisada no sentido de estar ou no de acordo com as opinies anteriores. No 
caso de no existir esse acordo,  posta de lado, recusada, modificada ou falseada at se adaptar  ordem 
existente, a no ser que toda a estruturado, pensamento, at a existente se modifique por completo no 
senti-do da nova verdade. Quanto mais claramente sedefine uma aco com um determinado objectivo 
(dio ou amor concreto) e quanto mais o tempo a vai afir- ,mando, maior  a probabilidade -de que venha a 
adquirir contrle sobre as estruturas que motivam o comportamento, acompanhado da adeso do 
pensamento e sentimentos.

Tudo isto nos parece conhecimento de longa data. A cincia porm impe como ponto de honra no ceder 
aos manipuladores da opinio pblica, aspirando a desenvolver mtodos que dificultem essas 
manipulaes. O autor da experincia de imunizao neste domnio, William Mcguire, declara que um dia 
recebeu um telefonema de um conhecido publicitrio que ouvira falar das suas conhecidas experincias. O 
director oferecia-lhe um lugar na firma. O investigador recusou, com o fundamento de que ,estava 
nomoniento a trabalhar para descobrir o processo de ata- ,que aos anncios e persuaso e no a forma de 
os tornar mais eficientes, o que devia ser o objectivo da agncia. Talvez ainda possamos usar o seu ponto 
de vista contra a concorrncia, foi a resposta do homem de negcios.

Ser,(> as descobertas cientficas wertfrei? (isentas de objectivos desinteressados).

SEGUNDA EXPERINCIA:
O DILEMA DA DECISO

A

diferenciao de valores chama-se.a. independncia das descobertas cientficas, quanto a opinies 
preconcebidas e decis5es emocionais;  o mesmo que liberdade de valores. Sob a designao de livre 
arbtrio, encontra-se a possibilidade de o homem escolher autnoma e livremente: liberdade de vontade. 
Por ess-e motivo a escolha dentro da moral  elogiada e a imoral castigada. A tenso, o medo, a -
perturbao e a doena limitam a vontade, que tambm  decisivamente influenciada por factores 
inconscientes. A influncia sobre a formao do livre arbtrio utiliza-s-e de factores inconscientes: muitas 
vezes cedemos s prprias manobras inconscientes de iluso.

O cigarro  prejudicial  sade. O fumador que ouve finalmente a razo apercebe-se deste facto. A 
dissonncia verificada entre o medo e a falta de vontade resulta da sua convico de que o cigarro lhe faz 
mal e a incapacidade de resistir ao hbito enraizado. A fim de abrandar o medo ante o cancro do pulmo, o 
infeliz fumador prefere ,ler ominimo possvel sobre as consequncias do funioe evitar contacto com 
conhecedores do assunto .e que o poderiam instruir devidamente; pode ir mesmo ao extremo de arranjar 
literatura que ponha em dvida a correlao, do cancro de pulmo com o fumo. Pode igualmente servir-se 
de artifcios,conscientes -e inconscientes, ainda muito mais requinta,dos: pode tentar convencer-se a si e 
aos outros que os automveis representam a maior fon-te de perigo da nossa civilizao

162                   A G R E S S1VID A DE

e muito pior que o fumo. E quem estaria disposto a desistir do. automvel, porcausa do perigo -de 
acidentes? Na vida nada se faz sem risco; e, ao aceitar-se o perigo imensamente maior de se andar de 
automvel, pode-se continuar calmamente a fumar.  evidente que tambm se p(?de fazer a experincia 
de se deixar de fumar. De qualquer maneira, porm, a pessoa tentar atenuar o sentimento desagradvel 
de desarmonia entre dois factores opostos e que podem ser aces, opinies ou sentimentos. Quem, aps 
longa reflexo, acabar por comprar um Mercedes em vez de um jaguar procurar confirmar a esperteza 
da sua deciso mediante informaes recolhidas posteriormente; acreditar piamente nos comentrios 
elogiosos feitos pelos donos do Mercedes e no,ouvir as crticas. P@ode-se ser levado a cometer 
qualquer acto com uma razo determinada, mas, uma vez o mesmo realizado, surgir a procura de motivos 
vlidos e a utilidade do mesmo. A tendncia pronunciada a uma justificao racionalizada no sentido -de 
uma consequncia lgica  visvel em todos os campos.

Quando umacriana apenas pode conservar um de dois brinquedos praticamente do mesmo valor, h 
grande probabilidade que d maior valor quele com que ficou. O que acontece, porm, quando algum 
pretende qualquer coisa e descobre que em nenhumas -circunstncias a poder alcanair? O objecto 
impossvel de obter  subjectivamente desvalorizado como consolo pessoal. O que no se pode possuir, 
talvez no valha a pena ser possudo: por exemplo, urna posio, dinheiro, uma carreira, satisfao, 
mulheres... A diminuio, da dissonncia entre o desejo e a -sua satisfao nem sempre  conseguido 
mediante modificaes de opinio, e de esperana. A racionalizao, que leva ao pensamento de que 
afinal no se queriam as uvas demaSiado altas, porque estavam muito verdes, no precisa ser utilizada nos 
casos em que o desejo  demasiado fraco ou as ameaas .e sanes pela satisfao do desejo so 
proibitivas. A impossibilida-de de realizao do objectivo serve -de base  recusa pessoal. S quando os 
factores da intimidao so ultrapassveis e, portanto, 9 objectivo desejado se encontra ao alcance da mo, 
 que o (denmeno das uvas verdes se processa e, de vez em quando, tambm o seu oposto, ou seja, a 
dealizao, do objecto inatingvel.

Os -partidrios de um sistema falam da presso exercida pelo sistema poltico inimigo e exageram, a fim de 
poderem justificar

AGRESSIVIDADE                              163

o seu comportamento pessoal. S se faz o que se dever fazer. Se, no entanto, a ameaa de castigo for 
suportvel e incerta, verifica-se urna dissonncia enorme entre a tentao da -raci- @nalizao e a 
possibilidade de aguentar o risco do castigo. A dissonncia  a porta de sada para urna profunda 
modificao da maneira de sentir e que  tanto mais provvel quanto menor for a presso. A tendncia -de 
raciorializao, leva a uma modificao real de atitude e de comportamento, uma vez que j no se pode 
recorrer  tenso como motivo dominante.

A dissonncia cognitiva pode ser considera-da como motivo e causa de aces destinadas a unia diminuio 
de dissonncia, tal como a fome origina actos que se destinam a acalm-la. A dissonncia  a variao 
sentida num equilbrio harmnico e  -definida como um sentimento de confusa adaptao e ajustamento. A 
consonncia expressa o princpio da peTseveran@a; torna-se importante cima de tudo efectuar sempre a 
tentativa de adaptar e ajustar cada nova experincia ao esquema do pensaImento, sentimento e 
experincia da anterior. A dissonncia, atravs dos sentimentos de medo e de desgosto que provoca, 
constitui um motivo para modificaes. A originalidade  quase sempre uma caracterstica da dissonncia; a 
novidade perturba o equilbrio,; a crtica  a iproduo de ou a referncia  dissonancia e a originalidade  
a tcnica de construir a dvida dissonante a partir do que  naturalmente co-nsonante. As teorias da 
dissonncia de Festinger e outros so, na verdade, teorias de motivao, ao passo que os padres 
consonantes do equilbrio se aproximam da ordem homoesttica e automtica dos estmulos que se verifica 
no corpo humano, -onde, atravs de mecanismos reguladores, se podem conservar, de forma 
relativamente constante, a temperatura, a percentagem de acar no sangue, a respirao e outras funes 
vitais.

A tendncia natural de reduzir as -dissonncas e, assim, estruturar -desejos impulsivos no equilbrio 
existente at esse momento  visvel, se bem que no inevitvel. Em determinadas circulistncias (boas ou 
ms, favor veis ou desfavorveis) pode levar a

urna nova adaptao ou uma viso diferente dos acontecimentos.
O desenvolvimento psicossexual e a maturidade psquica efectuam-se de forma gradual ou descontnua, 
antes de poderem novamente alcanar um estado de equilbrio temporrio, mediante modificao do 
cenrio interior. Nas decises entre duas alterna,tivas em que se tem de escolher entre dois objectos ou

16,t                  AGRESSIVIDADE

aces aproximadamente domesmo valor, pode-se observar uma fase transitria em que a tortura da 
escolha se caracteriza pela colecta de informaes e considerao das solues. Neste sentido, a 
meditao,preliminar da aco -tem pequenas quantidades de energia. Se se escolher a altemativa que nem 
sempre corresponde  primeira impresso, a situao psicolgica modifica-se com uma reviravolta. Termina 
a fase de procura, relativamente objectiva, desinteressada e arbitrria; a objectividade anterior  substituda 
por ntida parcialidade no sentido de um encontrar de deciso. Se a deciso tem em vista determinar 
acontecimentos seguintes, a modificao t=, a-se particularmente significativa. Em condies de 
compromisso, surgem sempre.as modificaes da teoria da dissonncia: o, material informativo apresentado 
para co.nhecimento liniita-se s informaes que confirmam a tese e ignorar, rejeitar, diminuir o 
significado, bem como depreciar o inaterial dissonante. Nem todas as decises so, porm, irrevogveis, 
mas existe nelas a tendncia de falsificar informa es futuras e seleccionar e valorizar de acordo com um 
determinado padro.

No caso de existncia de considervel tenso de deciso ou de diminuio de tolerncia para as falhas do 
processo de deciso prvia, as decises itornam-se frequentemente impulsivas, sem serem submetidas a 
uma anlise prvia e objectiva, e tomadas, portanto, arbitrariamente; a adeso subjectiva, fundamentad em 
decises anteriores, pode reduzir ou eliminar totalmente -os perodos de considerao da deciso. As 
perturbaes neurticas influenciam a liberdade de deciso. Os doentes incurveis prolongam 
indefinidamente o perodo de deciso e algumas vezes nunca a chegam a tomar. Os impulsos levam muitas 
vezes a uma deciso, s cegas e arbitrria. Muitas vezes as decises tambm podem conduzir a um 
compromisso e at mesmo ao fanatismo; o acaso desempenha, tanto no campo pessoal como na histria 
mundial, um papel frequentemente menosprezado. A deciso s cegas, arbtrra e impulsiva, que no fundo 
no  deciso mas apenas uma obedincia cega ou um deslizar para uma situao,  frequentemente 
racionalizada e,idealizada, bem Como a chamada deciso verdadeira, e tem muitas vezes as mesmas 
consequncias.

 certo que estes resultados so muito esquemticos e, por assim dizer, no psicolgicos, urna vez que 
deles dificilmente se colhe o esperado comportamento individual. Um elemento de

AGRESSIVIDADE                            165

percepo pode ser dissonante com um e consonante com muitos outros ou ser-lhes irrelevante. N             -
tanto, qualquer

o CxIstC, F defini - -precisa de dissonncia. Alm disso, a amplitude das variveis da.personalidade  em 
qualquer dos casos.to grande que as previses que assentam, meramente, nas teorias da soluo por 
dissonncia tm necessariamente de falhar. A teoria oferece, porm, craveiras seguras para d      @ao e 
previso

ou m%@@ da -probabilidade de continuidade         fica  O.

Lembremos, para nos defender do seu aspecto prejudicial, as tentativas que tm precisamente como 
objectivo -poupar ao homem todas as dissonncias cognitivas. Estas tentativas consistem em pintar a preto e 
branco um universo em que os fenmenos pretos e brancos so precisamente raros.

EDUCAO, CASTIGO E OBEDINCIA

E

m casa podemos, dar largas  nossa verdadeira personalidade.

O que se faz dentro das quatro paredes no diz respeito a ningum. No pequeno espao ocupado pela 
famlia moderna, que cada vez tende a tornar-se mais pequeno, reina esta liberdade ilimitada qxie  
interdita ao indivduo nos mbibitos mais vastos que dominam a sua existncia.

Meios de educao.- a violncia Objectivo da educao: renncia  violncia

As crianas so castigadas para aprenderem a no, castigar. A criana que bate no irmo mais novo recebe 
do, pai uma lio (Wanios ensinar-te a perder esse hbito!), para se desacostumar de o fazer, Volta-se o 
feitio contra o feiticeiro. E ento a criana  ensinada, de forma agressiva, que no, pode ser agressiva.

O pai ama o filho e queT-1he bem; sente-se, portanto, no ,dever de lhe dar uma educao enrgica o mais 
cedo possvel. ,eviden,te que no tem a sensao de se comportar como agressor.  para bem da criana 
e no, seu interesse pessoal que tm de se lhe ensinar boas maneiras e fazer-lhe perder o gosto pelo mal. O 
educador recorre, assim, ocasionalmente, a mtodos de fora, quando nada mais resulta.

Freud apelidava o recm-nascido do polimorfo perverso (ofensa que -nunca se lhe perdo,ou). Nas suas -
primeiras fases, a sexualidade no tem ainda estrutura nem objectivo, presta-se a todo o gnero de 
expresses e disposies de todas as virtualida-

168                    AGRESSIVIDADE

des, inclusive aquelas que mais tarde, quando do aparecimento da sexualidade genital, sero qualificadas 
de perversas, e dentro desta mesma viso o recm-nascido  dotado de uma agressivida,de polimorfa. As 
suas tendncias, predisposies e instintos agressivos encontram-se ainda, provisoriamente, sem           
contrle. Tal como os diversos instintos, a agresso tambm evolui, segue as fases de desenrvolvniento, 
adapta-se aos objectos que encontra e  remodelada pelos conflitos que tem de enfrentar. A sociedade 
procura retardar a manifestao da sexualidade, dirigi-Ia e organiz-la dentro, de linhas bem definidas no 
que se refere  propagaao e conservao da espcie humana. Nas sociedades civilzadas, a agresso, 
considerada como su rflua,  recusada e, por

PC fira, utilizada com urna designao diferente.

A -eliminao total da agresso satisfaria um desejo universal enatural de paz. Este ideal tem de ser 
vincadamente inculcado nos pequenos brbaros. A educao far com.que a criana comece a aprender o 
medo. Para se evitar o perigo, o melhor  conhec-lo. O mundo exterior est cheio de perigos: o fogo 
queima, e o corpo magoa-se ao cair do bero; tem de se ser cuidadoso. Os adultos e os irmos irritam-se, 
algunias vezes ficam mesmo furiosos, quando so incomodados e interrompidos per-inanentemente. s 
vezes, a criana quer tudo ao mesmo tempo, o que  impossvel. A criana ;tambm tem medo, mesmo sem -
motivo aparente. O perigo situa-se tambm no ntimo, dentro de si; tem de conseguir dornin-lo. Para 
prevenir a criana contra o pefrigo e para.se ensinar a evit-lo, utiliza-se o ensino, a recompensa e o 
castigo,. Como aprenderia, caso contrrio, a disciplina e a conscincia? Se a criana tivesse conhecimento 
de como o mundo  na realidade, ficaria agradecida aos pais -to agradecidacomo estes, por sua vez, aos 
seus -por lhe ensinarem to cedo o que mais tarde seria muitomais difcil aprender no, curso da vida. A 
criana quer, em princpio, ser boa, mas no U.m qualquer noo de como, o fazer ou pelo menos simul-
lo. A princpio, a criana no sabe o que quer  verdadeiramente, uma vez que pretende tudo ao mesmo 
tempo. Os          pai  dir-lhe-o o que ela deseja e proporcionaro a forma de a aj      udar a desenvolver as 
suas prprias necessidades. O melhor ser seguir as palavras e ordens dos pais; deve-se ser obediente! Os 
pais todo-poderosos constituem uma proteco contra operigo e nada h que recear. Imitem o seu 
exemplo! A questo s apresenta dificuldades quando as palavras e os actos dos educadores no esto

AGRESSIVIDADE                             169

de acordo. A criana que bate no irmozinho que estava a chorar , por seu lado, castigada pelos pais, 
embora estes quando esto nervosos -tambm dem algumas vezes uma palmada ao recm-nascido.  
evidente que, muitas vezes, os pais podem fazer o que probem  criana. No so maiores, mais crescidos 
e mais fortes?  at mesmo um estmulo para a criana poder vir a ser colmo os Pais. Quando for adulto -
poder ficar a p o tempo que quiser e fazer o que lhe apetecer. Tambm no haver necessidade de 
apresentao de um motivo para todos os desejos. Poder manda-r, em vez de obedecer. Os pais sabem 
que a criana tende para o bem mas ignora o que  o bem. H, portanto, que lhe mostrar a diferena 
entre o bem e o mal, de uma vez para sempre. A criana por si no quer prejudicar nem magoar ningum. 
A sua agressividade  inocente e no obedece a premeditao; cresceT, no entanto, em fora e poder. 
Mesmo assim, nunca  demasiado cedo para lhe mostrar que no s.e castigam os outros sem razo e que 
no se podem impor pela fora todos os desejos, pois que este princpio  basicamente falso, mau, perigoso 
e proibido. O seu seguimento implica ser-se abandonado pelos outros; fica-se s e no se  protegido por 
ningum.

Estas consequncias da agresso -infantil no s sero mostradas .criana, mas sero mesmo confirmadas 
atravs da agresso @xperimen.tada. Quando faz mal tambm sofrer. A agresso inocente  transformada 
pelo, educador em culposa, mediante uma estratgia bem organizada de recompensa e castigo, visando a 
socializao do---indivduo. A agresso oiriginalmente desconhecida , por meio de proibies, reduzida  
dissimulao, reprimida e recusada e torna-se uma agressoreal amplificada. A experincia do acentuar da 
dor pelo castigo e privao do.      amor ainda continua comprovada como o melhor, mais rpido e, na 
verdade, o nico mtodo para desencorajar e evitar o mal.

Uma pequena -palmada, aplicada na ocasio -prpria,  um bom mtodo, ainda que a criana sensvel e 
mimalha se ofenda. A criana tem de se habituar a uma certa dureza, que mais tarde no lhe ser poupada; 
esperamos que a criana aprenda a dominar-se e no ser necessrio educ-la e domin-la pelo castigo ou 
ameaa de castigo. A palmada como castigo tem, alis, apenas a qualidade de gesto simblico ou talvez mais 
a concess o de uma oportun-idade -para que no se verifique a sova. Ser uma espcie de avivamento da 
memria em relao a acontecimentos seme-

170                  AGRESSIVIDADE

lhantes, ocorridos anteriormente. Se a criana bateu numa outra mais fraca e -mais, pequena, infelizmente 
nada mais resta do que lhe dar uma sova, o que quase custa mais ao educador consciente do que  prpria 
criana, A. sova tem como fim diminuir a freq@ncia futura dos acontecimentos que a provocaxam. j no 
vive-mos no estado paradisaco do recm-nascido ao qual nada se exige, masno universo real do adulto ao 
qual j se podem impor tarefas -e pedir responsabilidades. A criana sentir-se- culpada quando protestac 
contraria os desejos do educador. No caso de a criana ser castigada, sabe que pelo menos no est a ser 
alvo de uma injustia. A agresso positiva  legtima, porque a causa que a provocou foi uma desobedincia 
injustificada e impertinente.

O recm-nascido ainda no sabe distinguir entre si e o mundo que o rodeia; relaciona com o bem tudo o 
que lhe d praz

-er e identifica-o como parte de si, e tudo o que no lhe d prazer  sentido como -mau e atribudo ao 
mundo que o rodeia. A nossa defesa natural contra os perigos exteriores est melhor desenvolvida do que 
contra os perigo@ interiores; ao conseguirmos a projeco (que, tal como a interiorizao,  sempre 
inconsciente e assim permanece) dos perigos para o exterior, podemos defender-nos melhor dos perigos 
que apenas so exteriores aparentemente, e esta nossa atitude  perfeitamente inocente e objectiva. 
Temos necessidade de um inimigo e gostamos de assumir o papel de vtima;  este o esquema normal da 
agresso, que comea desde a primeira infncia e se conserva como uma folha estereotipada at  idade 
mais avanada. Ns nunca somos agressivos, mas sim os outros. E s.e temos de ser agressivos  unicamente 
para nos defendeirmos e porque os outros a tal nos obrigam.

Uma das poucas ddivas indubitveis e imutveis da vida humana  a incapacidade biolgica em que a 
criana se encontra antes -e no comeo de cada fenmeno educacional. A durao relativamente 
prolongada da inadaptabilidade da criana  vida humana fundamenta, simultaneamente, a fraqueza e a 
fora, a riqueza -e a misria do ser instintivo e simblico que o homem representa. O homem,  primeira 
vista, no possui os mecanismos regula-dores do animal. Esta lacuna ser mais do que compensada 
mediante a aprendizagem de ritos sociais de que a civilizao o incumbe,  custa, no entanto, de uma longa 
dependncia dos educadores e mtodos educacionais. Pode-se

AGRESSIVIDADE                              171

fazer com e a partir do ser humano. muito mais do que de qualquer animal;   o animal possui uma 
programa o imutvel dos seus instintos e represses, cujo equilbrio se deve a estmulos determinados, e 
para sobreviver necessita de um determinado ambiente. O    homem encontra-se programado de uma 
forma muito menos    definida; os seus instintos so malcveis e mutveis. No est to exclusivamente 
programado, desde o princpio e, portanto, -possui mais possibilidades de seleco e muito mais liberdade 
no que se refere  estruturao do seu prprio mundo e do que o rodeia. A espcie humana , 
potencialmente, mais livre do que todas as -espcies de animais e, portanto, muitG mais apta a ser educada, 
dirigida e governada. O mesmo se passa com a criana em particular, que sofre inteiramente todas as 
possveis influncias do meiocultural em que nasceu; este meio  determinado por todo o gnero de 
influncias e impe-se-lhe.

Cada sistema educacional opera, por assim dizer, pT via dupla; por uni ladomolda e forma o aluno atravs 
da persuaso ,exterior e da obrigatoriedade interior, e por outro esti-mula-o no sentido de uma 
inteTiorizao, e automatizao dos esquemas e processos de aco impostos. S os conceitos de valor 
que se adequam a uma interiorizao, graas  sua utilidade prtica e justificao moral, so de molde a 
inserir-@s-e na educa o tradicional.

Falsos rtulos

Os educadores designados pela sociedade inspiram-se na sua primitiva agressividade. Esta agressividade 
manifesta-se num longo processo que se baseianas recompensas, castigos, e ameaas e tem como objectivo 
domar a vontade e submeter os impulsos instintivos. Continua a actuar interiormente, invisvel e 
secretamente, sob a forma da voz interior. Esta voz admoest-la-, de futuro, como o faziam os pais, se bem 
que no se recorde das lies recebidas. O facto implica uma maior necessidade de presso exterior, dado 
que a conscincia reivindica para si a funo da direco, contrle e j@istificao da agresso.

 absoluta a antinomia entre ocontexto educacional e o mtodo educacional; o fim    justifica, -Porm, os 
meios utilizados, o que implica a resoluo da contradio e a sua ascendncia a um nvel superior. Quem 
usa -e abusa da violncia ter de ser

172.                  AGRESSIVIDADE

submetido a uma violncia maior. H, todavia, uma excepo a abrir no caso dos que so violentos com 
razo e que tm de deserripenhax funes de chefia porque, como os pais, so mais poderosos e mais 
fortes e s utilizam a violncia ao servio de objectivos superiores, para estabelecer a ordem e a disciplina 
e para educao da vtima sobre a qual ela recai. A proibio do emprego da violncia -no  
manifestamente absoluta, pois, caso contrrio, nem os pais nem os estadistas poderiam utiliz-la fossem quais 
fossem as circunstncias. Estes aplicam-na,no entanto, e, a acreditar nas suas palavras, bemcontra a vontade 
e at demasiado tarde, pois que uma dose menor de violncia aplicada na devi-da altura teria evitado um 
remdio mais tardio, mais forte emais violento. A conscincia que tm da sua responsabilidade leva-os a 
coagirem. Os pais e os -estadistas n o poderiam actuar de outro modo, uma vez que querem resolver as 
dificuldades experimentadas pelas crianas e indivduos.

A parede-tabo que protege e defende a violncia est to cheia de buracos como um queijo gruyre. As 
regras de abolio da violncia so confirmadas por excepes que se tornam fatalmente regras, impondo 
e preconizando a violncia. Somente so compactas e impenetrveis as partes da parede por detrs da 
qualse encontram os poderosos. A moral sistematicamente proclamada impe-nos como dever nunca 
tomarmos em relao aos outros atitudes que no gostaramos de ver praticadas contra ns. Nesta lio 
encontTa-se englobado um factor que no est sistematcamente proclamado, mas  muito prtico: em certas 
condies excepcionais pode-se fazer o que  proibido. No fazemos uso da violncia, nem temos esse 
direito, salvo, em caso de legtima defesa, da defesa dos mais fracos, incapazes de se defenderem a si 
mesmos, ou da defesa de princpios. Os pais so pais e os es-tadistas so estadistas, porque delimitam, 
definem e deterininam, com uma lgica irrefutvel, as condies excepcionais que justificam estas medidas 
excepcionais. As crianas so crianas e os indivduos so indivduos, porque para eles no existem, ainda 
que raramente, excepes que possam invocar e justificar. A criana  posta frente a todo o gnero de 
experincias incessantemente confirmadas que demonstram que a violncia, em determinadas situaes 
que fazem parte de um vasto rol de excepes, pode ser um meio admitido, necessrio e insubs,tituvel na 
condio de no ser declarada como tal, mas rotulada de forma diversa como, obra moral, tomada de 
respon-

AGRESSIVIDADE                             173

sabilidade e dever do educador. O recurso a rtulos falsos que autorizam a agresso e a imposio de a 
suportar constitui uma das primeiras e mais frequentes experincias da infncia. A -criana aprende que a 
agresso, em -todos os seus aspectos e ,em particular nas formas de ameaa, ofensa, humilhao e privao 
de ternura, pode ser um meio de aco e que todos estes :mtodos dolorosos causadores de angstia e de 
culpabilidade so sari-tificados -pelos objectivos que se prope. A desigualdade de foras entre adultos e 
crianas, que , em principio, um facto biolgico, torna-se opressivo e aterrorizador, no tanto por os 
educadores disporem de conhecimentos e meios superiores, mas, essencialmente, porque monopolizam 
todais as prerrogativas de uma conscincia.

A crianasente, desde muito cedo, todos os perigos contidos nos seus prprios impulsos instintivos e receia 
os perigos confusos, que o futuro lhe reserva. A sua angstia s se acalmar frente a um bom 
procedimento. Nem sempre o consegue, porm, apesar de todos os seus esforos, dada a sua ignorncia 
de como o fazer.  muitas vezes rebelde, m, hostil, apanhada em falta, repreendida e algumas vezes 
castigada. Foi justo mas, doloroso. Os pais explicam-lhe como ou porqu ela mereceu que lhe batessem ou 
a mandassem deitar. Algumas vezes no do explicaes e ficam convencidos de que a criana tem 
conscincia de que o que fez ou quis fazer foi mal. .

Se nomomento em.que castigam no h justificao para o fazerem, reforam o princpio dos princpios, ou 
seja a autorida-de. O castigo aplicado, mesmo sem motivo, relembra uma falta cometida anteriomente e 
pune, portanto, justamente. Desde que um reflexo condicionado seja uma in-terligao de falta, 
culpabilidade e expiao-a ordem dos factores pode-se inver~ ter-o castigo pe em foco a culpabilidade e 
chega a criar a falta que deseja impedir ou punir.

As crianas aspiiram, frequentemente, tornar-@se adultos para poderem legitimamente praticar a agresso, 
em lugar de serem sempre vtimas da mesma. Na esfera que as separa desse estdio, identificam-se com os 
adultos, imitam-nos. epretendem ser iguais a eles. As crianas anotam as lies recebidas e as mensagens 
que as mesmas contm, mensagens manifestas e secretas, voluntrias ou involuntrias. Quanto. menor  a 
licena de manifestarem a sua agressividade menor  a permisso de expressarem por sua conta e risco os 
sentimentos, de irritao e de repulsa,

174                    AGRESSIVJDADE

4e dio e desejo de destruir, e mas se esforaro por adquirir as tcnicas dos adultos e as suas subtilezas 
de exercerem a agres- :qo, negando-a-

O sentimento de no violncia  inculcado pela violncia; a Ogresso paga assim o seu tributo w pacifismo; 
o pacifismo ]a
7io  pregado e ensinado apesar d@ prtica de agresso, mas a fqvor dessa Prtica. O desejo de 
noviolncia , primeiramente, Vm Pretexto e, depois, uma razo deser. Quando a criana atinge a idade 
devida vigiar e dsciplmr os mais novos com uma extrema severidade e mais tarde juI@ar-se- no dever 
de castigar o@ seus filhos em nome dos imperativos da obedincia e discip@na, de que se apodera sem se 
aperceber e dissimula sem as
4ssmular.

A princp@o a violncia impe a renncia, -mas a vtima idenfica-se com o agressor, utilizando, 
efectivamente ou em imaginao, a violncia que ela prpria suportou. Perpetua-se desta fGr.ma a 
violncia que faz apelo  imitao, a nica resposta pos-
8@el. So s os papis que mudam, pGis que o drama permanece
O mesmo: os novos actores so protagonistas reais que colocam as mscaras antigas para represen,tar -ao 
eterno cenrio da violiicia e da fico do pacifismo. A vi olncia inelhora e desenvolve requintadamente 
estes pretextos para uma maior afirmao da s.uk legitimidade. Se a violncia no   @n-ipusesse a 
convico desta legitimidade apenas imporia a submisso e no a obedincia que implica um 
reconhecimento da sua necessidade legtima. A violncia do poderoso s se torna fonte segura de 
violncia, fora de ordem e organizao de foras quando  legitimada. A hierarquia do alto e do baixo, do 
forte e do fraco, do que cOrnanda e do que obedece constitui o esquema universal de toda a ordem e o 
modele, de normas que preside s relaes entre os s-eres humanos. A classificao dos valores e das 
pess,0a8 c01ei,cadas nos diversos nveis no constitui um sistema, mas o Sistema dos sistemas, o, princpio 
natural absoluto. A hierarquia linDs-se logo de inicio como autoridade sagrada e consagrada, determinada 
peT uma responsabilidade suprema e no por uma necessidade profana. Toda a ordem existe por 
referncia a esta sacltalizao e instaura-se como norma absoluta, que cunha com esta feio de sagrado 
todas as norma-s inferiores que engendra. Nasceu do prprio Deus, ou do povo soberano, da famlia, da 
hist@ra da natureza. A ordem sagrada resulta da subordinao Sagrada ao superior. A autoridade e a 
obedincia condicionam-se

AGRESSIVIDADE                              175

e apelam-se mutuamente. Quem aprendeu a obedecerpode esperar chefiar um dia, e esta  a condio 
indispensvel da sua abdicao voluntria absoluta. O que comanda tem to pouca liberdade de 
independncia como -o que obedece. Submete-se a ,este mesmo princpio de ordem que proclama e em 
nome do qual dirige o indivduo que obedece. A legitimidade confere fundamento  autoridade e um 
carcter sagrado  violncia.
O automatismo que rege a ordem e a obedincia s se torna possvel ante a existncia duma inteira 
aceitao da autoridade e do seu reconhecimento como necessria, justac sagrada. A violncia suportada 
gera na vtima um potencial de agressividade que se traduzir, ocasionalmente, em exploses, ataques de 
clera e outras reaces nervosas. A violncia s se mostra a nu nos seus aspectos mais primitivos. Quando 
 preciso, a violncia dsfara-se sob as vestes da necessidade ou da sumptuosidade de objectivos 
elevados e sagrados. Deste modo, a agresso disfarada ou dissimulada  recebida sem resistncia, 
admitida, compreendida e aceite como natuTal, inevitvel e -til. O indivduo que v a -satisfao dos seus 
desejos frustrada por uma ordem recebida de cima reverte a sua clera e desespero no contra os 
superiores na ordem riatural necessria a que adere, mas contra

os seus iguais e subalternos e, finalmente, contra ele mesmo. A insu ortvel docilidade a que o homem se 
v obriga-do indu-lo ,o,,ar@ a       se, a despTezar-se, a refugiar-se na depresso ou nas nevro@ses ou 
ainda a imitar e a reproduzir, activamente, o esquema autori,tro, que suporta passivamente. A violncia 
legitimada incita a uma cpia no s de legitimidade mas de violncia. E os resultados no podem ser piores. 
A aco da famlia, enquanto instItuio e tendo como objectivo a mxima proteco individual e a 
socializao perfeita da criana, no comporta, obrigatoriamente, maus tratos; nem sempre implica o uso 
manifesto, repetido e colectivo da violncia.

Paraso e obrigatoriedade

Todos os processos que tm como objectivo refrear a violncia apresentam uma feio agressiva. A 
educao no dispensa um certo nmero de obrigaes. Toda a teri-tativa de suprimir a agresso 
edu@catva, consderando-a como prejudicial e negativa, est logicamente condenada a falhar. A 
supresso da obrigato-

176                    AGRESSIVIDADE

riedade levaria a uma libeTtao da agressividade que ela refreia e ao desencadear de uma violncia 
maior nunca imposta pela obrigatoriedade. Acreditar, de boa f, que assim s.e evitaria a frustrao do 
indivduo significa um engano perigoso e uma demonstrao de fuga  realidade. A tentativa de 
transformao do quarto de brinquedos numa ilha paradisaca no resulta, na medida em que a mesma 
implica esforos febris no sentido da negao da realidade, e tambm porque a criana, enganada pela 
imagem de um inundo sem ameaas-bem diferente do mundo real-, perder a oportunidade de dar largas 
no  sua violncia mas a uma agressividade que lhe permitir, graas  sua prpria afirmao e 
{realizao, modificar um dia, efectivamente, os dados reais.

A criana desmistifica o seu paraso infantil ao reconhecer que os direitos so adquiridos e merecidos -pelo 
preo dos deveres. No seu campo de conscincia desenvolve-se um sentido, do dever nascido da 
interiorizao da obrigatoriedade exterior que delimita e fixa o espao vital, que pertence, por direito, ao 
indivduo. O dever leva a criana a renunciar  satisfao do instinto, na medida em que perde a sua iluso 
de omnipotncia. Este dever  imposto e.legitimado pelo sistema social da famlia mas o mesmo traz, 
igualmente, benefcios e compensaes, A criana identifica-se com uma famlia que sente todo-poderosa o 
que a indemniza da perda da sua omnipotncia. A instituio social oferece a possibilidade da satisfao dos 
impulsos instintivos que recusa ao indivduo. O mesmo sistema levar o indivduo a subme-ter-se a regras e 
a seguir as normas prescritas pelo seu administrador, a firma, o seu grupo organizado e o seu chefe de 
Estado, ainda que estas regras e normas. exijam sacrifcios da sua parte, por vezes mesmo um sacrifcio 
supremo, dado que, identificando-se com o poder do conjun,to de que faz parte, participa da fora 
colectiva que o domina e da imortalidade de uma instituio que ultrapassa o indivduo. O ser humano 
suporta o seu prprio desejo de poder ilimitado em relao aos pais, aos professores e autoridades 
dirigentes. Dado que ele prprio no pode ser omnipotente, a soluo de substituio reside em ter 
personalidades poderosas e slidas instituies que o -protejam, o apoiem. e lhe permitam continuar os 
sonhos de autoridade que alimentava em criana. O facto de conservar ou de constituir uma relao de 
ntima simbiose com um todo maior, protector e legitimado significa evitar a maldio da solido, do 
isolamento

AGRESSIVIDADE                              177

da responsabilidade de uma agressividade pessoal; esta agressivida,de  absorvida e orientada graas  
ins,tituio, e  por esta autorizada e legitimada em determinadas ocasies. A identificao, a imitao e a 
adopo das leis religiosas, civis e morais dos pais e a sua expresso mediante rituais so,na sua essncia, 
uma forma de contrle da agressividade pessoal.

Algumas vezes a violncia fsica  totalmente excluda pelas famlias,das nossas sociedades ocidentais como 
meio de educao.
O prprio padro da famlia ainda evoluiu mais do que os mtodos -educacionais. Iniciou-se a era da 
criana, da criana tirana, j anunciada por Scrates, e os pais autoritrios vem neste facto aprova de que 
as crianas no receberam o justo, castigo a tempo. A misso principal da criana  encontrar-se a si mesma 
e definir-se. Se a famlia no lhe oferecer um apoio e no tiver padres culturais que lhe sirvam de apoio, a 
criana nunca se tornar psicologicamente adulta. Desde muito cedo, a criana tem necessidade de 
resistncia, de coisas que se lhe oponham, de limites a que se possa agarrar,mas tambm em relao aos 
quais possa medir foras. A criana encontra-se incessanternente na orla destas fronteiras traadas pelos. 
adultos que ama e experimenta a solidez das mesmas no sem correr riscos. Assim, colocada entre a 
brincadeira e a seriedade, -prepara as tarefas futuras e o trabalho no sentido da sua prpria emancipao, 
que, segundo Mitscherlich, consiste, simultaneamente, numa imerso na sociedade e num trabalho de 
imunizao contra essa mesma sociedade. A criana  continuamente posta  prova nas suas relaes com 
os outros,, nos falguedos e no trabalho. Aprende, assim, a conhecer e a ter conscincia do seu prprio 
valor. Os pais que querem, a todo o preo, evitar que os filhos sejam atingidos pelo mnimo mal fsico ou de 
outro gnero impedem-nos de conhecer e reconhecer as verdadeiras relaes da fora; fazem surgir 
iluses sobre a vida, que a realidade no confirmar. Este
9@nero de pais faz apelo aos seus prprios sentimentos e instintos para que a criana de -forma alguma 
seja lesada. Compram o amor dos filhos oferecendo-lhes dinheiro, presentes e doces; dissimulam os seus 
prprios sentimenitos pessoais, muitas vezes justificados, de clera ou decepo e reprimem qualquer 
agressividade em frente dos filhos. Tornam-se, desta forma, culpados de uma dupla hipocrisia. Negam. a 
sua prpria negao. Destituem as crianas de todo o apoio a que poderiam ater-se ou contra o qual se 
poderiam insurgir. So abandonadas e lesadas

178                   AGRESSIVIDADE

p@ico,logica1nente de uma outra forma, mas, no com menos gravidade -do que as crianas a quem os pais 
batem e que podem -precisamente ver neste castigo um testemunho de interesse e afectividade.

A rpida evoluo tecnolgica reduziu ao mnimo o agrega-do familiar, relegando-o para um segundo 
plano frente a determina-dos factos. Este agrega-do familiar reduz-se, hoje emdia, quase sempre aos pais e 
filhos. A sociedade moderna exige que o adulto procure adaptaT-se a -duas formas decomportamento 
opostas. No trabalho espera-se que adopte uma fria racionalizao. Em casa  necessrio que -espalhe 
calor e ternura  sua volta. Os pais modernos passam, no entanto, muito -pouco tempo em casa. As crianas 
so abandonadas a si mesmas ou a cuidados de uma baby-sitter sempre presente chamada televiso. As 
crianas necessitam, afinal, do nosso, tempo e no do nosso dinheiro ou presentes. E o tempo  
precisamente o que mais falta  nossa moderna sociedade de consumo.

O tempo representa dinheiro, mas o dinheiro no poderia comprar o tempo, nem a presena, a pacincia 
ou a segurana do adulto; para a criana que comea a dar os primeiros passos na vida, essa presena e 
segurana so um facto de estabilidade pessoal e uma garantia de continuidade. Os pobres pais ricos, 
sobrecarregados de trabalho e continuamente solicitados por novas ocupaes, ignoram o ponto em que 
falham. Caem das nuvens quando a criana mimada atinge a puberdade e os relega para um plano 
secundrio sem qualquer explicao. A criana sente-se decepcionada pela realidade que descobre 
bruscamente e para a qual no se encontra preparada. Irrita-se por no se sentir capaz de dominar, ou 
mesmo de compreender, esta nova situao. O medo, tornado pnico da conscincia do nada ser, 
determina em si uma exploso de agressivida-de. O indivduo sofre de todos os lados uma agresso para 
que no est preparado e respondecom uma agresso dirigida contra si mesmo sob feio de apatia e 
depresso ou ainda com actos de protesto sem razo nem objectivo. Se a educao lhe forneceu uma 
imagem do mundo perigosamente fabricada e adulterada, quer dizer, isenta de toda a agresso, os adultos 
perderam assim toda a confiana de que -desfrutavam, dada a fraqueza da criana. O facto de terem 
escondido  criana a fora e a eficcia da agresso, retira-lhes todo o crdito e prestgio. j no se pode 
confiar neles e nada se lhes deve. Por outro lado,  certo, que a valorizao excessiva

AGRESSIVIDADE                            179

de que a agresso desfruta na nossa sociedade de concorrncia no deve invadir o domnio do quartode 
brinquedos. Se a calma e a ordem consti,tuem a primeira obrigao do cidado, as cria-nas devem 
comear por sentir a calma necessria  sua maturida@de.  preciso encontrar um meio termo de equilbrio 
entre o sonho -de uma idade de ouro reservado  criana e a preparao antecipada relativa  competio 
febrilde uma impiedosa sociedade de consumo.  neste ponto que reside a arte to profundamente humana 
e, ao mesmo tempo, to delicada do educador, a arte que a pedagogia pode ajudar, mas nunca substituir.

Os pais querem, acima de tudo, que os deixem sossegados no enquadramento da actual clula familiar. 
Imaginam, assim, que tambm as crianas tm necessidade de calma e tranquilidade. Dedicam-se a imaginar 
um paraso infantil de inocncia e no agressividade. Ao faz-lo, privam -os filhos de tomarem conscincia 
das suas prprias tendncias agressivas, de comearem a expressar eficazmente, mas sem violncia, a sua 
raiva, decepo, reaces de frustrao e tenses interiores.

No decurso dos decnios anteriores a Freud, as pessoas eram insensveis s numerosas manifestaes de 
sexualidade; a criana ,era considerada pura e inocente e, portanto, desligada de toda a sexualidade. Se 
bem que manifestasse provas reais de sexualidade, fechavam-se os olhos -e escolham-se denominaes 
mais decentes para as classificar. A sexualidade da criana era um assunto-tabo que se negava, repelia e de 
que se troava. Tudo o que poderia dar lugar a uma associao de pensamento com os rgos genitais ou a 
sua evocae, era reduzido  escala de interdito. Hoje em dia, a humanidade entrega-se a uma orgia 
agressiva de destruio de todos os tabos e de nada mais se fala do que destes assuntos outrora proibidos. 
As crianas tm, indubitavelmente, uma actividade sexual at mesmo nos seus primeiros actos e reaces 
aparentemente an dinos; a testemunh-lo existem numerosas experincias elementares. E, no entanto, 
esta descoberta de Freud foi durante muito tempo considerada como pura inveno de um esprito 
perverso.

A ideologia e a observao encontram-seem permanente conflito e a observao quase sempre perde. 
Afirma-se, frequentemente, que tudo o que os psiclogos interpretam atravs dos gestos e atitudes das 
crianas no passa de transposio e proJeco deles mesmos. Das suas observaes poderiam tirar-se

180                   AGRESSIVIDADE

Concluses sobre a sua prpria personalidade, mas no urna imagem da criana.

Darwin e Coprnico, revelaram o resultado das suas experincias, que contradiziam os tabos ideolgicos 
do seu tempo, bem como os esquemas religiosos acusados de se entregarem a experincias irracionais e 
de prejudicar a civilizao. Galileu pareceu abalar a ordem -do, mundo ao declarar: E, no entanto, ele 
gira. Afirmao dinmica que desacreditava e ofendia gravemente e&ta ordein: Signiund Freud foi 
durante muito tempo alvo dos ataques mais violentos pela sua revelao da actividade sexual inconsciente. 
O mesmo, se passa, hoje em dia, com a definio e a nova valorizao, do fenmeno complexo da 
agresso, apenas com a -diferena de que a pluralidade de ideologias origina ataques de vrios lados. O 
facto, de se admitir que a criana tem uma sexualidade activa no afasta, no entan,to, apressuposio da sua 
inocncia, dada uma ausncia inata de agressividade. A criana s aprenderia a agresso atravs do mundo 
negativo e da sociedade esmagadora que a rodeia. Quem declarar que a agresso resulta de instintos 
biolgicos fortemente enraizados v -se sob suspeita de -ser um reaccionrio pernicioso, um fascista e um 
revolucionrio. Quem afirmar que a agressividade se pode expressar sob formas compatveis com a vida 
social passa por sonhador, romntico incuxvel e -um esprito fraco de corao terno.

Quem, porm,  arrastado a dissecar a agresso at aos seus aspectos ocultos, da mesina forma que o 
psicanalista desmascara a sexualidade em todos os seus aspectos, acaba por descobrir as suas manifestaes 
sob os mais -estranhos disfarces e onde menos o espera, desde o crime horrvel  mais alta moralidade.

A nossa educao  o nosso destino

A tentativa de diagnosticar e estTuturar a agresso no tem como objectivo um trabalho lexcolgico e a 
descoberta de urna nova classificao. O verdadeiro perigo no reside, de facto, na violncia 
manifestamente declarada, que faz apelo  reaco volen@ta, desperta sentimentos de culpabilidade e 
angstia e movimentos de defesa e de solidariedade, mas na violncia clandestina, arvorada sob um falso 
estandarte e um falso r tulo, -na violncia latente e fria, que, no estando identificada, se torna bem mais

AGRESSIVIDADE                              181

impiedosa e ameaadora. Para dissecar eficazmente a agresso, torna-se necessrio desmitificar as 
manobras de dissimulao e as falsas denominaes utilizadas pelos que a praticam com a conscincia 
tranquila, Torna-se necessrio obrigar a agresso a mostra,r o seu verdadeiro rosto, para se tornar possvel 
a sua orientao e utilizao em vez de se lhe dar livre curso. Toda a cultura, independentemente da sua 
filosofia poltica, religiosa e econmica, -deve formar indivduos a um tempo. independentes e dceis. 
Necessita de cidados que respeitem as normas de comportamento que prescreve e, por outro lado, as 
considerem como verdadeiramente suas. Deve, pois, elaborar e ensinar no s regras para resoluo de 
conflitos e normalizao do comportamento individual, mas igualmente regras que permitem que cada 
indivduo as torne suas e lhes adira completamente.

Se se partir do princpio de que a nossa anatomia  a imagem do nosso destino, a nossa,educao ,o 
certamente e com existncia de uma possibilidade posterior de modificao do mesmo. Se tudo corresse de 
acordo com o desejo dos educadores, a educao geral do comportamento sistemtico seria inelutvel, o 
que feliz- ,mente no acontece com frequncia. As possibilidades de escolha seriam praticamente nulas, 
mas as denominaes perversase falsas de liberdade e de deciso dissimulariam to perfeitamente esta 
cega submisso que ningum tomaxia conscincia do facto. A -criana depende totalmente das pessoas que 
a rodeiam. A sua sobrevivncia material e a sua estruturao fs-ica s podem ser asseguradas pelo meio 
em que vive. A realidade aparece-lhe como os pais a mostram. Para a criana, esta realidade torna-se Um 
princpio imutvel, tal como as montanhas e os lagos, as fbricas e os prdios, os irmos, as irms e o lar 
onde vive. Todas as escalas de valor da infncia so antecipada-mente determinadas, e defini-das sem que 
seja posto em causa o livre arbtrio da criana, O livre arbtrio no pode ser concedido ainda nesta idade. 
Tudo o que se faz por ela  sem seu prvio assentimento, como alis s.e lhe diz. Ter de ser assim 
provisoriamente. As regras da vida prtica e morais seleccionadas e pretendidas so igualmente inculcadas 
e impostas  criana mediante os meios educacionais de que se dispe.

Todo o sistema educacional , simultaneamente, a aplicao de uma filosofia e a prtica de uma teoria 
poltica.  considerado, ;portanto, a priori como natural, melhor do que todos os outros e at mesmo o nico 
possvel. Quem suportou uma atitude

182                   AGRESSIVIDADE

dura por parte de outrem fica por esse preG autorizado a utilizar a mesma atitude. Vnga-
se inconscien temente dos sofrimentos de que no, se pde queixar com receio de 
aumentar os maus tratos.  assim e est tudo di,to, so estas as palavras do que nega os 
direitos de imaginao, (forma desenvolvida da agresso). Acrescenta logo em seguida: 
Cala-te! , No faas tantas perguntas, (Taz o que te dizem, no compreendes nada! 
As perguntas so de facto inteis quando no existe escapatria possvel; a discusso 
torna-se suprflua, uma vez que todas as decises so tomadas, de antemo, pela tradio 
e moral, os primeiros rituais determinados e os costumes defini-dos, o que constitui as 
Primeiras premissas da violncia. A criana no deve ser inserda de repente na 
comunidade, mas ajudada pela a@utodisciplina e auto,-suges,t.o colectiva ritualizada, O 
seu primeiro dever  conservar-se calma, no, se preocupar com nada, no ,olhar  direita 
ou  esquerda (se se lhe colocou antolhos, no deve tir-los), no fazer perguntas (deve 
manter durante toda a vida um esprito de criana dcil),

Seria perda de tempo aplicar na prtica a lei essencial da pedagogia que pretende que o 
educador oua a criana, -reaja s suas perguntas e desejos, sem que nem sempre lhes 
ceda, mas esforando-se por os compreender e por encontrar respostas convenientes. Esta 
economia de tempo  perniciosa. Dizer sempre que no  to prejudicial como dizer 
sempre que sim, pondo -de lado as responsabilidades do educador.  preciso fazer uma -
distino exacta entre sentimentos agressivos e actos agressivos. A clera, a raiva e at 
mesmo o dio devem expressar-se dentro, da maior liberdade possvel. Os actos 
agressivos devem, pelo contrrio, ser limitados mediante princpios bem claros, definidos 
e enunciados. A limitao pelo constrangimento no convence e nada explica. O 
importante  explicar e dar o exemplo.
O pedagogo demons,trar que existe um processo mais eficaz, a longo prazo, de 
expressar as tenses agressivas e solucionar os conflitos do que o repetido recurso  fora, 
quer o mesmo estvess-e justificado aos olhos da criana pelo seu furor destrutivo e o 
seudesejo de represlias, ou aos olhos dos pais pelo seu sentido do dever e conscincia 
de responsabilidades que lhes so atribudos.

Hoje em dia, reina a confuso entre os pais, falta-lhes tempo, encontram-se abafados pelas 
formalidades tcnico-adrninistra,tivas e sobrecarrega-dos pelas incumbncias profissionais 
e de outra

A GR E S S1 VIDA DE                       183

ordem. Muitos esto convencidos da parte da responsabilidade que lhes cabe no trgico desencontro entre 
as geraes, hoje em dia uma realidade. Ignoram, porm, o porqu da decepo que despertaram nos 
filhos, apesar de todos os esforos leais, no explicam como to mal corresponderam  esperana destas 
crianas que, entusiasmadas pelas promessas da sociedade de abundncia, esperavam tudo deles. Os pais, 
tomados de desespero, desde muito cedo se tornam alvo de manifestaes agressivas por parte da criana, 
o que inteiramente os desconcerta. Os pais demasiado severos no so os nicos a afectar 
irremediavelmente o equilbrio dos filhos, pois que os demasiado benevolentes fazem ou)tro tanto. Hoje 
em dia, muitos pais tm medo de defrontar esta tarefa de educador, que se lhes afigura to complexa. 
Recusam-se a rever nos prprios filhos uma prova cruel de fracasso.

Os especialistas em matria de educao s esto de acordo num ponto: j no existe uma nica receita, 
pois todos os mtodos so praticados, tanto os liberais como os autoritrios. Tudo era, alis, Inuito mais fcil 
quando ainda se podia acreditar que uma criana era mais ou menos dotada proporcionalmente  
quantidade e qualidade das suas clulas ganglionares e hereditrias. Actualmente, os entendidos afirmam, 
pelo contrrio, que tudo se pode ensinar e ser aprendido mediante um mtodo apropriado e que se pode 
alcanar todo o gnero de aptides e de caracteres mediante uma organizao adequada do ambiente. A 
criana comea a aprender no prprio dia em que nasce. Logo de incio tornam-se necessrias estratgias 
para despertar a ateno, mobilizar o esforo e resolver os problemas. Os grandes princpios bsicos de 
valores e ideias directrizes de cultura muito cedo deveriam ser includos no processo metdico 
educacional, a fim de se tornar-em uma presena permanente entre as crianas. O sucesso do ensino no 
se deve a imagens directrizes fixas que s.e gostaria de confundir com inocncia e natureza, mas a estmulos 
que acordem e faam surgir a aptido de aprendizagem e a vontade crtica. Nos nossos tempos a educao 
no pode contentar-se em moldar os seres humanos inserindo-os Tium esquema orientador pr-
estabelecido, adaptando-os a uma norma; tambm po pode limitar-se nica e simplesmente a transmitir -um 
ensinamento. As crianas deveriam muito mais cedo do que dantes aprender a aprender. j no se trata de 
saber caminhar mas de caminhar direito. Uma atmosfera familiar neu-

184                  AGRESSIVIDADE

tra no  suficiente, pois que no arrasta o estmulo educacional necessrio. Um ambiente caloroso, 
afectvo e culto tornar a criana apenas um consumidor passivo, quando ela necessita afinal de aprender a 
participar activamente e a assumir responsabilida-des.

Muitos pais lamentam uma poca volvida em que a segurana e autoridade eram impostas por normas 
rgidas. No existia ento o problema de emancipar uma humanidade colocada em segundo plano por culpa 
prpria.  verdade que Enimanuel Kant j reclamava esta emancipao e acusava o homem de pecar 
gravem-ente ao renunciar a utilizar plenamente as suas aptides intelectuais autnomas.  possvel que os 
princpios modernos educacionais, que renegam a sua qualidade deprincpios e pretendem ser apenas 
simples formas de creaco espontneas e maleveis, no sejam assim to novos e modepnos. Reprovaram-
se incessantemente os pensamentos, e sentimentos revolucionrios tanto por. afectarem negativamente o 
esprito e ignorarem os dados reais como por nada trazerem de novo, no passando de um bater sem 
interesse na mesma tecla. A atitude de se refugiar no pass@do ou permanecer numa obstinao utpica 
implica um negativismo por parte do educador, mas mais prejudicial ainda  a contnua hesitao, uma 
permanncia na indeciso ou a mistura de mimo e severidade, tolerncia e intolerncia, porque a realidade 
da educao  a nica realidade de posse da criana. O mundo aparecer-lhe- necessariamente  luz das 
explicaes e dados que lhe so fornecidos.

Muitos homens so adultos apenas na idade e no ultrapassam a fase de uma imitao e docilidade 
convencionais. Permanecem eternamente aprendizes c'subordinados obedientes que retiram as suas, 
escalas de valores e conscincia de si mesmos da sua incluso num grupo e dos juzos de valores de 
autoridades superiores. A instituio adquire toda a liberdade de que o ndivduo abdica a seu favor 
outalvez se d mesimo o caso de o indivduo nunca ter possudo verdadeiramente essa liberdade. Em 
troca, a instituio assume todas as responsabilidades e, em prol do elevado objectivo que se propoe,    est 
autorizada a aplicar directa ou indirectamente todo opoder de que dispe. Ameaa o indivduo de 
isolamento e incomunicabilidade no caso de este lhe recusar obedecer. Incute-lhe, pois, um sentimento de 
culpabilidade e de angstia e ele sente-se despojado de toda a legitimidade e de iluso de omnipotncia. O 
indivduo adquire uma

A GR E S SI VI DAD E                       185

certa independncia num mbito muito limitado pelo preo de admitir no ter qualquer poder sobTe os 
outros. , porm, indispensvel ao ser humano que pretenda comportar-se como indivduO independente 
e ficar responsvel -pela sua prpria agressivida-de ter adquirido verdadeira maturidade e plena 
conscincia de si mesmo, o que s s.e torna -possvel graas a um esforo permanente. A emancipao no 
 urna ddiva do cu, mas o resultado de um trabalho lcido, consciente e constante para no seguir na 
esteira da facilidade, para escapar  corrente da colectividade e no ceder aos atractivos de valorizao a 
que est ligada a destruio.  preciso dissecar e trazer  luz a tentao de fuga ante as responsabilidades 
oferecidas pela incluso real ou ilusria numa famlia, nao ou raa que confere a superioridade e 
existncia legtima dos seus membros. Quem se afirma agride, ainda que G faa sem violncia. Para suprir a 
violncia  preciso resistir agressiva-mente, se necessrio, frente aos monoplios de violncia e s, 
legitimidades que as mesmas conferem.

Pobres crianas espancadas

S iporque as crianas choramingavam, foram atingidas com gua a ferver, colocadas na chapa a escaldar 
do fogo, apertou-se-lhes o pescoo at ao estertor e foram espancadas at o sangue r e a pele cair. corre 
   adro nada tera de uma retrospeco dos mtodos de tor-

lie  is ,tuTa = v nem da reportagem sensacional sobre os actos de sdicos loucos. A descrio exacta 
destes, factos figura nos relatrios apresentados s autoridades americanas e que se referem a processos 
de educao actuais,. Tudo isto se passou nestes ltimos anos nos centros educacionais mais importantes, 
ou seja, nas duas grandes cidades dos Estados Unidos Nova lorque e Los Angeles. Em Los Angeles 
registaram-se por cada milho de habitantes cerca de cento e vinte casos de crianas gTavemente 
maltratadas, de entre as quais vinte por cento morreram. Em Nova 1,orque o nmero cifrou-se em 
setecentos casos no ano de 1967 e dois mil e quinhentos em 1970.

Em -todo o lado em que estes factos determinaram estatsticas, o n;mero, de casos de tortura fsica e 
psquica infligido a crianas indefesas e que foram comunicados s autoridades teve uma

AGRESSIVIDADE

repercussao Imensa na Amrica, assim como, em Inglaterra e na Europa Central.

As estatsticas sobre o assunto pouco significado tiveram, na verdade. Todos os -especialistas so unnimes 
em afirmar que a verdadeira percentagem de crianas mrtires nas cidades  de dez a quinze vezes 
superior  in@dicada pelas estatsticas. Nos distritos dos arredores das cidades a apreciao deficiente dos 
factos or aria de cem a duzentos,. Nenhuma estatstica criminal comporta uma tal margem de erro.

Os actos de crueldade revelados pelos resultados das investigaks e agrupados estatisticamente parecem 
inacreditveis, Os relatrios e testemunhos so votados,  descrena. As pessoas falam em exagero, fecham 
os olhos  realidade dos factos de agresso. Desviam -o rostoda cabea da Medusa e da brutalidade, e ao 
faz-lo, perpetuam a fora do mal.

Um estudo, efectuado sobre Los Angeles revelou que setenta e cinco por cento das crianas no tinham 
ainda quatro anos e vinte e cinco por cento, nem um ano sequer. Em cem dos casos, as crueldades 
verificaram-se logo, na primeira semana de vida do recm-nascido. Nove por cento dos carrascos 
examinados (contra sete por cento da populao total) tinham cultura universitaria, cerca de sessenta por 
cento possuam nvel superior  mdia equarenta porcento, um nvel inferior. Menos de um por cento. 
apresentavam indcios de perturbao mental e somente um e meio por cento poderiam ser classificados 
como sdicos, mesmo no sentido latoda palavra. No foi possvel estabelecer a mnima relao, com 
validade estatstica, entre os maus tratos infligidos s crianas e o nvel cultural, a profisso, a cor, a religio 
ou sexo do culpado. Os maridos agem, frequentemente, como agentes executivos da disciplina familiar e 
quase sempre sob direco da me; os casos -de mulheres implicadas neste gnero de tortura so menos 
frequentes, mas quando se verificam a malvadez  mais requintada. Dezoito por cento dos pais em questo 
consomem regularmente bebi-das alcolicas, catorze por cento fumam tranquilizantes ou excitantes. O 
meio familiar  em geral estvel e o nmero dos -divrcios no ultrapassa a mdia. Uma percentagem 
normal de casais, cerca de vinte e oito por cento, queixam-se de desentendimentos conjugais. A mdia das 
idades dos culpados oscila entre os vinte e trinta anos. Entre eles conta-se uma percentagem, um pouco 
acima da mdia mas de forma alguma esmagadora, de indiv duos condenados anteriormente

A G R E S S IN IDADE                      187

por actos, de violncia ou delitos sexuais, cometidos contra crianas.

Noventa por cento dos culpados declaram que a causa determinante da -orgia de violncia estava no choro 
e nos gritos con- ;tnuos da criana. Tinham, muito simplesmente, perdido a pacincia por no conseguirem 
acalmar a crian@a, apesar de todos os esforos e tentativas Para a distrair. Depois de esgotado este 
reportrio, evidentemente Uniftado, de manifestaes de ,ternura e tentativas para acalmar a criana, no 
divisavam possibilidades de resolver a situao. O soluar ininterrupto enervara-os e fizera-os perder todo 
o contrle. S metade dos culpados confirma ter -cedido a um acesso de raiva. Depois de comearem a 
bater, a estrangular, a escaldar, no tinham conseguido pai-ar at a criana secalar. Pouco menos de 
metade dos algozes declaram francamente que tinham deseja-do dar uma boa lio  criana para lhe 
demons,trar, de uma vez para sempre e com um castigo exemplar, que tinha de obedecer. As crueldades 
foram sempre precedidas de gritos de clera, cada vez mais pronunciados, at ao f im da crise. Ralhavam  
criana pela maldade e ingratido por tudo, o que os pais tinham feito por ela.

O relatrio de Los Angeles declara que na niaiDria dos casos a criana queimada ou espan-cada era a que 
os pais preferiam em relao aos irmos e irms. Os pais tinham-se privado de um viagem de frias, de 
comprar um automvel ou algum mobilirio, a fim de preparar a vinda da criana desejada. Agora, ela 
decepcionava-os, chorava, sujava -o apartamento arranjado com amor e no dava mostras de estima,de 
considerao nem de respeito. Os pais afirmavam, de forma convincente, ter amado e mimado 
particularmente a criana no princpio. Nunca teriam si-do arrastados a tal atitude por um filho de quem no 
esperavam tanto. Todos os pais que espancam os filhos tambm receberam inaus tratos na infncia; -uma 
esmagadora maioria destes pais considerava este mtodo de educao inteiramente normal e uma pequena 
percentagem admitia a possibilidade da existncia de outros processos educacionais eficazes. Quase iodos 
os indivduos examinados expressavam- pelo menos frente ao inves-tigador-certo arrependimento ante as 
horrveis consequncias das crueldades cometidas, mas estavam convencidos da necessidade de aplicar a 
disciplina  criana desde o bero.

Quase to-dos os culpados pertencem a pequenos agregados familiares que cultivam uma certa 
desconfiana em relao aos

188                   AGRESSIVIDADE

outros. Os, pais encontram-se quase e,xclusivamente voltados para si mesmose os filhos tm poucos amigos, 
poucos meios de expan so para l do trabalho e da televiso e so pouco racionais. Afastam-se de tudo o 
que acontece para l dos meios em que vivem, consideram a ordem e a propriedade corno valores 
supremos e orgulham-se de uma ntima maneira de ser, a que dispensarri, todos os cuidados. Detestam a 
atitude de deixar correr

e a negligncia. Neste meio familiar (opreservado, so surpreendentemente raros os casos de crianas 
que ingerem remdios ou detergentes acidentalmente. E-stes casais, consideram o lar como uma praa 
forte e um domnio privado onde desfrutam de ilimi-tados direitos de soberania. Ningum tem o direito de 
se meter na sua vida. O que passa no seu crculo familiar diz-lhes exclusivamente respeito.

Os nicos grupos em relao aos quais as estatsticas revelam um ndice particularmente baixo de crianas 
mrtires so os de camponeses nmadas, hippies e mes adolescentes. Nesses grupo@, sempre que -o pai 
ou a mae esgotam os processos educacioliais@ dispem de meios adicionais para lidar corri a criana. Na 
maior parte das vezes nem sequer tm necessidade de recorrer a esta soluo porque podem discutir os 
problemas levantados. pela criana rebelde com outras pessoas, geralmente com mais experincia. A 
grande promiscuidade dos habitats impede o recurso  violncia,na medida em que cada um dispe sempre 
de outras pessoas a que pode recorrer em caso de necessidade, o que constitui um -tubo de escape. As 
famlias das vtimas infantis no tm, na maioria das vezes, solues de substituio relativamente a um 
objecto de agresso. Os pais -preocupam-se principalmente em causar boa impresso e em manifestar a sua 
independn.cia e autonomia. Preocupam-se e cuidam de si mesmos, des- ,prezam os outros e vivem, 
portanto, no isolamento. Caem, por esse motivo, na violncia a que os vota a irecordao da sua prpria 
infncia.

 de surpreender o facto de que a criana maltratada quase sempre niostra sentimentos de afecto para com 
os pais apesar do sofrimento e das dores que estes lhe inflingem. As vtimas enviam, por vezes, a-os 
culpados sentenciados cartas comoventes em que expressam a esperana de os voltar a ver rapidamente.

A famlia moderna das grandes cidades atingiu um estado de crise. A sobrecarga de trabalho dos pais e o 
agregado familiar acarretam um excesso de responsabilidade e do origem a uma

AGRESSIVIDADE                            189

hpersensibilidade  menor perturbao no desenrolar aut<)mtico dos acontecimentos previ@tos,  
mnima tentativa de independncia, ao barulho e manifestaes de indisciplina. Os pais trocam os papis: 
esperam que os filhos tenham atitudes de submisso, respeito e -obedincia apesax de no terem 
antecipadamente estabelecido com eles relaes de afecto recproco. Admiram a existncia de um 
sentimento inato do dever e acreditam numa harmonia pr-estabelecida, sem -faltas nem problemas, entre o 
interesse individual da criana e o interesse geral da famlia. Estes pais, que, enquanto crianas, foram 
tratados de pau na mo, irritam-se por no verificarem uma tal harmonia e indignaim-se ao ver= as suas 
esperanas frustradas -por crianas ingratas. Em muitos centros de -pediatria tambm se observa um 
verdadeiro afluxo de crianas mrtires por ocasi o do, Natal.
O ambiente de solidariedade -e de ternura mostra-se particularmente intolerante ante toda a perturbao 
da harmonia familiar, fruto de um equilbrio autoritrio. Todos os.pais criminos consideram a forma familiar 
da sua existncia como uma insti,tuio natural e eterna, que representa e expressa os valores morais e 
tradicionais. Muitas famlias, tal como os indivduos que as constituem  no passam de uma espcie de 
encruzilhadas nos caminhos onde circula a tendncia da colectividade (Horkheimer e Adorno) e 
transmitem cegamente e sem crtica as regras em vigor, que adoptam automaticamente. Por um processo 
crescente de anonimato , a @legiti,mao  transferida do objectivo superior de uma moral santificante 
para os meios de ordem, automatismo e submisso s regras. Os pais que foram espancados na infncia 
aderem to completa e cegamente a-os esquemas-base da sociedade, caracteriza-dos por uma unio 
indissolvel ,entre direitos e deveres, que batem de boa f e com a conscincia -tranquila. Os direitos 
constituem o salrio do cumprimento do dever. Se a criana no cumpre o dever (que alis desconhece), 
os pais encontram-se frustrados nos seus direitos sagrados. Tambm eles tm de cumprir o seu dever, 
aderindo a estas regras impessoais e annimas que lhes foram inculcadas. O supremo objectivo 
educacional que lhes foi imposto leva-os da mesma forma a acharem-se no direito de aplicar uma tctica e 
uma ,estratgia, um sistema inetdico de violncia fria, sem cunho de hostilidade passional mas 
simplesmente realista. As crianas pretensamente desejadas e amadas so as vtimas escolhidas para os maus 
tratos. Quanto maior  a esperana que os pais depositam

190                   AGRESSIVIDADE

nos filhos maior  a probabilidade de recurso,  violncia agressiva quer por perda de contrle, quer 
voluntariamente atravs de umareaco a que  da-do o cunho superior de dever objectivo.

E o recurso  violncia como nica sada em breve se torna no recurso  violncia como meio exclusivo e 
primordial. Na mente dos pais existe o esquema simplificado que lhes foi imposto pela pancada: todo o mal e 
sobretudc> a perturbao do repouso e da ordem (por exemplo o choro ou gritos sem razo)  o resultado 
de uma maldade intencional e de um deseJo de agresso. A f(ynite de perturbao deve ser ata-cada e 
eliminada e torna-se legitimamente objecto -de agresso e vtima. Os pais so meros executantes de uma 
vontade alheia ao adaptarem-se sem restries a uma sbia natureza social que se lhes impe. Todo o 
saber provm de um nvel mais eleva-do e do passado. Os pais tm a conscincia tranquila porque no 
cometem a ac co -de moto prprio, mas por ordem de poderes superiores e experientes. Tm a 
conscincia imbui-da de imagens e regras autoritrias que consideramexcelentes. A confiana original 
concedida  famlia e a-os hbitos prprios corresponde  primitiva desconfiana contra tudo o que  
estranho e divergente.

Aproximadamente meta-de dos culpados buscavam consolao e tentavam consolar os interlocutores 
fazendo o paralelo com os acidentes de rotina: no se faz uma ornoleta sem se partirem os ovos; no se 
anda de carro sem que haja mortos e feridos.  um facto de lamentar, mas inevitvel. Constituem o preo e 
os incidentes ligados ao funcionamento de uma sociedade.

Em princpio,, parece confirmar-se o que es-tes pedagogos autoritrios sempre -declararam. Eles afirmam 
que na comunidade familiar no existe antagonismo entre os indivduos, dado -que a solicitude dos pais e o 
respeito dos filhos so os dois aspectos e expresso da moral comuns. Somente urna minoria corrupta 
considera um constrangimento este hbito da espcie, todavia bvio, existente no ser humano muito antes 
do uso da palavra e que constitui uma tradio niffica que se reporta a tempos imemoriais. Realinente no, 
h dvida de que este hbito inerente  conscincia moral estabelece uma estrutura autoritria, mas no 
exige uma organizao consciente, dado que a sua origem -se reporta  ternura e responsabildade para 
com uma posterida-de que compreende e aprecia a presena reconfortante dos seus protectores. E a 
maioria das crianas submetidas a maus -tratos reconhece, na verdade, ter merecido o cas,tigo. As crianas

A G R E S S 1 V I D A D E                 1,91

aceitam sem reaco ou com fatalismo as crueldades inelutveis, interpretam-nas comotestemunhos de 
afecto e de interesse e que s por acaso ultrapassaram o quadro da normalidade. O resultado do sistema 
educacional torna-se justificao do mesmo.  crueldade impiedosa -da clera do adulto,  sua fria 
indiferena -pelos desejos dacriana, corresponde a ausncia de reivindcaes por parte desta ltima; 
dado que apenas conhece a violncia, nada mais pede, e sob as pancadas que a atingem reconhe,ce e 
aprecia a terna afeio dos pais -e declara, como a rapaTiguinha de Liliom, que -o facto Do tem 
importncia.

Este modo de comportamento, legitimado pela tradio, o hbito e a indiferena, acaba por lesar a parte 
psquica da criana. Um nmero surpreendentemente elevado de crianas educadas pela pancada 
apresenta todos os maus sintomas de uma,m conscincia. Unia vez que lhes ensinaram, pela pancada, que 
os pais s castigaria quando os filhos so maus, o castigo significa que eles so culpados de desobedincia e 
pensamentos rebeldes, se bem que no se recordem de os possurem. O sentimento de culpabilidade 
inseridonoespiritG da criana pelo pai e pela me  utilizado para reabilitar e legitimar os pais, que por seu 
lado atribuem toda a responsabilidade aos costumes e  tradio annima. Dado que to-dos os pais culpados 
sofreram o -mesmo tratamento quando eramcrianas, nunca discutiram conscientemente o -problema da 
educao e acreditam que nada se poderia passar de forma diferente.

Os vizinhos ouviram soluar, ralhos, pancadas surdas e gemidos a que se seguiu o silncio. Tranquilizam-
se:  impossvel (o que no deve ser, no pode ser). Talvez tudo no passasse de um acidente. Seres 
humanos no podem agir dessa maneira contra a sua,prpria carne eo seu prprio sangue... As prprias 
dimenses da crueldade so uma proteco eficaz. justamente porque ela  to grotescamente terrvel e 
antnatural provoca a descrena e, ao dissimular a violncia, torna-se sua cmplice. As pressuposies 
optimistas, a indiferena e a preguia da maioria tolera e favorece os horrores praticados precisamente 
dentro do optimismo, da indiferena e da preguia.

Todos os pais criminosos so casos patolgicos. A sua perturbao encontra-se interligada ao facto de no 
poderem suportar * perturbao da calma no lar. So anormais porque exageram * normal e -o habitual at 
um plano do absurdo. Do ponto de vista psiquitrico sofrem de peTturbaes,muito graves de perso-

192                  A G R E S S I V 1 D A D E

nalidade, ou mais exactamente: no sofrem, -mas fazem sofrer os seus prprios filhos. Na sua mente no 
existe a incerteza, at muito pelo -contrrio. julgam saber distinguir imediata e indistintamente entre o bem 
e o mal, a justia e a injus,tia. AfA

t mesmo quando se processa o crime, apenas se consideram alvo ,de crticas por no terem toma-do 
precaues, a fim de evitar as feridas demasiado graves, e por terem depositado uma confiana excessiva 
naqueles a quem fizeram confidncias e os denunciarram.

So estes os resultados paradoxais de uma mania de legitimao, que na nossa sociedade jus-tifica o uso 
obrigatrio e regular da violncia contra os inembros do agregado familiar, um uso subordinado a 
excepes mas de acordo com o si,&tema. A maior parte dos pais apenas lamenta o exagero das medidas 
disciplinares e excesso de normas, bem como o abuso do poder dos pais, mas no o uso da violncia para 
imposio da disciplina e da obedincia.

O que  afinal a nossa agresso? Os pais criminosos, os criminos-os de guerra, as torturas nas prises, os 
campos de concentrao-tudo isso existiu, tudo isso existe verdadeiramente? No, no passam de histrias 
para meter medo, de invenes malignas, exageros desmesurados e casos raros, isolados. So crimes 
abominveis, desvarios de sdicos cometidos por animais ferozes de Crebro humano, perturbaes 
mentais; um ser normal que se nos assemelha nunca poderia cometer actos parecidos ou sequer imagin-
los. Esteomotivo por que nos recusamos a acreditar em primeira impresso. Esses actos pelo menos no nos 
dizem respeito. Alis, tudo isso jno existe hoje em dia e quem afirma o contrrio est apenas a espalhar 
contos de terror.

As crianas encontram-se, na verdade, privadas de direitos. A conveno internaciornal relativa aos 
direitos da criana em na-da modifica a situao, pois queningum controla nem impe o respeito por essa 
conven o, onde se encontram designadas a segurana do lar e a proteco contra os maus tratos. 
Quando

IIII,

AGRESSIVIDADE                            193

um adulto  vtima de um crime que poderia ter sido evitado com a interveno dos vizinhos, a opinio 
pblica comove-se com o que no local do acidente no despertou emoo capaz de provocar uma atitude. 
Em Nova lorque trinta e duas famlias ouvi-

ram no prdio que habitavam gritos desesper@dos de socorro sem que, apesar disso, se decidissem a 
intervir. Estava a ser assassinada uma mulher que todos conheciam. Na luxuosa residncia de Santa 
Barbara uma dzia -de pessoas respeitveis conhecia os esforcos da Sr.a Duncan para descobrir um 
assassino que aceitasse mat@r a nora eninoum se deu ao trabalho de fazer uma denncia s autoridades. 
A nora acabou por ser estrangulada por assassinos pagos para matar.

Todos se encontravam unidos numa deciso de no intervirem e por ela levados a qualificar os crimes 
diurnos e nocturnos cometidos contra as crianas como ninharias, excessos disciplinares e delitos de -
menor importncia. Enquanto no se concluir judicialmente que assim no , existe o acordo comum de que 
os vizinhos so to amveis, amistosos e razoveis como aparentam; cuidam dos filhos e no se parecem 
com os indivduos revolucionrios ou os jovens de cabelos compridos que renegam o pai e a me. Sabem 
certamente o que fazem e porque o fazem. Todos somos ciosos do que se passano lar erepelimos qualquer 
interveno alheia. Um dia, o segredo da criana mrtir no pode continuar a ser preservado do 
conhecimento pblico. E a partir desse mesmo instante toda a atitude discreta dos vizinhos, que no 
passava de cruel cumplicidade, pois que durante anos fecharam os olhos ao escndalo, abandonando as 
pequenas vtimas s piores torturas, transforma-se em expresses de clera, indignao e sede de 
vinganca contra os pais culpados. Estas mesmas pessoas que ainda ontem aprovavam e autoTizavam as 
crueldades mediante o seu silncio, exigem que os maus sejam severamente punidos. O castigo draconiano 
dos culpados absolvir as testemunhas tornadas c mplices  forade fechar os olhos e os ouvidos  
realidade.

A absteno  um princpio sagrado tanto para os Estados soberanos como para os pais criminosos. No se 
envolvem nos assuntos dos outros e pretendem que estes tenham a mesma atitude em relao a eles. Muitas 
pessoas, tais como os burocratas, psiquiatras, assistentes sociais e outros intrusos, no tm nada melhor com 
que se ocupar seno com os assuntos dos outros? A ideia de umaescola para os pais ede uma vigilncia dos 
pais

194                   AGRESSIVIDADE

s pode ser lanada par indivduos tarados ou por intelectuais -que pouca diferena fazem.

Quem estuda a agresso dispe de um laboratrio natural na sua forma mais violenta. Pode-se 
perfeitamente delimitar socio-psicologicamente o grupo de pessoas autoritrias, sedentas de tradio e 
desconfiadas quase num plano de parania em relao a tudo que lhes  estranho. MaItratar as crianas 
no , natural,mente, uma prtica vulgar nem um comportarnento aprovado no interior -deste grupo. 
Apesar da surpreendente frequncia com que estes factos se verificam, repres entam apenas uma 
percentageni mnima das situaes excepcionais. Estas excepes confirmam, no entanto,, a regra e, o que 
ainda  mais, representam uma continuidade exacta do caminho escolhid<>. Nenhum dos pais culpados 
sujeitos a interrogatrio duvidava dos seus direitos morais, ,relativamente a educar e integrar os filhos na 
sociedade, mediante utilizao dos mesmos processos que presidiram  sua prpria educao e 
socializao. Os traumatismos s,c>fridos no decurso da primeira inf@ncia engendram a reproduo 
automtica, a identificao com a gerao anterior e a crueldade contra todos os jovens. O sonho -de uma 
libertao da humanidade atravs da educao no pode ser posto em prtica, dada a obsesso da 
repetio do traumatismo: se sofremos temos tambm, por nossa vez, de fazer sofrer os outros.

Stangl, um carrasco encarregado das execues num campo de concentrao, declarou, aps o veredicto 
fatal, que se sentia inocente, pois obedecera s leis em vigor quando exterminara centenas de !milhares de 
seres humanos. Pelo exame de conscincia chegara exactamente  mesma concluso da sua inocncia.
O tenente Calley tambm sentia da -mesma maneira. Obedecera s normas cruis,da guerra e a -ordens 
superiores. No decurso da experincia Abraharade Milgram os indivduos manejavam sem sombra de 
escrpulo as alavancas que originavam descargas elctricas cada vez mais dolorosas, indiferentes aos 
gritos lancinantes das vtimas. Apesar das dezenas de anos que passaram j sobre os factos, Stang1 e os 
companheiros no encontram mo,tivo de censura. Os pais criminosos lamentam mais a descober,ta dos actos 
de que os prprios actos, cujas motivaes de ordem alguma renegam. Foram eles os atingidos pela 
infelicidade e no os filhos. As provas oferecidas pelas terrveis consequncias no lhes abala a 
conscincia tranquila.

 possvel que os impulsos destrutivos de agressividade incons-

AGRESSIVIDADE                            195

ciente contra as crianas tenham influenciado o comportamento dos pais culpados. A criana  arrastada 
pelo complexo de dipo, que cria e expressa a ambivalncia em relao aos pais. Este mesmo complexo 
corresponde nos pais indubita-velmente a um impulso totalmente inconsciente de agressividade contra os 
filhos

e ao desejo secreto de infanticd.io. Por detrs do amor natural afirmado e ordenado que os     pais 
manifestam pode esconder-se tambm um cime natural ambivalente provocado pelo futuro que os filhos 
tm  sua frente. Este impulso infanticida foi interpretado como factor responsvel pelas guerras, pois que 
so geralmente os estadistas de idade que enviam a juventude do pas para a morte, sem nunca a 
acompanhar. (A origem do vocbulo infantaria no vem de infante, portanto de criana, ou, melhor, 
infantlizado?) A infantaria obedece! As crianas realzam. o prodgio sentimental de ver nas cadeias que as 
prendem e nos golpes que as mutilam testemunhos da solicitude que se lhes vota e da afeio que selhes 
oferece. A pior crueldade pode ser erotizada por uma ambiguidade libidinosa e tomar-se assim uma prova 
de amor.

As vtimas encontram-se afectivamente ligadas aos culpados e por abdicao da sua personalidade 
consideram legtima a mutlao -do corpo. A violncia engendra a necessidade de violncia e faz desta 
necessidade uma condio natural do exerccio da violncia. Um dito espirituoso, muito em voga classifica 
de sdico o que trata um masochista com brandura. A agresso tornada princpio marca os homens, 
transforma-os em massas irracionais
5

ue se prestam de livre vontade ao, contrle racional das foras e agresso. A agresso transforma as 
crianas em vtimas que se comportam com passividade e na sua ignorncia nada mais conhecem do que a 
brutalidade; estas vtimas, vem nos processos cerimoniosos de penalizao a que so submetidas a 
consagrao de uma coniunidade protectora que respeitam.

Os pais obedecem s normas sociais que lhes impem como dever aplicar um castigo exemplar na devida 
altura e que regulamentam o ritual do processo primitivo destinado a cunhar na criana as escalas de 
valores dos pais e nela des,envolver o sentido de disciplina. Por estranho que parea, o objectivo 
educacional visa-do  frequente e conipletamente atingido. Quanto mais cedo e de forma mais vigorosa so 
aplicados os mtodos empregues melhor se consegue dominar a vontade infantil, desencorajar 
as,tendncias antagnicas, minar o potencial de rebelio

196                   AGRESSIVIDADE

e impor uma obedincia cega. E nesta obedincia est contido o futurotendente  crueldade. Se se comear 
a tempo, no vem  superfcie a menor veleidade de agresso infantil contra o verdugo. A criana s mais 
tarde se vingar nos irmos e irms, nos prprios filhos, nos inferies e nos fracos dos sofrimentos 
recebidos e da dor suportada. A agresso esmagadora a que nos encontramos entregues sem 
defesaprovoca primeiramente a letargia, a apatia, a completa passividade e a obedincia automtica que 
no se ope nem pe sombra de dvida  legitimidade da agresso. A relao opressiva de fora entre -o 
agressor e o agredido  j uma legitimao; basta-se a simesma.

A partir do momento em que  aplicada exi-ste necessidade de investigar e explicar o objectivo do -
processo agressivo. A justificao  feita por referncia do fim em relao aos processos utilizados. Pouco 
importa se estes so eficazes, uma vez que se desconhece quais os critrios para mais esta eficcia. A 
legitimao- confirma e perpetua uma relao de foras antiga e talvez outrora aconselhvel, muito 
tempodepois de as suas bases terem desaparecido. Pode ainda apoiar-se na profunda adeso das vtimas. O 
mtodo  considerado vlido no s pelos poderosos (na famlia, os pais) mas tambm pelos dominados (as 
crianas, escolhidas para vtimas), que no participam no exerccio da violncia.

Todos desempenham afinal o papel de vtimas: as crianas que apenas conhecem o castigo atravs -da 
violncia, os pais que na infncia tambm no conheceram outro valor, que os dotou ,de antolhos, graas  
pancada, e cujos pensamentos e sentimentos assim estruturados no.puderam ceder a uma experincia mais 
vasta. Estes mesmos pais foram assim -condicionados a uma tradio que elevou a norma e ideal os 
imperativos provenientes de autoridades superiores e reconhecidos pelo grupo pr-estabelecido. To-do o 
sentimento de responsabilidade individual foi abafado ou transferido a favor da comunidade, para culminar 
numa abdicao to,tal tornada suprema finalidade colectiva. O homem sofre a nostalgia infantil de um estado 
imaginrio de inconscincia e total submisso. Este sonho torna-se realidade por meio de um sistema 
annimo de hbitos e costumes regulares que o indivduo adopta incondicionalmente e sem reservas. S 
uma organizao poderosa (por exemplo, a famlia) consegue conciliar a crueldade do verdugo e a sua 
conscincia tranquila, que o faz santificar e legitimar o acto que pratica. Quando a

AGRESSIVIDADE                           197

ocasio se proporciona, uma sbia burocratizao transforma a violncia desenfreada, descontrolada e 
explosiva da clera e do dio na violncia fria, organizada e disciplinada do terrorismo educativo 
autoritrio e brutal.

A tentativa de melhoria docomportamento, da clula familiar fechada e encerrada na prtica da violncia  
to difcil como impedir os excessos do Es-tado soberano delimitado pelas suas pretenses etnocntricas. 
Uma vez estabelecido o regime de violncia, no mais se tolera qualquer intruso; o estranho torna-se 
indesejvel e o crtico um inimigo; por mais que se declare amigo e se coloque  disposio para auxiliar no 
que for necessrio, nada consegue. A investig ~      relativa aos incidentes traumatizantes  prejudicial em 
t=o os seus aspectos e p?dc @tornar-se mais prejudicial ainda do que os prprios acontecimentos (servem 
de exemplo os actos sexuais contra a natureza cometidos no seio do grupo familiar: o interrogatrio e. a 
descrio dos factos desencadeiam frequentemente os traumatismos psicolgicos que a investigao 
pretendia esclarecer e evitar). Quais os sentimentos que se deseja despertar na conscincia das crianas 
frente aos que as torturani? Como encorajar a sua expresso se a criana ir cair nesse mesmo meio? Deve 
deixar-se tudo na mesma, uma vez que nada se pode contra a situao?

At este momento as autoridades no encontraram processo melhor do que registar -com vergonha e 
indignao os casos raros de que tinham conhecimento, ocorridos aqui e ali, e prender os -delinquentes 
condenados, para -os reintegrar na mesma situao, decorrido ummaior -ou menor espao de,tempo. Nos 
casos particularmente revoltantes, as crianas so confiadas aos cuidados de -institui@s ou pais 
adoptivos. O resultado destas medidas  raramente satisfatrio; as instituies originam frequentemente uma 
situao anloga. Vtima de uma vez para sempre, a criana assim continua, pelo menos se no for tomado 
em considerao o complexo psquico com que a cunharam  fora de pancada. S existe um meio 
eficiente: uni programa obrigatrio de intervenes estranhas. A famlia v-se coagida a tolerar com 
regularidade a presena de um membro da assistncia social ou, melhor ainda, de algum que se 
predisponha a auxiliar e tenha o direito

198                   AGRESSIVIDADE

de entrar em casa sem se fazer anunciar. Este indivduo encontra-se autorizado a falar com todos os, 
membros da famlia tantas vezes e to prolongadamente quanto necessrio, a fim de se resolver os 
problemas que se apresentam. Todos os, membros podem, qu.ando lhes apetecer e seja em que altura for, 
entrar em comunicao com este auxiliar. Conseguiu-se, por este processo, reduzir ao mnimo e mesmo, 
anular o nmero de reinci~ dncias e novos recursos  violncia, normalmente muito frequentes. H 
organizaes privadas e oficiais  disposio de todos os que -necessitarem de auxlio. So, muitas vezes, 
estudantes inteligentes dos. dois sexos e algumas vezes pessoas sem qualificaes especiais, bem como, 
surpreendentemente, pessoas que atingiram a idade de ter filhos, os que conseguem pr termo  situao e 
eliminar hbitos tornados rotineiros. Servem de vlvula de escape  agresso e desenvolvem as 
possibilidades de recurso a outros mtodos. Uma vez que eles mesmos no se encontram totalmente 
integrados na situao em questo, podem descobrir e apresentar solues ou represen@tar um recurso 
mediante interveno quando necessria.  evidente que -tudo isto tem um carcter de superficialidade; 
no se podem -transformar completamente as condies econmicas e sociais, nem modificar em absoluto 
as tomadas de posio ou as formas de reaco recproca dos, membros da famlia; mas esta interveno de 
um intruso basta muitas vezes, e aps breve resistncia, para trazer, seno a salvao, pelo menos o 
consolo; graas ao esclarecimento crtico por ele apresentado TClativamente  anterior situao de 
equilbrio, este intruso consegue abalar as normas ancilosadas; as estruturas perdem a rigidez que as 
caracteriza. Depois de se ,terem aberto as portas do lar a um estranho quando este o deseja, passa-se 
igualmente a aceitar outros estranhos, que deixam de ser trata-dos como inimigos. Mediante a obrigao de 
se escutar as propostas de outrem, acaba-se finalmente por se adoptar as que consideram boas. No h 
dvida de que a vida familiar se complica mas tambm se enriquece. As situaes insuportveis raramente 
se verificam, pois que a todo o momento se pode teilefonar ao assistente e cham-lo, caso a criana no 
pare de chorar durante muito tempo. Encontram-se, de repente, solues em que nunca se tinha pensado. 
Nem sequer se pensa na correco pela violncia. Todas estas recordaes no passam de um pesadelo 
votado ao esquecimento.

AGRESSIVIDADE           199

GARLAND: Viva a loucura!

Um ferrovirio de Detroit, de nome Garland, foi encontrar a sua filha Sandra, que abandonara o lar, na 
casa s@ia e descuidada do amante, um delinquente de 18 anos. O pai, tomado de indignao, corno ele 
mesirio confessou, espancou com a coronha do revlver o rapaz, que se encontrava deitado e despido ao 
lado da filha. A arma descarregou-se por acaso e matou a filha. O pai teve, ento, um ataque incontrolvel 
de raiva destruidora. Como um possesso, preso de uma loucura sanguinria semelhante  provocada pela 
droga,matou no s o amante da filha, mas mais trs rapazes que moravam na mesma casa. O infeliz pai, 
que, de forma alguma, se deixou abater pelos acontecimentos, foi condenado, por homicdio no 
premeditado, a cumprir uma pena de *    de dez a quarerita anos, uma condenao que se pode priso 
qualificar de extrema benevolncia,em comparao com as penas aplicadas pelos tribunais em 1970, dado 
as quatro mortes verificadas e em particular as das vtimas inocentes, que nada tinham a ver com o assunto. 
O destino de Gafland despertara visivel- ,mente a compreenso e sinipatia entre os jurados; existiam, sem 
dvida, alguns destes que viam os seus (prprios filhos abandonar incompreensivelmente a existncia 
burguesa e disciplinada do lar familiar para procurar refgio na desordem, fugindo a todas as normas 
sexuais e renegando toda a ambio. Fosse como fosse, Garland recebeu centenas de cartas, aps 
pronunciado o veredicto. Nenhuma delas o criticava; a maioria das cartas expressava calorosas felicitaes. 
Algumas tinham dinheiro. O pai de uma adolescente escrevia: A justia que praticou por suas mos 
tambm ns praticmosnG corao. (O corao , corno se sabe, o fulcro dos sentimentos de ternura. 
Pascal: O corao tem razes que a razo desconhece.)

A violncia  o ltimo refgio da decepo sem apelo e da indignao revoltada a partir dorriomeirto em 
que no existern outras alternativas possveis para expressar a reaco agressiva.

A energia agressiva h muito que vinha a ser retida e consagrada ao esforo, para imposio de 
obedincia e ritual de castigos. Explodiu bruscamente num acesso libertador, quando o objecto a castigar 
se furtou ao ritual imposto mediante uma renegao total e a fuga. Os golpes partem do cora@o e so 
aplicados com as mos. Pouco importa que alguns inocentes tambm

200                   AGRESSIVIDADE

tenham sido atingidos; o assassino  promovido a heri e executor da vontade geral, consagrada pelo ritual 
tradicional.

Os jornais de 9 de Fevereiro -de 1971 avaliaram em 100,00 o nmero de cartas enviadas ao tenente William 
Calley desde o comeo do processo, se bem que omesmo fosse culpado da morte ,de 102 civis sul-
vie,tnamitas. Entre os milhares de declaraes de amor e pedi-dos de casamento figura o convite da 
companhia de aviao Delta que -declara ter continuamente  sua disposio um bilhete de primeira classe 
em todas as carreiras. Um negociante -de vinhos oferece-lhe bebidas a preos mdicos e o presi- ,dente de 
um banco prop e-lhe emprs,timo de dinheiro. At Maro de 1971 o nmero, de cartas negativas lmitava-
se a sete.

AUTRY: Antes quebrar que torcer

Bruce Sedgewick Autry no recebeu cartas -de amor ou de outro gnerG.  um homem entre dezenas de 
milhares; constitui um caso banal. A prpria banalidadedo seucaso confere-lhe nteresse. Pretendiam 
domin 4o e ele torna-se delinquente e criminoso. Autry conta a sua histria numa carta de dezasseis 
pginas e desculpa-se antecipadamente da sua fraqueza. No espera resultados prticos, a sua carta no 
tem qualquer fim em vista e nada exige da pessoa a quem a dirige. Sabe-se perdido e afirma que o facto lhe 
 indiferente. Penso que os seus pensamentos e ideias ,me podem interessar e que o compreendo, mas tem 
conscincia ,de que isso nada serve. Gastou tempo a escrever esta longa carta porque -tambm eu o gastei 
a examinar o seuprocesso e a testemunhar.

Autry,nas,ceu,h vinte e trs anos e  natural de Connecticut. Era o segundo dos trs filhos da famlia. Os 
pais bebiam, batiam-se, batiam nos filhos e acabaram por se separar quando Aut,ry tinha 10 anos. A me 
voltou a casar-se e o padrasto era um alcolico ainda pior do que o pai. Quando estava embriagado, 
espancava impiedosamente as crianas e ia arranc-las a meio da noite da cama para as obrigar a trabalhos 
duros, ao mesmo tempo que as insultava. A famlia, prati---camente, nada tinha que comer. Ame -deixara 
de poder proteger os filhos, pois estava minada pelo lcool -e condenada a uma letargia vegetativa. Autry 
nunca se insurgira contra as sovas do verdadeiro pai,

AGRESSIVIDADE                            201

uma vez que era do seu sangue, mas achava que o padrasto, ria sua qualidade de estranho  famlia, no 
tinha o direitc, de o fazer. Desprezava-o e detestava-o. As tarcias recebidas cada vez o tornavam mais 
consciente da injustia que se via obrigado a suportar. Acabou por fugir e foi diversas vezes apanhado 
pela policia a dormir num vo,de escada ou dentro deum automvel estacionado. Levavani--no  fora para 
casa, onde era severamente ca&tigado. Por fim, meteram-no, numa casa de correco, assegurando-lhe 
que o faziam para seu prprio bem. Autry achou a atitude injusta. Fez a sua apreciao dentro das normas 
relativas  diferena entre justia e injustia e bem e -mal, que desde a infncia lhe tinham imposto (de facto, 
 fora de pancada). A forma como o tratavam assumia propores de injustia revoltante. Autry no dava -
mo,tivos para castigo ao seu verdugo e no admitia que este estranho estivesse em posio de lhe impor a 
sua vontade. Fosse como fosse, o envio, para uma casa de correco parecia-lhe um castigo de forma 
alguma conipatvel com a sua conduta plenamente justifica-da. Ouviu repetir vezes sem conta que a sua 
presena era indesejvel, que o estavam a sustentar e podiam passar perfeitamente sem um hspede to 
importuno. Queriam desembaraar-se dele e ele tambm queria partir. Pois bem, tinha partido. Porque o 
castigavam ento?

Na casa -de correco aprendeu muita coisa. Pde confirmar pela sua experincia o que a maior parte dos 
socilogos, psiclogos e especialistas afirmam: as iprises-e sobretudo as que se apresentam camufla-das 
sob a designao de casa de correco, -so as escolas primrias, os liceus e as universidades do crime. 
Autry adaptou-s-e s suas condies de vida. Uma vez que tinham exercido a violncia contra ele, formou-
se ein viol ncia e aplicou-a.

Foi elemesmo quem escreveu: Eu era pequeno e, portanto, necessitava ser duas vezes mais duro e mau 
do que os outros. Lutava diariamente. Batia quando algum dos companheiros me queria roubar qualquer 
coisa, para me defender contra as tentativas homossexuais ou batia simplesmente por bater. Servia-me 
de,tudo o queme vinha mo. Todos osmeios eram bons para vencer. Pouco me importava o fair-play; era 
urna questo de sobrevivncia. Nunca me esquivava nem nunca cedia. Punha sempre uma expresso 
feroz. Se algum dia tivesse mostrado a minha fraqueza, estaria perdido. Acabaram por me respeitar 
(refere-se aos companheiros): era o respeito conferido pelo medo.

202                   AGRESSIVIDADE

Na casa de correco  o melhor mtodo. Os companheiros obedeciam-me. Tinha-me tornado uma 
imagem : era a melhor atitude a tomar e a partirde ento tinha de defender essa imagem.

o certo  que os directores viam o problema de forma diferente. Para eles eu no passava de um rebelde. 
Encontrava-me continuamente envolvido em rixas. Se me interrogavam, nunca confessava, no 
denunciava nem nunca acusava ningum. Consideravam-me um instigador. Os directores ju@Igavam-se 
sempre dentro da razo, que nunca concediam ao pensionista. Serviam-se de filim para dar o exemplo 
(batiam-me diante de todos os companheiros reunidos, a fim de que cada um visse o que o esperava se se 
decidisse a seguir-me). Alm disso mantiveram-ine na casa de correco no os nove meses habituais mas 
durante trs anos, @tendo-me seguidamente confiado a outra casa de correc(>.

Autry tinha exactamente dezoito anos quando o libertaram, depois de ter passado mais um ano numa casa 
de correco. Autry atribui o acontecimento ao facto de fazer parte do agrupam-ento de boxe do centro 
correccional; podia assim descarregar p@Xte das suas tenses no ringue e no mais se envolver em rixas, 
o que lhe adjudicara bom comportamento.

Autry tinha atrs de si cinco anos de encarceramento educativo. Nunca cometera, todavia, o -menor delito, 
nunca fizera qualquer mal a quem quer que fosse (antes da sua entrada na casa de correco). 
Frequentara a escola com regularidade e entusiasmo porque era esse o nico lugar onde podia sentir-se 
em segurana.

Por aprendizagem e imitao tornara-se um jovem diferente. Tal como qualquer outra forma de 
comportamento, a agressividade tambm se aprende. Autry fora sempre um bom aluno. Na casa de 
correco aprende a servir-se da violncia numa imposio ante os companheiros e nunca mais a 
abandona. .   Sabia agora que o critrio que distingue o acto de violncia justificado do acto de violncia 
injustificado no depende do contedo ou natureza dos actos cometidos, mas uncamente da pessoa que os 
comete. A violncia como delito  proibida, o mesmo no acontecendo quando  posta ao servio da 
sano. A definio -dos conceitos de san o e de delito  dada pelas autoridades e organismos que 
decidem em seu nome. Os representantes da ordem e da segurana (os professores e guardas da casa de 
correco) podem e devem, a fim de evitar as infrac es s

AGRESSIVIDADE                            203

regras que os J@vens poderiam cometer, reprimir tais infraces atra@vs de castigos exagerados 
aplicados com uma crueldade espectacular; alimentam assim a esperana de que o carcter de terror de um 
castigo exagerado exera uma influncia preventiva durvel tanto ri<> culpado conio nos companheiros. 
Uma tal contribuio para consolidar e confirmar o sistema de autoridade, bem como facilitar o trabalho 
disciplinar, significa proceder a uma terapia e conjugar esforos no, sentido de uma melhoria dos alunos, 
levados a reflectir e compreender por este processo.

Autry descobrira a hipocrisia da autoridade e constatara atravs da experi^ncia que uma acumulao de 
brutalidade endurece tanto as vtimas comoos, agressores e faz surgir nuns e noutros o desejo de exercer 
brutalidade sobre os semelhantes. Na casa de correco os educadores cometiam incessantemente actos de 
viol ncia. Gerou-se rapidamente um hbito aos mesmos. A violncia passou a fazer parte do quotidiano.

A dureza do hbito e o hbito  dureza implica perda de eficcia -de violncia: a percepo, da violncia 
aumenta tanto para o que sofre como para o que a aplica. Torna-se necessrio castigar cada vez mais 
duramente, a fim de se produzir sempre o mesmo efeito positivo;  exactamente o mesmo o caso do droga-
do, que tem de tomar doses aumentadas para sentir os mesmos efeitos. O aumento, progressivo da violncia 
gera um aumento dissimulado de brutalidade. O Teinado da brutalidade em breve comea a passar 
despercebido, bem como a prpria implicao pessoal no mesmo. A atmosfera de agresso desculpa o 
indivduo, a agresso a todos oprime e subjuga; estabelece-se o clima de violncia, que adquire feio de 
normalidade e abafa o indivduo.

A princpio, porm, e quando o gosto pela violncia no o contaminara ainda, quando Autry julgava 
somente defender-se, com todas as foras, a sua percepo de violncia no era ainda elevada.

Descobri nessa altura, afirma, que precisava de me tornar mais duro, pior e mais astuto. Encontrava-me 
sozinho frente  brutalidade e hipocrisia dos professores e, s.e queria sobreviver, tinha de me tomar forte 
e insensvel e pensar apenas na melhor maneira de me livrar de dificuldades. Troaram de mim por ter 
medo, mas depressa deixaram de o fazer.

Apesar de ser de fraca constituio, Autry aprendera boxe durante o tempo em que estivera na casa de 
correco. Conta

204                   AGRESSIVIDADE

como o boxe, que a princpio era uma vlvula de escape e uma forma de afirmao agressiva, em breve se 
torna uma forma de actividade desportiva. Consegue aprender a joga@ bem; para si, o boxe era, nessa 
altura, uma expresso de agressividade e a transferncia agressiva ou a sublimao da agresso. Foi 
tambm gra as ao boxe que conseguiu a libertao.

A sociedade que encontrou mostrou-se, utilizando as suas prprias palavras, indiferente e ligeiramente 
hostil. A famlia voltou-lhe as costas. O irmo,mais velho, o nico a que se sentia intimamente ligado, foi 
morto na guerra no Extremo Oriente. Uma rapariga de quem gostava, e que poderia ter dado nova 
orientao  sua vida, morreu num acidente de automvel. Furioso e irritado, Autry abandonou o seu 
trabalho regular. j no tnhaningum a quem se dirigir e a quem se confiar. Caiu no desespero e, segundo 
as suas prprias palavras, na alienao paranica. Talvez fosse a fatalidade que nunca o deixava ganhar. 
A vida seria uma eterna frustrao; sentia-se s no mu-n-do, ningum se preocupava com ele e todos o 
desprezavam. At ento Autry nunca se sentira culpado de nada, salvo ter fugido do lar onde o adiavam. 
Comeou a beber e a vadiar, deixou de procurar trabalho e foi, final-mente, apanhado num automvel

com uma garrafa na mo. Acusaram-no. de ter roubado o automvel e, apesar de somente se ter recolhido 
no mesmo, declarou-se culpado. Era-me indiferente o que me pudesse acontecer. Nada tinha a perder e 
n(> me podiam fazer pior do que o que me haviam feitom Meteram-no na priso.

Passou sete ineses na priso acusado, de diversas faltas disciplinares (na maioria insolncias e ofensas aos 
guardas). Declarou no querer nem ter podido refrear as suas crises de revolta. Era para ele o nico meio 
possvel de afirmao de personalidade, a ;sua salvaguarda contra a loucura. A sua personal idade possua 
a seus olhos um valor enorme. Era o seu nico bem, tudo o que tinha adquirido no decurso de anos de 
reeducao,. Estava relacionada com a sua imagem e prestgio entre os reclusos.

Enquanto estava preso tornou-se meio louco e dominado por um nico receio; perder totalmente a razo. 
Tinha vises e alucinaes; no podia suportar mais a solido, mas sabia que no havia a mnima esperana 
de poder ser posto em liberdade nos tempos mais prximos (sair no tinha para ele o significado de sair 
fora -dos muros da priso, mas ter acesso  relativa liberdade dos acusados de delitos nienores). 
Interrogava-se dia e noite sobre

AGRESSIVIDADE                              205

a forma de provar a si mesmo que ainda vivia e que era ainda um homem. Fabricou uma faca em segredo e 
fez de um guarda seu refm. Defendido pela reputao adquirida na casa de correco incitou os outros 
presos  resistncia. No, exigiu a liberdade

mas a possibilidade de expor as suas queixas ao director da priso e aos jornalistas. Acalmaram-no, ao 
mesmo, tempo que habilmente o convenciam de que o seu desejo seria atendido, e desarmaram-,no. Foi 
julgado com mais trs companheiros sob acusao de ter provocado uma revolta na penitenciria. No 
havia contestao contra o facto de ter agido no pleno uso das suas faculdades mentais. Ningum duvidava 
de que ele sabia exactamente o que fazia e foi considerado totalmente responsvel. Os resultados da 
experinciada privao de estimulante no tiveram naturalmente qualquer influncia ante os juzes. Foi 
condenado com uma pena de dez a trinta anos.

Autry sabia-o: desta vez cara nas malhas da lei. A durao da pena pouco importa, pois est convencido de 
que, seja como for, no conseguir sobreviver mais do que semanas ou meses de priso. O relato dos seus 
actos e as referncias do seu passado rebelde segui-lo-o para qualquer priso onde seja metido. Em todo 
olado sertorturado e vtima de susipeitas. No pode jurar que no as provocar, ou no reagir.  a lei da 
selva: matar ou ser morto. Ele escreveu: Todo, o homem acaba por atingir o ponto crtico ou afunda-se. O 
homem s pode aguentar uma determinada quantidade de presso e de tenso. Quando atinge um 
determinado grau, afunda-se. Estou pronto a ceder bruscamente ao impulso interior, ou seja, a matar quem 
quer que me detenha ou a fazer com que os outros me matem. Nada mais me interessa, nem sequer a 
vida.

j no resta qualquer soluo. Foi utilizada a violncia, a princpio uriginada pela indiferena da sociedade 
e depois promovida a mtodos educativos por esta mesma sociedade. A violncia eliminou assim todas as 
outras vastas possibilidades de opo. Ainda que o -desejasse, a sociedade no podia libertar este homem 
que nada mais detm. A vidano lhe interessa. Matar quem quer que seja ou ser morto. Atingiu um 
ponto em que j no pode voltar atrs.

A probabilidade de existncia de tendncias para actos manifes,tos de agresso, nas pessoas ou grupos 
pode, tal como o quociente de inteligncia, ser avaliada e definida como um quociente de agresso.

206                   AGRESSIVIDADE

Este quociente corresponde, em linhas gerais,  relao entre a quantidade de violncia disponvel e a 
fora dos mecanismos de contrle exteriores e interiores, tomando em considerao as possibilidades de 
transferncia e de sublimao. Os mecanismos de contrle exteriores so as instituies sociais policiais e 
judicirias que ameaam a aplicao de penalizaes e a aniquilamento de todos os infractores  lei 
estabelecida; os contrles interiores so os autoinatismos rtualizados da conscincia e da voz interior. O -
trabalho, o, desgosto e as relaes humanas permitem a expresso no explosiva dos impulsos agressivos, 
actuando como vlvulas de escape. Para Autry o boxe representara uma vlvula de escape; talvez com a 
ajuda.do irmo e danamorada, que perdera um a seguir ao outro, tivesse podido fundir os seus sentimentos 
explosivos de dio em emoes erticas, afectivas e amstosas e destruir assim a ameaa que os mesmos 
representavam.

A tendncia  violncia  to es,timulada por grandes frustraes como por choques elctricos.  
reforada pela eliminao do contrle dos centros nervosos. Para desenvolvimento dos mecanismos dos 
centros de represso no indivduo, utilizam-se os exemplos e as palavras e no os trau-ma,tismos psquicos, 
drogas ou choques elctricos. Este contrle pode ser desautorrizado pelos exemplos de crueldade e o 
exerccio de violncia. Existem indubita(velmente diferenas quantitativas de predisposies individuais  
violncia, mas a impcK@tucia decisiva no reside no facto de se ser violento mas de se vir a ser. A 
agresso, como todas as outras qualidades, no se desenvolve no vazio mas proporcionalmente ao meio 
ambiente. Toda a verdadeira agresso  uma aquisio social, ao passo que a predisposio agressiva 
biolgica tem carcter de generalidade.

Os juzes, os psiquiatras e toda a sociedade esto de acordo na atribuio da total responsabilidade a Autry 
e outros protagonistas dcasos parecidos. Outros homens sados de meios semelhantes tornaram-se seres 
capazes ou pelo menos pacficos.
O mesmo no se passa, iporm, em relao a dezenas, centenas de milhares e milhes. A sua agressividade 
normal transformou-se em anormal devido  ausncia de possibilidades de transferncia e de expresso, 
da-do que as pessoas responsveis e as instituies sociais no refrearam mas reforaram as tendncias 
agressivas ncles existentes. O seu quociente agressivo desenvolve-se, portanto, acaba por atingir -o ponto 
de explos o e arrisca-se a todo
O InGinento a transp-lo. Como opo possvel apenas lhes resta

AGRESSIVIDADE                        207

o seu aniquilamento: matar ou ser morto ou uma e outra coisa para no voltar a matar. Eles so os 
responsveis. Eles, e mais ningum?

mperatvo que a ordem rene

Uma vez que a ordem  uma necessidade, as punies tambm o so. As punies existem para a 
manuteno e consolidao da ordem. E precisamente a mesma agresso que se probe ao malfeitor 
delinquente  a sano justa e indicada contra ele, dado que restaura o equilbrio. Procede-se para com o 
infractor da mesma forma que ele procedeu para com os outros. Uma vez que assassinou, perde o direito  
vida; por ter rouba-do, ser despojado da sua liberdade; em virtude de ter prejudicado os outros por no 
se saber controlarr, esses mesmos outros decidem prejudic-lo e control-IG. O equilbrio perturba-do e 
igualmente violadG pela agresso ser restabelecido por este ltimo. Penalizar significa aplicar 
voluntariamente o mal, a -dor, a renncia, apresentando-os como consequncias necessrias, naturais e, se 
possvel, automticas do acto cometido. O mal realizado d origem  aco, que  a sua causa directa Poena 
quia peccatum. A diferena entre a puni o e a vingana, as represlias e a arbitrariedade, reside no facto 
de que a autoridade humana ou a pessoa que decide ou executa o castigo est habilitada, autoriza-da e 
encarregada de o fazer.

Uma crena primitiva e anterior  era da cincia i,nterpTeta a existncia domundo como a expresso de 
uma vontade superior que representa um objectivo e uma incumbncia do homem: um dever. O dever 
social  assim ligado a uma existncia superior que. no poder ser discutida. A penalizao do culpado faz 
do castigo, tal como da recomperisa, uma necessidade natural e automtica, uma cofisequncia directa do 
atentado contra elemeritos naturais. No se trata da simples transposio de uma vontade suprema, mas da 
consagrao autoritria de leis indiscutveis. Na base de que a natureza  simples e clara, no necessitando 
pois de expli.caes, a mesma  elevada  categoria de modelo e pretensa origem destes sistemas humanos, 
que exigem justificao sem que haja possibilidade de o fazer.

Do seu domnio sobre a -natureza o homem retira possibilidades materiais;  tambm graas a ela que no 
dispe unica-

208                   AGRESSIVIDADE

mente de matrias-primas, fontes de energia e alimento. O seu benefcio  muito maior: serve-se da 
natureza para confirmar os seus mtodos e justificar a sua conduta. Pela observao e interpretao da 
natureza, aprendeu a conhec-la. Serve-se -dela como base de domnio mediante um desvio, de 
interpretao que lhe confere. Esta mesma interpretao da natureza que lhe permitiu o domnio  utilizada 
pelo homem para justificar as suas pretenses (maturais. Vangloria-se de tomar a natureza como modelo 
para dirigir a sociedade e julga--se no pleno direito de o fazer. O indivduo  chamado a responder pelos 
seus actos e considerado responsvel pelos mesmos, quer na base da aco se encon- @t,re um desejo 
concreto ou exista a convico arbitrria de que assim foi. As causas do seucomportamento pertencem ao 
domnio do privado, mas as consequncias que se seguem aos actos tornam-se pblicas. Uma vez que se 
admite que seja ele a determinar os seus actos,  lcito que assuma responsabilidades. O homem no , 
porm, responsvel pelos acontecimentos. A responsabilida@de cabe principalmente  divina providncia, 
natureza, histria, acaso ou outros poderes exteriores ao homem ou que ele transformou em mitos. E se 
estes -poderes so influencives, o homem s os pode influenciar indirectamente; outrora, niediante 
sacrifcios, oraes e magia; na era cientfica, pelo conhecimento das leis que regem os fenmenos.

Outrora, o rei Xerxes ordenou que o mar fosse atacado por ,ter tragado a frota dos Persas. Hoje, esta 
ordem parece-nos uma exploso de clera infantil. Se nessa altura a cincia da metereologia estivesse to 
desenvolvida comona nossa era, teria sido possvel prever a tempestade. Esta ter-se-ia desencadeado, na 
mesma, inas os naviosteriam esperado um vento favorvel. Oo,ceano foi, pois, atacado e a punio parece-
nos estpida. O oceano era insensvel aos golpes recebidos.  precisamente porque a natureza (mada 
sente que to-das as ati,tudes contra ela nos parecem suprfluas e que no temos o menor escrpulo em a 
subjugar e explorar para nosso benefcio ou prazer.

Nem o indivduo nem o grupo conseguem infelizmente distinguir com facilidade uma argumentao difcil e 
tendenciosa destinada  mera satisfao de uma necessidade de justificao e uma argumentao 
verdadeira fundamentada numa relao real de causa e efeito. A tempestade que se segue s respostas 
insolentes da criana ante a reprimenda da me nada tm a ver

AGRESSIVIDADE                            209

com a falta cometida. E, no, entanto, a criana, consciente da sua culpabilidade e arrependida por ter 
irritado a me, pode estabelecer uma relao,de causa e efeito entre a falta cometida e os fenmenos; 
atmosfricos. Essa relao verificar-se- tanto mais quanto a me, para apoiar os seus esforos 
pedaggicos, lhe chamar a ateno. dizendo: Vs o que acontece quando te portas mal?

O silogismo assim criado no desaparece facilmente. Quando da prxima tempestade, a criana perguntar 
aterrorizada: O que fiz de mal? Encontrar certamente uma resposta, pois que se comete sempre mal, 
ainda que em pensamento ou por inteno.

A punio segue-se imediatamente  falta. O nosso caso-padro revela um acontecimento que se seguiu 
imediatamente a um acto e que a partir desse momento  -entendido e senti-do como punio.. A induo 
em erro  fcil; estabeleceu-se uma relao temporal e causal e a ela se voltar. A conscincia de uma 
culpabilidade surgida por castigos anteriores desencadeia a espera de uma punio justa, salrio, do 
cri@me, dado que ingenuamente se confia numa justia da natureza.

Ponios assim em causa um nico dos motivos possveis por que esta relao, -confirma uma aquisio 
anterior, uma convico de uma relao lgica (entre falta e castigo,, dentro do contexto citado). Este  o 
tipo de uma explicao por seduo que acentua um motivo nico tornado exclusivo ou dominante e pe 
de lado, ou retira a importncia a todos os actos. A aco culposa implica o castigo, que por sua vez arrasta 
a conscincia da falta cometida. Es,ta operao por seduo delimi-ta arbitrariamente o que  importante, 
nico e decisivo; a demonstrao  plausvel e convincente, ignora todos os outros motivos possveis, 
sendo, portanto, parcial e, a partir desse momento, errnea,

Explicam-se factos complexos e pouco claros limitando as causas a uma nica ou a um nmero reduzido e 
colocando de lado todas as outras. Evitam-se assim complicaes e consegue-se obter um esquema 
dramtico e simples do encadeamento lgico, mas a realidade dos factos  falseada e amputada.

Os acontecimentos pblicos, visveis e patentes, que de facto s.e consideram de boni grado como no 
tendo consequncias sobre os actos humanos privados, influenciam as aces relativamente s quais o 
indivduo  chamado a responder; e os seus actos desencadeiam, vice-versa, acontecimentos exteriores. 
Evita-se o

210                   AGRESSIVIDADE

perigo pela fuga e leva-,se. a cabo um contrle que. tem como fim a libertao. Uma teoria primitiva imagina 
o universo como plano da vida e v nos acontecimentos as aces de autoridades sobrenaturais. O 
pensainento moderno atingiu, pelo contrrio, um -piano de interpretao das aces humanas e 
consequncias como se se tratasse de acontecimentos relativamente aos quais ningum  responsvel ou 
pelo menos verdadeiramente responsvel. A sociedade, o governo e a tcnica constituem smbolos deste 
gnero de acontecimentos, pelos quais ningum  responsvel. O determinismo histrico, os fenmenos do 
inconsciente e as convices sociais so complexos largamente influenciados e coordenados pelo homem; 
dependem portanto dele e so assimilados por acontecimentos exteriores a que o homem atribui 
responsabilidade.

Os acontecimentos naturais no so, em princpio, desejados nem premedita-dos, se bem que, graas  
regularidade com que se processam e s leis naturais que os regem, possam muitas vezes ser pirevistos e 
por esse -mesmo facto se encontrarem sob contrle do homem.

Uma boa conduta baseada em encadeamentos naturais  sempre recompensada e em seguida encorajada 
pela experincia; uma conduta negativa  punida e a recordao do castigo sofrido leva-nos a tomar um 
caminho diferente. A recompensa e o castigo so simples consequncias, nada -mais. A educao e a justia 
dos. homens baseiam-se neste determinismo lgico e perfeitamente inteligvel; mas no 
abandonam a recompensa e o castigo ao acaso,  arbitrariedade ou  justia imanente. O 
indivduo estar condicionado a uma boa conduta social em pretensa conformidade com o 
-esquema natural, graas ao emprego e hbil manipulao de recompensas e castigos que 
j perderam o carcter natural e foram elevados a promoes e penalizaes sociais. 
Determina-se assim o comportamento deseja-do de acordo com as escalas de valores 
oficiais, alm de que o modo natural passa a ser uma norma. A penalizao aparece a 
partir desse momento como auxiliar determinante e destina-se a submeter os 
,comportamentos humanos aos. imperativos das autoridades.
O sofrimento passivo do indivduo penalizado pelo seu mau comportamento , atravs de 
hbil manipulao, transfoirmado em condicionamento activo de comportamento; o 
indivduo  submetido a uma atitude, o ac.to indesejvel considerado falso e a partir desse 
momento punido.

AGRESSIVIDADE                              211

No  por acaso que o mesmo vocbulo jurdico designa o encadeamento observvel de causas e 
consequncias que o homem verifica, sem possuir qualquer influncia sobre o mesmo, e no so um acaso 
tambm as normas sociais impostas ao, homem para -determinar e orientar formas de comportamento de 
carcter particular, consideradas como teis ante a civilizao. O que se estabelece sem qualquer 
colaborao do homem  promovido a fundamento de regras de conduta estruturadas pelos homens. Estes 
discutem as leis naturais e servem-se das imagens da natureza para ilustrar as suas concepes a fim de as 
dotar de um carcter de necessidade cientfica e de exigir uma cega submisso. O direi-to e o dever so 
definidos, explicados e impostos como esquema indestrutvel: -causa e consequncia. Os grupos humanos 
so esmagados por uma organizao natural que, alis, se formou parcialmente pela projeco de -
necessidades e formas de pensamento humano. A definio torna-se a base do conceito e os ideais sociais 
so apresentados e representados colmo exigncias do real, at mesmo da natureza.

Todos os sistemas governamentais e todos os sistemas contestatrios passados, presentes e futuros resultam 
desta pretenso de imitao da lei na-tural. O direi-to -natural legitima os objectivos humanos. As 
hierarquias, assim chamadas naturais e equilibradas, declaram-se imutveis, se bem queno passem de 
aspectos de uma ordem mutvel, pretendida, imposta ou desejada num determinado momento. As p@na-
lizaes no passam, de facto, da falsa imitao de uma justia natural imanente, de assimilao, que  mero 
fruto da imaginao. Elas so afinal um complicado conjunto de motivaes agressivas concretas contra o 
delinquente (vingana, represlias, dio e raiva) e de diversas representaes abstractas, que tm como 
objectivo o reencontro de uma harmonia natural. ,@ penalizao inflige propositada-mente uma dor.ao 
culpado, inspirando-se na justia natural e aspirando possuir a mesma infalibilidade; na sua qualidade de 
natural, encontra-se no direito de se declarar como justa e razovel. Uma vez que a justia natural 
.caracterizada por uma sucesso de factos interliga-dos, influenciou, em certa medida, os comportamentos 
humanos. A penalizao humana, manipulada por autoridades humaTias, toma-a colmo exemplo e  
utilizada para condicionar os comportamentos humanos. Este condicionamento declara-se autorizado, por 
objectivos superiores e invoca autoridades incontes-

212                   AGRESSIVIDADE

tveis ou, mais simplesmente, fundainenta-se no direito natural

e na prpria natureza -do homem. A penalizao, deve pois manter uma relao visvel, se possvel 
incontestvel, e at mesmo espectacular, com o acto culposo. O carcter rpido e inelutvel da aplicao 
docastigo contribui, em mais vasta me-dida, para a sua eficcia do que a durao ou gravidade do mesmo.

Certos tericos atribuem valor absoluto ao castigo:  moral e consequncia de uma aco. So de opinio 
que o mal praticado deve ser anulado pela pena de talio e portanto vingado. Outros tericos atribuem um 
valor relativo ao, castigo e acentuam a necessidade de desviar os indivduos da reincidncia no mal pelo 
exemplo do, castigo aplica-do. TTata-se, pelo chamado castigo. preventivo, de fazercom que o culpado 
sofra e impedir que reincida. O indivduo castigado 1,embrar-se- da penalizao sofrida no passado, 
evitar o mal futuramente e seguir, portanto, o coniportamento desejado,dado, que no afastar do 
pensamento as consequ ncas inevitveis de um eventual mau comportamento. O uso da penalizao cria 
assim reflexos condicionados que levaro o delinquente a ingressar no caminho do bem. Por outro lado, a 
comunidade, graas a este mesmo castigo especial preventivo, encontra-se protegida contra a reincidncia 
no caso de as medidas tomadas no conseguirem melhorar o delinquente e afast-lo do mal. As medidas 
violentas e radicais so as mais eficazes; dentro desta ordem de ideias, deve-se mesino preferir a pena.de 
morte  priso. perptua. , sem dvida, a medida preventiva mais eficaz, pois que elimina, de uma vez 
para sempre, todo o pergode reincidncia e a ameaa que pesava sobre a sociedade.

D-se assim e, exemplo, infligindo um castigo o mais severo possvel; o castigo visa no s o infractormas 
todos os culpados potenciais; alerta-os, chama-os  ordem, ameaa-os e assusta-os. Nu,rna poca em que a 
insegurana geral progride, os argumentos tendentes  p@oteco, de uma comunidade e sociedade 
angustiadas assumem iniportncia primordial e pouca inquietao se sente ante a prtica de urna injustia 
casual ou a utilizao de um inocente como bode expiairio que s,e -castiga. Foi proclarnado o estado de 
urgncia e a partir de ento todos os conceitos de direito individual, garantias de procedimento e simples 
justia cedemno aos interesses proritrios da proteco da cornunidade. O es,tado, de urgncia  
anunciado de bom grado para se legitimaT a privao dos direitos naturais e a suspenso dos pro-

AGRESSIVIDADE                              213

cessosnoyrnais. Nas situaes de urgncia generalizam-se a insegurana e a ameaa. A autoridade critica 
uma agressividade metdica e pratica abertamente a violncia contra os indivduos. A partir desse momento 
a penalizao, quer se refira ao indivduo. delinquente que pretende assustar, ou ante a comunidade que 
quer, por exemplo, instruir e encorajar, T@spira-se unicaMente nos objectivos dos que proclamam os 
castigos. A penalizao- expressa a agressividade da autoridade punitiva. Legitima esta autoridade e 
consegue, algumas vezes-tal corno deseja-. inipgr as suas escalas de valores e ser aprovada pelo indivduo 
castigado.

Em case, de ameaa a autoridadetende a monopolizar a violncia, a legitim-la e a lev-la  qualidade de 
princpio natural, simples e absoluto,. O po,dtr autoritrio deve afirmar-se como jus,tia natural; -deve, por 
esse motivo, em -campos estreitamente delimitados ceder aos indivduos uma pequena parte dos seus 
plenos poderes. Os sistemas totalitrios confiam assim, a numerosos indivduos, ,Poderes arbitrrios e 
ilimitados privilgios disciplinares em campos muito restritos. Cada um deles  levado  posio de chefede 
grupo. Estes poderes ilimitados dos pequenos tm, alis, tendncia a aumentar e a alargar-se. No criam um 
esprito de cooperao solitrio, mas levam a pequenas querelas Provocadas pela inveja, querelas que 
reforam afinal a autoridade central, em lugar de a enfraquecer, graas  tcnica do divide et impera 
(reparte e reina). Ao favorecer-se os pequenos interesses rivais estabelece-se nos diversos nveis um 
equilbrio de poder em que se apoia a pirmide da autoridade suprema.

As -relaes de poder, posse e contrle tm a sua origem na relao biolgica natural que se -reporta ao 
padro criana-adulto, inexperiente-experiente. Oprofessor distingue-se a prior do aluno pela 
superioridade da sua erudio, o chefe distingue-se dos subordinados pela superioridade de aptides e de 
vontade e o Estado distingue-se das massas pela sua recusa de valores hedonistas egostas e pela sua 
aptido de agir de modo responsvel, altrusta e desinteressado.

Esta seleco natural, que quase sempre, seno sempre, provm do prprio estudo das coisas, 
transformou-se em esquema justificativo de agresses objectivamente injustas, de fundamento e 
es,truturao deficiente e que so os prprios instrumentos de ,manuteno da autoridade. A autoridade 
serve-se da sua prpria autoridade, da maturidade das suas certezas -e do seu sentido de

214                   AGRESSIVIDADE

responsabilidade para reduzir os indivduos, que so, todavia, maiores, experimentad<>s e prontos a 
assumir resporisabilidades,  condio de crianas subordinadas e menore@ irresponsveis, tratando-os 
corno tal. Dirigir algum era primitivamente uma necessidade, que hoje se tornou uma pretenso arbitrria 
e se disfara sempreda mesma forma @tomando como base a pretensa natureza das coisas, as exigncias 
de ordem a impor, a simpli-cidade e o mtodo. A tentao de poder baseia-se no s no fascino que a 
agresso permite e concede, mas tambm na experinca: o homem entregue a si mesmo parece ter 
necessidade de direco e de disciplina; mostra-se afectivo e dcil ante a agresso, no apesar de, mas 
devido aos contrles agressivos que lhe so im postos, agressivamente.

O poder  adorado e respeitado. O apelo do podertem carcter ertico, a sede dos poderosos envolve-se 
na embriaguez do contr&e agressvo que exercem sobre a agresso dos outros e o respei.to dos que 
controlam. Aos contrMes agressivos interiorizados est inerente a liberdade da agresso, se bem que em 
potncia. As aspiraes libidinosas orientam-se no sentido do que ajudou os indivduos a conter a sua 
prpria liberdade de agresso, a inant-1a. sob contrle e a eliminar a angs.tia desta forma.
O governante  amado no s porque nos confere sucessos e prestgio, mas porque fez su       uma 
disciplina interna dentro de ns, O bem-amado Fhrerrfoiirna verdade, momentaneamente, o 
psicoterapeuta da nao devido ao facto de assurnir todas as responsabilidades e tambm porque, graas a 
regras de comportamento legtimadas pelos @.rgurnen,tos tnicos @ pretenses de uma raa de eleitos, 
reprimiu a agressividade ndividual, canalizou-a e deu-lhe nova orientao, autorizando a sua expresso 
sobre determinados objectos de agresso.

Pretende-se que -toda a penalizao seja eficaz e moralmente justificada e estes dois factores so 
igualmente indispensveis. A eficcia deve ser -total e automtca, sendo este o objectivo e esforo 
sistemtico visados pelo regime -totalitrio. A pefializao volta a fazer su-rgir uma situao vivida na 
infncia, no seio da qual a diferena de foras disperisa a autoridade de toda a legitimidade. Todas as 
funes de direito legislativas, executivas e jurdicas encontram-se globalmente reunidas nas mos de um 
poder nico. A autoridade absoluta somente  responsvel para consigo mesma e apenas se encontra 
sujeita ao seu prprio contrle.

AGRESSIVIDADE                             215

A possibilidade de jus,tificao do castigo @ignifica uma larga contribuio para o tornar eficaz. A 
verdadeira eficcia de um castigo pode-se avaliar com bastante exactido, no,pelas motivaes mas 
atravs de estatsticas e investigaes cientficas. Os actuais contrles de agresso representam um fracasso 
cata&trfico. Aplicam@se medidas ipenais draconianas como combate frente a frente ao aumento de 
insegurana e de incerteza. O seu Tesultado cifra-se numa subida geral de brutalidade e num visvel 
progresso de violncia.  esta, pelo menos, a concluso a que nos levam os factos, sem que, todavia, exista 
uma prova cientfica. O pormenor dos factos testemunha, porm, incontestavelmente, o resultado da 
brutalidade dos homens, o incitamento  violncia pelas ns@ttues representativas da autGridade, o, 
cxculo, fechado cons:titudo pelas famlias que fazem dos filhos mrtires, as prises e os Estados totalitrios.

Os processos -mais vulgares destinados a intimidar os culpados em potncia s actuam, na generalidade, 
sobre os que no tm necessidade de intimidao. Excluindo urna         minoria de masochistas, que 
transformam o castigo sofrido em prazer ertico, pode proceder-se, em princpio,  classificao  de 
diversos grupos humanos que se mostram sensveis ou no, ao efeito de intimidao provocado pelo 
castigo. A estes ltimos grupos pertencem:

1) As pessoas incultas ou sem experincia; os idiotas; os espritos fracos; as personalidades infantis,. Este 
grupo  assaz numeroso, mas no desempenha um papel decisivo na sociedade.

2) As personalidades patolgicas, que, quer por constituio, quer adquiridas poT educao, so, pela 
prpria estTutura da sua individualidade, incapazes de urna identificao prpria e de uma interiorizao 
da experincia vivida. A este grupo per- ,tencem os indivduos que qualificamos de doentes mentais, 
irraco,nais, sociopatas ou criminosos em potncia. Verifica-se que este gnero, de pessoas se mostra 
completamente indiferente a ,processos de intimidao anteriormente repetidos, no os tomando, de forma 
alguma, em considerao. Aps a apreciao das autoridades, jurdicas, estes indivduos so, por vezes, 
submetidos a um nternamento ou tratamento. Os casos tm sempre um fim desastroso se, por rotina e falta 
de reflexo, -na-da mais se fizer do que ceder  presso social que arrasta castigos cada vez mais graves, 
urna intimidao cada vez mais severa, devido 

216                    A G R E S S 1 V 1 D A D E

ineficcia demonstrada por toda a intimidao e apesar da mesma.

3) Os indivduos e grupospertencentes a sistemas de valores culturais ou subculturais divergentes e que, 
por esse motivo, no reconhecem a autoridade penalizadora -e lhes negam todo e qualquer privilgio. 
Reagem ao castigo como a uma agresso injusta e demonstram uma resistncia que consideram justa, 
mediante um contra-ataque. Fazem parte desta categoria os jovens deliquentes por convico, bem como 
os membros das ,minorias e outros grupos que se consideram oprilmidcs. Para eles, a penalizao tornou-
se uma necessidade-tabo de castigar os infractOTes e cedo se dedicaram, por sua vez, a utilizar a 
necessidade de penalizao, para castigar os que a aplicam.

4) O grupo -dos que to cedo e to intensamente se encontram expostos aos castigos que ficam imunizados 
contra os mesmos. Passaram  brutalidade activa ou esto de tal forma convencidos do seu papel 
irremedivel de vtimas que mais nada os preocupa. No seu desespero reagem com indiferena, apatia ou 
violncia s crueldades que lhes infligem para os castigarem.

Punir , principalmente, utilizar a intimidao a fim de evitar as reincidncias. A tentativa de recuperao 
do equilbrio e o auxlio no, sentido de se pretender recuperar o que infringiu -ou infringe as regras 
significa, primordialmente, legitmar a punio aos olhos de -todos. Torna-se necessrio que a agresso que 
existe no castigo seja vista como contra-agresso, uma agresso des-tinada a intimidar, recuperar e educar. 
A legitima o,  o nico meio de fazer com que a agresso se tOTne um verdadeiro castigo e, portanto, uma 
agresso permitida, necessria e utilizada sem criar novo sentimento de angstia. O processo jurdico 
enobrece, santifica e ritualiza o mal feito. A comunidade e a autoridade que aplicam o castigo so 
absolvidas pelo mesmo processo que culpabilizou o acusado. Uma vez que a penalizao  legtima, o 
agressor que a aplica no possui, subjectivamente, a conscincia de agresso; no  agressivo, pois  o 
infractor que mereceu o castigo e cometeu a agresso. Quem castiga sabe sempre demonstrar que quem  
punidotinha necessidade de s-lo para que no reincidisse, pagando o seu erro e compensando a falta ou 
sendo encaminhado para o bem. O que aplica o castigo dispe, assim, de contnuas ocasies de satisfazer as 
suas prprias tendncias agressivas, ao mesmo tempo que as nega.  o criminoso que comete a agresso, 
mesmo a que ns

AGRESSIVIDADE                            217

transferimos e projectamos, parcialmente, sobre ele e, portanto, lhe aplicamos e praticamos.  nele que, por 
transferncia, des-Cobrimos e revelamos as nossas prprias tendncias. Transformamos omal que existe 
em nsnum mal que lhe atribumos e sobre ele descarregamos, com a conscincia tranquila, todos os nossos 
impulsos agressivos, quer ele represente um verdadeiro perigo ou seja apenas um bode expiatrio, quer 
seja culpado ou inocente. O objecto a punir torna-se um alvo legitimo e oferece-se  autoridade punitiva, 
corno imeio, de libertao dos seus impulsos agressivos e violentos, que, no entanto, nega e repele sem 
deixarde os expressar e reivindicar. O indivduo e a colectividade ascendem de bom grado ao papel de 
agente de represso.

Outrora, o homem podia plicar a sua agressividade em activida,des inofensivas, como por -exemplo 
rachando lenha, dando largas ao esforo fsico no trabalho, em competies des,port'vas, rixas ou duelos, 
Estas possibilidades vo-se reduzindo, no entanlo, progressivamente, na medida em que o Estado deseja e 
consegue obter o monoplio da violncia, graas a processos tcnicos cada vez mais perfeitos. O indivduo 
civilizado S raramente dispe de oportunidade para empregar a agressividade ou do direito de uma 
manifestao agressiva (fora do meio familiar), pois que o Estado reivindica todos os meios de violncia e 
toT-

na-os seu privilgio absoluto. S  autorizada a agresso que comporta a designao de castigo.

Esta , pois, uma das raras, vlvulas de escape  disposio, da agressvidade sentida pelo mundo 
civilizado, pois que este se v, progressivamente, privado de todo o direito de reagir de outra forma aos 
seus impulsos agressivos, acumulados e reprimidos. A humanidade no quer, portanto, deixar escapar a 
possibilidade de descarregar a agresso sobre o seu semelhante, embora negue, continuamente, o facto. Esta 
liberdade de escape parece-lhemais ipreciosa do que a liberdade de pensamento. Exige-s-e um maior 
alargamento do direito de punir e um aumento dos delitos punveis, como se no os houvesse j em 
quantidade suficiente. A corrida para a violncia, a sua multiplicao e provocao processam-se em nome 
da antiviolncia.

O castigo possui, indubitavelmente, limites, dado que pretende a sua continuidade dentro de uma 
legitimidade e aceitao. A pena de talio ---olho por olho, dente por dente -surgiu, originariamente, dentro 
de certos limites. Uma vez que se pretende manter a contraviolncia dentro de um clima de justifi-

218,                  AGRESSIVIDADE

Cao, no se devem ultrapassar as dimenses da violncia, contra a qual ela representa uina reaco. 
Caso contrrio, deixaria de ser aceite. O castigo deve ser aplicado na mesma medida e dentro das 
convenincias referentes  infrac@O cometida.

Se se lhe desse o nome de represlia ou vingana, o castigo acarretaria o recibo de contra-represlia ou 
despertaria sentimentos de culpabilidade nos responsveis. Uma vez que lhe  atribuda a designao de 
penalizao, conforme com o direito

tem permiss Pal,                o absoluta de se realizar. A agresso no

e, todavia, ser elevada ao plano de sano e desculpar-se, assim, de uma acusao de farisasmo seno ao 
preo de alguns sacrifcios e algumas limitaes que a ela mesma impoe. O castgo deve, portanto, satsfazer 
uma dupla condio de pressupos,ta eficcia e legitimidade; deve -poder vangloriar-se de provocar os 
comportamentos desejados e desencorajar os comportainentos ndesejados, alm de que se deve manter 
dentro de uma justificao, sendo, portanto, determinado pelas leis do direito.

As bitolas utilizadas tm, alis, um carcter de relatividade; a sociedade no tem o mnimo escrpulo em 
aplicar  letra os processos que selecciona. Em princpio, a lei protege o indivduo e a sociedade contra os 
infractores, mas tambm contra os defensores da lei; visa, teoricamente, todo o que infringe os direitos de 
outrem, mas controla, igualmente, o que os protege. S concede a es,te l,timo o privilgio da sua funo 
protectora dentro de determinadas condies. As usurpaes militares e policais, se bem que denuncadas, 
so sempre toleradas na prtica. Depois da sangrenta vitria quando das revoltas de Watt, o antigo chefe 
da polcia de Los Angeles William Parker vangloriou-se, utilizando urna frmula que quase se toTnou 
clssica, de ter metido as bestas humanas negras revoltadas (mas gaiolas dos guetos que lhes competiam e 
de ter feito com que a polcia ocupasse o lugar cimeiro, que lhe pertencia. Este severo representante de 
uma ordem hierrquica estabelecida declarou num discurso pblico que a polcia no estaria -em condies 
de garantir a aplica o das leis se no lhe fosse concedi-da autorizao para transgredir essas mesmas leis 
frente aos indivduos culpados de infraces. Os tribunais no admitiram o facto e so, Mtanto, muitas 
vezes, tornados responsveis pelo aumento da criinnalidade e, apesar da sua elevada dignidade, sofreram 
acusaes de cumplicidade criminosa.

Uma vez que o respeito rgido das leis e das normas preju-

AGRESSIVIDADE                             @19

dica a sua aplicao, estabelecem-se grupos de salvaguarda para remediar a situao. Fomos informados ce 
que na Amrica do Sul os polcias empregam os tempos livres a pr fora de combate, sem existncia de 
processo, os elementos que Consideram culpados mas contra os quais no,trn,,pTovas suficientes ou 
possibilida-de de investigao.  desta forma que actua, frequentemente, o detective privado dos romances 
ou filmes policiais. Defende o direito e a moral, ataca o mal e a imoralidade e mostra-se mais eficaz do que 
as autoridades policiais, porque no se preocupa em submeter os seus actos agressivos, inspirados 
directamente por objectivos -nobres e morais,  complexa buroctaciadas regras legais e disposies, 
administrativas. Consegue obter xito nos pontos em que, no romance policial, -o processo pertence ao 
burocrata, muitas vezes apelidado de -estpido e incompetente, que se cobe de cometer actos agressivos 
que infringem a@s regras estabelecidas, ainda que as mesmas possam contribuir para a luta contra o crime 
e deten   ~  do culpado. O leitor ou o espectador de bom grado se identrflocam. com os duros que, 
ilegalmente, castigam pela violncia o indivduo culpado de violncia. O heri de uma famosa srie policial, 
violento e cavalheiresco, conquistando o agrado de homens e mulheres e abandonando sempre o local do 
crime sob urna aparncia de prtica do bein, aparece como o vingador predestinado, pois que, com ironia 
e, mais frequentemente, a srio, se declara santo e se chega a sentir como tal. James Bond e -os seus 
semelhantes so a imagem encaTnada -da agresso com todos os requintes Imaginveis de crueldade. A 
sua infalvel perspiccia na distino entre o bem e o mal e a sua qualificao natural de homem habilitado a 
agir livreniente, porque visa um objectivo superior, conferem o prestgio da eficcia benfica ao seu 
usufruto de brutalidade. A violncia sem peias, justificada logo de incio pela nobreza de intenes, 
encontra-se ainda justificada e aplaudida pelo sucesso obtido, o que -no impede o respeito das regras 
estabelecidas. Todo o que liquidao criminoso, porque no tem outra forma de proceder, em breve se 
habitua a esta forma de comportamento, conten,tando-se em executar o seu prprio veredicto e afastando 
as preocupaes -e dvidas inerentes  descoberta da verdade e  avaliao -do castigo justo a aplicar. A 
linchagem no  um acto de justia, mas precisamente o contrrio dessa justia cujos direitos usurpa.

220                   AGRESSIVIDADE

Ainda no morreu a esperana enquanto as brutalidades dos defensores da lei se limitarem  eliminao 
ocasional de subor-dinados e vingadores improvisados demasiado zelosos ou ao ,esmagamento 
excepcional de um grupo de revoltosos. A tirania verifica-se no @Iuando os policias se arvoram em 
justiceiros, mas quando os justiceiros improvisados se arvoram em polcias e se podem entregar sem 
barreiras  violncia, com a cumplicidade do grupo nacional ou Estado a que pertencem.

TERCEIRA EXPERINCIA:
O TESTE DE ABRAO

A

crueldade nem sempre  o resultado de uma opresso tirnica. Obedece-se s autoridades ainda que estas 
n o -empreguem a fora nem se faam valer dos seus direitos e prestgio. Pare, por favor. No aguento 
mais. No  possvel. Pare. Quero ir-me emborab) Estas splicas transformam-se em gritos de -dor e depois 
terminam subitamente. Num cumprimento das ,ordens recebidas as vtimas gemem, gritam e acabam por 
emudecer de dor sob a aplicao de choques elctricos. A autoridade que aplica os castigos  levada a ver 
um novo testemunho de obs-tinao no silncioda vtima e, iportanto, aumenta as doses sem se comover. 
Cumpre o seu dever.

A analogia entre a descrio de uma experincia e os factos da vidarealno tem,carcter de casualidade, 
mas  um clculo e um objectivo. O socilogo e psiclogo Stanley Milgram, de New Haven, que, em 1961, 
deu incio s suas experincias sobre a docilidade humana, tem vindo a repeti-las sucessivamente em 
diversos pases e actualmente so largamente conhecidas. Ele pretendia determinaro, nmerode pessoas 
que estariam na disposio de cas,tigarduramente e mesmo cruelmente vtimas escolhidas ao acaso que 
nunca tivessem participado em experincias e a quem era imputada a acusao de falhas de memria. 
Foram convidados a participar na experincia habitantes de New Have,n e de Bridgeport (Connecticut) do 
sexo masculino, idade entre vinte e cinquenta anos e escolhidos entre as mais diversas categorias 
profissionais.

O experimentador comea por pagar aos participantes uma quantiamnima, que tem porobjectivo 
indemniz-los pela perda

222                   AGRESSIVIDADE

de tempo. Explica, em seguida, que est a proceder a uma investigao. importante sobre a eficcia do 
castigo no mbito da memorizao. Proceder-se-  organizao de dois grupos: um representar o 
(@professor e o outro o aluno. O experimentador torna disposies para que o indivduo sem prtica 
seja sempre escolhido como professon) e o auxiliar do experimentador desempenhe o papel de aluno. 
Este senta-se numa espcie de cadeira elctrica. e responde a uma srie de :perguntas, j elaboradas, que 
constituem testes de memria. O professor tem como misso purrir cada resposta falsa com um choque 
elctrico de intensidade crescente. O aparelho elctrico que produz as descargas tem uma voltagem que 
vai de 15 a 450 volts. Est preparado para uma descarga suave no inicio da experincia e para uma forte no 
fim. O prprio professor recebe uma descarga de
45 volts, a ttulo de informao, antes de s.e dar incio s experincias, que o convence da eficcia dos 
mecanismos de que dispe.

O aluno multiplica as respostas falsas. O professor obedece  ordem recebidac aumenta a intensidade da 
descarga. A partir de 75 volts o aluno comea a gemer e a lamentar-se, quando chega a 180 volts implora 
misericrdia e aos 300 volts os gritos emudecem por completo. O director da -experincia ordena que se 
continue:   preciso prosseguir, no h outra possibilidade.
O professor continua. Sessenta e cinco por cento dos indivduos de New Haven e quarenta e oito por 
cento dos de Bridgeport obedecem ao director, que, no entanto, para eles  um desconhecido, e 
mantm~se surdos aos gritos e protestos das vtimas, que no,p"Q am, na realidade   de gravaes feitas 
numa fita inagntica. Se bem que no duvidem da veracidade do que escutam, Prosseguem at  aplicao 
da voltagem mxima.

A experincia de Bridgeport efectuou-se num imvel de escritrios pertencentes a uma firma respeitvel, 
mas pouco conhecida. A experincia de New Haven,teve lugar nos laboratrios cientficos da famosa 
Universidade de Yal.e. O grande prestgio de que desfruta esta universidade proporcionou  experincia 
um resultado ainda mais retumbante (65 % contra 48 %.). Os outros factores foram idn,ti-cos: participao 
de grupos socio-profissionais, pessoal de experinientadores e disposies gerais.

A princpio, os experimentadores sentiram dificuldade em recompor-se do choque sofrido ante estes 
resultados. Em pleno sculo xx, em plena era progressiva -e esclarecida dos anos 60,

AGRESSIVIDADE                             223

eis que na costa oriental da livre e democrtica Amrica uni grupo de pessoas respeitadas em todos os 
aspectos se mostram, numa percen,tagem assustadora, dispostas a infligir as dores mais insuportveis a 
outros homens que nunca viram na sua vida e que nenhum mal lhes -tinham feito; tudo com vis-ta, a uma 
exp5@ncia cientfica.

mesmas experincias foram repetidas em locais diversos. Desta vez, tnha-se pedido aos quarenta 
psiquiatras universitrios qu@ fizessem uma previso de resultados. Na sua opinio, a maioria dos 
indivduos no ultrapassaria o nvel de 150 volts, que corresponde aos primeiros gritos de dorr sentidos 
pelas vtimas. S quatro por cento iriam aos 200 volts e apenas O,1 por cento obedeceriam at ao fim da 
experincia. O resultado final f(>i uma obedincia to-tal, at ao fim, em sessenta e dois por cento dos 
indivduos.

Seria uma ideia totalmente errada pensar que estes Participantes na experincia tinham predisposies 
particulares ao sadismo. Mediante interrogatrios pormenorizados e diversos testes psicolgicos, 
chegowse  concluso de que os testados eram cidados pacficos, bons, respeitadores das regras e que 
nunca tinham feito mal a quem quer que fosse. A partir do momento porm em que transpuseram a IPOTta 
do laboratrio sentiram-se isentos de toda a responsabilidade e, emocionalmente, desligados da situao,: a 
autoridade devia saber o que estava a ordenar, caso contrrio no seria autoridade.

A proximidade concreta e psicolgica entre o professor e o aluno aumentou aspossibilidades de recusa da 
obedincia. Se no decurso da experincia o profes&oTto-casse no aluno, mostrar-se-ia duas vezes mais 
inclinado,  -recusa de continuar do que estando separado da vtima por uma divisria. O indivduo testado 
sentia-se essencialmente determinado, pela sua subordinao, ao director da -experincia. O professon) 
encontrava-se num ambiente que lhe era inteiramente estranho e novo, onde no conhecia ningum, 
queria causar boa impresso e no criar qualquer dificuldade. Verificando-se a experincia num 
laboratrio, o indivduo, chamado a participar na mesma encontrava-se convencido, a priori e sem qualquer 
reserva, da competncia dos dirigentes e da legitimidade da experincia. O carcter cientfico do ambiente 
era unia garantia da autoridade do director da experincia. Bastava4he, portanto, ordenar para obter uma 
obedincia cega (e surda).

224                   AGRESSIVIDADE

Se, porm, o director da experincia comunicasse as suas ,ordens por telefone e no conduzisse 
pessoalmente a experinca, a percentagem de obedincia diminua rapidamente para a tera parte. A 
ausncia do director ocasionava, alm disso, que cerca de metade dos professores falseassem a 
experincia. Produziam -descargas elctricas mais fracas do que as calculadas com a previso: Temos 
corao e sentimentos. Os indiv duos, Porm, que falseavam na ausncia do director e mostravam mais 
compaixo eram os mais dceis quando ele estava presente.

Quando as vtimas comeavam a gritar, os professores enervavam-se, agitavam-se, faziam caretas, torciam-
se, transpiravam, gaguejavam, tremiam, mordiam os lbios, gemiam, mas prosseguiam a experincia. O 
sofrimento das vtimas @tornava-se-lhes insuportvel. Muitos desviavam os -olhos, sem, no entanto, 
pararem as -descargas. Os indivduos particularmente obedientes deram provas de um maior mal-estar do 
que os que no obedeciam e que acabavam por interromper a experincia. A conscincia de uma 
profunda dissonncia em si existente e que era provocada pela co,exis,tncia de duas tendncias 
antagnicas resolvia-se, em alguns -dos testados, ao decidirem deixar de colabor@r na experincia (por 
vezes sentiam vergonha em dar uma tal indicao de fraqueza). A maioria, porm, optou pela crueldade.e 
Ror uma.cega obedincia. Todos tinham conflitos de conscincia e muitos protestavam, mas sem, no 
entanto, deixar de obedecer. Um dos indivduos testados criticou severamente os fins desumanos do 
director e a insuportvel crueldade e estupidez da experincia, o que, porm, no o impediu de continuar. 
As suas aces eram inteiramente determinadas pelas ordens do director, apesar das suas palavras de 
protesto.

O Dr. Milgram chegou  concluso de que, por vezes, certos indivduos pretendem revoltar-se, mas no 
encontram as palavras necessrias para reduzir ao silncio o director da experincia. Talvez a nossa -
civilizao oferea ao ho-riem poucos padres de recusa da obedincia em que se possa inspirar.

A interpretao dos resultados foi contestada por diversos lados. Acusaram-se de parcialidade estas 
experincias, que visavam demonstrar a existncia de um profundo Eichmann em cada um dens. 
Teriam uma feio pouco cientfica. A cincia tem de se manter fiel  verdade. Ora, o experimentador 
prejudicava a verdade na -medida em que enganava os indivduos sujeitos  experincia. Alm disso, estes 
indivduos no eram

ms,4 IN-I

AGRESSIVIDADE                            225

com certeza estpidos e tinham, provavelmente, desmascarado quem os enganava, no,podendo, admitir 
que um sbio eminente pudesse provocar ou tolerar semelhan-tes torturas. Estas afirmaes foram no 
entanto refutadas por um inqurito pormenorizado feto, aos participantes. De facto, nenhum deles tinha 
qualquer d vida quanto  seriedadeda experincia. Se tivessem, alis, susp@itado de que no era o aluno 
que estava a ser testado, como previsto, mas sim o professor, cessariam de prestar a sua colaborao. Um 
professor posto, assim, de sobreaviso deveria concluir que o director da experincia desejaria que a 
mesma cessasse e no que continuasse. O crtico Massermann expressa as suas dvidas quanto s 
manifestaes de inquietao e nervosismo que o director dizia ter observado, sem, no entanto, submeter 
estas observaes e verificaes cientficas por medio da tenso, temperatura e outras caractersticas 
precisas. Muitos suipercientficos -consideram aparentemente irreais as emooes sentimentais 
experimentadas subjectivamente ou observadas objectivamente, -desde que no, sejam expressas por 
nmeros. Tudo isto confirma as previses e os pr prios resultados da experincia. Os investigadores no 
reagem de maneira diferente dos membros da comunidade a que pertencem.

Os alemes tambm afirmavam que -com eles no, se poderiam verificar factos semelhantes. Os bios do 
Instituto Max Planck,calcularam que, na Alemanha, trinta Por cento da populao responderia 
afirmativamente (ou melhor, negativamente) a este teste de obedincia cega. Pensava-se que depois da 
vivncia de todo o horror de Auschwitz, dos campos de concentrao
5 dos processos -dos criminosos de guerra, se estaria exorcizado, imunizado contra a obedincia 
automtica. Ora, as sries de experincias que foram realizadas de acordo com o padro de Milgram, 
graas  colabora o da televiso da Baviera e do Insttuto Max Planck, demonstraram que oitenta e 
cin@o por cento das pessoas -testa-das se mos-travam obedientes e continuavam at ao fim. Em Outubro de 
1970, a televiso da Baviera transmitiu extractos da experincia. O indivduo escolhi-do como aluno disse 
nunca ter imaginado, que exis-tisse tanta insensibilidade e submisso por parte das pessoas examinadas. A -
experincia vivida parecia-lhe monstruosa, quase irreal; atribuiu a responsabil idade a uma sociedade que 
enaltece a autoridade.

O patriarca Abrao teria sabido, de antemo, que Deus interviria no ltimo momento e impediria o acto que 
-lhe impusera,

226                  AGRESSIVIDADE

que deteria o assassnio do filho em que ele consentia? Seja como for, a humanidade civilizada falhou 
rotundamente quando submetida ao teste de Abrao.  preciso comea@r pelo conhecimento deste facto, 
por o confessar, por se recusar a negar, se se pretende esperar fazer progredir a espcie humana e dar-
lhe um objectivo.

_

CALLEY: TU MATARS

N

o mesmo dia em que em Los Angeles Manson e os seus

amigos foram condenados  morte, um jri constitudo por seis oficiais do exrcito dos Estados Unidos, 
reunidos no, Forte Benning, declarou o tenente William (R,usty) Calley culpado do assassnio premeditado 
de vinte e dois civis vietnamitas e condenou-o a priso perptua.

Depois de escutar a sentena -e ainda antes de ser levado, o tenente Calley conseguiu ainda ter coragem 
para fazer a saudao militar. Nesse momento, desencadeou-se uma tempestade de indignao entre as 
pessoas que assistiam, uma indignao no contra os actos do tenente, mas contra a conde-nao que o 
atingia. No dia posterior ao do julgamento chegaram cem mil telegramas  Casa Branca: eram cem contra 
um a favor de Calley. Colocaram-se bandeiras americanas a meia haste em sinal de luto e de vergonha. O 
governador do estado de Indiana, Edgar Witco,mb, veterano da Segunda Guerra Mundial, decretou luto 
pblico. Lester Maddox, vice-governador da Jrgia, assumiu um tom pattico no decurso de uma 
conferncia em que se recla-

mou a libertao de Calley em grandes gritos: Deus abenoe o tenenteCalley, que lutou pela causa da 
na o. George Wallace, ex-candidato  presidncia e actual governador do Alabaina, declarou que 
considerava uma honra ter apertado a mo ao tenente Calley, a quem fizera unia visita espectacular. Tudo 
porque as vtimas do Viemame, inclusive civis, mulheres e crianas, tinham sido mortas para destruir o 
comunismo. Foi composto um hino guerreiro sobre o caso, cuja primeira estrofe  a seguinte: O meu -
nome  William Calley, sou um soldado deste pas que jurei cumprir o meu dever e vencer, mas chamaram-
me um

228                   AGRESSIVIDADE

canalha ...  Em trs dias venderam-se cem mil discos e numa semana um milho,. As associap@s de 
veteranos recolheram somas enormes para Calley e transmitiram-lhe mensagens de simpatia. As antenas 
dos carros ostentavam folhetos que pediam a libertao de Calley. Milhares de homens foram apresentar-
se s autoridades militares -e acusaram-se de ter cometido crimes anlogos.
O Diabo Verde, Robert Marasko, comovido pela condenao de Calley, decidiu anunciar na televiso 
que matara recentemente um espio do Viettiame do Sul por ordem da C. 1. A. Era assim e no podia fazer 
nada mais do que confessar. Os jornais declararam luto. O reverendo Michael Lord viu o reviver da 
paixo de Cristo no caso Calley. Declarou publicamente: H dois mil anos crucificaram um homem 
chamado Jesus Cristo; no acho, que tenham necessidade de uma nova crucifica(m) Uma indagao junto 
do pblico revelou que oito em cada nove americanos, consideravam a condenao de Calley injusta.

O presidente dos Estados Unidos passou uma noite em claro ,e, depois, decidiu fazer sair Calley da priso 
e marid-lo para casa sob vigia. Declarou que, na sua qualidade de chefe supremo do exrcito, se 
reservava a ltima deciso sobre o assunto, -dado que -to-dos -os meios judiciais estavam esgotados. Os 
militares responsveis -no falo -dos acusados, mas dos seus juizesviram--se objecto de insultos 
sistemticos. As famlias foram alvo de calnias e ameaas e a polcia teve de as tomar  sua guarda. Depois 
de subtrados  recluso imposta ao jri, os dignos oficiais no entendiam a emoo geral.

H anos a jurisdio militar tinha condenado, sem que por isso se tornasse -objecto da ateno pblica, 
algumas dezenas de soldados e oficiais por crimes anlogos, se bem que no de tanta carnificina, cometidos 
em operaes no Vietname. O facto no despertara interesse nem causara objeces.

No decurso do processo Calley, que durara longos meses, os jurados oficiais tinham-se limitado a examinar, 
de acordo com a lei, as provas que as testemunhas, a defesa e o Ministrio Pblico lhes apresentavam. 
Tinham-se mantido fiis ao seu juramento e nada mais efectuado do que o cumprimento do dever. Estava 
para l do mbito da sua competncia examinar o porqu que fizera recair a acusao sobre os ombros de 
Calley e no de outros, ou estudar os actos de outros soldados nesta ou noutras guerras. O tenente Calley 
era acusado do assassnio

AGRESSIVIDADE                            229

premeditado de cento e dois civis, velhos, mulheres e crianas, cometido em duas horas diferentes do 
mesmo dia, em My Lay. Ele mesmo admitiu ter -disparado a curta dis.tncia ~os de um -metro e meio) contra 
um fosso onde se encontravam dezenas de prisioneiros vietnamitas. No verificara os resultados do seu 
procedimento. Mais de cem declaraes de testemunhas afirmaram que Calley -tinha atirado contra 
crianas indefesas que iam a fugir, que abatera prisioneiros desarmados e que, a pontap, forara os 
subordinados a atirar contra os civis presos no fosso. Quando Calley solicitou a benevolncia do jri e 
pediu aos jurados que, pelo menos, lhe concedessem a vida, j que lhe tinham tirado a honra, o 
procurador-geral gritou que a desonra de Calley no se encontrava no veredicto, mas nos actos que 
cometera. Durante -os dias que durou o debate, os jurados tentaram tudo para considerar Calley inocente, 
mas o processo demonstrara a cada um que os actos de Calley eram indiscutivelmente criminosos. Os 
jurados no concordaram porm num ponto: os crimes cometidos eram assassnios prenieditados ou 
poderiam, ser considerados num mbito de menor gravidade? Foi pronun~ ciada a acusao de assassnio 
premeditado numa maioria de dois teros.

As autoridades militares ficaram surpreendidas, chocadas e perturbadas pela reaco dopblico e do 
presidente. A princpio, e merc de um espontneo reflexo bur<)crticG, tinham -tentado proteger os 
direitos institucionais arquivando os mltiplos relatrios referentes aos massacres de My Lay entre os 
numerosos dossiers sobre assuntos anlogos. O exrcito no desejava, evidentemente, chamar a ateno 
do pblicopara acontecimentos semelhantes. Como as acusaes, solidamente fundamentadas e reunidas 
por um corajoso jornalista, foram, no entanto, difundi,das por todos, no s,e pde evitar um processo 
sensacional. GTandes frac6es da opinio pblica no conseguiram acreditar que os soldados americanos 
fossem capazes de cometer tais hoTrores e consideraram as acusaes como infames calnias, cuja mentira 
se tornava necessrio demonstrar publicamente; outros pensaram que se,tratavade um caso isolado e que 
eraneessrio dar o exemplo atTavs deste -criminoso de uniforme. De qualquer modo, as autoridades 
civis mais elevadas, inclusive o presidente, ,no s exigiam o processo contra o acusado mas igualmente 
contra os oficiais de patente superior e generais que, a princpio, tinham tentado ocultar e falsear todo o 
caso.

230                  AGRESSIVIDADE

As primeiras investigaes do Estado-Maior relativamente s suas prprias manobras para ressalvar o 
assunto no foram longe.
O facto no surpreendeu ningum. No foi apresentada queixa contra o general Koster, que, na manh do 
massacre de My Lay, inspeccionara o local de helicptero, nessa altura ainda em paz, .nem contra qualquer 
outro coronel ou general. Apenas Calley e os seus subordinados, bem como o seu superior imediato, o 
capi- .t Medina, foram chamados a responder pelos seus actos ante a justia. No vem a propsito discutir 
aqui se ao exrcito no restava outra hiptese -para alm de uma queixa contra Calley, uma vez 
divulgados os horrveis acontecimentos, ou se obedeceu, de vontade ou pela fora, a autoridades civis 
superiores. A verdade  que o processo se iniciou e, a fim de restaurar a honra do exrcito 
amerilcano,prosseguiu publicamente segundo as boas e incompreensveis regras do direito jurdico.

Antes do mais, o resultado revelou-se catastrfico. para o exrcito, a democracia e o direito. Numa noite o 
acusado foi promovido a heri nacional precisamente devido ao massacre queele mesmo confessava ter 
cometido. O povo mostrou-se solidrio em no aceitar a sua condenao, mas apenas nisso. Cada um 
acusava por um processo de generalizao simplista. Em primeiro lugar, nada se passara. Em segundo -
lugar, os factos tinham sido larga-mente exagerados. Em terceiro lugar, o que acontecera processara-se ao 
servio de uma boa causa. Em quarto lugar, as vtimas tinham merecido o justo castigo, uma vez que eram 
comunistas, simpatizantes dos comunistas, deles no se diferenando, ou viviam num pas simpatizante do 
comunismo. Em quinto lugar, tudo acontecera no ardor do combate. Em sexto lugar, foram os outros a 
comear ou podiam t-lo feito. Com a condenao de Calley, que escarneceu de todo o esprito de 
camaradagem e lealdade, o exrcito ficou manchado. Tambm, talvez, os oficiais superiores de carreira 
tivessem querido descarregar as suas prprias culpas sobre o seu infeliz subalterno, o tenente Calley. O 
general Westmoreland, que era, na altura, comandante-chefe americano no Vietname, defendeu-se 
irritadamente de toda e qualquer atribuio de culpa e de comparaes com o general japons Yamashita, 
executado aps a Segunda Guerra Mundial e que fora considerado responsvel por todos os actos do 
exrcito sob as suas ordens, mesmo que as ignorasse e no as (tivesse podido impedir. As mais altas 
entidades do exrcito criticaram a interveno do

AGRESSIVIDADE                             231

presidente, que tornara suprfluos e ridculos os penosos e fatigantes processos jurdicos e trouxera a 
liberdade a Calley.
O exrcito apressou-se a declarar que Calley,niesmo sem a interveno do presidente, nunca fora mantido 
sob deteno. at recurso  sentena. Por outro lado, ignora-se o que acontecer doravante s centenas 
de soldados que-no por -massacre mas por embriaguez, faltas ao servio ou roubo-tm de esperar meses 
seguidos na priso a deciso ao seu apelo. O exrcito ignora porque se viu obrigado, contra sua vontade, a 
instaurar um processo criminal contra Calley e tambm o motivo pelo qual, seguidamente, foi humilhado, 
insultado, desprezado pela populao, desautorizado e ridicularizado pelo seu chefe supremo, 
simplesmente por ter cumprido o seu dever ao seguir as ordens do presidente e ao obedecer ao desejo da 
opinio pblica. Em que reside a honra do exrcito? Na dissimulao incondicional dos actos de todo o 
indivduo que usa um uniforme, que age, cre agir ou declara agir ao servio (estando includo o massacre 
premeditado de civis e prisioneiros indefesos), ou na afirmao do princpio geral, que autoriza e incita 
mesmo  violn@cia na guerra, se bem que dentro de determinados limites?

O corajoso advogado geral militar Aubry Daniel III, descendente de uma famlia aristocrtica do Sul, 
escreveu ao, presidente dos Estados Unidos uma carta, respeitosa mas firme, tendo enviado uma cpia a 
seis senadores pertencentes aos partidos republicano edemocrtico. Nela acusa a interveno, sem 
precedentes, do presidente no processo em curso. Aos olhos do advogado geral, o apoio que a opinio 
pblica e o presidente conferem a Calley  revoltante, dado, que nenhum pe em dvida a culpabilidade 
de Calley e , portanto, exigido um veredicto de no culpabilidade. Esta 1.egiti.^rnao de Calley no era 
compatvel com a pretenso dos Estados Unidos a serem uma nao civilizada. Daniei qualificou My Lay 
como uma data -trgica na histria da nao. Para ele, o aspecto datragdia reside no facto de que 
consideraes de ordem poatica vieram comproimeter princpios ticos to fundamentais como a implci-ta 
ilegalidade do assassnio de inocentes. Quanto s declaraes do presidente americano, poderiam reunir-
se num grito: (Tora o rbitro!
O vice-presidente, Spiro Agnew comparou My Lay, e todo o processo jurdico, a uma competio 
desportiva e aos comentri-os trocados, em seguida,  volta de uma garrafa. Nessa altura 

232                    AGRESSIVIDADE

fcil, mas bastante in2justo, o que se possa dizer relativamente ao que fizer----- - - , - g ores. Ora o exrcito, 
ao condenar o tenente Calley, aderira  estrita aplicao das normas de guerra que ele mesmo fixara. O 
presidente e a maioria da oF!inio pIblica acusaram-no, a partir de ento, de agredir e martirizar o violador 
das regras que agira em legtima defesa e ao servio de uma causa justa. Os testemunhos, provas e 
confisses n o impediram que este esquema superficial se sobrepus-esse  verdade.

O exrcito pouco se preocupa, na generalidade, com a auto- ,crtica. Dado que a sua -misso  a luta, a 
justia. no constitui a sua maior preocupao. Neste ponto de vista o vice-presidente tinha, 
indubtavelmente, raz o.  difcil pedir ao exrcito que sirva de xbitro  sua prpria -causa. Cabe-lhe 
formar os civis dentro de uma obedincia e execuo das aces de combate que lhe esto implcitas e, 
evidenteniente, tambm lhe compete a utilizao da violncia. Todo o exrcito luta pela civilizao com a 
ajuda de meios por vezes brbaros, sem o confessar abertamente, e at mesmo dissimulando o facto. Desde 
sempre que os -exrcitos cometeram crueldades, mas s as do adversrio so cmunicadas ao pblico. 
Dado que o exrcito, como o establishment, fora decretado como inimigo annimo de @todo o sentimento 
humano, cabia-lhe prescrever uma estratgia de violncias contra a pop@lao civil e encobrir, por 
esprito de camaradagem, ocasionais transgresses s regras estabelecidas ou a simples e estrita aplcao -
das prescries; era seu dever impedir que tais processos fossem divulgados. Que outra coisa se poderia 
esperar? Porqu a imposio ao exrcitode julgar o caso Calley?

Actualmente, a nao americana demonstra uma surpreendente unanimidade de recusa em relao ao 
veredicto que condena Calley, mas no consegue deglutir o problema da sua responsabilidade. Para no 
sufocar, -necessita de substituir esta ou aquela imagem de pinal.

Aos olhos dos que se consideram cem por cento patriotas, Calley  um heri e um mrtir, um corajoso 
combatente que arriscou a sua vidapara preservar a da nao; foi escolhido para porta-bandeira por uma 
camarilha de oficiais ambiciosos. Na guerra tudo  permitido, dizem eles; no ardor do combate no pode 
nem deve existir um regulamento pormenorizado; tanto a nossa boa causa como a causa negativa do 
adversrio desculpam, de antemo, toda e qualquer forma de comportamento. Ningum deveria dar-se ao 
luxo de criticar a aco de conibaten-

AGRESSIVIDADE                           233

tes traumatizados pela morte de um camarada. Deixar a cada indivduo a liberdade de decidir se deve ou 
n o obedecer s ordens significa o mesmo que matar o exrcito. Todos os soldados cometem, sem 
hesitao nem arrependimento, actos semelhantes aos de Calley ou ainda piores. Se o tenente  culpado, 
todos os combatentes, desde a mais nfima das patentes ao comandante-chefe, o so igualmente, o mesmo se 
aplicando aos detentores de poder civis, quer dizer: o povo americano, que -to energicamente se decidiu 
a defender e apoiar Calley.

Aos olhos dos -pacifistas liberais, Calley no passa de um sintoma e de um smbolo. O seu caso  apenas 
uma prova retumbante dos homens de guerra e, sobretudo, desta guerra infernal do Viemame, -dirigida 
contra uma populao civil praticamente indefesa. Por razes directamente inversas, os opositores da 
guerra concordam com os patriotas ao declarar que os massacres de My Lay no constituem actos isolados 
de oficiais criminosos e loucos, mas factos vulgares na guerra.  tambm aos dirigentes,  autoridade 
suprema, que cabe pronunciar-se sobre o assunto. Nem Calley neinqualquer outro subalterno so 
culpados. A culpabilidade deve atribuir-se a todos os que ordenam, perpetuam e toleram o derramamento 
de sangue.  assim que uns acusam os que fazem a guerra e a condenam, enquanto outros condenam os 
que acusam a guerra: s se demonstram solidrios na compaixo que revelam por este massacre.

A verdade  qu@e os factos existem e enquanto no forem reduzido-, ao esquecimento, ou transformados 
em esquemas siniplistas, os dois partidos vo ver-se em srias dificuidades para conciliar, de forma 
convincente, os seus pontos de vista com a lgica e a moral, se  que, alis, se preocupam com isso. Eles 
pouco ligam  verdade objectiva e s lhes inipGrta o triunfo de uma causa que consideram 
indiscutivelmente justa e verdadeira: a sua. Pareceter-se esquecido bem depressa que Calley no teve de 
responder pelos seus actos ante hippies cabeludos. Existe urna :propaganda desenfreada que agracia o 
jri de Caliley com ofensas geralmente -reservadas a essa categoria de pessoas. Os que tiraram concluses 
sobre o assassnio prem-editado nem sequer eram simples cidados e juzes vulgares, mas seis 
experimentados oficiais de carreira, de entre os quais cinco tinham combatido no Viettiame -e a recebido 
ferimentos de gravidade. S o sexto oficial, o coronel a quem cabia a presidncia do jri, no possua a 
experincia da guerra do Vietname, mas era um comba-

234                   AGRESSIVIDADE

tente da Segunda Guerra Mundial e regressara da CoTeia coberto de condecoraes. Ainda que, no 
decurso do processo, a defesa no tivesse continuamente invocado as ordens recebidas e a legti,ma 
defesa frente a uma populao civil hostil, bem como a ,psicologia de uma guerra como aquela, estes 
experimentados juizes militares no podiam ignorar que Calley estivera no Vietname, no por sua deciso 
voluntria, mas por obedincia a ordens, e que era detentor do uniforme americano. Calley no foi 
acusado nem condenado por ter cumprido o seu dever, mas por ter transgredido e violado: no caso de 
Calley no estava em causa uma acusao de ter faltado ao dever, proclamado como princpio solene 
quando do processo de Nuremberga, que s-e refere ao dever individual de revolta -contra uma ordem 
desumana. Calley foi cons.ide@ad? culpado por ter abatido sem ter recebido ordens, por iniciativa pessoal 
e sem necessidade militar, vinte e dois civis desarmados, quer por suas prprias mos querpor 
intermdiodos seus subalternos, agindo por sua expressa ordem. Um tal coniportamento  h muitotempo 
estritamente proibido segundo as regras internacionais de guerra. j o era muito antes do processo de 
Nuremberga. Calley violou princpios universais, ele -mesmo o confessou, e ainda que lhe sejam 
concedidas atenuantes, s uma designao se lhe adequa: a de criminoso.

 indubitvel que os motivos que habitualmente condicionam os assassinos no so suficientes para 
explicar as suas atitudes. No agiu por perverso pessoal, a menos que se catalogue como perversa a 
autorizao do direito colectivo de matar em tempo de guerra para derramamento de sangue sem respeito 
por quaisquer regras. O exrcito elevara-o  posio de poder ani- quilar todo o ser humano que no 
usasse o mesmo uniforme que ele e de no se preocupar com as conse-quncias da opinio pblica, que, 
durante anos seguidos, nunca levantou a questo de se no Viemame se abatiam no s soldados mas 
tambm civis. Tinham-lhe, todavia, inculcado regras selectivas em relao aos homens a abater e foram 
estas mesmas regras que ele visivelmente infringira; se tivesse morto um camarada ou um superior, no se 
iria desculpar -com o pretexto de que a guerra era uma escola de brutalidade e de -desprezo pela vida 
humana.

 certo que -ele no foi total nem plenamente responsvel pelos seus actos e, -principalmente, no foi o 
nico responsvel; outros que no foram acusados >tambm so culpados e partilham

A G R E S S I V I D A D E                235

a sua responsabilidade sem que, todavia, o declarem inocente por esse motivo.

O caso Calley tornou-se um dos grandes processos criminais, como, por -exemplo,, ode Manson. Os dois 
veredictos foram a-ci-denta,lmente pro,nunciados no mesmo dia e acusa-se a imaginao deformada e 
pretensamente antiamericana dos jornalistas americanos de terem ligado os dois julgamentos. As analogias 
no se limitam, porm, s aparncias, podendo citar-se, entre outros, a estatura extraordinariamente 
pequena dos dois acusados. Manson e Calley eram, em todos os aspectos, pequenas personagens 
consideradas pouco dotadas e que passaram despercebidas no meio a que pertenciam, at que as suas 
ignomnias chamaram a ateno da opinio pblica mundial. Os dois reclamaram para si o papel de 
demiurgos e arrogaram-se o direito de vida ou de morte sobre outrem entregando-se a carnificinas. Aps 
vrios meses de processos, os dois foram declarados culpados de massacres, mas as suas motivaes e 
aces eram completamente diferentes (Manson nunca particip@u na execuo dos assassnios). O 
presidente americano interveio nos dois processos num sentido diametralmente oposto, mas numa base 
igual. A raiva popular desencadeia-se contra os actos de Manson como contra a condenao de Calley. A 
mesma raiva -popular que nunca pde tolerar outro veredicto que no fosse a pena capital para o processo 
Manson exige a libertao de Calley (que se dispe a publicar as suas memrias por algunias centenas de 
milhares de dlares). O presidente dos Estados Unidos no agiu, de forma alguma, -com propsitos de 
ordem -poltica ao aceder  ,opin.io popular. Pode-se dizer que agiu sincera-mente e obedecendo ao que 
lhe ditava a conscincia. O presidente s conhecia a separao de bem emaltal como apresentados num 
bom filme. Devia, portanto, declaraT Manson culpado, antesmesmo que os juzes decidissem. Foram os 
mesmos esquemas dos filmes do Oeste que o levaram a acudir em auxlio de Calley, o xerife, o bravo 
soldado que o seu uniforme americano designava como o carapeo da boa causa, da causa justa, da 
(mossa causa. Era preciso livr-lo, a partir do momento em que o jri o considerou culpado.

Todos os anos se realiza a distribuio do Oscar de ouro para o melhor actor, a melhor encenaco, etc. Em 
Abril de 1971  ga-lard.oado um filme de guerra >com oito primeiros prmios.
O heri era Patton, o general da Segunda Guerra Mundial, bem

236                   AGRESSIVIDADE

conhecido pela sua dureza e brutalidade, que mata publicament,e um soldado que desobedece s suas 
ordens. Numa cena memorvel do filme, Patton grita, Por entre o rudo das bombas, das exploses e de 
horrveis destruies: Que Deus me ajude; gosto deste espectculob)

No decurso do processo Manson, Susan Atkins, um dos membros da famlia, inicialmente testemunha 
principal e, mais tarde, co-r do mesmo processo, foi acusada pelo procurador-geral -devido  irnica 
indiferena que manifestou para com as sete vtimas do massacre, o que revelou a sua insensibilidade 
moral. Ela retorquiu que ele prprio e a sociedade americana pouco se preocupavam com o milho de 
vtimas vietriamitas.
O facto no fazia, no entanto, parte do processo de Manson nem do de Calley. Susan foi severamente 
repreendida e, depois, levada para fora da sala. Os mortos de guerra no so mortos civis e os -mortos de 
cor n o so mortos brancos. S os parentes e, sobretudo, as mulheres nada compreendem dessa 
distin@o, da mesma forma que pouco se preocupam em saber o motivo por que amam os que so 
massacrados; a nica coisa que lhes interessa  que se mata e que -no se pra de matar.

Para os patriotas e fanticos, pelo contrrio, sobretudo quando usam uniforme e desfilam em para-das, tudo 
 diferente, excepto as motivaes em relao s quais se sentem plenamente convencidos. No amam a 
violncia em si, -mas s porque atravs dela esperam conseguir a vitria, o aniquilamento -to-tal do 
adversrio e, simultaneamente, a supresso do mal universal, a afirmao dos seus propsitos morais e a sua 
afirmao pelo sucesso que os dispensa de toda a autocrtica e acarretar, naturalmente, outros sucessos. 
S uma propaganda inimiga, pensam eles, denuncia os bravos americanos, que se tornariam, de sbito, os 
responsveis por todos os horrores, ao passo que eles mesmos sabem que so pessoas dignas e bons 
cidados, respeitadores da ptria e da honra, preocupados com a proteco das mes e dos filhos, mas 
obrigados, -por isso mesmo, a matar cega-mente as mes e os filhos dos outros.

Os Americanos, como todos os outros povos, desejam acima de tudo a proclamao de legitimao muito 
mais que da violncia- S a violncia  a consequncia necessria e previsvel de legitimao anterior ou 
simultnea de todos os meios em nome da -defesa de bens supremos e ao servio de objectivos superiores 
que tudo santificam.

AGRESSIVIDADE                              237

 mais temido o reconhecimento da derrota militar de, que a prpria derrota em si. Perder  desagradvel, 
mas -mais desagradvel , ainda, analisar as causas do fracasso e a questo de se o empreendimento era 
legtimo, se as autoridades que o planificaram eram legtimas e se os responsveis tambm se 
encontravam,na posse de uma legitimidade. No so os desejos blicos da nao nem motivos de ordem 
econmica os obstculos ao regresso imediato dos americanos do Vietname; o verdadeiro impedimento 
reside no -me-do das consequncias que poderia ter uma brusca reviso dos conceitos morais americanos, 
estabelecidos segundo os hbitos de ordem econmica, ideolgica e cultural. No iestamos interessados 
numa imagem imponente aos olhos -do mundo, mas nos nossos sentimentos, na nossa identidade pessoal, 
nos nossos mtodos -de -legitimidade, que dentro de uma simplificao imaginam sempre a razo do lado 
do vencedor, exigindo, portanto, uma vitria para vincar bem essa razo. No longnquo Victriaine, os 
americanos no combatem, no matam nem morrem para ganhar terreno, para aniquilar inimigos ou 
conquistar a glria, mas para preservarem a sua imagem no mundo e a legitimidade aos seus prprios olhos.
O tenente Calley aparece como um bravo e obediente guerreiro. Portanto, todos lhe manifestam o seu 
sentimento de solidarieda-de. Ele torna-se o smbolo da unidade nacional. Esta unidade procura e encontra, 
alis, bodes expiatrios num sentido diame- ,tral-mente -oposto e sabe-se de acordo com esta polarizao 
mental.

A simplificao e violncia internacionaisprosseguem, assim, como tantas vezes no passado, a quimera de 
uma precria unio nacional; falta-lhe, talvez, a ocasio de discutir as causas nacionais e internacionais dos 
conflitos, a fim de evitar outros conflitos futuros. Em troca do insignificante !prato de lentilhas da nossa 
legitimao, no nos preocupamos com o direito da nossa autode terminao, que assenta na autocrtica. 
Recusamo-nos a lutar pela emancipao. Falamos de fatalidade em lugar de atribuir culpas  nossa 
presuno.

Poucos dias aps o julgamento de Calley, o presidente Nixon expressou num discurso, televisionado a sua 
convico inabalvel de que os Americanos s lutam por objectivos idealistas. Uma vez mais, prometeu  
na o acabar com a guerra do Vietna,me -de acordo com o programa previsto. Seguidamente, contou um 
episdio comovedor ocorrido na atribuio de uma medalha pstuma. Quando, a viva de um heri do 
Vietriame, morto no

238                  AGRESSIVIDADE

campo de batalha, recebeu a condecorao do valente militar, o filho deste, uma criana de quatro anos, 
fizera a continncia militar. Eis o que comoveu opresidente e a nao, para quem a continncia militar  
algo de intocvel. O facto nada tem de exclusivamente militar, pois que nos pases condicionados pela 
brutaldade-tdos o so-saudar constantemente algum ou alguma coisa  uma ocupao essencial dos 
habitantes, que primero foi imposta, para depois adquirir feio de regularidade. Pelo gesto de submisso 
que a saudao militar representa, o oprimido vai at ao -ponto de mostrar a sua solidariedade para com os 
opressores, sentndo-se habilitado, por sua vez, a oprimir outros em nome dele. Sente uma mistura 
caracterstica de brutalidade e emoo que afasta todo o sentimento de culpabilidade ou responsabilidade 
individuais.

O que depois aconteceu ao tenente Calley pouco importa agora. Foi em v(> que se tentou transformar a 
personagem,  maneira dos filmes simplistas -e segundo as escalas morais e tra~ dicionais, mas ela no se 
coaduna ao papel. Teria sido necessrio um heri transbordante de virilidade, inas a sua figura  
demasiad,o insignificante.

O debate continua, apesar de tudo ficar em aberto e a resolu,o imbuda de incertezas. Como 
compreender e aceitar a maior nao democrtica do mundo de um ponto de vista psicolgico e moral? Os 
defensores de Calley tinham afirmado que fora a guerra a causadora da transformao do tenente num 
robot hierrquico, executor de ordens desumanas que no tinham sido dadas expressamente, mas que 
podiam ser logicamente deduzidas da estratgia da guerra. Ele apenas se limitara a executar,  queima-
roupa e servindo-se de uma pistola-metralha-dora, o que, por mtodos permitidos e oficiais e de forma 
consciente e sistemtica, constitua o objectivo dos bombardeamentos quotidianos da artilharia e da aviao, 
ou seja, o aniquilamento da populao civil, virtual e concretamente hostil. No podia ser fei,ta qualquer 
comparao com base noutras guerras entre povos cujos -meios de defesa se equiparavam. Nesta guerra 
civil do Vietname opunham-se, por um lado, a nao mais industrializada do mundo, com todos os meios 
motorizados e qumicos de aniquilamento, e, por outro lado, a selva e os seus habitantes. Por uma tctica 
adversa  da guerrilha, que, segundo a frmula de Mo, est para os indgenas na mesma ambientao de 
que o peixe na gua, seria necessrio exterminar este oceano de

- --

AGRESSIVIDADE                               239

populao indgena. As opinies polticas e militares concordavam neste ponto: o objectivo militar a atingir 
reside na populao civil. O reconhecimento de que o inimigo tem de perder o apoiopopulan) mediante 
infindos bombardeamentos de vastas zonas, incluindo todas as aldeias, alvas civis e hospitais,  a frmula 
citada por um dos generais mais categorizados e nunca ningum a contestou.

O tribunal militar ter sido injusto para com Calley, que, dentro de uma violncia ilimitadaperfeitamente 
aceite, praticou uma carnificina de civis indefesos, uma vez que a ocasio se oferecia e at mesmo se 
impunha? A confisso de Calley, ao declarar que antes de ser considerado culpado pensava que o 
massacre de My Lay fora uma coisa sem grande importncia (no big deal), seria assim to horrivelmente 
incompreensvel e to incompreensivelmente horrvel, quando desde h anos os boletins oficiais 
enumeravam, quotidianamente e com orgulho, os inimigos abatidos sem diferenciar civis ou militares?

Quem obrigou a chefia do exrcito, envergonhada com os insucessos@ desacreditada e traumatizada pela 
realidade dos factos que contradiziam as suas profecias optimistas, a anunciar vitrias estupidamente 
exageradas, a fim de compensar as suas verdadeiras decepes? Numa democracia em que os 
representantes do povo so livremente escolhidos, e podem ser livreinente demitidos, tambm a 
responsabilidade da opinio pblica  muito maior do que sob uma ditadura em que os detentores do poder 
dispensam a aprovao daqueles em nome dos quais agem. Os delegados do povo escolhidos 
democraticamente reivindicam, assim, uma imunidade que recusaram aos chefes alemes e japoneses em 
Nuremberga. Mas se nem os governantes, o exrcito, e a populao que protesta contra uma guerra que a 
irrita e no deseja so os responsveis, a quem atribuir ento responsabilidades? Quais as culpas que 
cabem ao establishment? O seu erro reside em ter determinado e tolerado a guerra ou em no ter 
conseguido uma vitria rpida? Ou em ter induzido o povo a aceitar o combate nesse longnquo Sudeste 
Asitico como uma operao indispensvel de defesa nacional, prodigalizando-lhe apenas informaes 
parciais da verdade dos acontecimentos? Ou o seu erro reside na sua prpria existncia, dado que o 
establishment prepara a guerra, que ocasiona actos blicos e policiais mais perigosos do que -todos, porque 
se baseiam no crime? Pode-se citar, como testemunho de defesa, que existem outros

240                   AGRESSIVIDADE

sistemas, contemporaneos ou anteriores, que actuam de forma no menos cruel, impiedosa, brutal e 
hipcrita. Devemos concluir que, mais cedoou mais tarde, todas as organizaes governamentais exigem 
guerras e massacres, camuflados durante mais ou menos tempo mas admi@tidos? O que h a condenar e a 
reformar? Trata-se da tctica oficial da mentira e da hipocrisia, que acaba por desacreditar no s 
determinado governo, mas todos os governos afinal? Ou ser antes a mentalidade de um povo intoxicado 
que pretende ver os seus preconceitos confirmados pelos representantes que elege e no protesta contra 
os actos imorais a no ser quando estes no lhes acarretam o rpido sucesso que esperavam? Para analisar 
estas questes extremamente complexas, tornam-se necessrios mtodos novos:  preciso examinar os 
factos de um ponto de vista social e revolucionrio,  preciso debater agressivamente, mas no 
violentamente, em lugar de tudo basear na justia que condena  priso ou  morte de acordo com as leis 
vigentes.

As nossas democracias ocidentais encontrar-se-iam numa posio difcil, seno fatal, se no tivessem uma 
desculpa melhor a apresentar do que a sua relativa superioridade moral sobre o regime total i trio nazi. 
No, basta focar os erros de um indivduo tomado isoladamente, erros fceis de determinar atravs de um 
,processo jurdico, dado a sua limitao a actos isolados. Esse facto no absolve a sociedade pelo seu crime 
de cumplicidade nem absolve, de modo algum, o culpado. No h nenhuma sala de tribunal em que o 
banco dos rus seja suficien temente grande para conter todos os culpados.  demasiado pedir  justia, e 
esperar damesma, uma deciso quanto a problemas que dizem respeito a toda a sociedade.  certo que 
todo o processo jurdico serve para determinar, oficialmente, a extenso, da falta e do castigo & acusado, 
mas serve, tambm, sem que tal se confesse, para ilibar os que no, podem ser acusados mas que 
contribuem para o crime pela sua indiferena, insensibilidade, provocaes, incitamentos ou uma discreta 
aprovao.

Ao longo da histria moderna, nunca uma nao blica, em plena guerra, empregou a justia ou condenou 
por crimes de guerra-termo at aqui exclusivamente reservado s atitudes do inimigo-os seus -prprios 
oficiais e combatentes.  nesse ponto que reside o mrito incontestvel do duro acontecimento chamado 
processo Calley. Desmascarou e estigmatizou as tendncias dissimuladas e inconscientes da nao 
relativamente a

AGRESSIVIDADE                               241

uma afirmao de direitos mesmo pelo preo de uma carnificina.
O facto de este processo ter sido possvel, apesar de todas as resistncias, o facto de se ter verificado, o 
facto de a nao americana achar que no s podia mas devia imp-lo, constitui uma esperana de que as 
obscuras foras de adorao da violncia, protegidas por pretenses morais adoptadas sem discusso, 
talvez no acabem por triunfar.

VIOLNCIA COLECTIVA

justificao em cadeia
O

choque de Auschwitz abalou o inundo inteiro. Um povo de elevada cultura e civilizao massacra seres 
humanos de -modo frioe cruel, utilizando-se de todos os modernos mtodGs da tcnica -e da organizao. 
E tudo isto em pleno corao da Europa e sem que os milhares de homens, desde o@ mais baixos aos mais 
elevados lugares hierrquicos, que dirigiam esta operao de extermnio, as dezenas de milhares de 
homens que a executaram e as centenas de milhares que dela, decerto, tiveram conhecimento 
abandonassem uma posio de impassibilidade. As explicaes dadas so j bem conhecidas.
O povo alemo, sob influncia satnica de um hipnotizador kntico, teria sido acometido de megalomania; a 
omnipotncia do sistema totalitrio e terrorista teria, de antemo, destrudo -toda a validade da resistncia, o 
que determinara, como nico recurso po@svel, a ignorncia -dos terrveis acontecimentos, contra os quais 
o povo era impotente.

S se conseguiu camuflar o massacre de milhes de seres humanos, um massacre programado e 
burocraticamente organizado, com uma tal preciso que ultrapassou todas as fronteiras da imaginao, 
porque cleera literalmente inacreditvel. Os indivduos que se acharam inocentes apresentaram diversos 
pretextos: a declarao de obedincia ou de ignorncia, o dever patritico ou absoluto, constrangimento. 
Uns pensavam: O Fhrer sabe, com certeza, o que est a fazer. Enquanto outros: Se o Fhrer 
soubesse! Quando a guerra acabou, poucos foram os alemes que se acusaram de ter participado no 
genoc.dio. Os que foram acusados de participao disseram no ver diferenas essenciais entre o campo 
de concentrao ou qualquer outro campo de

244                  AGRESS1VIDAbE

batalha. No sabiam o que faziam. Os que o sabiam pensavam que todos estavam ao corrente dos factos e 
que a execuo das ordens recebidas estava de acordo com os desejos da nao. O pequeno nrnero de 
honiens que tinha c<),ns,cincia de todo o hor-ror que praticava viu nesta orgia de violncia, 
minuciosarnerite orga,nizada, um ato de legtima defesa da ptria,

Houve esseriialmente um culpado pelo acto mais vergonhoso de todos os tempos: o Fhrer e os cmplices 
que o rodeavam, ou seja, os que consentiram e aprovaram o seu procedimento e, portanto, os Alemes e, 
com eles, os Ingleses, Franceses, Russos, Americanos. Numa palavra, todos os que se colocaram ao lado do 
Fhrer em lugar de o combater. Tambm se aventa uma hptese de culpabilidade do esprito alemo, 
dosmtodos de educao e de discplina alemes e dos prprios Alemes, cujo porte e desenvolvimento 
eram admirados por todo o mundo. Se todos, @

Ols, so responsveis, ningum o . A vida contnua, no apesar e Auschwitz mas com Auschwitz.

Os principios nacionais de direito que decorreram dos processos de criminosos de guerraperderam 
crdito. Os vencedores, que os determinaram, no os respeitam. Mesmo as importantes firmas industriais 
que aceitaram e apoiarani a poltica hitle- rana participam agora, impunemente, na competo 
internacifflal no sentido da paz.

Escreveram-se poemas, pintaram-se quadros e encenaram-se peas de teatro depois de Auschwitz e a 
prop sito de Auschwitz. Este acontecimento hstrco, sem precedentes, foi espiritualmente absorvido pela 
opinio pblica e fez escola.  Os nacionais-socialistas foram vencidos, mas os seus mtodos so imitados em 
todo o lado. Os campos de concentrao, as lavagens de crebro, as torturas nfligidas aos prisioneiros e o 
terrorismo autoritrio fazem parte do dia-a-dia, do mesmo irodo que as consequncias e a cotitinuidade das 
pretens es racistas, se bem que h muito Se tt'nha provado a sua ausnciade fundamento e o seu carcter 
mitico.

O choque de Hiroxima abalou verdadeiramente o inundo muito depois de se -ter verificado. Na qualidade 
de chefe supremo de todas as tropas americanas, o presidente dos Estados Unidos decidira, com pleno 
conhecimento das consequncas previstas, o bombardeamento atmico de Hiroxima -e o de Nagasqui, 
trs dias -depois. O medo de sofrer outro hombardeamento do mesmo gnero bastou para levar o Japo. a 
capitular, sem condies,

AGRESSIVIDADE                           245

dado que os Estados Unidos possuam, nessa altura, omonoplo da bomba atmica. O entusiasmo dos 
vencedores abafou escrpulos e remorsos. O preo do triunfo foi esquecido. O tempo decorreu aps uma 
guerra encarniada, em que a imagem do prfido -e criminoso inimigo japons, para quem nenhum meio 
constitua obstculo, estava to solidamente arreigada  mente americana que o emprego de todos os meios, 
e de prefer ncia os mais cruis, com vista  aniquilao dos (Japos, esses sub-homens, pareciam-lhe 
justos, para rpida obteno de uma vitria definitiva.

S mais tarde se tomou conscincia de um facto que era, no entanto, evidente: a bomba atrnca no , 
simplesmente, uma bomba mais potente e de uma maior eficcia. A sua natureza  outra. A diferena 
quantitativa entre as armas atmicas e os ins,trumentos blicos convencionais  to vincada que equivale a 
uma mudana de qualidade. A utilizao potencial e efectiva da energia atmica marcou o comeo de uma 
nova era. Este acontecimento, de importncia decisiva na histria da humanidade, tambm correspondeu a 
uma perfeita integrao espiritual, A indignao sentida ante o emprego, da bomba atmica, cuja 
responsabilidade nocaba verdadeiramente a ningum, ou melhor, era de todo o mundo, e que era 
legitimada por um ,objectivo superior, conduziu ao desenvolvimento e multiplicao desta bomba atmica.

O horror suscitado pela instituio de campos de concentTao e pelo emprego da destruio atmica 
ocasionou, por outro lado, a indignao e a irritao. Os smbolos de desumanidade tornaram-se urna 
possesso invejada e uramtodo da autoridade que fez escola.

As grandes potncias no recuaram ante qualquer despesa na corrida para os armamentos atmicos. A 
segurana e o prestgo da nao dependiam do poder e extenso do seu arsenal atmico. Os alia-dos da 
Segunda Guerra Mundial tinham atingido plenamente os seus objectivos polticos e militares. O inimigo 
estava esmagado, mas deixava um vazio: a necessidade de se ter um inimigo via-se agora insatisfeita. Os 
aliados de h pouco, e uma vez que se pusera fim ao estado de guerra, uniram-se nu-ma recproca e 
declarada hostilidade; cada um projecta a sua prpria agresso, que continua a colorir agradavelmente, a 
idealizar e a negar. Cada um representa para o outro

246                   AGRESSIVIDADE o perigo externo, que constitui o cimento necessrio para consolidar a sua 
coeso interna. O equilbrio instvel da guerra fria tornou-se o nosso padro de vida habitual, mas exige a 
permanente ameaa da destruio total por um adversrio, destruio que implica a simultnea destruio 
deste adversrio. Os pequenos poderes invejam os grandes, que possuem um potencial enorme de 
destruio, desejam ser admitidos ri<) clube atmico, que tem um carcter de exclusividade demasiada, e a 
admisso 6lhes recusada por meio de argumentos apresentados pelos possui-dores frente aos que no 
possuem. A vida continua com a bomba atmica e Tio apesar da bomba atmica.

A juventude do ps-guerra j -no queria ouvir falar de fanatismo. Parecia estar farta de uma vez para 
sempre; parecia-lhe estpido utilizar a violncia em nome de uma religio, de uma nao ou de unia causa. 
Os jovens queriam trabalhar, constituir famlia, viver em paz. Sern mim, era o lema de uma gerao 
cptica, ocupada em fazer frente s enormes necessidades do ps-guerra e a resolver problemas 
concretos e imediatos. A gerao dos pais, cri-ticou a apatia e a indiferena poltica dos joveris, a sua recusa 
de se envolver ou participar na aventura.

Anunciou-se o comeo da era ps-ideolgica. Pensava-se que as obrigaes concretas impostas pelos 
meios tcnicos e sistemas administrativos, adoptados por todos, fariam desaparecer progressivamente as 
divergncias ideolgicas e nacionais. A tecnologia era um grande factor de convergncia. A tcnica e a 
auto- matizao imporiamuma exigncia de ateno total e deserivolveriam constantemente o nvel de vida, 
reduzindo as tenses ainda existentes e levando as naes a concorrer pacificamente no sentido de uma 
preparao de vastos sistemas tendentes a um bem-estar colectivo.  certo que na periferia do pensamento 
e sensibilidade ocidentais se tinha conscincia de acontecimentos um pouco inquietantes, nus estes 
sintomas anunciadores de terripestades depressa caam no esquecimento ou era-lhes atribuda pouca 
importncia, quer tTatando-se das ameaas de uma China misteriosa, das guerras da libertao dos povos 
colonizados, dos violentos desencontros do Extremo Oriente, revoltas frequentes ou sbitos golpes de 
Estado das repblicas sul-americanas. Em to-dos os centros vitais do mundo ocidental, tanto na Europa 
corno na Amrica, reinavam a calma e a ordem, a paz e a razo, a aplicao e a prosperidade.

AGRESSIVIDADE           247

Na Irlanda do Norte, no comeo dos anos 70, as guerras religiosas entre catlicos e protestantes assumem 
feio de unia tal intensidade que as crianas irlandesa's constroem barricadas na escola. Nos Estados 
Unidos, as -revoltas dos negros so cada vez mais graves e, sob presso dos extremistas sanguinrios dos 
dois partidos, nota-se a ameaa premente de uma verdadeira guerra racial. Os estudantes intransigentes 
so a favor do emprego da violncia sem peias. Os casos de tortura, rapto de refns, assassnios e ameaas 
de assassnio multiplicam-se desde a Espa,nha ao Canad,  India, Uruguai, Brasil, Grcia, Uganda ou 
Paquisto. O secretrio-geral das Naes Unidas lamenta que nestes ltimos anos a percentagem de crimes 
tenha sofrido um aumento de 60 %. Declara que este (eproblema internacional s se pode resolver com a 
colaborao de todos. Os Estados, por mais poderosos que sejam, no se podem defender contra o desvio 
de avies, so obrigados a inclinar-se ante a chantagem de grupos muito pequenos e a abdicar frequentes 
vezes do princpio absoluto da sua soberania. As grandes cidades americanas so, campos de batalha. 
Todas as noites so postas em execuo centenas de ameaas. Fascinados pela violncia, os guerrilheiros 
citadinos atacam em todo o lado sem diferenciaes nem considerao por ningum. A populao 
americana mune-se de armas, j que a autoridade no lhe pode garantir urna proteco suficiente. As 
cidades assemelham-se a locais sitiados. A nica diferena reside no facto de os inimigos se enfrentarem 
dentro dos prpriosmuros da cidade.

A humanidade avana de surpresa em surpresa. Comea por se admirar, em seguida recolhe-se 
surpreendentemente depressa dessa admirao, renega e adopta simultaneamente o que a surpreendeu. A 
repetio da violncia a que hoje em dia assistimos talvez resulte da surpreendente aptido dos nossos 
sistemas relativamente a aceitar os choques sem dificuldade aparente. Os terroristas, os guerrilheiros e os 
revolucionrios, bem como os defensores de urna nova estrutura, possuem uma convico comum, apesar 
de todas as suas antinomias radicais: pensam que o sistema indesejvel (comunismo ou fascismo, democracia 
ou ditaduramilitar) no  susceptvel nem. desejoso de evoluo e que a agressividade autoritria da 
indstria, da polcia, das prises e dos exrcitos somente pode ser combatida pela violncia. O que

248                  AGRESSIVIDADE

no pode ser reformado deve ser destrudo. Afirma-se que  neste aspecto que reside a possibilidade 
criadora da destruio.

As enrgicas lies de Auschwitz e de Hiroxma constituram um bom ensinamento. Os pequenos grupos 
insignificantes e, at mesmo, os indivduos pretendem imitar os Estados soberanos. Estabelecem os seus 
prprios campos de concentrao e a poltica priva-da para os indesejveis ou inofensivos e utilizam os 
presos como meio de chantagem. As armas.de fcil aq@isio e o cocktail Moloto-v, que todos podem 
fabricar e constitui o poder explosivo dos pobres, transformam o grupomais miservel num perigo extremo, 
autrquico e consciente da sua fora como s o Estado o podia ser antigamente. Aprtica da violncia 
torna-se, assim, generalizada e unversalizada e  disposio de quem a queira utilizar. A legiti-mao da 
violncia torna-se, paralelamente, um produto de consumo da sociedade. Desencadeou-se uma verdadeira 
inflao da legitimao e as exploses, bem como as estratgias. da violncia, tornaram-se cada vez mais 
brutais. Dentrode uma base de semelhana e conformidade ao mesmo esquema, -todas se encontram 
igualmente e completamente justificadas.  nesse -ponto que reside o fenmeno universal e caracterstico 
da nossa poca: a violncia ilimitada, a sua justificao sem reservas manifestada por uma indiferena 
desumana e inabalvel pela vida dos outros e pela nossa.

As legitimaes -podem ser fabricadas em cadeia, de acordo com o grau de hipocrisia do detentor do 
poder; encontraro sempre clientes atentos. Outrora, eram propriedade exclusiva dos privilegiados e 
agora -tornaram-se bens de consumo dos que usurpam os privilgios. A legitimao no provm, como 
outrora, do passado, da razo ou da lei; pode surgir por um processo vulgar. Desde que se tornou 
corrente a acepo de que todas as legitimaes so vlidas desde que englohem. a aceitao do sacrifcio, 
nenhum grupo e nenhum indivduo  demasiadamente pequeno para recorrer, por sua vez e segundo as 
ocasies, a instrumentos de violncia, certos das boas intenes dos seus gestos.

Os justos e os injustos

A violncia  proibida como delito mas recomendada e aprovada como sano. A sano tem um 
significado duplo. Por um

AGRESSIVIDADE                              249

lado, resume-se  confirmao solene de uma lei e, por outro, constitui uma ameaa de punio e mtodo 
de constrangimento no caso de infrao  lei. A sano santifica e ameaa, autoriza e pune; legitima a 
agresso legal que lhe  inerente desde que esta agresso vise a agresso ilegal do delito. A autoridade 
que aplica a sano pode ser uma autoridade extralegal, no declarada, informal: o costume, o hbito, a 
indiferena.

Os pais recompensam com gestos de ternura o que desaprovam com palavras. Os superiores repreendem 
quando as suas ordens no so cumpridas. Se um espio  apanhado no cumprimento das funes de que 
foi incumbido, as -mesmas autoridades que lhe forneceram instrues recusam-lhe ajuda. As autoridades 
@que hoje se admiram de j,no serem cons.ideradas como tal apoiam. os crimes cometidos contra um 
opositor. A U. R. S. S. sente-se satisfeita com as revoltas do Ocidente, mesmo quando finge reprov-las. Ao 
Ocidente agrada-lhe imenso, a revolta dos satlites da Rssia. Os actos ilegais de brutalidade contra 
inimigos polticos ou suspeitos e, @p@r outro lado, as, violncias contra funcionrios inocentes e 
conscientes recebem, automaticamente, a aprovaao discreta ou explcita de vastos crculos da populao. 
Existe um tipo de delinquente muito vulgar: o subordinado que age, mesmo sem ordem expressa, levado 
pela certeza de que, em breve, os seus actos sero aprovados, secretamente admirados, e que -est 
plenamente convencido que cumpre uma misso que lhe foi adjudicada pelos superiores embora no tenha 
recebido ordens. Encontra-se ao servio de uma causa superior e, j que  necessrio, igualmente ao 
servio de uma meta que a si mesmo se prope atingir.

Para J@an-Paul Sartre a limitao e o contrle da violncia no constituem problema. Para ele, a 
legitimao da violncia obedece a um padro clssico. Para ele, toda a violncia ao servio de uma boa 
causa  autorizada, necessria, sagrada, urna vez que se trata de -outro ataque. Uma adeso a uma 
ideologia significa, evidentemente, o reconhecimento da realidade, masno de forma essencial ou decisiva. 
Todo o que a ela adere deve manter-se obstinadamente preso a uma viso dos acontecimentos dentro de 
uma determinada linha, uma vez que sacrificou, de antemo, a sua liberdade de percepo, de deciso e 
reconheceu um grupo superior com poder para legitimar os seus actos. A linha depensamento de Sartre 
afasta-se da do seu velho amigo Albert Camus, que, na sua pea Os justos, tinha apresentado o caso de

250                   AGRESSIVIDADE

conscincia da violncia em termos dramticos, recusando uma obrigatoriedade proveniente desta ou 
d,aquela convico.

Nestapea, os revolucionrios organizam a resistncia contra a violncia i@j*usta e opressiva do gro-
duque. Stepan, o violento revolucionrio, e Yanek, o poeta de tendncias humanitrias, so,membros da 
organiza o e acham que o uso da violncia  indicado e justificado. Dora  amante de Yanck.

Stepan -A organizao tinha ordenado que matasses o gro-duque.

Yan,ek- verdade, mas no me tinha dito que assassinasse crianas (os sobrinhos do gro-duque, que iam 
sentados a seu lado -na carruagem@ -e cuja presena impediu que Yanek lanasse a bomba).

Dora-Ya,nck tem razo. No tinham previsto isso. Stepan-O dever dele era obedecer. Dora (para Stepan)-
E,ras capaz, Stepan, de disparar,  queima-roupa, contra duas crianas?

Stepan-Era, se estivesse a cumprir ordens da-das pela organizao.

O homem condicionado a uma estrutura acha que a obedncia  total e incondicional. O indivduo abdica 
da sua liberdade de agresso -e coloca~se  disposio do grupo a que pertence. A sua fora agressiva 
ser, de bom ou de mau grado, posta ao servio de ordens vindas -de quem lhe  hierarquicamente 
suPerior. A organizao monopoliza o poder e o direito de legitimao: o indivduo deve saber obedecer.

Dora-Abre -os olhos e pensa que a organizao perderia todo o seu poder e influncia se, por um 
momento, apenas, tolerasse que as nossas bombas atingissem crianas.

A personagem relativamente objectiva de Dora contrape o argumento.de que a prpria organizao 
deve manter-se firme aos princpios que enuncia e que legitimam a sua aco, a fim de podermanter o seu 
crdito e, portanto, o seu poder.

Stepan-No me preocupo com essas ninharias. No dia em que -nos decidirmos a esquecer as crianas 
seremos donos do mundo e a revoluo triunfar.

AGRESSIVIDADE           251

O homem condicionado a um mecanismo considerar a atitude de Dora um sentimentalismo piegas. S a 
violncia, que no sofre o entrave de hesitaes ou consideraes de espcie alguma, pode transformar 
efic@zmente o real.

Dora-Nesse dia a revoluo ser odiada portoda a humanidade.

Stepan - Que importa, se a amamos o suf iciente para a impor a toda a humanidade e a salvar dela mesma e 
da sua escravatura?

Dora-E se a humanidade em peso rejeitar a revoluo? E se todo o povo por quem lutas recusar que os 
seus filhos sejam mortos, tambm deveremos ir contra o povo? ,

Stepan - Sim, se for preciso e at que ele o compreenda.

As pessoas talvez ainda no estejam suficientemente esclarecidas. Ainda no atingiram o grau de 
conscincia suficiente para conhecer e desejar a sua felicidade. Se a ignoram e a recusam . preciso -
obrig-las, pela fora, a atingir essa felicidade.

Annenko-Trata-se de decidir se deitaremos bombas que iro atingir as duas crianas.

Stepan -Crianas 1  essa a palavra que vos ocorre permanentemen,te. No compreendem ento? O facto 
de Yanek no ter morto as duas crianas far com que milhares de crianas russasmorram de fome durante 
anos a fio. j viram alguma vez crianas morrerem de fome? Eu j. E a morte provocada por uma bomba  
um paraso em comparao com isso. Para vocs  s o momento presente que conta? Ento escolham a 
caridade e limitem-se a solucionar o mal quotidiano e a renegar a revoluo que pretende resodver 
osniales presentes e futuros.

Dora - Yanck aceita matar o gro-duque, uma vez que a sua ,morte pode fazer com que as crianas russas 
no morram de fome. O acto no  fcil, mas a morte dos sobrinhos do gro-duque no imipedir nenhuma 
criana de.morrer de fome. At mesmo a destruio obedece a uma ordem e limites.

Esta teoria domal reduzido a nfima escala autoriza o assassnio de inocentes (crianas), se assim se evitar a 
morte de um maior nmero de inocentes que seriam vtimas da fome e da injustia. Recusar a crueldade 
para com alguns indivduos cor-

252                   AGRESSIVIDADE responde a aceitar a morte de numerosos inocentes que perecero porque o 
acto de libertao foi adiado para mais tarde.

Stepan-No existem limites. A verdade  que vocs no acredi-ta-m na revoluo. No acreditam. Se 
acreditassem verdadeiramente, se estivessem certos de que com os nossos sacrifcios e vitrias 
conseguiremos edificar uma Rssia isenta de despotismo, uma terrade liberdade que se acabar por alargar 
a todo o mundo, se no duvidassem de que, nessa altura, o homem liberto -de poderes e preconceitos 
erguer para o cu o rosto dos verdadeiros deuses, que importncia teria a morte de duas crianas? Vocs 
adquiririam todos os direitos, ouam bem, todos os -direitos. E se uma morte  suficiente para vos deter  
porque no tm uma certeza de direitos nem f na revoluo.

O porta-voz do humantarismo proclama a necessidade de -limites e de regras. O fantico, desejoso de agir, 
v na aco, quaisquer que sejam as consequncias, a prova e a confirmao de uma crena pura e 
desinteressada. Hesitar, duvidar, equilibraT, querer humanizar a aco, significa falta de convico.

Yanck-Envergonho-me de mim mesmo,, Stepan, e no permi,trei que continues a falar. Aceitei matar para 
destruir o despotismo. Por detrs das tuas. palavras leio, no entanto, o prenncio de um despotismo que, sc 
alguma vez se erguer, me tornar um assassino, quando quero ser apenas justo.

Dentro do poeta arde a chama do desejo de justia humana e inquieta-se ao ver tais actos de violncia e 
contraviolncia. ,S se acha no direito de usar a contraviolncia quando esta no se identificar com a 
violncia que combate.

Stepan-Qt@e importa que no sejas justo, quando at mesmo os assassinos fazem justia. Tu e eu nada 
somos!

Yanek-A justia  a vida dos homens. Stepan-Quando se lhes rouba o po, de que havam de viver seno 
de justia?

Yanek-De justi@a e de inocncia. Stepan - Inocncia? Sim, talvez saiba o que isso , mas escolhi ignor-la 
e fazer com que milhares de homens a ignorem,

AGRESSIVIDADE                           253

para que, um dia, ela venha a adquirir um significado mais elevado.

O indivduo  um nada dentro do todo que se chama organizao. A justia abstracta pode ser concretizada 
pela injustia concreta. O cnico defensor da fora troa do interlocutor: s o que no tem po nem fora 
considera a j@stia como nico alimento. Para se atingir um objectivo superior,teni-se o direito de matar ou 
de manipular informaes.

Yanek - preciso ter-se a certeza da chegada desse dia paTa negar tudo o que leva um homem a viver.

Stepan -Eu tenho essa certeza. Yanek - No a podes ter. Para saber qual de ns dois tem -razo talvez se 
torne necessrio o sacrifcio de trs geraes, vrias guerras e revolues terrveis. Quando esta chuva de 
sangue parar j h muito que tu e eu nos teremos transformado em p.

Stepan-Nessa altura viro outros que... Yanek - No  justo que v atingir os meus irmos por unia cidade 
longnqua em rel@o  qual no possuo certezas. No quero, aderir  injustia viva por uma justia morta. 
Vou falar-vos francaniente, irmos, e dizer pelo menos o que poderia ser dito ao mais simples dos nossos 
camponeses: matar crianas  contrrio  honra e se, enquanto eufor vivo, a revoluo vier a afastar-se da 
honra, desligay-me-ei...

Stepan-A honra  um luxo reservado aos que tm carruagens.

Yanck-No.  a ltima riqueza do pobre. Sabes isso perfeitamente e sabes, tambm, que a revoluo, s.e 
baseia na honra.

A moral no  um luxo, uma parte da superstTutuya, um preconceito ideolg-ico. O (poeta humanitrio est 
convencido de que a violncia, mesmo quando inevitvel e justificada, tem os seus limites. A honra e a 
justia sero reconhecidas e reinaro num mundo novo e melhor. Se a sociedade nova e melhor s se 
puder constituir atravs do menosprezo da honra e da 3ustia, no  digna de existir, porque seria uma -
mera repetio do que pretende abolir. Porque quem controlaT os controladoTes e legitimar os 
legitimadores?

254          AGRESSIVIDADE

Autordade, governo, poder, servo

_Quem aplica as sanes? Tudo o que  objecto de f e admirao pode aplicar sanes   (Merriam 
apelida este facto de crenda e miranda da doutrina poltica). De acordo com a teorade Hannali 
Arendt, a autoridade de uma pessoa, de uma instituio ou de uma coisa  funo da legtimao 
incontestada que lhe conferem os que lhe devem obedincia. Arendt declara, igualmente, que a 
autoridade (mo tem necessidade de c@oaco nem de persuaso; esta  urna afirmao menos real, 
dado que as autoridades no so nada avaras em matria de persuaso e Coaco. Afirma Plutarco: O 
simp@es aceno de cabea do homem que detm o -poder e se respeita tem mais fora do que mil 
argumentos que todos os outros possam apresentar. A autoridade  a posse antecipada, aceite e legtima 
do poder. Baseia-se na aceitao, identificao e submisso.

Estes factores podem, -no entanto, ser consequncias da coaco, propaganda ou violncia suportadas de 
antemo.

A autoridade poltica  um princpio inacessvel; Todeia-se de pompa e cerimonial e mantm todos os 
outros  distncia, a fini de se fazer cumprir.  uma feio importante e autntica dopodeT, se bem que no 
a nica. Quer adquirir autoridade ou exercer um poder eficaz sobre as autoridades e o poder no cede 
ao, simples facto de no estar autorizado. O exerccio do poder sem autorizao tenta primeiramente, e 
pelo contrrio, atribuir-se esta autorizao, transformando ou dando nova interpretao  frmula poltica. 
Mui,tos marxistas acreditam no que foi expresso por Laski: As estruturas polticas foram sempre msca-ras 
por detrs das quas se ocultava a autoridade conferida pela propriedade; quando as estruturas polticas 
ameaam os direitos de propriedade, a classe prepotente tenta sempre adapt-las s suas necessidades. 
Seja como for, todo o condicionamento de carcter social, e mesmo cientfico, das realidades engloba 
importantes interesses materiais e ideolgicos de indivduos ou grupos,

Bem diferentes so os governos que se servem do poder para exercer a fora, a autoridade, a coaco ou 
a violncia (neste Ponto estamos de acordo com Hannah Arendt: o emprego correcto destes termos no  
uma simples questo gramatical, mas de perspectiva histrica). No basta, porm, definir concreta-

AGRESSIVIDADE                            255

tamente formas de governo para saber quem governa quem e definir o grau de objectividade, razo, 
eficcia e @ injustia de um governo. Opoder  unia capacidade de determinar os resultados -desejados, 
uma capacidade de influenciar, num certo sentido, o comportamento dos outros ou de ,se unir a ele; 
pode apoiar-se na riqueza ou foras militares, na autoridade legal ou no contrle da opinio; pode utilizar, 
igualmente, a persuaso, a presso, a intimidao, a ameaa ou a violncia. O poder tem tendncia a 
expandir-se; procura aumentar e alargar-se at embater noutras esferas de poder. No h possibilidade de 
in@terligao entre as diversas formas de poder; estas so indep@ndentes. Todo o poder tenta apoderar-
se dos outros. Quem possui o poder tambm , por seu lado, possudo. Para Arendt, a monopolizao do 
poder tende para o aniquilamento ou enfraquecimento de todas as fontes de poder do -pas e depois, 
portanto, a uma perda do prprio poder. Afirania acaba por redundarnuma impotncia que permite, 
seguidamente, o -totalitarismo. O terror  uma continuidade c intensificao do enfraquecimento do poder 
pela atomizao, da sociedade.

O poder, da mesma forma que o dinheiro, circula no seio da sociedade; frente ao poder, o prestgio est na 
mesma proporo que ocrdito em relao ao dinheiro apronto. Os camies carregados de ouro que  
preciso fazer desfilar para convencer os credores inquietos a colocarem os seus haveres nos bancos 
podem comparar-se aos tanques que se mobilizam quando o poder governamental se encontra ameaado.

O poder tradicional apoia a sua legitimidade na estrutura antiga, na ordem de sempre. O chefe do poder 
patriarcal  obedecido porque a sua autoridade se encontra consagrada por tradio. A burocracia 
constitui a forma nuis pura do poder legal. No s.e obedece a esta ou quela pessoa, mas a regras 
estabelecidas que determinam a quem se deve obedincia e at que ponto. Obedece-se ao superior cujo 
poder se encontra condicionado por regras que definem, precisamente, o que lhe compete. No que se 
refere a rendimento de trabalho, a burocracia possui uma enorme vantagem sobre todos -os outros 
gneros de organizaes e delas difere da mesma forma que a indstria mecanizada difere do artesanato. 
A burocracia tem a cargo servios administrativos e especializados, com objectividade, de acordo com 
directrizes precisas sem consideraes individuais e de forma rpida, minuciosa

256                   AGRESSIVIDADE

e precisa. Os processos substituem as necessidades humanas.
O estilo burocrtico assentana diviso e fragmentao da funo da deciso e tambm na obedincia 
annima e impessoal  regra: da resulta um poder que no  o poder de ningum e faz desaparecer toda a 
responsabil idade individual atravs do sistema complexo e obscuro dos servios oficiais. Este processo 
desenvolve-se automaticamente. Libertos de todos os problemas de conscincia, -pelos superiores e 
regras estabelecidas, os administradores burocrticos transformam-se em mecanismos minsculos de uma 
mquina monstruosa e os administrados, desumanizados, tornam-se nmeros impessoais que se colocam nas 
mquinas.

A posse d  e qualidades extraordinrias e o carsma sobrenaturais que os adeptos atribuem ao seu chefe 
conferem-lhe um poder que rejeita e renega o poder tradicional e legal. O chefe que, deste modo, se 
encontra na posse de dotes especiais deixa de estar ligado a regras ou tradies. Para se legitimar basta 
que os seus discpulos o reconheam. Em comparao com a oTdem tradicional e legal o governo do 
Fhrer , por essncia, irracional. Tem por base uma estrutura puramente pessoal e especial e concepes 
no escritas. Tem como caracterstica dotar o chefe com um futuro herdeiro e definir as regras de admisso 
para os novos discpulos; a partir desse momento procura uma estruturao, de uma estabilidade durvel, 
atravs de mtodos de legitimao que ele combateu. O que no era quotidiano torna-s-e quotidiano e o 
que era irreal torna-se real. A agresso pessoal do chefe transforma-se em agresso annima das regras
9"e.firma e das leis que promulga; perde fora por sua prpria iniciativa ao querer tornar-se eterno.

Em 1970, no decurso de uma manifestao pacfica dos estudantes na Universidade do Estado de Kent 
(Ohio), a polcia naci-onal enfureceu-se, de sbito, e disparou contra a muftido, sem motivo aparente, 
tendo morto quatro estudantes. Seguiu-se um

inqurito e os polcias foram rapidamente postos em liberdade por uma comisso -do estado de Offio; os 
estudantes, que, a princ.pio, no -tinham sido declarados culpados, acabaram por sofrer tal acusao. O F. 
B. I. afirmou, no entanto, que os guardas tinham agido irreflectidamente e, por outro lado, combinado

AGRESSIVIDADE                               257

entre eles uma verso dos factos apresentados como melhor           lhes convinha. Um jri federal pediu 
que fosse organizadG um             processo judicial contra os polcias, dado que o tiroteio fora intil e 
injustificado. O Ministrio da justia concluiu, porm, que no havia motivo para apresentao de queixa.

A -camaradagem, a solidariedade de grupo e a conivncia por parte das autoridades supremas impedem, 
assim, a distino entre o emprego e o abuso da violncia legtima e encorajam a brutalidade, que recebe 
aplausos a todos os nveis.

Atravs do monoplio da violncia, o Estado impe a todo o indivduo (que no esteja devidamente 
habilitado a faz-lo ou no use uniforme) a renncia  agresso e impe-lhe, igualmente, outros sacrifcios 
em prejuzo dos seus impulsos naturais. Pelo monoplio burocrtico, o indivduo, em vez de participar na 
poltica,  condenado a impotncia poltica, ainda que se julgue livre; tem possibilidade de assumir duas 
atitudes: curvar-se a tudo ou dedicar-se a um activismo e deitar tudo a perder. Se no houver interferncia 
a tempo ou no se tentarem reformas radicais, a humanidade acabar por se entregar  violncia do 
desespero, que se julga violncia criadora, e multiplicar as violncias. A violncia resolve os @problemas 
cortando o mal pela raiz. Os exemplos -desta estratgia inultiplicam-se continuamente, a violncia aumenta, 
e com ela a ameaa da autodestruio.

Diz um velho provrbio militar: Quando estou de servio sou um animal e,estGu sempre de servio. O 
servio executado sob cumprimento de ordens constitui desculpa -e pretexto de brutalidade. O carcter 
sDbre-humano da instituio legitima- dora dissimula a inaptido pessoal, bem como a ausncia de 
personalidade eo sentido do humano. Quando estou de servio sou um animal e tenho direito a s-lo. A 
autoridade deve legitimar a violncia, sempre Grientada num sentido, dos seus subordinados. A identidade 
do uniforme tamb m confere, a quem o usa, a incgnita do anonimato. O uniforme constitui, assim, uma 
tentao a que s se podero opor, com eficcia, um auto-contrle particularmente atento e, sobretudo, um 
contrdIe exterior independente. Sob o bon militar dissimula-se e afirma-se a agresso burocrtica. O 
uniforme habilita, quem o use, a servir-se da violncia e leva inconscientemente a uma afirmao de 
necessidade de violncia e  aplicao do rtulo de legitimao s violncias exercidas.

258          AGRESSIVIDADE

Homcd0 legtmo

 guerra tudo  permitido.  assim na realidade? O general Pfulil, um estratega prussiano ao servio do 
estado-maior russo, j caiu, hoje em dia, no esquecimento.'A maior parte das campanhas que organizou 
constituram um fracasso. O facto no foi, porm, suficiente para lhe abalar a f nos infalveis mtodos 
estratgicos que estabelecera: o facto de se terem provado ineficazes devia-se  aco demaus 
executantes. Karl von Clausewitz,

o seu ajudante-de-campo, atingiu famamundial. Adquirira conscincia da transformao dos -exrcitos ao 
longo de, sculo xix, em que o exrcito -de mercenrios cedera lugar ao exrcito popular em massa. A 
partir desse momento a guerra tornara-se, para -ele, um acto poltico de natureza muito especial, a 
coroao de uma poltica legtima. Os Estados nacionais esperam da guerra a realizao das suas aspiraes 
e objectivos razoveis, a partir do -momento em que todos os outros meios falharam. Segundo o esquema 
de Clausewitz, o Estado, nacional  um grande organsmo racional (anlogo ao jogador raciona,1 na teoria 
do jogo) que se esfor a por, mediainte uma hbil estratgia, conseguir vencer um adversrio que age 
igualmente de acordo com mtodos racionais por meio de alianas, contra-alianas, manobras militares e 
diplomticas e, finalmente, aces blicas.

O escritor Leo Tolstol, bem como o fsico e meteorlogo Lewis F. Richardson, foram, no sculo xix, os 
defensores de uma teoria -dinmica e cataclsmi,ca da guerra. De acordo com esta concepo, as guerras 
so. inevitavelmente determinadas por foras histricas irresistveis e abatem-se sobre a humanidade como 
acori-tecimento de ordem natural ou epidemias, encontrando-se para l de toda a influncia da vontade ou 
estratgias dos generais. Somente a loucura de um narcisismo ilusrio tenta raciona- lizar e -orientar a 
exploso incoercvel da guerra. A teoria de ToIstoi e Richardson v na agresso sintomtica (explosiva, 
irracional, determinada por causas naturais, patolgica e incontrolvel) a nica agresso verdadeira.

As teorasde GlausewItz ede Hermann Khan servem de base s planificaes do Instituto Raud e dos 
modernos centros de estratgia militar que estudam a agresso estratgica (a agresso coordenada  
vontade, razovel, dirigida, manipulada). A guerra  urna situao decidida e proclamada por uma 
autoridade supe-

AGRESSIVIDADE                             259

rior (quase sempre, e por tradio, um Estado, uma dinastia ou uma Igreja) e esta situao aplica sanes 
ante o uso da violncia declarada e de qualquer outra forma de agresso contra um inimigo determinado, 
nacional, dinstico ou religioso. O partido inimigo, e as pessoas que dele fazem parte, assim como os seus 
bens, n o se encontram ao abrigo das leis condicionadas  honra.
O que costuma ser rigorosamente proibido  preconizado e ordenado frente ao inimigo. Outrora, a 
declara o de guerraera precedida de gestos agressivos mas no declaradamente violentos, tais como as 
negociaes diplomticas e os ultimatos. Estes gestos eram apenas ameaas precisas que deixavam 
adivinhar o recurso  violncia declarada mas ofereciam, simultaneamente, uma porta de sada para a 
evitar. Os preparativos da guerra e os ulti- ,matos serviam, entre outras coisas, para uma idealizao e 
legitimao moralda causa em -questo e para uma denncia e rebaixame,nto do adversrio. A declarao 
de guerra deixava, pois, antevQr que no existia outro recurso para alm da violncia, dado que todas as 
tentativas para resolver o conflito tinham fracassado. Segundo uma vulgar tcnica dramtica de polarizao, 
o inimigo  tornado responsvel pela exploso do conflito, pelo fracasso das negociaes e, portanto, pela 
necessidade de utilizao,da violncia. Amesma tcnica acentua a no culpabilidade, a indulgncia, a boa 
vontade e a compreenso do partido que representa.

At h pouco, havia uma declarao de guerra; esta comeava num -determinado momento e podia-se 
prever que o conflito armado terminaria pela assinatura de um tratado de paz, dado que, de parte a parte, 
eram respeitadas convenes e regras bem precisas. Os Estados neutros, bem como as mulheres e crianas 
dos Estados em guerra, eram poupados a hostilidades. Por tradio as guerras nunca eram totais, pois que, 
 excep o daJuventude masculina mobilizada, o conjunto da nao no participava activamente. Todos 
respeitavam convenes, que eram, evidentemente, diversas das regras estabelecidas para tempo depaz, e 
a funo de rbitro cabia a um terceiro elemento neutro (Cruz Vermelha, Estados neutros,etc.). At mesmo 
no decurso dos combates mais encarniados, o respeito por regras comuns implica o reconhecimento da -
dignidade humana do adversrio. A conduta de hostilidade s adquiriu um carcter criminoso e totalitrio a 
partir do momento em que se efectuaram aces de extermnio sob rtulo de aces de polcia ou de 
limpeza. Nesse caso ne-

260                   AGRESSIVIDADE

ga-@e toda a dignidade ao adversrio; da para a frente no h mais peias  violncia lcita nem mais 
consideraes pelo inimigo.

Estado nacional e soberania

Os processos de modernizao que transformaram a sociedade agrria tradicional em sociedade urbana 
industrial determinara,m na Frana pr-revolucionria, antes de 1789, toda uma desvalorizao de smbolos 
de autoridade e a necessidade de uma nova estrutura social. Os camponeses, a burguesia e os aristocratas, 
por pertencerem a uma classe, sentiam-se cada vez mais tipicaniente franceses; identificavam-se com a 
unidade global monopoltica do povo, da nao e da ptria. As derrotas militares ameaavam a existncia da 
comunidade. A sociedade dividiu-se e F@olarizou-se em patriotas e antipatriotas. Os presos polticos 
antipatriotas tornaram-se legalmente objectos de agresso pblica e alvos de massacre.

Na Alemanha, aps a Primeira Guerra Mundial, os proprietrios de grandes -domnios senhores 
provinciais, sofreram analoganiente uma perda de p@estgio     surg ida da derrota militar e abolio da 
!monarquia; em breve se manifestaram no seio das classes alems dirigentes sinais inegveis de 
desorganiz@ao e perda de identidade, o que veio agravar ainda mais a crise da inflao e do 
desemprego. Nenhum dos partidos polticos da Repblica -de Weimar foi capaz, alguma vez, de dotar a 
comunida,de, a no ser aparentemente, com uma orientao e um slido sistema de legitimidade. O 
pessimismo cultural e o caos ideolgico ocuparam os primeiros lugares, a crise de identidade tornou-se 
grave e sobreveio a necessidade de um sistema de identificao slida e bem estruturado. Para os 
nacionais-socialistas, a Alemanha, o esprito alemo e a misso alem eram conceitos essenciais;  em redor 
dos mesmos que se podem organizar todos os outros valores, que fornecem, sobretudo, imagens 
dramticas do tipo oposto, de anti-imagem. Nesta imagem do no-alemo erani englobados os inimigos 
internos, os comunistas, os liberais, os judeus e tambm os inimigos externos, bem como os judeus unidos 
pela sua conjura mundial, mas tambm os Franceses, os Checos, os Polacos, os Russos e todos os outros 
sub-homens.

O impeTalismo russo (sob um novo rtuIG) vai analogamente buscar a sua fora sentimental messinica 
mais  tradicional

AGRESSIVIDADE                              261

identidade nacional do que a convices de ordem poltica. As convices servem unicamente para 
alimentar falsas iluses e disfarar as realidades sob pretexto de desmascarar e combater as ideologias 
rivais.

Vivemos na era da santificao do egosmo, que atribui a cada um dos nossos semelhantes os mesmos 
motivos racionais de comportamento, que o incitam a ter como objectivo um lucro mximo em troca de um 
mnimo de trabalho, uma expanso, mxima e um mximo de agresso dentro de uma competio limitada a 
certas regras.  certo que os Estados nacionais exigem aos cidados que renunciem aos seus impulsos 
instintivos e lhes sobreponham uma vontade prpria; os Estados velam pela no agressividade dos 
cidados, graas  agresso concreta das leis, institui- @cess e regulamentos; mas eles mesmos conduzem-
se como indiv-

uo   egostas. Lanam-se em concorrncia com outros Estados to importantes como eles e tambm no 
sentido de uma expanso econmca. A partir de um determinado nvel de fora tornam-se imperialistas. 
Reivindicam o direito soberano de tomar decises quanto aos seus prprios interesses sem tolerar 
pareceres alheios.
O imperador Carlos V, adversrio de Francisco 1, rei de Frana, disse-lhe um dia. O senhor meu irmo e 
eu queramos exacta- ,mente a mesma coisa, ou seja a cidade de Milo. Cedo ou tarde, os Estados 
soberanos e os grupos de Estado, precisamente devido  misso que assumem, acabam fatalmente por 
cheiar a situaes de conflito, uma vez que so gula-dos por motivaes to imperialistas como as dos 
adversrios. As autoridades internacionais (Sociedade das Naes, O. N. U., Tribunal de Haia, etc.) 
devem, em princpio, regulamentar as relaes entre os Estados atravs da conciliao e acordo, tal como 
os tribunais intervm nas discrdias entre os indivduos. Apesar do poder e prestgio de que desfrutam, 
estas autoridades so impotentes, dado que, na faltade meios eficazes, no -podem notificar judicialmente 
os partidos adversos nem impedir as ac es directas que deles partem. A agresso individual dos cidados 
 refreada pela autoridade estadual e as instituies do Estado revertem-na, falsa ou efectivamente em 
benefcio da comunidade. At hoje, -nunca os Estados consentiram, por seu lado, ceder ou abandonar uma 
parte aprecivel da agresso que controlam e de que dispem ,livremente, embora exijam esta renncia 
aos indivduos como um sacrifcio natural inerente  civilizao. Com base neste princpio, os litgios de que 
resultam aces blicas e a regresso pro-

262                   AGRESSIVIDADE

gressiva ou repentina  violncia declarada e brutal da guerra so to inevitveis como o seriam as 
violncias individuais no seio do Estado se no existisse polcia, tribunais e autoridades vigila,ntes com 
fora suficiente para defender os interesses da cmunidade contra o indivduo.

A soberania fundamenta-se na aco da mo invisvel do destino que vela no sentido de que a satisfao 
dos interesses parciculares, por uma justia misteriosa, favorea o bem-estar geral. E at mesmo os conflitos 
violentos tm um carcter benfico, se bem que esta violncia positiva passe despercebida aos olhos dos 
poderes em Juta e dos indivduos implicados. A razo utilizaria assim sub-repticiamente as mo,tivaes 
egostas particulares (dos indivduos e do Estado) para atingir os seus objectivos altrustas.

As guerras resolveriam o problema do excesso populacional. Graas ao extermnio de um nmero elevado 
depessoas; teriam o mesmo objectivo que a plula, uma inveno muito mais recente, que impede o 
aumento, dapopulao. As guerras equilibrariam, por outro lado, as injustias ecolgicas, dado que os 
pases superpovoados teriam tendncia a expandir-se na direco de territrios de escassa densidade 
populacional. Concluiu-se, no entanto, estatisticamente que o efeito gentico e demogrfico das guerras foi 
sempre mnimo, compara-do com medidas de ordem poltica e no blicas, se bem que agressivamente 
racionalistas, como, por exemplo, a discriminao racial, a explorao, o contrle selectivo da emigrao, 
etc., que exercem uma influncia bem mais durvel do que as guerras no mbito da composio e estrutura 
de uma populao.

A mxima que pretende que se -esteja preparado para a guerra quando, se deseja a paz no ofereceu 
quaisquer dvidas durante muito tempo. A fraqueza, a falta de armamentos e de foras pareciam constituir 
um convite a que as potncias estrangeiras se mos,trassem impunemente agressivas. A confiana inocente e 
exagerada, demonstrada pela vtima, impeliria o agressor a agir. A nova cincia da vitimologia estuda as 
rela es subtis existentes entre o criminoso e a vtima do cri-me. Demonstra a cumplicidade, quase sempre 
inconsciente, da vtima, parcialmente responsvel pela prpria destruio, a que a leva a negligncia, a falta 
de precaues ou mesmo a provocao. O culpado no,  o assassino mas o assassinado, muitas vezes, pelo 
facto da sua demasiada inocncia e credulidade.

AGRESSIVIDADE           263

Metade da populao mundial encontra-se, actualmente        ` distribuda -por quatro Estados (India, China, 
Unio Sovitica e Estados Unidos) e a outra metade distribui-se por 129 Estados. A pretenso quanto  
igualdade de direitos soberanos , por razes de poltica interna, cada vez mais largamente proclamada 
apesar de, no mundo real, constituir uma impossibilidade. A paz relativa foi at hoje mantida pelo equilbrio 
atmico dos mais poderosos, de que todos os outros, ainda que se vangloriem da mais completa 
neutralidade, dependem tanto num plano econmico como poltico. A existncia das armas atmicas, que 
atingiram uma fase de acentuada evoluo, impediu uma exploso de violncia pelos mesmos -Motivos que 
h pouco justificaram o seu emprego, quer -dizer, por motivos de defesa e de sobrevivncia. Com a ajuda 
dos Estados, aliados, prximos ou subjugados, e tambm,de espantalhos polticos a quem pagam, as grandes 
potncias prosseguem os seus objectivos de expanso, que nada trazem de novo -sob os rtulos novos 
que apresentam. O imperialismo, o colnialismo, o messianismo e a misso do homem branco so ms-caras 
demasiado transparentes para servirem de denominaes valiosas. Essas novas etiquetas so: ajuda s 
naes em vias de desenvolvimento, aco libertadora, restabelecimento da ordem e a polcia.

A teoria cataclsmica faz da guerra um estado patolgico de crise peridica, uma epidemia de violncia 
semelhante  peste. Esta definio @obriga~nos a examinar as causas histricas e sociais da guerra.  desta 
forma que s.e reduziro a importncia e a intensidade da polarizao imposta pelos potentados e polticos 
emprol do desenvolvimento do clima de compreenso, que per mitir o estudo das formas -e processos de 
impedir estas destruies humanas. A teoria dinmica global em nada contribui para a definio de solues 
especficas. Comporta uma tendncia fatalista anloga  das teorias de agresso-ins tinto.

A concepo estratgica assume a realidade tal como ela  ou como apresenta ser, sem sentimentalismo 
nem partidos; exstem especialistas estritamente objectivos que programam os mais hbeis golpes tcticos, 
como se o antagonismo expresso pelos conflitos fosse um dado, um ponto de partida, e no um resultado. O 
eventual inimigo  encarado dentro dessa feio. Todos os meios com possibilidade eventual de sucesso 
so bons para o

264                   AGRESSIVIDADE

enganar, para o surpreender e alcanar a vitria. Esta teoria comporta uma boa parte de um clculo isento 
de humanidade q@e avilta o homem, em quem no v mais do que o meio de a-tingir o objectivo. Avalia 
friamente as perdas humanas como se se tratasse de perdas materiais em operaes.

A forma de organizao social que  a guerra no  nunca uma consequncia inevitvel da constituio 
biolgica do homein. No exis-te um nico objectivo individual que no possa ser obtido por outros meios 
que n o a violncia individual ou a guerra. Com excepo de um nmero nfimo de casos de natureza 
patolgica, a mais sedenta febre de conquista poderia ser satisfeita sem a presena da guerra caso as suas 
reivindicaes fossem aceites sem resistncia.

A guerra  multifactorial e multifuncional; -tem numerosas causas concretas e a seu cargo encontram-se 
mltiplas misses, mas, acima de -tudo, restabelece e refora a unida-de interna pelo sentimento geral de 
perigo do exterior; desvia os espritos dos problemas internos. A racionalizao colectiva da ideologia 
dissi-mula, por detrs da motivao, ideal proclamada e reconhecida, os verdadeiros fins impuIsionadores: 
a necessidade de mercados, o desejo de matrias-primas e colnias subjugadas. Muitos re-

cusam a interpretao marxista que explica as guerras pelas ambies materiais da classe preponderante. 
Acham que a verdadeira razo da hostilidade declarada entre os povos  mais profunda: reside na 
necessidade sentida poy todos os grandes. gupos nacionais ou tnicos de acreditar na existncia de um 
inimigo a fim de se manterem e afirmarem como grupo.

Quanto mais complexa  a estrutura da organizao e quanto maior  o seu ap51o para que os indivduos 
lhe sacrifiquem a sua prpria agressividade, mais violenta se torna esta necessidade de um inimigo, porque 
ter um inimigo significa esperar poder destruir legitimamente e verter contra ele toda a agressividade 
condicionada pelas ceraces da paz social. A guerra proporciona a possibilidade de demonstrao da 
valentia e da coragem, ante as qu@is se apagam to-dos os interesses e escrpulos egostas e mesquinhos. 
Os indivduos, tal como o ao temperado, saem da guerra purifica-dos, unidos, num estado, de xtase e 
transcendncia por terem participado na empolgante abnegao dos patriotas, para quern conta 
unicamente o imperativo guerreiro.  preciso contar com estes emuitos outros -efeitos da guerra sobre a 
psicologia dasmassas: eles proporcionam-lhes a fuga ao quoti-

AGRESSIVIDADE                             265

diano, a fuga s responsabilidades, as frias da famlia, a quebra do tdio, a satisfao do seu desejo de 
aventura. As causas determinantes de uma guerra soquase sempre uma mistura de manipulaes 
conscientes e dirigidas, bem como de cumplicidades. e negligncias inconscientes.

Se a guerra  a continuao de uma determinada poltica por meios diferentes, a paz pode considerar-se a 
continuao e o reforo da agresso sob outras formas. Sob o regulamento de paz imposto ao vencido, a 
viol ncia blica, at a sem peias, continua sem uma feio latente; a agresso limitou-se a mudar de 
aparncia e a adoptar um disfarce, mas o efeito agressivo e a propagao da agresso continuam presentes. 
Os tratados de paz pem termo  ltima guerra e colocam as primeiras pedras da seguinte. Surge um novo 
ressentimento originado pela injustia de uma repartio autoritria impostapela violncia. Mediante a 
coaco de uma soberania intocvel, as esperanas mais acarinhadas so frustradas e multiplicam-se novos 
sentimentos de injustia. A guerra liberta e reverte contra o inimigo, promovido a objecto de uma agresso 
legtima, toda a agressividade latente e condicionada pela organizao social do Estado. A paz leva o 
vencedor a atingiros seus objectivos graas a uma agresso oculta e sancionada por meios educacionais e 
econmicos opressivos ou por leis e tratados humilhantes.

Apesar do cep@icism,o quemuitos demonstram frente ao fanatismo e a um nacionalismo arrebatado que 
redunda em brutalidade, s as vastas organizaes nacionais parecem bastante slidas, bastante fortes e 
apreciadas pelo indivduo a elas agremiado no sentido de pedirem e exigirem os sacrifcios necessrios  
civiliza o. At aqui, as veleidades de identificao com grupos situados para l das fronteiras constitudas 
-pelas lnguas e territrios nacionais ficaram no mbito de desejos utpicos e declamaes de oratria. A 
identidade que tem como base a nacionalidade  exclusiva e intolerante; encontra-se reforada pela 
imagem antittica de um inimigo, encorajada a polarizao, a legitimidade de um objectivo elevado 
pretendido pela comunidade, e s o-lhe inerentes as ameaas e probabilidades de violncia. A soberania 
absoluta arroga-se aplenitude de contrle, -recusando submeter-se a qualquer outro poder, compra a 
coeso interna e a certeza de identidade atravs da limitao e perda das liberdades individuais no seu 
interior e pela multiplicao de ameaas da violncia. O nacionalismo constitui um elo de unificao, mas,

266                 AGRESSIVIDADE

pelas suas pretenses soberanas, prepara o recurso a uma violncia repressiva. Encontrar e descobrir 
outras formas de unidade superior, igualmente capazes de conferir ao homem uma identidade e um 
?bjec@tivo, constitui a inisso mais importante que se oferece  imaginao humana se quisermos obter um 
verda-deiro esprito de solidariedade entre os homens.

O crme organzado

O crime organizado constitui um vasto empreendimento que no tem como fim combater o establishment, 
mas concluir alianas e acordos que definem a tolerncia mtua da integridade territoriab) de cada um. As 
diversas organizaes criminais concorrem entre si; so empresas gigantescas que, como as grandes 
empresas que imitam e as imitam, satisfazem a -necessidade de determinados bens de consumo. Apenas 
recorrem  violncia como instrumento estratgico, comomeio de atingir o objectivo desejado, mas 
preferem alcan-lo pela persuaso, os presentes as relaes ou pela ameaa da violncia, que substitui 
efcazment, a violncia. Negoceiam com jogos de azar, a prostituio e a droga, da mesma forma que 
outras com o acar ou os cigarros. Existe uma grande procura destes meios de prazer que eles colocam 
nomercado; os lucros deste gnero de negcio so elevadssimos. Podem permitir-se ter ao servio os 
melhores peritos em todos os campos: publicis,tas, conselheiros fiscais, vende-dores de ,nvel, advogados, 
funcionrios da polcia, especialistas em cirurgia plstica e assassinos escolhidos. A organizao constitui 
uma comunidade que se sente convencionalment@ legitimada pela solidariedade dos seus membros e pela 
satisfao das necessidades sociais violentas e ilegais que proporciona.

Ainda antes do despertar da juventude, a organizao do crime descobriu a hipocrisia do establishment, 
no para o des- ,mascarar, mas para o imitar e o utilizar com vista aos seus fins. Os diversos grupos no 
pretendem reduzir ou suprimir a hipocrisia, que lhes traz lucros e lhesproporciona um meio de 
subsistncia. Preconizam a proibio de bebidas alcolicas, apoiam as organizaes femininas cujo 
objectivo  a defesa do casamento e colocam-se ao lado da polcia quando a mesma exige que se coloquem 
srios entraves ao comrcio da droga. Toda e qualquer causa moral pode contar como seu apoio, uma vez 
que a repres-

AGRESSIVIDADE                              267

so das tendncias instintivas, em nome da Tnoral, aumenta o consumo dos seus artigos imorais e com ele o 
preo. As organizaes ilegais destinam somas elevadas  obteno de uma certeza de proibio dos jogos 
de azar nos E. U. A., com exepo do estado de Nevada, onde controlam to-das as casas de jogo. A nica 
interdio aos casinos do Reno e de Las Vegas consiste em lesar os grupos. Um engenhoso sistema de 
contrle garante a honestidade dos empregados; os clientes nunca so vtimas de burlas pessoais. Nada 
perturba a marcha impecvel dos negcios. As estatsticas de crimes, em Las Vegas, apresentam um ndice 
baixo porque ao primeiro sinal de dificuldades eventuais o culpado  afastado e recebe ordem de partida, 
acompanhado de medidas mais ou menos rigorosas. Como fenmeno local, o crime encontra-se quase 
eliminado nos pontos em que  combatido pelos elementos ilegais da populao.

Os dirigentes da Mafia so mestres na estratgia do sucesso rpido. Assumem a realidade -como ela  e 
como eles a fazem, ou seja com todas as fraquezas humanas da vaidade, hipocrisia, avidez e corrupo, 
fraquezas que eles encorajam para das mes-mas tirarem partido. Para l dos conflitos internos entre os 
diversos poderes, que so, alis, raros, urna vez que a hierarquia do meio  rigorosa, o uso brutal ou 
psicoptico da violncia  severamente interdito. A violncia  substituda pela atitude arrogante e a 
imagem cuidadosamente burilada de uma organizao omnipotente e irresistvel. Os efeitos de intimidao 
desejados so obtidos atravs das ameaas, exemplos de terror e, sobretudo, atravs da publicidade 
terrorista em que colaboram os corruptores e, tambm, por submisso voluntria, as vtimas. A vio- ,lncia 
, efectivamente, o ltimo recurso do crime organizado, o ltimo meiot@uaasndo todos os outros falharam. 
Programado a frio pelos estra eg   do  sucesso, pelos peritos do assassnio, que no conhecem sequer a 
vtima, morta com requintes de pormenor, o atentado quase sempre permanece impune. Os tecn<)cratas 
preparam minuciosamente o assassnio, que no  executado numa base de raiva e de dio, mas de um 
clculo estratgico. Os chefes, graas  perfeita organizao existente, nunca s.e envolvem pessoalmente 
e os executantes limtam-se a obedecer e no sabeni, nem querem saber, o que se encontra em jogo.

As aparncias de legalidade so de um valor incalculvel para as organizaes ilegais do cri-me. Tm 
interesses em enipresas que desfrutam de boa reputao e compram a respeitabili-

268                  AGRESSIVIDADE

dade pelo suborno. S uma aparncia de perfeita legitimidade possibilita a continuidade das suas 
actividades ilegtimas. Sem o apoio de personalidades respeitveis, a honrosa sociedade no poderia 
obter xito nem lucros provenientes das suas manobras e operaes. A causa nostra s se torna um risco 
para a comunidade nacionalpela cumplicidade activa na corrupo que esta lhe proporciona. Uma minoria 
de polcias deixa-se subornar e algumas empresas legais fecham os olhos quando s.e geram suspeitas sobre 
determinado indivduo. O Governo dos Estados Unidos, que lana uma campanha diplomtica contra o 
trfico de herona, autoriza as vendas de pio da tribo dos Meos, no Norte do Laos, porque ela  
anticomunsta.

Sem a permanente corrupo e a clandestina cumplicidade dos cidados honestos, os cidados desonestos 
no usufruiriam, por um ms @n@@s que fosse, o lucro proveniente da sua desonestidade. A opinio 
pblica mostra-se presa de indiferenas ou movida por um secreto fascnio ante os jogos perversos destes 
bandidos romnticos. Estes utilizam o ro-mantismo como trunfo de continuidade. A estrutura 
implacavelmente calculada da sua organizao permite conter e refrear a agresso. Graas  organizao, 
a agresso exprime-se geralmente sem violncia manifesta. Este hbil contrle da agresso serve para 
obteno, pelo seguro, de objectivos agressivos, tanto legais como ilegais. No que se  refere  indiferena 
moral que reina, nada mais conta do que  o sucesso, que tudo justifica. Se a salvao do mundo se chama   
sucesso, ele acabar pGr se assemelhar a uma imensa Mafia.

Os   grupos de jovens criminosos encontram-se actualmente num estado de guerra permanente entre eles 
e, sobretudo, contra a sociedade. Eles so membros da selva constituda pelas grandes cidades, rebeldes 
sem objectivo definido, personalidades autoritrias, em lu-ta contra a autoridade e adeptos do mito da 
violncia pela violncia. At h pouco, os bandos clssicos das grandes cidades -eram organizaes bem 
estruturadas que tinham como objectivo conseguir bens convencionais por meios ilegais. Organizavam 
roubos, assaltos, chantagens, assassnios, dentro de um esquema claro e definido que tinha por fim a 
obteno de lucros e prazer, inacessveis por outros meios. Tratava-se -de Mafias em ponto pequeno, 
sindicatos miniaturais que empregavam a violncia, mas s em caso de necessidade, com

A G R E S S 1 V I D A D E                 269

vista a um objectivo concreto; copiavam os mtodos dos grandes, ao servio. dos quais acabam por se 
colocar.

Os grupos da actualidade tambm condicionam a agressividade potencial dos seus membros a uma 
disciplina impiedosa e a -um contrle hierrquico desptico, mas o seu fim  de no ter objectivo, ou 
melhor, de s pretenderem esse condicionamento. So instituies feitas para o serem. A posio e a glria 
dentro de um grupo so atingidas por uma lealdade absoluta, ausncia de todo e qualquer sentimento de 
considerao humana e emprego ilimitado da fora. O acto de violncia no motivado aumenta o prestgio 
social. Observa-se acombinao de um rig@roso contrle de grupo de feio sdica com um total 
consentimento de agresso colectiva dirigida a inocentes ou desconhecidos escolhidos ao acaso. Os chefes 
de grupo no so escolhidos por aptides -especiais. So eles, pelo contrrio, que necessitam do -grupo. 
So psicologicamente mais fracos do que os outros e s desempenham um paipel relevante atravs de uma 
concentrao exclusiva na violncia, abstraindo toda e qualquer outra possibilidade.

A fora da organizao de combate  incessantemente mantida pelo apoio constante de novos smbolos 
inimigos: o establishment, a polcia, os brancos, os negros, os mestios. Os objectivos que visam com 
fanatismo permanecem na obscuridade. O seu maior segredo o de no o terem. Cada grupo en,contra-s-e 
numa mobilidade constante. Por vezes, adere momentaneamente a um outro grupo, ingressa nas suas 
fileiras e desmaintela-o.

Todos os meios de contestao actuais sofrem a invaso da ,criminalidade, dado o afluxo indesejvel de 
indivduos desenraizados que procuram uma comunidade. Os poderes no encaram com desagrado esta 
infiltrao de psicopatas e de violentos que desconsideram as boas causas, pois que, a partir desse 
momento, encontram-se em condies favorveis par@ absorver idealistas e criminosos. Os jovens 
criminosos sem motiva o constituem apenas uma pequena percentagem, que se exagera com agrado. Tal 
como os assassinos de crianas, constituem casos excepcionais, cuj? nmero aumenta, no entanto, 
perigosamente. A organizao primordial de grupo constitui a -satisfao de uma necessidade cultural: cada 
um quer e deve acreditar em qualquer coisa, no importa em qu, O grupo representa a caricatura de um 
ideal de cultura que engloba a obedincia absoluta, a lealdade total e a recusa de prever perigos a longo 
prazo e detomar em linha de

270                  AGRESSIVIDADE

conta os sacrifcios a consentir ou a impor. Os grupos acabam p.or legitimar uma violncia sem motivo, a 
viol ncia pela violncia, sem peias nem arrependimento. Eis umponto a evitar: bem perigosa  a 
legitimidade absoluta. Acompanha e provoca a violncia absoluta.

um dque retm a socedade

A guerra civil divide o povo em faces opostas. Irmos e irms, pertencentes  mesma nao, encontram-
se separados pela diferenade r as,,class-es e condies e o elo de pertena comum a urna colectividade 
confere a-os conflitos uma feio ainda mais grave e mais violenta. Quando os membros de uma famlia 
deixanide se amar, o dio que sobrevm torna-se muito mais intenso negativamente.

Se se lhes d a mo, agarram logo o p. Antes da guerra civil, h poucomais de cem anos, os negros 
americanos ter-se-iam facilmente contentado com algumas atenuaes no sistema da escravatura. Durante 
decnios aspiraram, apenas, a metade (ou a um quarto) da igualdade de direitos em relao aos brancos. 
Hoje@ encontram-se numa situao -muito mais favorvel do que a primitiva em todos os campos; exigem o 
poder negro, um Estado negro, completa independncia -e, at mesmo, uma espcie de supremacia, 
arrogando-se um direito de compensao por sculos de injustia.

A guerra civil terminou em 1865 pela unificao de todos os estados da Amrica e proibio de um sistema 
de escravatura at a,consideradoco,rno uma lei sagrada. A partir desse momento deveriam ser 
reconhecidos os mesmos direitos a todos os cidados, sem distino de origem, raa, classe ou cor.

Afirma-se que no existe problema que no seja proveniente de excesso populacional e que a educao 
n o resolve. As crianas negras poderiam ter beneficiado da mesnia educao do que as brancas em 
escolas separadas. Os estados do Sul nunca se resignaram  derrota militar sofrida. Orgulhosos das suas 
tradies feudais, passaram a tratar os negros no propriamente mal, mas como se fossem animais 
domsticos. Apesar de todas as proclarnaes de igualdade, os negros no estavam autorizados a utilizar 
os mesmos transportes, os mesmos hotis e restaurantes. Davam passagem aos, brancos quando se 
cruzavam com eles na

AGRESSIVIDADE                             271

rua. A lei perinitia relaes sexuais entre homens brancos e mulheres negras. Porm, todo o negro, 
simplesmente acusado de relaes ntimas com uma branca, oumeras tentativas nesse seritido, era 
condenado a anos de priso ou  morte. Todos os pretextos serviam para proibir aos negros o acesso s 
listas de eleitores ou de jurados.

As escolas -do Norte, Este -e Oeste dos Estados Unidos ficaram superlotadas. Os negros do Sul emigraram 
para as grandes cida- ,des industriais, onde, em breve, se criaram guetos negros em pleno centro, o que 
levou a populao branca a retirar-se para os subrbios. A mortalidade infantil e materna  quatro vezes 
superior ,dos brancos. Praticamente metade das famlias negras no tm pai- a me que assegura a 
subsstncia-e mais de metade dos negros nem sequer tem um mnimo de sobrevivncia. Os relatrios das 
comisses elaborados em 1968, 1969 e 1970 concluram que a segregao e a misria produzem uma 
atmosfera de dio e de desespero nos guetos que o, americano branco ignora e nem mesmo seria capaz de 
imaginar.

Em 1954, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos anunciou o estabelecimento de um novo regulamento 
escolar mais de acordo com a Constituio. A partir desse momento, a palavra liberdade passou a significar 
acesso aos mesmos estabelecimentos de ensino. Os parlamentos e governadores dos estados do Sul, se 
bem que tendo prestado juramento, de respeitar as leis comuns, juraram resistir at ao fim. Durante meses 
seguidos observaram-se cenas comovedoras nos crans da televiso: sob proteco da -polcia federal, as 
crianas negras iam para a escola, onde lhes -Cuspiam no rosto e onde as bombardeavam, e s mes, com 
garrafas e efensas. Todos os dias rebentavam dezenas de bombas. Vrias vezes o presidente Eisenhower 
teve de enviar o exrcito federal para fazer respeitar a lei. Os brancos do Sul sempre declararam que s 
eles sabiam tratar os seus negros. Apesar da preguia e da notria inferioridade dos negros, tinham-lhes 
nculcado ideias a que eles por si nunca chegariam. No  de surpreender, portanto, que os agitadores 
negros, os panteras-negras e -os guerrilheiros se multipliquem por todo o lado,  excepo do Sul, e que as 
revoltas de negros rebentem exclusivamente nas cidades do Leste do Centro e do Oeste.

No decurso da Segunda Guerra Mundial e da guerra da Coreia, brancos e negros tinham combatido, lado 
a ladG, tinham

272                  AGRESSIVIDADE

sido mortos e assassinado, por sua vez, inimigos brancos at a sagrados para os negros. Quando 
regressavam da guerra, os jovens negros viram-se aglomerados nos velhos guetos. Participaram no 
desenvolvimento, geral donvel de vi-da, se bem que o seu apenas duplicasse, ao passo que o dos brancos 
quintuplicou. Os meios de comunicao apregoaram a emancipao das nacionalidades africanas, cujos 
governantes foram acolhidos pelos brancos com grande cerimonial.

Uma semana decorrida sobre o fim da guerra civil, o presidente vitorioso-, Abraham LincoIn, foi abatido 
pela actor Bo-oth no camarote onde assistia a uma pea de teatro. O assassino, um novo Guilherme TelI, 
correu para o palco e gritou: Sic Semper Tyrannis, depois do que fugiu. Alguns dias inais tarde encontrou-
se o corpo de Booth, que fora abatido. Dizia-se que ele era louco e membro de um bando de conspira-
dores.

No mesmo ano, seis habitantes do estado meridional de Tennessee fundaram uma espcie de associao 
de estudantes a que chamaram Cyclos e que se transformou rapidamente em Ku Klux. Os membros 
adoptaram ttulos retirados,da magia: grande cielope, encantador e fantasma e cavalgavam atravs 
da noite vestidos de branco. Foram os membros do Ku Klux Klan. Durante a-nos seguidos efectuaram 
guerrilhas contra o uilegtinio poder federal: linchagens de negros, mutilaes, assassnios clandestinos e 
actos de terrorismo espectaculares.

Esta organizao de combate, que lutou seguidamente contra os anarquistas, os judeus, os catlicos e os 
sindicatos, foi perdendo importncia. Metida a ridculo, Iiinitava-se a vegetar, tornada recordao do delrio 
colectivo de um passado confuso. Em 1954, no entanto, o Ku Klux Klan recebeu um sopro de renovao, 
dadas as decises em matria escolar. As cruzes de fogo voltaram a brilhar, os tribunais secretos reuniram-
se e realizavam-se julgamentos secretos. Surgiram, uma vez mais, os cavaleiros nocturnos que semeavam o 
pnico e o terror em seu redor.

Em 1964 (cem anos aps a vitria da igualdade e dez anos depois da deciso federal), o chefe do Ku Klux 
Klan, Sam Bowers Junior, o ufeiticeiro-mor imp@riab), de 39 anos, ordena a mobilizaco do Klan, da-do 
que o inimigo (o Estado federal) projec-

AGRESSIVIDADE                            273

tava uma invaso do Mississpi para colocar os negros no poder e pr em prtica a sua doutrina comunista.

Na mesma altura, o governo federal enviou estudantes brancos ao Mississpipara assegurar o direito de 
voto dos negros. Dos
400 000 eleitores negros apenas 24 000 foram recenseados. O estudante Michael Schwerner e a mulher 
deslocaram-se voluntariamente a Washington, se bem que sob vigilncia. Recomendaram-se as maiores 
precau es aos jovens.

O Klan considerou Schwerner como judeu catlico ateu e a vanguarda da temida invaso. Um dia, um 
grupo de membros da seita julgou que o intruso estava a incitar os negros  revolta na igreja de 
Neshoba. No o encontrando, porque nessa tarde ele estava no Mississpi, os cavaleiros brancos do 
Cristo atacaram os negros que se encontravam a rezar, esmagaram--nos e reduziram a igreja a cinzas. 
Quando Schwerner regressou, decidiu, de acordo com a misso que lhe incumbia, fazer um inqurito no 
local com os seus colegas brancos Goodinan e Chamey. Mandou avisar as autoridades para o caso -de no 
regressar nesse dia. No voltou: os trs estudanites tinham desaparecido sem deixar ras-to. As buscas 
imediatas das autoridades locais foram misteriosamente infrutferas. O meio estudantil no se resignou. 
Conseguiu obter audincia na Casa Branca. Com a autorizao do presidente, o ministro da justia Robert 
Kennedy enviou cento e trinta membros do F. B. L, dirigidos por Edgar Hoover, a fim de procederem a 
investigaes em Neshoba.

Bastaram algumas horas para encontrarem o carro dos estudantes incendiado. Averiguou-se, facilmente, 
que os estudantes tinham sido detidos durante algumas horas, porexcesso de velocidade, e, em seguida, 
libertos aps paga uma cauo. Teriam partido de novo e nunca mais foram vistos. No se conseguiu 
esclarecer porque no se tinham contentado em prender unicamente o motorista, e as investigaes 
continuaram durante semanas. O chefe do Ku Klux Klan declara guerra aos agentes do F. B. L, que 
constituram objecto de ameaas contnuas. Deitavam pregos enferruja-dos nas estradas por onde eles 
tinham de passar, furavam-lhes os pneus dos carros, misturavam acar na gasolina, lanavam ces furiosos 
ao seu encontro, bombas de cheiro pestilento ou metiam,lhes serpentes dentro dos carros.

Em 1964, todo o estado do Mississpi se encontrava sob o regime terrorista dos cavaleiros brancos, um 
estado dentro do Estado, mantido pelos guardas da ordem local. Nem brancos

274                   AGRESSIVIDADE

nem negros se atreviam a mostrar-se do lado do F. B. I. porque a vingana do Man era rpida e brutal.

A ipacincia dos homens do F. B. 1. acabou, finalmente, por ser recompensada. Um informador da polcia 
federal indicou uma pista segura. Pouco depois, os dois cadveres, j em estado de decomposio, foram 
retirados de um dquepGr meio de um bulidozer. Ante as provas esmagadoras alguns membros do Man 
confessaram. Foi fcil recons,ti,tuir o crime.

O chefe da polcia inventara a acusao de excesso de velocidade para prender os estudantes. A deteno 
dos mesmos permitira que os membros da seita, informados pela polcia, se reunissem e fizessem os seus 
preparativos,. Sob instruo, do subchefe da polcia, os estudantes tinham seguido e, mais tarde, foram 
detidos pelo carro da polcia junto de um dique em construo. Aps breve troca de palavras os trs 
rapazes, foram abatidos e enterrados por debaixo do beto.

Um jri federal apresentou queixa contra os dezoito implicados; o jri local s consentiu cit-los 
judicialmente por um delito com consequncias mximas de um ano de priso e mil dlares de 
indemnizao. Fez-se apelo ao Supremo Tribunal e instaurou-se novo processo trs anos e doismeses 
depois da descoberta dos cadveres em Meridian (Mississpi). Os jurados eram, na sua totalidade, brancos. 
Os acusados ficaram, evidentemente, em liberdade durante o, tempo, que durou o processo. Entretanto, o 
Man prosperava. Foram incendiadas vinte e sete igrejas de negros sem que os culpados fossem 
descobertos. O nmero de niembros da seita do Klan subiu de 300 para 5000.
O feiticeiro-mor imperiab) mandou queimar vivo um proprietrio branco que se tornara indesejvel 
porque auxiliara a incluso dos negros nas listas eleitorais. O chefe fez um elogio pblico dos vingadores 
annimos que tiinham feito um bom trabalho e que, contrariamente aos assassinos dos estudantes, se 
sabiam calar.

Os jurados demoraram muito tempo a tomar decises. Sob presso do juiz, acabaram por condenar dez dos 
participantes a vrios anos de priso e os oito restantes, entre eles o chefe da polcia, foram postos em 
liberdade. Por toda a parte se celebrou o importante acontecimento,  excepo do Sul. Nunca, at ento, 
se tinha conseguido que um jri branco dos estados do Sul condenasse brancos  priso, quaisquer que 
fossem os seus

AGRESSIVIDADE                          275

crimes, sob pretexto de defesa de honra das mulheres brancas ou continuidade da discriminao racial.

Em 1968, doze milhes de americanos votaram pela candidatura de George Wallace  presidncia. O 
programa prometido por este racista fantico, governador do estado meridional do Alabama, inclua 
medidas policiais rigorosas com vista ao domnio -dos negros preguiosos e insolentes, bem como  
manuteno do equilbrio e da calma: impor o respeito da lei, afirmava ele,  a misso essencial do 
Governo.

Ci perigo branco e o perigo negro

Nodecurso do movimentado ms de Agosto de 1965 rebentou uma revolta dos negros em Watts, gueto 
negro de Los Angeles. Os agentes da polcia brancos tinham detido um jovem negro que conduzia em 
estado de embriaguez. A me do preso tentou libertar o filho ou lev-lo a reconhecer a falta cometida. O 
caso nunca foi completamente esclarecido. Uma multido hos-til subiu de dezenas para cen.tenas e 
finalmente para milhares. Fizeram-se correr boatos relativamente a violncias cometidas pelos polcias e 
quebraram-se vidros. Os polcias retiraram-se para evitar provocaes. Em breve se desencadearam 
pilhagens e incndios. Es,tas cenas de revolta desfilaram durante alguns minutos nos crans. Os negros 
punham fogos e gritavam histericamente: Burn, baby! Burn! A cidade entrou em estado de alerta e foram 
mobilizados 13 500 homens da Guarda Nacional. Durante quatro dias de selvticos motins foram reduzidas 
a cinzas inmeras casas e mesmo bairros inteiros. Antes que a calma reinasse uma vez mais, tinham sido 
assassinadas trinta e quatro pessoas, de entre as quais trinta e um negros. Alguns meses mais tarde, a 
comisso de investigao nacional, imediatamente organizada, publicou um relatrio de 1350pginas. Esta 
comisso deplorava o crescente recurso geral  violncia, a falta de respeito pela lei e seus defensores, 
sublinhava a decepo, cada vez mais pronunciada, dos negros ante o progresso demas-iado lento dos 
diversos programas de auxlio, chamava a ateno para o facto de que a crise de desempregoe 
subemprego dos adultos masculinos negros representava um problema social e observava que o extremo 
potencial de agressividade da populao dos guetos poderia, de um momento para o outro, ocasionar uma 
revolta. O relatrio

276                   AGRESSIVIDADE

definia, finalmente, a rebelio como um acto confuso de protesto, totalmente -destitudo de razo e 
desesperado, como uma vaga criminosa que inspirou, igualmente, um sentimento de horror entre todos os 
cidad os respeitadores da lei, independentemente da-raa e posio. Os participantes nos motins (mo 
passava,m -de uma minoria que precipitava todos os membros da comunidade numa situao desgostosa.

Depois de anos de colaborao, a nossa clinica agremiara colahoradores que se ocupavam de uma 
organizao social a favor dos negros de WaLts. Tambm j conhecamos alguns dos amotinadores. Os 
primeiros feridos brancos e negros foram, por outro lado, conduzidos para o Hospital de S. Francisco, em 
Lyswood, cujo servio de psiquiatria dirigimos. Conclumos, pelas anlises feitas, que os actores destes 
acontecimentos dramticos no viam

a sua aco de protesto na base de loucura -e do desespero. Consideravam-na, pelo contrrio, o 
fundamento de uma identidade, um orgulho e uma arrogncia. Eram unnimes em pensar que a nao 
deveria, finalmente, tomar conscincia do grau de raiva e de revolta a que uma discriminao sistemtica e 
a violncia da polcia tinham levado urna populao pacfica. Atravs dos seus actos tinham atrado a a-
teno da opinio pblica mundial e mostrado  humanidade inteira que eram homens. As chamas dos 
incndios tinham, finalmente, torna-do clara e manifesta a situao insuportvel dos guetos, at a 
dissimulada e negada.

Muitos temiam as consequncias das aces de represlia: reduo do programa de solidariedade, 
acrscimo do desemprego e intensificao da brutalidade da polcia. O chefe da polcia, o presidente da 
Cmara Municipal e outras notveis individualidades tinham feito ameaas nesse sentido. A maioria dos no 
participantes estava, no entanto, de acordo quanto  crena de que a revolta, no premeditada e 
subitamente desencadeada por um mero acaso, tinha atingido o seu objectivo, ainda que em nada 
melhorasse a situao: a aco era, por si s, uma justificaco suficiente porque constitua um 
esclarecimento. A partir desse momento a situao de Watts tornara-se clara para todos. Passara-se 
qualquer coisa em Watts, que at a permanecera num esta-do de decadncia e de apatia. De uma vez para 
sempre, ningum  Ignoraria que os negros no se encontravam dispostos a servir de bodes expiatrios 
indefesos ante as doutrinas racistas e ilegais de uma sociedade cruel, irreflectida, surda e cega.

Alguns participantes admitiram ter-se divertido imenso com

AGRESSIVIDADE                             277

os saques e incndios,; e efectivamente, no decurso do motim,  raiva da -des,truio viera juntar-se uma, 
vincada fei@,o de festa popular. Na atmosfera geralde Carnaval, em que velo  supeyicie uma 
agressivida-de h muito reprimi-da, os rebeldes, electrizados pela sua actividade, no roubavam para 
enriquecer, mas para conquistar trofus.

Os gestos de uma libertao. simblica substituram, assim, os verdadeiros actos de independncia. No 
houve qualquer tentativa de transportar a revolta para l dos limites do gueto. Os negros contentaram-se 
em atacar os seus prprios casebres miserveis e as suas pobres lojas. No se preocupavam com a 
obteno do poder. Queriam provar a vontade de transformar a sua passivida-de de vtimas em activismo 
de agressores. Tornava-se necessrio que os tomassem a srio em vez de serem ignorados e postos de 
parte. Queriam Limporo medo em vez de ter sempre medo. j nada mais tinham, alis, a temer. Quanto mais 
se comportavam como selvagens, mais em si se reforava a convico de que nada tinham a perder e arites 
tudo a ganhar. As ac es destruidoras eram acompanhadas de sentimentos religiosos ou pseudo-religiosos 
de renovao e de renascimento.

As autoridades exigiram a punio rigorosa de todos os rebeldes. O inqurito que a comisso desejara 
fazer quanto ao comportamento e atitudes dos polcias foi considerado suprfluo. Pouco depois, estalaram 
revoltas nos bairros negros de Detroit, Clevela,nd e Newark.

Os acontecimentos de Watts causaram sensao. Todos nos sentimos envolvidos, uma vez que 
aprovvamos e desculpvamos a violncia colectiva: no reconhecamos, afinal, a funo de sinal e alarme 
da violncia e no era  violncia que deviam a tomada de conscincia do seu valor e identidade? As 
opinies que representamos tornaram-se, entretanto, bem generalizadas entre a opinio pblica. Cinco 
comisses presidenciais, inumerveis grupos de investigao e centenas de especialistas em todas as 
matrias tiravam concluses idnticas: a pobreza e o racismo, o racismo

e a pobreza so as causas essenciais da desordem. Em 1968, uma comisso instituda pelo presidente 
declarou:  o racismo branco o principal responsvel pela mistura explosiva que se acumulou nas nossas 
cidades desde o fim da Segunda Guerra Mundial, Constatamos que anossa nao se dirige no senti-do de 
uma sociedade dupla: uma sociedade n`eg@a e uma sociedade branca completamente separadas e 
desiguais.

278                   AGRSSIVIDADE

os motins raciais foram, no decurso -dos ltimos cinco anos, * fenmeno mais estudado pelos socilogos, 
psiclogos, polticos * economistas. Todas as comisses temem. o uso da fora. Renegam utoda a violncia, 
que nunca poderia originar uma sociedade melhor. As revoltas e as desordens aumentam a opresso, mas 
no a justia. A colectividade no pode nem quer tolerar o terror e o poder da rua. As comisses dirigidas 
por polticos e juris-tas acabaram por concluir, como a maioria dos socilogos e psiclogos, que os negros 
no se encontram unicamente afectados p@J@ desemprego e subemprego, pela falta de instruo e pela 
miseria. Sofrem, acima de tudo, por serem injustamente tratados. Ressentem-se do seu exlio no gueto e das 
condi es sociais ai reinantes como resultado directo do racismo e da hipocrisia branca. A camada jovem 
negra parece, igualmente, ter perdido toda a confiana no sistema actual. j no esperam que esta 
democracia vigente, que dita leis e utiliza todas as foras policias e do exrcito, para oprimir a populao 
negra, alguma vez possa esquecer as diferenas de -cor e promover a justia.

Contrariamente s ideias vigentese  propaganda, os participantes no so criminosos nem psicopatas, No 
pertencem aos mais miserveis, mais ignoraintes, mais estpidos ndividuos do gueto; so membros da 
camada mdia do gueto. Trata-se, muitas vezes, de jovens desempregados e ambiciosos, particularmente 
sensveis  injusta segregao e aviltantes discriminaes sociais arbitrrias. Os negros vem no 
comportamento dos polcias a atitude geral tomada pelo sistema em relao a eles. Apenas uma pequena 
percentagem (toda-via 4 % superior  dos brancos) foi sujeita a brutalidade por parte das autoridades 
policiais, mas quase todos tm a impresso de serem tratados com desprezo. A maioria dos negr?s (com 
incluso dos no participantes) eram de opino que a origem dos mo,tins tinha como base os excessos da 
policia, Por seu lado, a polcia suspeitava de que os agitadores eram profissionais, militantes estranhos  
localidade. Trs quintos da populao negra consideraram a rebelio como legtima. Setenta e cinco por 
cento dos negros declararam preferir no recorrer  violncia e viver na esperana, alongo prazo, do 
sucesso de meios no violentos, tais como a educao e lenta modificao das leis. Seis por cento no 
esperavam, todavia, qualquer resultado das negociaes, devido a uma total desconfiana em relao aos 
brancos. Exigiam ter um estado para eles e uma nao negra que lhes pertencesse.

AGRESSIVIDADE                              279

O Centro Lemberg, centro de consulta oficial do presidente, do Senado e dos dirigentes nacionais e locais, 
examinou at ao momento presente 200 casos de motins de maior ou menor iraportn.cia. Os resultados so 
sempre os mesmos.

O ponto de partida , na generalidade, um incidente insigificante que os -negros consideram como <),f@-
,nsivo ou injusto. Este acontecimento propaga-se com a velocidade do vento e sofre um acrscimo de 
pormenor de pessoa para pessoa. Segue-se uma fase em que se -rene umamultido furiosa que no sabe 
o que quer. Encontra-se numa posio vacilante e pode ser nfluenciada tanto por agitadores como por 
elementos que preferem a moderao. Um terceiro estdio constitui, geralmente, obra dos jovens, que 
para se divertir e para divertir os outros partem vidros, atiram garrafas e provocam a polcia.

At esta fase, existe a Mssibilidade de chamar as massas  razo, quer mediante negociaes com as 
autoridades, quer por uma demonstrao da polcia. Faz-se, no entanto, geralmente o apelo  pior das 
estratgias, quer dizer, a todas e a nenhuma. A polcia, tomada de indeciso, vacila entre uma atitude de 
imparcialidade ou actuao exagerada; muitas vezes  ela a ceder terreno para evitar pTovocaes, mas 
sente-se desesperada por -receio de perder o contrle. Quando os adultos comeam. a saquear e a lanar 
pedras  quase sempre demasiado @tarde. A vio- lncia atrai a violncia.

Numa quarta fase, verifica-se a polarizao das foras: os dois partidos encontram-se, a partir de ento, em 
guerra declarada.
O aumento de violncia  fatal, at culminar na derrota sangrenta ou no total aniquilamento dos rebeldes. 
No se negoceia com rebeldes que passaram ao estado activo e, no entanto, eles passaram  rebelio para 
@que se negociasse com eles e porque nunca se efectuaram negociaes com eles.

Os polticos, polcias e burocratas desconfiam da espontaneidade quando a encontram e, todavia, invocam-
se continuamente. Suspeitam sempre da existncia de uma organizao por detrs de uma manifestao; 
dado eles mesmo estarem organizados, os outros, no seu entender, tambm o esto. Confundem as 
primeirs fases da revolta com a ltima e julgam-se no direito de -recorrer  fora que imediatamente 
desencadeia a quarta fase, que a partir desse momento  incontrolvel.

Em todos os ajuritamentos h jovens extraviados que representam e exageram os aspectos irracionais do 
esprito colectivo,

280                   AGRESSIVIDADE

O mesmo encontra-se, igualmente, presente nos defensores da ordem sob o anon,imato do uniforme que 
tudo legitima, sob forma de homens e oficiais nervosos, impacientes e apavorados que muitas vezes 
desencadeiam a exploso do conflito no moinento menos indicado. julgam-se sempre naposse dos seus 
plenos direitos. Granjeiam, normalmeme, o apoio da opinio pblica, quaisquer que possam ser as 
consequncias tcticas dos seus gestos irreflectidos.

No Vietriame, todo e qualquer indivduo que no use o uniforme pretendido, torna-se um inimigo.. 
9luando, se verificam desordens todas as pessoas presentes, participantes, espectadores, representantes da 
imprensa, tornam-se automaticamente perturbadores perigosos e, portanto, ameaados: tero de sofrer as 
consequ ncias.

Justifica-se muita coisa pela solidariedade. A camaradagem transforma as aces em reaces e os actos de 
violncia em actos de legtima defesa. Existem sempre personalidades responsveis para justificar de 
antemo ou retroactivamente todos os actos dos defensores da ordem, negando aos adversrios o direito 
de serem tratados como seres humanos. O chefe da polcia Parker qualificou os negros de bped,es 
humanos. A expresso corresponde  de Franz Josef Strauss, que apelida os esquerdistas de animais. Os 
extremistas servem-se de expresses anlogas para justificar as suas violncias: para eles os polcias so 
indistintamente canalhas, bestas humanas e idiotas mal intencionados. O cenrio  o mesmo em to-do o lado, 
nos guetos, nas universidades americanas

ou nas curopeias.

Os esquemas de comportamento dos autores de desordens e dos defensores da lei so em todo o lado 
perfeitamente semelhantes. A anatomia e a fisiologia da violncia colectiva -no organizada assemelham-se 
onde quer que seja, dado que as suas causas so as mesmas. Os mesmos factores esto sempre presentes 
com uma monotonia que  quase tdio, mas no se age em funo deles.

A polcia dos pases democrticos, muitas vezes mal remunera-da, mal organizada e sobrecarregada de 
trabalho, recebe uma formao ambgua quanto aos -direitos do homem.  sua semelha,na, as massas 
populacionais recebem e transmitem nformaoes confusas e contraditrias. Pretendem visar a 
objectividade e a educao, mas tm -necessidade de se distrair e ganhar audincia abusando do sexo e da 
violncia.

AGRESSIVIDADE                             281

O todo da colectividade no pode abstrair-se da alternativa: no futuro, deve-se trabalhar com os 
adversrios para a resoluo dos problemas, ou  prefervel elimin-los? O fenmeno da polarizao 
continua. Os extremistas dos dois lados cada vez se assem,elham mais no combate que travam; tanto uns 
como outros repelem, com desdm, as sugestes de colahora@o, pacfica que rotulam de fraqueza e 
cobardia. Para eles s existe uma nica sada: o aniquilamento total do adversrio. Arrastam pela lama as 
pessoas sensatas que pregam. a moderao. E , no entanto, esta situao explosiva de desespero e espera 
frustrada que cri-1 o fracasso e a recusa de negociaes, bem como a demora das reformas necessrias 
que permita o desenvolvimento explosivo da rebelio. A mnima centelha inflama os espritos e cada um v-
se arrastado, para a tormenta. A imediata informao pelas massas populacionais serve de caixa de 
ressonncia. Nesta macabra miscelnea de Carnaval e Apocalipse, de voragem emancipadora e de 
carnificina, asmassas so assaltadas por um entusiasmo altamente contagioso e todos rivalizam em coragem, 
intrepidez e virilidade.

As investgaes feitas posteriormente revelam sempre as mesmas circunstncias determinantes: esperana 
frustrada, sistema de pensamento sempre mais estereotipado e desconfiana ante as leis e a sua aplicao.

Nos Esta-dos Unidos, a concesso das mesmas possibilidades de trabalho e de desenvolvmenito e os 
mesmos direitos de acesso aos postos de trabalho, tanto por -negros como por brancos, no se torna 
logicamente possvel, dada a desigualdade de educao, e cultura que os separam. No se pode esperar 
dos negros que confiem na bondade e equidade dos brancos e esqueam o des-prezo e a humilhao 
resultante de sculos de passividade.

So claras as causas dasdesordens.  urna mentira a afirmao de que no existe paralelo nem precedente 
histrico que nos possa demonstrar o que temos a fazer. Quase todos ns conhecemos os imperativos do 
momento que vivemos: no  por ignorncia nem por maldade que no agimos. Para uma sociedade de 
consumo e desenvolvimento, vincadamente orientada para reali- dades concretas, a renncia a padres 
queconferem uma identi- ,dade nacional e um afastamento dos clichs esquemticos de um inimigo, comum 
s se tornar possvel mediante consentimento relativo a uma transformao psicolgica interior total. O 
sacri-

282                   A G R E 8 S 1 V 1 D A D E

fcio  grande; exiLyi-lo , sem dvida, uma utopia. A verdade, porm,  que hoje @m dia no podemos 
permitirnos renunciar a certas decises utpicas.

O professor depsicologia Kenneth B. Clark, cidado negro e famoso especialista de psicologia dos guetos, 
considera os preconceitos raciais e suas consequncias como parte de um conjunto de problemas 
existentes na nossa sociedade. Estes problemas so visveis na adorao geral do sucesso e bens materiais 
existentes na sociedade em que vvemos, na procura de uma melhoria, na discrepncia existente entre os 
generosos oramentos aplicados em despesas de ordem militar, ex,perincias espaciais e as pequenas 
quantias destinadas s necessidades humanas essenciais. Clark est de acordo com os racistas num nico 
ponto: a promessa de@ igualdade democrtica de Jefferson fez surgir nos ,negros americanos esperanas 
cujo fracasso constituiu um factor primordial da desordem. Clark compreende, na perfeio, os seus 
colegas psquiatras, socilogos e psiclogos, que s.e contentam em analisar e tratar os indivduos e se 
limitam a trabalhos ,cientficos andinos, sem tocar nos grandes problemas sociais ou nos tabos colectivos. 
Pensa que tambm assumiria a mesma atitude, se ainda lhe fosse dado escolher a sua vida, que considera 
arruinada, apesar da fama de que desfruta. Escreveu quatro volumosas obras, colaborou em dezenas de 
comisses e redigiu inumerveis documentos e memrias.

Qualquer pessoa de boa f no poder contestar as concluses quase gerais dos peritos: a soluo no est 
em melhorar os guetos, tornando-os mais suportveis, mas em suprimi-los. No  necessria uma reforma 
das leis vigentes; apenas se pretende a sua aplicao. A polcia no deve ser substituda, mas instruda e 
compelida a -no tratar os cidados negros como se estes fossem sub-homens, ou inimigos nacionais. 
Bastaria menos de um tero do oramento destinado  guerra do Vietname para realizar os mais ambiciosos 
projectas de educao e realojamento. At mesmo chegariam as somas pagas s inumerveis comisses e 
equipas de investigao para se dar incio a um bom trabalho e reduzir os excessos escandalosos do 
superpovoamento urbano e dadeficincia de equpamento escolar. Polticos, sbios e cidados 
esclarecidos de toda a nao partilham essas ideias e no passam  aco. O essencial  que a calnia e a 
ordem sejam uma vez mais es-tabelecdas. At  prxima...

A G R E 8 S 1 V 1 D A D E                     283

Make love not ivar

Mantm-se o statu quo pela posse da autoridade e pela autoTidade da posse.

Conhece-se o podere reconhece-se a autoridade. O poder, por vezes conquistado pela violricia, s 
ascende  qualidade de autoridade reconhecida,  qual se obedece sem presses nem coaces externas, 
quando as suas leis so interio-rizadas pelo indivduo. Nenhuma prescrio da violncia tem eficincia a 
longo prazo sem que pelo menos -noventa por cento da populao a siga poy profunda convico e sem 
coaco. Esta adeso individual exige uma legitimao satisfatria. Uma.exgncia s setransforma em 
verdade, rito e automatismo quando se considera como justificada.

 uma cultura o que confere a consagrao de legitimidade s normas de comportamento e esquemas de 
representa@o que lhe so inerentes. O indivduo que sofre de traumas socio-Patolgicos no pode 
nem pretende identificar-se e, consequentemente, no sabe interiorizar os valores desta cultura. Toda e 
qualquer alterao das normas culturais nem sempre tern, no entanto, um carcter obrigatoriamente 
patolgico. O grupo possui, porm,uma, tendncia para considerar o indivduo marginal co,mo diferente e, 
portanto, inferior. A atitude de adopo de escalas de valores de uma concepo diferente do mundo, a 
aderncia a uma convic o diversa mais elevada ou mais profunda, significa contrariar os princpios da 
maioria, mas, de mocto algum, possui urna fe,o mrbida.

As subculturas so sstemas mais ou menos rgidos de normas de conduta e pensamento que reivindicam 
uma afinidade corri uma nao ou raa, grupo profissional ou convico poltica. Constituem comunidades 
que conferem urna identidade ao indivduo e fazem surgir uma solidariedade normativa que, no seio do 
grupo, leva a cabo as mesmas misses e determinam os mesmos efeitos que as culturas dominantes das 
grandes comunidades. Osesquemas das subculturas afastam-se dos esquemas habi-tuais vigentes, sem.que 
por tal motivo se lhes oponham inteiramente ou lhes sejam incompatveis. Referem-se  faceta de 
agressividade individual que a cultura geral no sabe conter, regularizar e estruturar.

As subculturas aplicam sanes. Os preconceitos racistas pato@

284                   AGRESSIVIDADE lgicos, o fanatismoe a agressividade sem peias no devem ser considerados, 
exclusivamente, como sintomas individuais; so, muitas vezes, partilhados e aprovados por um grupo 
subcultural importante. , -muitas vezes, a anoimalia em relao  cultura geral o que constitui o 
fundamento das normas e das sanes subculturais.

A desconfiana em relao aos mais velhos e o desprezo por tudo o que  pervertido (por se referir ao 
establishment) so os imperativos generalizados da cultura contestatria dos jovens. Esta defende o 
uniforme que adpta: reforma de tradies, embora numa conformidade com o sistema, e f-lo com o 
mesmo entusiasmo com que o faz o combatente que luta pela sua bandera.

No decurso dos ltimos vinte anos o Ocidente inventou, desenvolveu e exportou a cultura dos jovens; e 
mais do que tudo isso fez a descoberta da juventude. Noutros tempos, O jovem escapava a uma 
obrigatoriedade escolar e, aps uma crise pubretria de rebelio geralmente simblica, era inseridonas 
estruturas impostas pelos adultos: famlia, profisso e Estado, e ascendia, desta forma, aomundo adulto, 
responsvel, privilegiado e assim chamado real.

Era obrigao absolutada sociedade pobre integrar, logo que possvel, toda a mo-de-obra disponvel no 
processo de produo e atribuir a cada um o seu papel social. O bem-estar e o aproveitamento, mximo s 
muito recentemente reduziram a necessdade desta presso. A superabundncia de disponibilidade de 
bens permitiu aos jovens de todas as classes retardar a sua entra-da na sociedade e, algumas vezes, 
retard-la tempos infindos. Foi assim que a nossa sociedade industrial ocidental do ps-guerra criou 
condies para a formao de uma nova pseudo-espcie: a juventude. A j@ventude tornou-se -um grupo 
solitrio que se considera, por si so, verdadeiramente humano, que despreza, repele e denuncia os outros, 
tal como os outros o desprezam, o repelem e denunciam.  esta mesma sociedade que a juventude 
desmascara, critica, ridiculariza e repudia, a sociedade que permitiu e fez a ji@ventude actual.

A princpio   os beatnzks, os hoolgans e essa juventude de flores, que hoje em dia so os hippies e os 
@ippies, apenas desejavam viver em paz e no isolamento, longe as exigncias paternas, da solicitude 
materna, das proibies e iprivilgios sociais. Estes jovens, intencionalmente sujos e de aparncia pouco 
cui-

A GR E S SI VI DAD E                      285

dada, vagi@eavam pelas ruas das grandes cidades, procurando ligaes casuais e uma -satisfao sexual 
sem consequncias. O isolamente, fortificava em,cada um -deles anecessidade de simbolizar a pertena a 
um mesmo grupo, mediante uma forma de vestir semelhante, um vocabulrio primitivo comum e estados 
detranse provocados pelas drogas, que lhes proporcionavam a iluso de ultrapassar a fronteira do 
individual. A sua tica do respeito absoluto por todo o indivduo, sentimento e instante, redobrava de 
indiferena ante os valores tradicionais do passado e as exigncias do futuro. A inspirao do momento 
substitua todos os programas e ideologias.

Estes jovens no se limitavam a desprezar os bens materiais idolatrados pelos pais; recusavam pura e 
simplesmente sacrificar o que quer que fosse para os obter. Aceitavam de boa vontade e sem qualquer 
reconhecimento o que lhes davam, mas no se deixavam nem influenciar nem comprar por presentes ou 
promessas. Entendiam por bem deixar ficar para trs a tradio, a cultura

e a civilizao; abandonaro barco da sociedade, mas no pretendiam reformar ou revolucionar o mundo.

O abandono de uma rigidez no campo da moral sexual proporciona uma imensa oferta de prazer. Porqu 
recusar qualquer prazer, uma vez que a sombra da bomba atmica paira sobre o futuro? Todas as 
experincias dos pais so postas de parte, todos os indivduos se encontram legitimados pelo simples facto 
de existirem e todos so intrinsecamente iguais. Os esforos, mritos e resultados no contam. No h 
qualquer autoridade ou instituio que tenha o direito de pedir a algum qualquer coisa contra sua 
vontade. Recusa-se todo o programa que tenha um carcter naturalmente obrigatrio e a nova. juventude 
recusa igual-mente to-das as coaces, a tcnica, o racionalismo e, sobretudo, a violncia. Fazer amor e no 
a guerra - eis o seu lema.

Era clara a atitude desta juventude frente  sociedade. Pretendia abandon-la. Foram precisos muitos 
acontecimentos para que esta tentativa pacfica de afastamento se transformasse numa embriaguez activa de 
destruio e de terror.

Os vrios establishments no estavam prepara-dos para o eco mundial com que foi recebido o protesto da 
sensibilidade juvenil contra os excessos da competio, avidez e coaco. A princ,pio consideraram esta 
recusa obstinada dos jovens como a continui,dade nevrtica de uma crise de puberdade, mas em breve se 
aperceberam da ameaa e do perigo que a mesma constitua.

286                   AGRESSIVIDADE

Os jovens de todo o mundo protestavam solidariamente contra o fenmeno mundial do totalitarismo 
burocrtico e tcnico. Os establishments considerarani esta atitude como sintoma de decadncia moral. 
Adoptaram, igualmente, um comportamento de defesa.

Estes jovens impertinentes, estes desmancha-prazeres conspiradores e -estes indolentes exploradores 
tornarani-se revolucionrios barbudos.  sociedade agra-da-lhe ter um objecto de agressividade sobre o 
qual descarregue da conscincia tranquila os impulsos reprimidos. Os jovens iriam ser esse objecto. Esta 
nova minoria da subcultura juvenil, uma pequena parcela dos jovens, enquadrava-se ,particularmente 
neste papel de bode explatrio. Os jovens distinguiam-se com facilidade graas aos cabelos compridos, s 
barbas e, alguns, devido ao cheiro. Eram, por outro lado, desorganizados, passivos, indefesos e a sua 
desejada superiorida,de moral fazia-os obstinados e rebeldes atoda e qualquer influncia. Em breve 
tornaram-se o alvo da agresso oficial e da polcia. Todos os establishments, quaisquer que fossem as suas 
crenas polticas, reagiram ao desafio moral da juventude com ,nervosismo, incompreenso e brutalidade 
no meio dos aplausos da maioria.

Gerou-se um clima de perseguies que deu uma nova existncia  unidade nacional. As classes -menos 
favorecidas, que nada tm e, portanto, aspiram a estes bens materiais despreza-dos pela juventude, 
consideram estes adolescentes como estragados pelo mimo -e parasitas arrogantes que lutam pelo 
ascetismo, porque ,desconhecem a misria. A classe mdia sen,te-se, igualmente, PTOvocada e ridicularizada. 
O trabalho  para ela unia necessidade e uma lei tica. Se os jovens tivessem razo, os elementos da classe 
mdia, patriotas e trabalhadores, ter-lhes-iam estragado a vida.

Na Alemanha tratavam-se os jovens como macacos cabeludos e filhos de prostitutas. Queriam ex,puls-los e 
desinfectar o mau cheiro que deixavam com bombas incendirias. Cada vez era mais evocado o trabalho. 
Tudo se passou, igualmente, em Frana, Inglaterra e Itlia. Na Amrica foi pior. Durante -meses seguidos 
metralharam com cartas os pais de uma infeliz rapariguinha de Catorze anos cujo nico crime consistia em 
se ajoelhar, desfeita .em lgrimas, diante do cadver de um estudante abatido pela polcia. Alguns queriam 
arrancar as unhas dos culpados, conden-los  priso perptua e submet-los a torturas monstruosas.

A nova minoria no punha em questo simplesmente um

AGRESSIVIDADE                             287

determinado sistema social, mas todas as sociedades e todos os sistemas. A sua crtica pattica era moral e 
total e no poltica e planificada.  esta dimenso moral da contestao juvenil que lhe permite alargar-se a 
todo o planeta, mas que ao mesmo tempo a condena em todo o lado, pelomens a curto prazo,  ineficcia. 
Teve apenas o efeito de um boomerang, certamente no o pretendido, que provocou na Alemanha, nos 
Estados Unidos, em Fraina e na Amrica do Sul a coligao e o reforo das foras tradicionais da ordem. 
Os poderosos s se encontram, porm, de acordc, para exercer actos de violncia e combater os jovens 
contestatrios no. seu prprio. campo. Os estudantes rebeldes de Praga e de Varsvia so aclamados como 
heris da liberdade no Ocidente, enquanto -os de Berkeley e de Berlim. so criticados e acusados de 
crime. No Leste, o processo  o mesmo no contexto coln,trrio,.

No Leste, as desordens universitrias foram reprimidas por meio dos vulgares mtodos totalitrios. No 
Ocidente, os jovens foram, a princpio, castigados por infraces a normas de disciplina e utilizao de 
drogase, seguidamente, encontraram aliados nas minorias oprimidas do seu pas e, sobretudo, no 
estrangeiro junto dos inimigos do regime. Retratos de Mo, Ho Chi Minh e Che Guevara ornamentavam as 
miserveis instalaes comuntrias do novo proletariado estudantil, que, no entanto, nada possua do que, 
material e humanamente, permitiria a nascena de um verdadeiro movimento revolucionrio.

As demonstraes, por mais desordenadas e acesas que sejam, podem, decerto, causar inquietao e 
prejuzo se os partidrios e os opositores juntam os grandes discursos a actos perigosos. Um facto , no 
entanto, indiscutvel: -nunca resultam transformaes revolucionrias. O efeito  at -contrrio: pela 
reaco, que suscita-m, reforam e perpetuam instituies em decadncia.

Gaudeamus...

Como em quase to-da a parte, alis, os estudantes franceses tGmaram conscincia de estarem pTivados de 
todo o direito  palavra nos assuntos da Universidade. Os acontecimentos de Maio cncontTam-se ainda 
presentes na memria de todos. Operrios e estudantes reuniram-se na luta pela mesma causa. O pas ficou 
paralisado durante semanas. Foi um princpio de agresso

288                   AGRESSIVIDADE

organizada, cujos sangrentos combates nocturnos entre polcias e estudantes sublinharam o carcter de 
generalizao. A violn-cia arrastava novos actos de violncia repressiva.  agitao reinavaem todo o 
lado; tudo eraposto em questo e debatido. Em Frana, tal como anteriormente, os estudantes no 
conseguiram, em Maio-junho de 1,968, conquistar a simpatia de gande parte da   opulao, nemprovocar o 
apoio e uma verdadeira colaborao %a sua parte. O resulta-do conservador das eleies que se seguiram 
foi essencialmente motivado pelo medo da anarquia que assaltara o pas. Na Alemanha, na Escandinvia e 
na Amrica, as eleies traduziram, de forma confusa e preventiva, a hostilidade geral contra os jovens, 
devido ao receio de ameaas no plano econmico e do caos.

A aco da juventude tinha,em todo o lado, como objectivo acelerar as reformas em matria -de educao, 
reformas que se considerava terem permanecido em suspenso tempo demasiado. Na Alemanha os 
estudantes rebeldes proclamavam o direito de participao, definio clara do processo de exames e 
licenciaturas, bem como diminuio dos privilgios dos professores. Em Berkeley e outras universidades 
americanas os estudantes reivindicaram, como factor primordial, a liberdade de palavra nos crculos 
universitrios e insurgiram-se contra o contrle das universidades por corpos estranhos ao meio, como 
industriais e os representantes da aliana da indstria e do exrcito. Os estudantes uniram-se, de perto ou 
de longe, a todos os inimigos do sistema em todo o lado onde os conseguiram encontrar: na Alemanha, aos 
activistas da Nova Esquerda; em Frana, aos comunistas, para os abandonar dias mais tarde, e nos Estados 
Unidos a pessoas de cor e explorados -de todas as categorias.

A cultura -da juventude, que at a se conservara passivamente afastada, s nessa altura se transformou em 
contracultura e adaptou-se exactamente a estes esquemas de polarizao que tinha desprezado e de que 
pretendia libertar-se.

Os jovens julgavam possuir todos os direitos porque tornavam a gerao anterior responsvel por todos os 
males que assolavam o mundo: responsvel por Auschwitz, Hiroxima, Viemame e perseguies raciais; 
pela pobreza, utilizao da violncia manifesta na guerra e dissimulada, secreta e inconfessada nas 
instituies coercivas da sociedade. Acreditavam que a sua juventude os fazia saber tudo melhore com 
antecipao; interpretavam todos os acontecimentos antes de se terem verificado e sempre dentro

AGRESSIVIDADE                              289

,do mesmo esquema. Em breve a revolta veemente, espontnea, mas no violenta, contra a injustia e a 
violncia deu lugar a uma imitao calculada e a um culto de violncia. A grande recusa da aceitao de um 
comportamento alienante estereotipado e fonte de dios cedeu lugar a uma atitude pretensiosa e uma m 
utilizao de liberdade.

Os hippies inofensivos e pacficos viram-se.ligados aos desesperados de todos os lugares, terroristas 
encarniados, criminosos e loucos que s.e infiltravam -na cultura da juventude e utilizavam

o seu prestgio moral, a fim de se servir da violncia terrorista ,como contraviolncia legtima. Sob a 
influncia geradora da agressividade do establishment de um lado e a populao burguesa do outro e, em 
seguida, devido  infiltrao de elementos estrangeiros e agressivos ainda de outro, os jov  ens foram 
arras-tados no turbilho dapolarizao agressiva. Desenvolveram o activismo sem discernimento, a aco 
pela aco, que sempre degenera em terror manipuladoe arrogncia da lite, que,  margem de todas as 
leis e de todas as normas, reserva para si os julgamentos de valor e justifica automaticamente tudo o que 
prejudique o partido adverso e, principalmente, o emprego da violncia. A nfase dada exclusivamente  
individualidade, a recusa de submisso a qualquer obrigatoriedade e a ausncia de compromisso moral 
tornaram a cultura dos jovens primeiramente como alvo legtimo de agresso e, finalmente, no plano 
contrrio, como fonte de agresso.

Actualmente, a polarizao entre cultura e contracultura intensificou-se a tal pon@o que ou se amaldioam 
os jovens tratando-os como loucos, crimi-nosos. amorais e nevrticos ou se faz

a sua idealizao, como a ltima tbua de salvao do Ocidente. Para uns, a -cultura dos jovens  uma 
aberra o perigosa, a revolta de psicopatas que se devem combater com os habituais mtodos policiais e 
psiquitricos. O pblico  indiferente aos -motivos de uma violncia destruidora. No se discute com os 
autores da violncia; h que encerrlos sem ter em -conta se se trata de criminosos habituais ou polticos, 
racistas militantes ou panteras-negras, estudantes ou loucos. Os admiradores da juventude elogia,m, pelo 
contrrio, o idealismo, o esprito de sacrifcio e a sensibilidade da nova contracultura, que, pela sua mera 
existncia, fornece as respostas s perguntas que o prprio sistema em vigor no ousa fazer.

Na crise central da sociedade industrial ocidental, os jovens

10

290                   AGRESSIVIDADE

-que ningum tomava a srio enquanto no utilizavam a violncia - tinham desmascarado e revelado,  luz 
do dia, a viGlncia.inerente aos sistemas de domnio e sua manuteno,. Ao experimentar novos estilos de 
vi-da, as contra-instituies e uma conscincia no alienada, a nova cultura pareceu indicar um caminho 
para l de um presente dominado pela violncia e baseado em valores materiais, tecnocrtico e 
abandonado por Deuse tendendo para uni futuro pacfico, humano e crente. Kenneth Ketiniston, um dos 
cronistas mais esclareci-dos da nova cultura actual, afirma que nos nossos dias a influncia recproca das 
culturas divergentes representa unipoderoso impulso a favor do desenvalvimento moral. A revelao das 
contradies entre os gandes princpios e as aces vulgares teria, segundo a sua teoria, ipermitido aos 
jovens de todo o mundo compreender claramente at que ponto. as concepes etnocntricas egostas 
eram relativas e insatisfatrias e tambm adquiriu uma nova tica e uma -cultura comum. Lawrence 
Kohlberg esquematizou  maneira dos graus de Piaget umatipologia do desenvolvimento Moral. Chama ao 
primeiro grau estado pr-convencional, ao segundo estado convencional e ao terceiro estado ps-
convencional.

O desenvolvimento moral passa do egosmo ilimitado, apenas moderado pelo receio de punies -externas, 
ao conformismo e, finalmente, ao, desenvolvimento de valores prprios que seriam afirmados at contra a 
resistncia do meio ambiente. Estas fases morais -de desenvolvimento seguir-se-iam umas s outras sempre 
namesma ordem e, apesar das diferenas individuais e culturais de durao, seriam independentes de -
quaisquer classes, raas ou religies; num conjunto seriam idnticas em todo o lado. De acordo com as 
capacidades bsicas humanas, todas as sociedades desenvolveram, enquanto sistemas, instituies 
complementares comuns bastante semelhantes entre si, tais como a famlia, a economia -e o governo, que 
provocam, igualmente, esperanas comuns e por assim dizer universais. Uma vez que os princpios de toda 
a estrutura social so, osmesmos, Scrates, LincoIn e Gandlii compreender-se-iam -entre si ao enunciarem -
princpios gerais que se poderiam -resumir, da melhor forma possvel, sob a designao de j*us,tia.

No se pode evitar j o contrle moral. Entre os estudantes Contestatrios encontrar-se-iam, antes do mais, 
representantes da nioral ps-convencional e, de facto, igualmente um bom nmero que -nunca teria 
ultrapassado o estado pr-convencional onde

AGRESSIVIDADE                             291

cara. O tipo convencional poderia, ao -tentar a passagem difcil  fase ps-convencional, recair na fase 
pr-convencional. Agiria, ento, de forma egosta como dantes e veria em si mesmo o nico critrio de 
valor -das suas aces. Kohlberg designa esta frequente regresso como o sndroma de RaskoInikov.

Talvez chegue a uma plenitude -de cultura, o que acontece  maior parte -dos -seus indivduos. Na 
verdade, a jovem cultura ,moderna falhou por aderir aos seus prprios valores. Em nenhum lado alcanou 
os seus prprios objectivos, no alargou a conscincia colectiva enem sequer climinou ou atenuou o poder 
dos monoplios, da tcnica e da burocracia. Em nenhum lado alargouo campo de liberdade para si ou para 
osoutros e acabou por ,cair na po-larizao. da violncia, que anteriormente pusera a descoberto. A 
orientao exclusiva para o momento presente e o abandono sem compromisso de programas polticos 
baseados na lgica em benefcio, de instituies morais, confusas e individualistas s poderiam conduzir  
liquidao,  violncia ou s duas coisas.

O primeiro sucesso sensacional da violncia (aqui sofrida e e no exercida) precipitou o fim da embriaguez 
da unidade e da solidariedade. O establishment reagiu a este conformismo de no-conformismo, que 
desprezava todos os valores tradicionais e se diziano violento, primeiro com incredulidade, espanto e 
surpresa e -depois, muito rapidamente, com brutalidade e violncia. Desenvolveu-se assim ummovimento 
entusistico atravs da possibilidade do martrio. O establishinent viu, simultaneamente, na contracultura um 
mercado lucrativo que organizou e ma-nipulou. Simulou-se, ento, a msica espontnea e sincera nos 
crans do cinema e da televiso. Em centenas de armazns vendia,m-se vesturio e ornamentos hippies 
fabricados em srie e garantidos como nicos no gnero. As grandes organizaes internacionais do crime 
apoderaram-se do novo mercado e inundaram ,Os hippies das drogas mais nefastas, tais como a metedrina e 
a herona. Dois heris da nova cultura, Jimi Hendrix e Janis Joplin, bem como milhares de outros jovens, 
morreram aps ,terem ingerido doses excessivas da droga. Enquanto nas cidades os criminosos de 
pequena e grande envergadura se imiscuam no movimento em massa, os actos inexplicveis de 
brutalidade tornaram-se cada vez (mais frequentes e insensatos. Deste movimento colectivo apenas restou 
uma massa desorganizada, sem direco, sem programa e sem entusiasmo.

292

AGRESSIVIDADE

Neste mesmomomento em que os filsofos e os socilogos julga,111 Plessentir, na transformao da 
conscincia da nova cultura, a,tra:nsformao universal de todos os males institucionais de um sistem2t 
coercivo, os establishments triunfam em toda a linha e, graas  sua organizao lgica, tomaram 
simplesmente o movimento    seu cargo, explorando-o no sentido, das suas convenincias. . Os restos da 
contra-cultura desintegraram-se do interior para cair n@i confuso e na desordem. A tentativa de 
libertao por uma Misformao de conscincia constitui um triste e miservel fraca180 baseado numa 
resignao.

Os jovens unidos na sua oposio a toda a violncia, deram, todavia, uma'lio, ao mundo, at mesmo no 
seu fracasso, antes que a,klarizao e o emprego abusivo, da violncia viessem imP'cdi-r tMo, o ganho 
colectivo da experincia e toda a profunda renGva@o social. A exclusiva insistncia nopresente e a 
exigncia de u.m.@ soluo total e imediata, bem como de uma aco libertadora, constituem preparativos 
de violncia que provocam, nec-essa,iamente, a prpria violncia, ainda que paream neg-la e combat-
la. A recusa desta nova cultura como soluo valiosa no, que se refere s estruturas actualmente em vigor 
no assegura, no Cnt@IitoI a sobrevivncia destas estruturas.

S Progressos da tcnica moderna, da burocracia e da cincia col    % omundo, ocidental ante uma escolha: 
ser de desejar o avan@,3 cada vez mais pronunciado do processo com os meios cada vez mais 
importantes de que dispomos? Konrad Lorenz analisa a hostilidade cultural da juventude, perigosamente 
contrria s leis 42,biologia, e chama a ateno para o, facto de que a nos@a cultura, sob sete formas 
diferentes pelo -menos, de entre as quais a Pior `kria a instruo, -parecetender para o suicdio. Os 
problemas do contrle, absolutamente necessrio, da agresso (e do contrle dos prprios controladores) 
continuam -por resolver, ainda qUe a nova cultura tenha demonstrado, com o seu exemPlo, que a agresso 
que quer permanecer livre no conduz  liberda,@C nias a uma forma primitiva de agresso, quer dizer,  
violnci;@-

A nrjva cultura no inventou a moral, o direito e a rejeio da h'Pocrisia A impresso de uma quebra total 
com o passado provm do facto de que a -nova cultura transformou os temas secundrios em;temas 
primrios. Tornou a realidade mais variada, mai@ entusistica, mais ardente, mais atraente e revelou as

AGRESSIVIDADE                             293

possibilidades ocultas do prazer ldico, da alegria e da felici dade. Como espao de um momento histrico, 
representou a mnidimensionalidade do homem, vtima da febre do ganho e do poder, at que, por 
decepo e raiva  persistncia da irracionalidade e da crueldade, ela inesma caiu na irracio-nalidade e na 
violncia.

No se pode, no entanto, considerar a nova cultura culpada do grande mal do nosso sculo. No  
responsvel pelas guerras -contnuas, pelo problema da fome no meio da abundncia, pelo dio racial, pela 
poluio atmosfrica, pelo superpovoamento, pela desumanizao atravs da burocracia e da tcnica e, 
sobretudo, pela obsesso do poder e da posse. A urgente humanizao dos mtodos administrativos, a 
lealdade livre de todos os meios de informao, o acesso efectivo aopoder, bem como uma nova 
repa,r@o da propriedade e do poder, permitindo uma autntica participao no processo social, so, de 
facto, hoje em dia, possibilidades a um tempo concretas e realizveis. A sua realizao s ser impedida 
pela iluso da misria permanente e paralisao de afectividade.

Na aspirao geral dos homens em relao  justia, e que ainda se expressa em termos de racionalizao 
e justificao, ressoa a redescoberta, da confiana de que o mundo pode conseguir, seno a perfeio, 
pelo menos tornar-se melhor.

Nenhum esforo humano atinge a perfeio, mas tambm nenhum fracasso s.e assemelha a outro. Ainda 
est para acontecer a emancipao, no para l de, mas no sentido de uma situao humana.



N      

A MENSAGEM OCULTA DOS MEIOS

DE COMUNICAO

o e importes, diz o marido  mulher, que no assistiu  transmisso, pela televiso, da 
morte de Oswald -

o assassino de Kermedy-por Ruby. Dentro de alguns minutos vo repetir a transmisso. 
Este momento dramtico da histria da televiso, referente ao assassnio do presidente, foi 
assim repetido continuamente at ficar bem retido na conscincia do pbli@co, como se 
se tratasse de uma imagem a acompanhar uma frase publicitria ou uma cena de um 
apreciado filme de srie.

O mundo faz a sua apario na casa, na sala de jantar, no quarto, de dormir e, sobretudo,, 
no quarto das crianas. A realida,de -e os seus slogans so,convidados que se podem 
comandar  vontade pelo simples rodar de um boto. No pas paradisaco que  a 
televiso, a realidade  muitas vezes refundida, pouco importa como. Pode-s-e repetir, 
estilizar e dramatizar a realidade

como se quiser. As video-cassettes aindamais facilitaro essas possibili-dades. No h, no 
entanto, hiptese de se lhe fugir. A televiso  umaespcie de produto malevel que se 
pode adaptar ao gosto e ouvido -de cada um e condimentar de violncia. Pode-se mastigar 
sem ter necessariamente de se digerir, pode-se estar ocupado sem ter de se fazer nada. A 
ateno encontra-se presa sem se concentrar em qualquer coisa de particular.  uma droga 
a que nos habituamos sem dar por isso.

O prazer dos adultos constitui material de ins,truo para as crianas. O professor 
electrnico, para pequenos e grandes, ensina s crianas como  o mundo e informa, 
simultaneamente, os adultos sobre o que sepassa. s vezes falta-se  escola mas nunca  -
emisso televisionada. A paciente baby-sitter, a estimada peda-

296                   AGRESSIVIDADE

9 Ya de todas as horas, tornou-Se a fonte de informao, explica-

publicidade e influncia do comportamento mais importante da nossa poca. O facto de se gostar de ver as 
crianas no implica, obrigatoriamente, que se goste de as ouvir. Hoje, porm, esse problema no existe. 
Elas ficam absorvidas pelo pequeno cran, como que petrificadas; no tm perguntas a fazer, nada a dizer 
nem a contestar. Para a criana o -pior castigo  a proibio de satisfazer esta suanecessidade que no lhe 
exige esforo e lhe d prazer. Os ltimos restos da autoridade dos pais em breve passaro a expressar-se 
mediante privao de uma emisso de ,televiso, privao que poderia, no entanto, forar a criana, 
actualmente condicionada pelos clichs televisivos, a desenvolver e experimentar os seus sentimentos 
prprios e autnomos.

Nos programas americanos televisionados, so transmitidos actos de violncia extremade 16,3 -em 16,3 
minutos, sem contar comos desenhos animados que lanam para o ar os nossos bonecos favoritos, que se 
tornam heris de verdadeiras orgias de crueldade. As apreciadas criaturinhas disparam unias sobre as 
outras e espezinham-se de dois em dois segundos. O rato, o gato, o crocodilo e o monstro so fulminados, 
destrudos, pulverizados, e tudo continua alegremente, como se nada se tivesse passado. A violncia, at 
quando levada a extremo, aparece como inofensiva e mesmo imbuda de um tom cmico. No se fazem 
comentrios ao sofrimento das vtimas e  tragdia da sua morte. As crianas, constantemente 
bombardeadas com estes exemplos, apegam-se-lhes com zelo e, mais tarde, viro a utilizar a violncia 
contra os seus adversrios humanos, a quem descero ao nvel de ces capitalistas ou -porcos comunistas, 
fazendo-os sair projectados dos avies e obtendo, assim, frequentemente uni prazer divinal.

Desde os cinco aos quinze anos a criana americana assiste  aniquilao total de cerca de 13 400 -pessoas. 
As emisses televisionadas e os programas cmicos convidam  imitao. Mobilizam e do forma ao modo 
infantil, permitindo ao receio cristalizar-se sob forma desse monstro inimigo que se poder aniquilar 
impunemente.

Os pais, fatigados e sobrecarregados de trabalho, dificilmente podem entrar em concorrncia com os 
progranias televisionados de diverso, sempre movimentados, excitantes e fantasistas. Deixaram-se de 
aprender as boas maneiras  mesa com a famlia para se passar, frequentemente,  -repetio do que se v 
na televiso.
O infatigvel convidado fantasma definir o prato favorito, a

AGRESSIVIDADE                             297

alimentao. mais s, o presente que se deseja e o vesturio que se deve usar. Ao exortarem aberta ou 
implicitamente a que os imitem, as personagens da televiso tornam-se modelos: esquemas de 
comportamento, de conflitos, de soluo de conflitos e de moral. No passam, frequentemente, de modelos 
ou manequins de violncia.

As revistas, os livros cmicos de quadradinhos e a televiso aju@am a passar o tempo e fazem-no com uma 
eficcia tanto maior quanto mais os roubos, os incndios e os assassnios -sem falar de sexo-so focados. O 
efeito de imitao  o mesmo, quer as cenas de violncia sejam focadas num estdio ou provenham da vida 
real, at mesmo nos casos em que esta diferena  -pouco, perceptvel. Graas a experincias em grupos 
de crianas de idades diferentes, Bandura e, mais tarde, Bei-kowi-tz puderam provar que a incitao  
violncia originada por exemplos de agresso  o mesmo, quer estas cenas de violncia, que se prestem  
imitao, ocorram na vida real, em filmes ou em bandas desenhadas.

O comportamento agressivo, tal como muitas outras formas de comportamento, tende a alargar-se e a 
generalizar-se. Uma vez aprendido e praticado ser aplicado e empregue noutras situaes. A afirmao  
vlida paratodas as crianas e amaioria dos adultos, e no s para os anormais, que, postos de antemo 
antI(@ exemplos de agresso, deram provas de uma acentuada predisposio em relao  mesma.

Nos nossos dias, a televiso americana produz, tanto nas crianas comonos jovens, -e ao longo das suas 
fases de desenvolvimento, um efeito semelhante ao de trs a cinco horas de interrogatrio feito pela 
polcia, torturas e lavagens ao crebro.

Os primeiros e mais importantes meios de comunicao foram os livros. No entanto, apenas se @tornarani 
acessveis a um meio bem especfico, delimitado por barreiras de linguagem e de educao. A maioria dos 
homens dessa poca eram e permaneceram analfabetos. Aps os livros, jornais, revistas e pujblicaes 
populares, surgiu a segunda v de meios de comunicao: o disco, que se pode conservar e ouvir sempre 
que se quiser, o filme mudo e a T. S. F.; logo a seguir, o filme sonoro, que integrou, simultaneamente, os 
sentidos da vista e do ouvido. A televiso, no entanto, ou seja a quarta vaga, conseguiu dirigir-se aos 
sentidos mais importantes, graas  interaco do som, da palavra e da imagem. Este meio de comunicao 
no tem necessidade, por

298                   AGRESSIVIDADE

outro lado, de um lugar especial, -no precisa de bilhete de entrada nem de preparao ou esforo 
individual, experincia ou formao preliminar. A representao multissensorial e fiel da realidade produz 
uma influ ncia enorme sobre grandes e pequenos, qualquer que seja o seu nvel de inteligncia e 
situao social.

Na ausncia deuma preparao activa atinge-se a passividade indiferente da escravatura, inferioridade e 
infantilidade em relao  vida. A televiso no representa o ponto de encontro da comunidade, mas o 
ponto comum -de evaso da famlia, considerada, enquanto pblico, em miniatura. Hmuito tempo que os 
gostos -do pblico so interpretados de uma tal maneira que o nvel das emisses assume uma feio 
primitiva e violenta.

A necessidade de conceitos e ideologias popularizadas  tanto maior quanto mais isolada seencontra a 
comunidade de espectadores e mais alienada ela .

Damesma maneira que os polcias no superam, na generalidade, o ambiente de brutalidade em que vivem 
e que pelo emprego da violncia combatem e, consequentemente, favorecem osmeios -de comunicao 
no so, na sua essncia, mais sanguinrios do que a necessidade -de crueldade existente no pblico, 
necessidade que tendem a satisfazer e, cGnsequen,te,mente, reforam. O -objectivo dos meios de 
comunicao deve, obrigatoriamente, ser o sucesso, tal como o da polcia  a ordem. Devem impor-se  
ateno do pblico pela livre concorrncia e uma competio impiedosa. Pouco lhes importa a violncia 
desde que, atravs da publicidade, a sua aco faa do pblico um consumidor atento. Este o motivo -da -
crena de que tal objectivo s poder ser alcanado por meio de uma vioJncia espectacular e excitante.

A violncia emprega o ardil da dialctica a fim de se fazer passar por legtima defesa de fins mais elevados. 
A violncia actua, pelo contrrio, nos meios de comunicao. como um artifcio para incitar o pblico a um 
maior consumo. A necessidade de consumo assim criada activa a produo dos bens necessrios e dos 
bens inteis, que, por seu lado, criam  sua volta necessidades ss -e outras pernici-osas com iguais 
pretenses a serem satisfeitas. Por meio de uma imagem simplista da violncia, a espiral do consumo e da 
produo (incrementada por estimulantes que no -trazem satisfao mas um estado de tenso orientado 
para novas necessidades) sobe sempre mais alto.

AGRESSIVIDADE                             299

A utilizao da violncia aumenta a necessidade e o consumo da violncia.

Em todo o lado os meios de comunicao influenciam decisivamente a conscincia geral e indirectamente o 
inconsciente, as

opinies, as atitudes e os actos do pblico. Graas  escolha, estilizao e reforo de excitaes, os meios 
de comunicao so jornalistas, cronistas e simultaneamente produtores de uma realidade representada e, 
em parte, criadapela sua retransmisso selectiva. Todo o juzo depende da informao a que se apoia. Os 
meios que transmitem ou seleccionam as notcias sotambm os mestres desta faculdade de julgamento que 
parecem servir.

Dado o poder de penetrao, at aqui inigualado, dos seus conceitos e sistemas de valores a que foi dado 
expresso, os meios de comunicao so no Leste e no Ocidente, quer o queiram ou no, importantes 
instrumentos de poder e factores polticos extreniamente influentes. As nossas investigaes -relativas  
influncia dos meios de comunicao no aumento gradual da violncia demonstraram empiricamente, tal 
como outros estudos, que a faculdade decisiva no reside nas exigncias dos mesmos em si, mas no seu 
contrle e conduta.

O contrle ilimitado dos meios de comunicao  consequncia e causa da formao de Estados totalitrios. 
O Poder no poderia permitir a cedncia a outros do contrle dos esquemas de valo-rem que assenta o seu 
monoplio de poder. O sistema de livre concorrncia ainda , no entanto, a melhor proteco do 
consumidor e a garantia de qualidade das predues. A sobrevivnciadas democracias poderia depender 
deste facto:  possvel gerar o instrumento de poder -e domnio dos meios de comunicao de uma forma 
objectiva, profissional e independente, pondo  prova a imaginao? Os meios de comunicao utilizados 
para propaganda ou diverses acabam por convi-dar ou incitar  utilizao da violncia. Os detentores do 
Poder, e os que o ambicionam, encontram-se pouco predispostos a reconhec-lo.

, porm, precisamente a faltade reconhecimento deste facto

e a indiferena face s suas consequncias o que impede os meios de comunicao de ajudar a maioria da 
comunidade a atingir decises respons@v@is e solues pacficas. Nos Estados Unidos, as firmas 
comerciais financiam quase todos os programas e interrompem-nos continuamente mediante sloganse 
imagens publicicitrias.

Torna-se muitas vezes difcil estabelecer a distino entre o

300                   AGRESSIVIDADE

interidio e a iprpria emisso. Quando o -tom de voz do locutor soa a veracidade trata-se, com certeza, de 
um annciopublicitro e no de notcias. Os partidos polticos pedem uniformidade quanto  organizao 
dos programas de televiso. Ronald Reagan, governadordo maior estado americano, a Califrnia, foi 
grandemente ajudado na sua campanha graas  sua carreira de actor, que o tornou conhecido do pblico 
no papel de heri de inmeros westems. O pblico -que assistiu aos filmes habituou-se  ideia de que o 
prprio Ronald Reagan sabia seguramente distinguir o bem do mal. Nas sesses de filmes antigos pode 
ouvir-se Ronald Reagan, jovem e entusiasta defensor da ordem e da paz, expressar as.suas. opinies e 
juzos de valor do realizador dos seus filmes, opinies que o governador, ainda apesar dos anos, adopta 
nos discursos polticos como os seus mais antigos princpios pessGais. O Senado dos Estados Unidos , a 
seguir  Presidnia, o rgo executivo mais importante do mais poderoso pas do mundo. O senador da 
Califrnia.G. Murphy, que representou o seu estado no Senado durante seis anos, tornara-se conhecido 
do seu pblico, enquanto actore amador de opereta. Em 1970, foi substitudo pelo filho do antigo campeo 
mundial Turney. S as vedetas de cinema (e naturalmente tambm s os presidentes, vice-presidentes e 
alguns seriadores eminentes, bem como os astronautas e desportistas famosos) ipossuam, graas aos -meios 
de comunicaao, uma irnagern de renome que deve ser o primeiro objectivo a conseguir pelos aspirantes 
a presidentes, vice-presidentes ou senadores. Para l deste grupo, quase ningum tem esperana de ser 
escolhido para urna funo elevada na dernocracia telecomandada pela televiso.

Ao, que parece, foi a negligncia de um barbeiro ou de um caracterizador o que atrasou oito anos a 
entrada de Nixon na Casa Branca. Quando do debate transmitido, em 1,960, pela televiso, John F. 
Kennedy, c um aspecto radioso e impecavel-mente barbeado, conseguiu triunfar sobre o rival, que 
ganhou descrdito devido  barba demasiado visvel. O presidente Nixon, admirador e entusiasta de 
westems (e de futebol americano), ordenou, em 1970, uma aventurosa tentativa de salvamento dos 
,prisioneiros de guerra no Vietriame do Norte. H muito que os prisioneiros tinharn sido evacuados; os 
libertadores regressaram, como tinham i-do, sem se ter verificado qualquer baixa. A maioria, noutros casos 
silenciosa, celebrou o acontecimento qualificando-o de grande sucesso e aquisio de prestgio. Uma vez 
mais,

A G R E S S I V I D A D E                  301

o esprito herico triunfara sobre a -matria. A demonstrao no podia deixar de causar efeito, apesar de 
a astcia do adversrio e a insuficincia de espies ter itupedido um sucesso palpvel.

A realidade televisionada ou filmada assenta, assim, em lich@s que os meios de comunicaotransformam 
em realidade. Os meios de comunicao criam, na verdade e definitivamente, a realidade que dizem 
representar.

Gr@as  voracidade, quase incomensurvel, dos meios de comunicao que reina nos Estados Unidos, 
existem mais de 800 cadeias televisivas, de entre as quais algumas centenas transmitenide noite e de dia 
ininterruptamente, e a necessidade de sensaes ultrapassa, de longe, a oferta. A violncia  o meio menos 
,dis,pendioso para se obter e estimular a ateno, da mdia dos leitores, auditores e telespectadores, mesmo 
que no sejam cultos, e para proporcionar tenso, surpresa e choque ao seu esprito fa-tigado, sedento 
dedistraco. A -crueldade e as situaes de violncia leva-da a extremo so excitantes e provocam adeso 
ou repulsa.

juntamente com todos os outros,meios decomercializao, as cenas de violncia so tambm justifi,cadas 
por questes de ordem comercial que tm por -objectivo o aumento, da venda. Reforam-sle  estmulos 
pticos e acsticos por sensaes, j que eles so e continuam a ser o primeirotrunfo, de venda dos meios 
de informao. Devem ser procurados, encontrados e muitas vezes inventados, seja por que preo for. O 
aumento das sensaes significa sempre, porm, um reforo de violncia e um aumento do nvel de 
agresso. Sempre com um mesmo tom de autenticidade, a televiso encurta distncias e transforma o irreal 
em real, tornando-o,mesmo um pouco mais -real do que a realidade. A representao filmada dos 
acontecimentos da ffuerra do Vietname  prefervel s reportagens desconcertantes e fragmentadas -
realizadas no. prprio local onde se desenvoilveram. os verdadeiros acontecimentos desta guerra. Nada 
parece mais prximo da realidade do que a -realidade transformada,  qual uma dramatizao polarizante, 
uma idealizao e efeitos espectaculares conseguiram trazer uma melhoria. A complexa e fragmentada 
confuso da realidade , ipois, simplificada e moldada em formas estereotipadas fceis de compreender, 
concretas e manejveis. Os esquemas simples produzidos, deste modo, por estes mecanismos complexos 
tm por objectivo uma viso clara das coisas e tornam possveis juzos de valor manifestos. A realidade 
deve esforar-se por se encontrar de acordo com os vulgares clichs adoptados

302                   AGRESSIVIDADE

pelos meios informativos, o que nem sempre se consegue. Algumas vezes a realidade no  provada 
atravs da imagem: os turstas que no vieram para verificar se o filme que viram  autn- ,ti,co, mas para 
verificar a verosimilhana com a realidade, quer dizer, saber se ela est de acordo com o filme, encontram 
em Roma, tal como prometido, a Fonte de Trvi onde se deitam as moedas; debalde procuram, no entanto, 
a fronteira entre SaIzburgo e a Sua (cenrio das ltimas cenas triunfais -da epopeia da famlia Trapp, 
epopeia que suscita inmeras viagens ao estrangeiro). Os autnticos castelos s adquirem vida quando se 
reconhecem como, dcor de um filme. As relaes entre a realidade e a sua representao, entre o ser e o 
parecer, tornaram-se reversveis graas `is possibilidades ilimitadas do jogo da aparncia. Graas ao 
aperfeioamento tcnico, a verosimilhana consegue ser -mais real do que a prpria realidade.

Numa primeira fase de inocncia, os meios de comunicao focavam acon teci mentos importantes e 
personalidades notrias. Hoje em -dia pode-se criar o, acontecimento importante e j no  necessrio 
esperar-se pelo seu aparecimento espontneo. Engendra-se o pseudo-acontecimento com vista  sua 
verificao. No h necessidade de -Converter um castelo em cenrio, quando existe possibilidade de 
utilizar c@omo. castelo um cenrio fabricado, menos dispendioso, e -mais confortvel. Graas s 
disposies mais convenientes, os acontecimentos apresentados podem e devem camuflar a sua inteno 
ou.a sua deformao. So impermeveis s contrariedades e aos irritantes acasos da vida. No estdio h 
sempre a escolher entre um sol radioso ou o sopro violento de um furaco. Os ps eudo-acontecimen tos 
explicam e relegam para -segundo plano -os acontecimentos reais, que so mais dramticos, explcitos e ex-
pressivos, e tornam-se, eles mesmos, a prpria realidade. O original regula-se pela sua capacidade de 
reproduo ou reconverso. No, caso de muitos acontecimentos de antemo organiza-dos para serem 
transmitidos, h mais jornalistas do que participantes entre a assistncia. Muitas das personalidades 
domundo da nformao apenas se preocupam com a fama. Os ps eudo-acon tecim,en tos destinados  
reproduo da realidade so testemunho de outros pseudo-acontecimentos, e des,te culto da realidade 
irreal desprende-se, finalmente, a subcultura da irrealidade real.

As imagens ideais das epopeias, romances do, Far West e do amor vitorioso de dois seres belos e leais 
fazem surgir um mundo

AGRESSIVIDADE                             303

so e intacto oupelo menos sugerem que se pode chegar a qualquer destes dois estados por meio de 
virtudes simples ou processos acessveis a todos. Com a ajuda de uma interpretao realista foge-se da 
complexa realidade -do mundo de hoje no sentido de uma iluso simples, inocente, harmoniosa e de um 
passado desaparecido. O heri forte, duroe frio age de forma deidida, independente e autnoma;  G 
homem violento e primitivo sem escrpulos nem barreiras ou ainda o grupo ou Estado dotado dessas 
mesmas qualidades e que se encontram sempre plenamente justificados. O esteretipo que manipula e  
manipulado constitui j uma violncia  realidade quando simula situaes de equilbrio puramente idlicas.

Mesmo nos momentos em que no aparece visvel em plena luz do dia, a violncia  o misterioso 
mensageiro dos meios de comunicao. Ao legitimar-se, a violnciatorna-se virulenta, contagiosa e 
irresistvel. A boa causa ganha sempre. O heri ganha; o sucesso justifica todas as vitrias e faz do 
vencedor um heri.
O vencedor torna-se e permanece aquele que utiliza a violncia primitiva -e sem escrpulos antes dos 
outros e inais fortemente do que eles. Quem triunfa  o mais rpido a desembainhar a espada ou a puxar o 
gatilho. O fim justifica os meios e, por outro Ia-do, a ulterior possibilidade de justificao pelo. sucesso 
poder servir de afirmao -de inocncia absoluta e deforma toda a apreciao de realidade e tipos de 
juzos de valor que sobre ele assentam. E, finalmente, se todos os problemas importantes, desde a poltica 
ao amor, s se conseguem resolver pela violncia,  to realista como vantajoso fazer actuar a violncia de 
forma eficaz, quer dizer, pronta e maciamente. . Porque -esperar que o rival real ou potencial (portanto, 
pra- ,ticamente, todas as pessoas) adquira fora e se torne desconfiado? Mais vale atacar imediatamente, 
antes que o rival se possa tornar perigo@o. A agresso primitiva e a represso de todo o embrio de 
resistncia aparecem, assim, como uma leidaprudncia e da organizao. A guerra-relmpago preventiva 
, em caso de sucesso, a soluo mais humana, porque tudo termina rapidamente.

Quanto  -necessidade -de imagens por parte do espectador, realiza-se a -escolha, corta-se, redige-se e 
dramatiza-se segundo os preconceitos e imagens j aceites. As novas imagens reforam e do -mais firmeza 
s antigas e criam o ritual do hbito com a ajuda da familiaridade. Na situao polarizada de uma 
concretizao dramtica, o aumento da violncia em breve se tornar

304                   AGRESSIVIDADE

em violenta soluo do conflito, a nica considerada com valor, preconizada, glorificada e capaz de tornar 
desnecessrias as outras alternativas de violncia (discusses, conferncias e conflitos). Entre os deveres 
sociais que urgentemente se impem, surge na ,primeira linha o desenvolvimento do contrMe eficaz dos 
prprios rgos de contrle e das autoridades de contrle dos meios de comunicao. A fim de que 
osprocessos sociais de apreciao no degenerem numa afirmao estereotipada do poder e em certeza 
da legitimidade, as possibilidades de manipulao dos meios de comunicao no devem ser contestadas 
nem dissimuladas, mas torna-se necessrio analisar e determinar as condies,mais apropriadas p@ra que 
os meios de comunicao ponham em evidncia e concretizem os problemas sociais. Os espectadores e 
auditores, que, pela alienao da sua prpria vontade, contribuem atravs da sua passividadepara a aj@ada 
dos meios de comunica o, devem tornar-se particpantes activos e responsveis voluntrios pelos 
acontecimentos sociais a fim de que os peritos de influncia nos @ncios de comunicao no sejam os 
nicos a determinar as nossas imagens e anossa realidade como uma nova classe de mandarins de 
informao atravs da imagem. As manobras e mecanismos que desencadeiam a violncia no podem ser 
postos em movimento sem o exame pormenorizado e vasto conhecimento dos processos de simplificao, 
polarizao e dramatizao e sem a sua definio exacta. A aco de voltar a rotular a realidade dos factos 
significa a preparao e o comeo de uma sociedade livre que no se deixar mais conduzir a admirar, 
invejar ou preconizar a violncia e utiliz-la com crescente brutalidade.

DISPOSIES E ESQUEMAS QUE PERMITEM EVITAR A VIOLNCIA

Insttues e transformao da conscinca

"N
1k4'J

s indivduos so conhecidos e cunhados ipelas instituies que criaram. Os indivduos devem abandonar 
uma parte da sua autonomia  colectividade e viver em sociedade a fim de se poderem assenhorear, 
verdadeiramente, desta autonomia. A exigncia e o desejo de liberdade pessoal ultrapassam as instituies, 
ainda que s &e -possam realizar nas e atravs das instituies. O homem  mais do que aquilo que pode 
realizar. Graas ao contrle de agresso atravs das instituies, que a princpio foram as suas prprias, 
pode atingir r@ais do que seria capaz sozinho. Graas a uma aco comunitria, consegue erguer o que a 
ele, como indivduo, lhe estava interdito.

Os sistemas culturais so capazes de realizar o que o indivduo s pode esperar ou desejar. Todo o que 
desdenha laos de solidariedade e se mantm numa -posio incondicional de outside ter de se contentar 
com prazeres retricos ou satisf@s imaginativas.  a sua relativa vivncia e o desejo de continuidade 
que fazem das instituies rgos e instrumentos de transformao e mudana radical. Uma vez que toda a 
organiza o social imaginvel deve ser organizada e administrada para poder durar, o problema relativo  
existncia ou no existncia da organizao e da administrao no est bem posto. Enquanto existirem 
homens devero existir instituies e administraes.
O problema decisivo, o problema a atacar, reside no que elas realizam, no que controlam e nos objectivos 
que~se devem propor. O oposto do plano casualno  a organizao, mas a arbitrariedade. As instituies 
aparentemente abandonadas a elas mesmas, e que nenhuma autoridade social controla, no so, por

306                    AGRESSIVIDADE

isso, mais livres, mas apenas desfrutam de menos entraves ao seu egosmo, que usam sem peias dentro do 
seu poder ilimitado. Tal como as administraes pblicas, as administraes privadas das grandes firmas 
do. provas da mesma tendncia para os argumentos de uma segurana sem risco, ausncia de 
responsabilidade que desumaniza e irracionalidade de objectivos que inclui o aperfeioamento de meios 
racionais.

Dado que o to-do da sociedade no se fia em si mesmo para organizar um futuro incerto e, por assim dizer, 
absolutamente imprevisvel, so os generais, os industriais e polticos que, nos seus campos respectivos, se 
ocupam dos mesmos. Por detrs da aparente ausncia de plano, oculta-se um princpio de organizao 
estrat gica que, no establishment, produz a unificao da lite, escolhida dos homens de poder e 
organizadores, condenando -todos os outros  mera qualidade de massa populacional, desorganizao e 
incerteza conscientemente provocada. A manipulao elogia e dispensa os benefcios da obedincia cega 
de que tem necessidade para poder dirigir com perspiccia. Ela acusa e qualifica de agressivo todo o 
indivduo que d o verdadeiro nonie  agresso do lucro e da represso forada e apresenta a insensatez 
dos interesses privados como fundamento nico do bem pblico.

A tomada de conscincia destes factos no traz ainda qualquer modificao. Frente ao autoconhecimento e 
auto,transformao voluntria, d-se s instituies tanto privadas como pblicas um carcter institucional. O 
estado actual e o futuro do conhecimentode novos mtodos de contrle apenas define o alargamento da 
lista das possibilidades de escolha, -mas no a escolhe de, que efectivamente se far. O facto de as 
disposies de uma sociedade pouco desenvolvida queengendraram o medo, a inveja e a avidez se 
poderem ter tornado suprfluas e inteis no impede que a sociedade continue a existir e a agir. O facto de 
as condies tcnicas e psicolgicas de um trabalho comum e humano serem hoje uma presena (porque 
foram cria-das) em nada prova que a cooperao e a solidariedade existam tambm e se encontrem 
verdadeiramente institucionaliza-das. As organizaes com pouca estabilidade utilizam, pelo contrrio, um 
poder ilimitado de agresso, at aqui contido, -para proteger as antigas estruturas niediante renovaes e 
fachadas e, igualmente, manter objectivos decadentes, rotulando-os de novo.

Por outro Ia-do, desejos romnticos e simplistas pretendem

AGRESSIVIDADE                             307

conseguir, hoje ou amanh,,transpor o domnio danecessidade e acabar por atingir a liberdade. Os 
establishments rivalizam em ideias novas para afinal redundarem numa ausncia de ideias. Representam 
convincentemente as vantagens da ausncia de L,,>nvic''>- Servindo-se de uma propaganda delirante e 
de novas motivaes bsicas, vendem esquemas terrivelmente simplificados de ausncia de imaginao. Em 
primeiro lugar a novidade e a renovaono seriam necessrias; em segundo no seriam possveis; em 
terceiro no precisariam de qualquer esforo, pois, fosse como fosse, seguiriam automaticamente o seu 
caminho: pas- sado muito, tempo acabariam, no entanto, por ser introduzidos.

Continuar   como dantes  o lema; era condio. necessria para qualquer exame de realidade.

Em alguns jogos, como porexemplo o, pquer e o brdege, h um grupo de parceiros -que ganha e outro 
que perde. No fim do jogo nada resta e os clculos acabam em zero.  o. jogo em que os ganhos e perdas 
se equilibram. Existem, no entanto, casos em que todosperdem, como por exemplo no da bomba atmica, e 
situaes em que todos ganham, como quando s.e trata de diferentes tcnicas de financiamento, 
descobertas e invenes.

As -reaces sociais actuais seguem o -esquema rgido do, jogo em que os ganhos de um lado igualam as 
perdas do outro. Graas ao imperativo de anulao da soma, o constrangimento perpetua-se. O aumento da 
influncia da sociologia e psicologia, quanto aos sacrifcios sociais de importncia mnima, pouco significa 
para a renovao cultural, que s pode ser realizada pelos poderosos. As suas -decises, que so, na 
verdade, importantes, necessitam de estudos e de influncia. Devem-se-lhes apresentar claramente as 
vantagens de novas formas de organizao que no sejam cointrrias aos seus interesses, uma vez que 
todos ganharo, com o, assunto. A sua conscincia deve estar preparada para as transformaes 
consequentes. A concentrao da ateno nas tendncias marginais das subculturas e contraculturas 
atrasar a nossa percepo de que a sobrevivncia comum depende da direco, do condicionamento e da 
tomada de valor da corrente principal de cultura.

Toda e qualquer reflexo sobre os fenmenos sociais  j em si um fenmeno social. Refere-se, de forma 
manifesta ou atenta, ao estudo dos problemas essenciais. A procura de Deus e de uma responsabilidade 
sobre-humana -que podem servir de base  lgica humana- colocada frente  tcnica e a uni

308                   AGRESSIVIDADE

progresso to fascinante como aterrorizador. O progresso , em si, uma fora elementar impessoal e 
um ponto incontestvel.
O primeiro mandamento do culto do progresso (poderia expressar-se assim:

O homem deve adaptar-se s mudanas rpidas que provoca e que dele se servem; deve ser capaz de 
aprender, embora sem experincia; deve ser dinmico e fazer face s tradies.

Segundo mandamento: respeita o progresso para seres feliz na Terra, aceita as consequncias, ignora as 
causas, entra no jogo deste crculo vicioso que apresenta a tcnica, a propriedade, o poder e o consumo 
simultaneamente como condies -e objectivos.

Terceiro mandamento: no organizes a no ser o que -outros j organizara!m,. pensa unicamente naquilo 
que os outros j peinsaram e faz unicamente perguntas a que os outros j responderam.

Quarto mandamento: se seguires os trs primeiros, vers que basta designar as coisas com nomes 
diferentes para transformar as relaes entre elas existentes. A estrutura egosta e tecnocrata do mundo 
actual ser assim perpetuada dentro de uma nova tTanscendncia. Ser dada uma maior nfase dos 
mtodos democrticos, mas o objectivo em vista residir em mtodosno democrticos; falar-se- em 
generalizar a responsabilidade, mas os chefes ficar(> isentos da verdadeira responsabilidade.

Quando todos so responsveis, ningum o  verdadeiramente, sobretudo os que esto realmente de 
posse das responsabilidades reais e queno s tiram proveito das transformaes rpidas, mas tambm as 
organizam e as monopolizam, se bem que fazendo-o a coberto do anonimato. A transformao das 
burocracias hierrquicas em ado-cracias, orientadoras das diversas aces a fim de as democratizar, 
significa no dar um passo para alterao do que  importante e continuar exactamente na senda dos 
mesmos objectivos do que as burocracias. A existncia de centenas, em vez de -dezenas, de tipos 
diferentes de automveis no torna a escolha mais rica quando todos chamam a ateno devida a 
diferenas como cromados ou linhas agressivas, tal  o caso do Jaguar, Mustang, Cobra, Cugar, etc., e 
quando nenhum apresenta verdadeiras garantias de segurana.

A concorrncia entre bens de consumo do mesmo valor, embalados e propagandeados de diferentes 
maneiras (mas sempre espalhafatosas) a fim de acentuar diferenas que mal se distinguem, tem como 
objectivo manter a concorrncia. O zelo com-

AGRESSIVIDADE                              309

petitiv,o surgire especialmente quando acordos secretos o, tomam ilusrio e despojam a concoTrncia de 
toda a realidade. A qualidade das mercadorias  afectada pelo custo da embalagem e da competio.  o 
cliente que ir pagar o preo do contedo. A multiplicidade da oferta no aumenta as suas possibilidades de 
escolha nem garantias de qualidade, mas agrava simplesmente a sua falta de orientao e a resignao com 
que acaba por se abandonar  estupidez da sociedade de consumo.

Da mesma forma que  preciso recomendar ao comprador que se mantenha numa posio de defesa, s.e 
bem que o contnuo matraquear dos estmulos e o frenesim dapropaganda impeam de que assim seja 
realmente, todos temos como misso, no que se refere  organizao do futuro, desenvolver o -esprito de 
tolerncia democrtica e trabalho comum, bem como pr de lado o que (no passado fez apelo ao dio e  
violncia.  a este :ns, ou seja a esta responsabilidade calectiva, que s.e ir pedir precisamente o que os 
detentores do poder no esto dispostos a fazer: uma nova maneira de pensar, de sentir, uma nova forma 
de reconhecer a nossa agresso individual e, da,retirar as consequncias renovadoras que se impem. 
Este ns, que transcende o indivduo,. expressa a solidariedade de uma sociedade justa que ter 
primeiramente de surgir e que sofrer demoras ou impedimentos, caso se imagine que se encontra j 
estruturada. Os establishments do capitalismo e do comunismo, da democracia e do fascismo, legitimam, 
tanto uns como os outros, a desigualdade e a injustia que impem atravs da necessidade da violncia e 
todos se referem s suas boas intenes.  utilizao niundi,@tl dos Mesmos mtodos de justificao 
inerentes aos sistemas correspondem o recurso mundial des-ta hipocrisia e a inquietaG,mundia,1 ante o 
emprego impiedoso da brutalidade e da violncia.

No mundo moderno pode-se fugir ao peso das instituies pelo pensamento de que a liberdade est 
prxima devido ao, avano do -progresso ou ainda buscando refgio no idlio tranquilo do jardim que se 
cultiva. O tdio geral que impera em todos os gneros de instituies no permite a sua reforma e 
reestruturao de princpios fundamentais que engendraro os desejos humanos de qualidade, liberdade e 
justia. Uma simples tenta,tiva de reformas fundamentais profundas e vastas desses sistemas pressupe, 
todavia, uma verdadeira discusso e um enfrentar de potncias e detentores dopoder que,pelo menos at 
aqui, em -na-da deram provas de que desejam uma partilha justa e livre-

310                   AGRESSIVIDADE

-mente aceite do poder e propriedade. As propostas Tevelam-se como um todo de palavras vazias quando 
dizem fazer apelo a uma reforma, mas influenciam afinal os poderes ou potncias no sentido de uma 
oposio a reformas fundamentais. A insurreio contra coisas como tcnica, estado de coisas, estado 
!corporativo., sistema, optimismo, ,pessimismo, violncia, noss.o-colectivo falha o alvo porque 
se verifica contra a massa annima. Amensagem circula,  avidamente consumida, mas nunca atinge os 
destinatrios.

Apesar -de todas as semelhanas entre os mtodos dos sistemas polticos existentes, o grau de liberdade 
que toleram  fundamentalmente -diferente. Este grau mede-se de acordo com as possibilidades de neles 
instaurar reformas fundamentais sem utilizao de violncia. Naqueles em que no se pode propor nem 
tentar reformas, reina a escravido do -terror ou do desespero, que arrasta consigo a inarca da violncia.

A dissimulao da realidade sob uma mscara de superficialidade significa impedir a transformao de 
mentalidade que resolveria os problemas da nossa sociedade desenraizada.

Alguns acham que a cura seria to simples como o diagnstico -da situao que se pretende sarar. A tudo o 
que se refere ao Estado Corporativo seria aposto rtulo de negativo e funesto: constrangimento, disciplina, 
formao, intelecto, poder, organizao, sujeio, e represso. O pesadelo desapareceria tocado pela 
varinha mgica da conscincia esclarecida (elevada ao estado de conscincia radical fundamental a que 
Carlos Reich chama Conscincia 3). A acreditar nestas representaes mticas, os homens conseguiriam 
chegar ao estado de pureza a-ntigo pertenc,ente  era pastoral se conseguissem ser eles mesmos. Seriam 
calmos, afveis eprontos a ajudar o prximo, no com um interesse determinado ou um objectivo em vista, 
mas pelo nico facto de existirem. Cada um ser'ia e sentir-se-ia igual aos outros, cada um faria o que mais se 
adequasse s suas convenincias sem se forar nem aosoutros. Nada pretenderia provar, limitando-se a 
usufruir o que tinha  disposio e sentindo-se feliz por viver. A agresso e a violncia desapareceriam e 
s restaria o amor. Seria o comeo do :paraso, sem vtimas, sem sacrifcios, sem lutas se cada um, no seu 
ntimo, pensasse -com justia e se sentisse justo, alargando e transformando assim a sua conscincia. Com 
risco de um cruel desmentido pela realidade, uma firme iluso mantm-se inquebrantvel.

AGRESSIVIDADE                             311

Que  feito, ipois, destas situaes cujo desaparecimento a nova conscincia fizera antever? No h 
guerra hoje em dia? Nem instituies? Nem -corporaes? Acabaram os guetos e as exploraes? Ps-se 
termo  desumanizao da tcnica? H menos nevroses, psicoses, instintos perversos ou drogas? Acabou-
se a brutalidade, a crueldade intil e a violncia? Chegmos  era de uma fase a-diaintada da conscincia? 
Evitam-se os indivduos desagradveis por simples razes estticas e para que nenhum tom discordante da 
realidade possa afectar o idlio da conscincia pblica? Ou no ser antes verdade que, por uma 
concretizao dramtica simplificada, se faz um inimigo, de todo o sistema (sob as vagas designaes da 
tcnica, mquina, intelecto ) a fim de no se ter de perseguir o verdadeiro inimigo?

Os establishments retiraram a alegria e a msica. da juventude, imitaram-lhe as modas e integraram os 
valores morais na -retrica de domingo a fim de poderem perpetuar o antigo sistema pela absoro do 
novo. Ora, a transformao da conscincia individual e colectiva , de facto, um problema da mais elevada 
importncia s.e no nos quisermos encontrar por detrs de fa-chadas retocadas -e dissimuladas. Como, para 
qu, quando, em que medida e segundo que critrios, por que pessoas e em que diweco se deve 
orientar a conscincia -para que um novo tipo de homem mais humano possa ser capaz de distinguir entre 
as necessidades autnticas e as falsas, as obrigaes necessrias e as suprfluas?  a afirmao 
daexistncia de uma nova conscincia que conseguiu triunfar a causadora de que tal acontecimento no se 
verifique. Dizer que j somos livres significa substituir e impedir a verdadeira libertao.

As opinies relativas aos fenmenos sociais, bem como as que, por sua vez, se lhes referem, desempenham 
um papel s,ocio-psicolgico importante. O aumento de um estado de esprito perigoso  revelado pelo facto 
de que as explicaes si@mplifi@cadas de acontecimentos complexos, que prometem solues sem 
necessida-de de esforo, sacrifcio ou reflexo, bem como as orgias de crueldade e os excessos de 
sentimentalismo, possam, precisamente nestes ltimos tempos, obter um sucesso incontestvel junto do 
pblico. A pobreza espiritual dentro de uma abundncia material e o desespero da impotncia do mais 
valor ao consolo do que ao remdio e fazem maior apelo s profisses de f do que s verdades e  
violncia mais do que s reformas,

312                 AGRESSIVIDADE

ToTna-se imperiosa uma modificao, de conscincia num futuro -prximo.  preciso, de qualquer forma, 
efectuar esta transformao, paralelamente com modificaes concretas a fim de no se sacrificar, em 
benefcio de situaes simplistas, o resto de humanismo ainda no atingido pela brutalidade.

A dtadura dos aprendizes de fetcero

Partimos da hiptese de que a histria do homem civilizado no conta dez mil anos, mas apenas 
cinquenta:.o Homo sapiens teria passado trinta e nove anos nas cavernas, vivendo da caa e da pesca. H -
trs anos atrs, iniciou-se na agricultura e na domesticao, dos animais e h dois anos estabeleceu as 
grandes religies Qudasmo, budismo, cristianismo, et.c.). H quinze meses fez surgir a imprensa, h dez 
dias descobriu a electricidade, ontem de manh inventou o avio,  tarde a rdio, esta manh a televiso e 
depois da leitura deste pargrafo a bomba atmica. Nos ltimos segundos que passaram conseguiu decifrar 
e analisar o cdigo, incrivelmente simples e estranhamente complexo, da gentica.

Toda a -nossa experincia ensinou-nos que tudo o que  possvel ser realizado ou pelo -menos tentado. 
A afirmao de que nos contentamos em possuir importantes conhecimentos em lugar de os ufilizar 
significapregar a prudncia, mas naturai que no nos ouam. A desintegrao atmica, a inveno e 
fabrico de robots, as possibilidades de influenciar as massas em grande escala atravs da droga, dos 
estimulantes qumicos que incitam  violncia ou dos tranquilizadores, bem como o decifrar do c& digo 
gentico so novidades adequadas a urna transformao e remodelao da realidade. Todos estes factores 
representam tentaes demasiado fortes que tornam natural a anteviso e o receio de que nos prximos 
minutos da histria da humanidade os novos conhecimentos sejam utilizados com vista a uma manipulao 
radical - at aqui considerada impossvel - do ambiente, patrimnio hereditrio e elementos qumicos que 
fazem parte da constituio humana.

As inovaes tcnicas e cientficas so as mais poderosas foras causadoras de transformaes sociais. A 
tcnica desenvolve-se de forma perfeitamente alucinante. As estruturas do organismo individual, bem 
como as formas de organizao social, retardam o desenvolviniento,tcnico e no se encontram 
preparadas para a

AGRESSIVIDADE                            313

rapidez da transformao; abaladas por este choque do futuro, reagem com apatia ou desconfiana. A 
vincada -rapidez de descrivolvim-ento submete as antigas instituies e valores a uma difcil prova de 
desequilbrio que engendra novos receios. Estes no provm da impotncia humana mas da preocupao 
de saber como o homem utilizar e explorar as suas novas possibilidades e os seus novos meios de poder. 
O genial poder inventivo do homem h muito. que ultrapassou o seu potencial intelectual, espiritual e 
psquico e a sua aptido de fazer uma ideia exacta quanto ao seu poder e responsabilidade da prpria. O 
homem no tem aptido para se conseguir salvar a si -mesmo. j no tem domnio intelectual nem emocional 
sobre as suas possibilidades de acoe transformao domundo exterior. Os constantes progressos 
tcnicos e cientficos, bem como as modificaes do ambiente resultantes dos me&mos e que, por seu lado, 
transformam o indivduo mediante a introjeco e outros processos bioculturais, provocam contradies 
entre omundo florido da experincia e o mundo rgido das sensaes e sentimentos, rgido porque  
embotado e fechado na sua ideologia.

O receio ante os seres semelhantes ao homem que ele mesmo fabrica e so capazes de se lhe subtrarem 
ao contrle  muito mais antigo do que os computadores e robots modernos. Ao que parece foi Pigmaleo, 
o nico que no se assustou ao ver a esttua adquirir vida pelo seu amor.

Creta era vigiada por @cale        afastava ou matava todos os invasores. Os Airgonautas    =ran por sair 
vencedores porque conseguiram descobrir o segredo. Como acontecia com o calcanhar de Aquiles, 
tambm Tales tinha um ponto vulnervel e humano. Inspirando-sena descoberta de Galvani, segundo a 
qual a coxa da r se contraa quando lhe era aplicado um estmulo elctrico, a segunda mulher de Sh-elley 
escreveu, em 1818, a sua clebre histria de terror Frankenstein. Por meio de correntes elctricas 
consegue insuflar-se vida a um monstro feito de partes de cadveres humanos. O monstro comea 
imediatamente a aterrorizar os seres humanos que o criaram.

Os rabinos da Idade Mdia dotaram os seus seres de argila com um poder de conhecimento do nome de 
Deus e, a partir desse momento, ficaram indefesos ante o -terrvel Golem. Segundo Aristteles, s se 
poder esperar uma transformao das relaes mestres-escravos quando as esttuas de Ddalo, puderem 
desempenhar obedientemente os trabalhos do homem.

314                      AGRESSIVIDADE

Na fico literria do escritor checo Karel Capek os robotS (homens fabricados por homens) libertaro os 
seus criadores do :txabalho avltante e arranc-los-o a todos os esforos e dificuldades. Na obra 
Adinirvel Mundo Novo, de Aldous HuxIey, os idiotas, a quem cabem trabalhos especializados, so 
fabricados em srie e, deste modo, o esprito crtico ou possibilidade de revolta e toda a agresso livre dos 
novos seres so eliminados logo a partir do processo de fabrico. Os robots no podem, tal como at aqui 
todos -os aprendizes de feiticeiro e escravos emancipados, ameaar ou destruir o mestre que os criou.

Hoje em dia o problema j no  simplesmente de natureza literria e (psicolgica. Devido aos progressos, 
apresentados pela mecanizao, as mquinas de pensar e os computadores aliviam o homem -de um 
nmero, considervel de trabalhos fatigantes e u,ltrapassam-no bastante quanto a rapidez, inteligncia e 
memria. Por outro lado, no entanto, computadores mais complicados chegam, mediante milhes de 
multiplicaes, a simples decises binrias de sim-no%.  esta mesma simplicidade que caracterza o 
mecanisino de polariza o, que incita e possibifita a agresso. Tecnicamente j  possvel fabricar 
computadores que imitam a complexidade docrebro humano. Tambm , igualmente, possvel -construir 
sries -de computadores que se preparam para, por sua vez, organizar outros, etc. Hoje em dia at mesmo 
se pod@ confiar fa-cilmente aos -computadores conflitos de sentimentos simulados (ou -de sentimentos 
reais?). Por meio de instrues contraditrias podem-se comandar ambivalncias e simular o complexo -de 
dipo (ou fabric-lo realmente). Tambm est, ao que parece, iminente o fabrico de computadores 
preparados para dirigirem outros computadores mais complicados do que eles.

 uma certeza, no entanto, o facto de que os probleniastcnicos mais complicados no dependem de um 
regulamento tcnico, mas moral.

Tememos o computador e o seu ritmo desenfreado de fabrico

ou as conse-quncias da manipulao do patrimnio hereditrio do homem, que poderiam escapar ao con   
        trdJe dos homens. Para falar verdade, estivemos e estamos inclinados a abandonar  sabedoria da 
tcnica ou da biologia a ltima palavra no, que se refere ao nosso destino individual e colectivo, a utilizar a 
razo unicamente para esse fim e a adaptarmo-nos aos dados fornecidos, por mais irracionas que sejam, em 
vez de determinar dados razoveis ou provoc-los. A nossa ambivalncia transformar-se-,

A G R E S S I V 1 D A D E                 315

porm em medo manifesto, e mesmo pnico, logo que um destes pre,dutos, que fabricar a nossa tcnica e 
gentica, nos queira retirar as decisese funes principais de reflexo, que h muito tnhamos 
abandonado a poderes annimos, e ameace mesmo geriAos de forma autnoma.

A partir de ento, pensa-se que valeria mais permanecer numa adeso ao sistema antigo. O desejo de 
perfei o dos aparelhos -e a admirao da magia da mquina (G. Anders designa estes -dois aspectos como 
subjuga o do homem pela mquina) transformam-se em desconfiana frente  mquina e em dio pela 
mesma.  difcil decidir se se nutre um inaior receio por um computador autnomo e criador demasiado 
semelhante ao ser humano, demasiado irracional e brutal nos seus objectivos, ou por um computador muito 
para l do ser humano, demasiado sensato, perfeito ou emotivo. O homem teme o computador porque este 
 demasiado desumano. ou porque o prprio homem se

tornou uma mquina bem instruda e oleada?

Quando no h o suficiente para todos pode-se justificar a agresso da concorrncia enquanto, 
necessidade; na ausncia, porm, de uma falta que legitime a agresso, a irracionalidade da mesma, de 
forma alguma instintiva inas manipulada pelo poder e diviso de bens, torna-se uma realidade incontestvel.

A possibilidade de uma orientao consciente dos processos mentais inconscientes e dos processos 
fisiolgicos automticos (biofeedback) aumenta no s o autodomnio, mas alarga igualmenteo reportri-o 
da manipulao de uma forma quase inimaginvel.

Tememosmais a ditadurados programadores ou os prazeres oferecidos pela sociedade e a libertao de 
um trabalho, alienan,te? Ser que nos assusta a perspectiva de -termos tempo livre? Ver-nDs-emos 
obrigados a, mediante obedincia  necessidade e no ao impulso individual, voltar a introduzir ou criar 
artificialmente a pobreza depois de a termos eliminado, s iporque no nos ocorre nenhum outro 
equivalente  necessidade e precisamos de um fundamento para a nossa moral, entusiasmo pelo trabalho e 
sentido de solidariedade?

Este receio ante a desobedincia dos seres a que demos vida, este medo de vermos escapar ao nosso 
contr le os produtos que fabricamos para se tornarem autnomos sero smbolos indicativos do perigo que 
ameaa umaperda de contrle por parte do homem, caso no recorra a novas possibilidades de contrle?

316                   AGRESSIVIDADE

A transformao potencial da natureza humana  consequnca das descobertas e conquistas desta mesma 
natureza e, no entan.to,,t,oda a experincia  obrigatoriamente organizada, orientada e vigiada pelos 
dirigentes escolhidos, as -normas so aceites e os interesses existem.

As mais recentes descobertas no campo da gentica provaram que, nas funes celulares especficas, a 
maior parte dos programas genticos fica inutilizada. O mesmo acontece no mbito social: as invenes do 
homem,trazem novas esperanas e entre elas a de se chegar  realizao de possibilidades ignoradas, 
inutilizadas, ainda nunca -experimentadas e, at ao momento presente, impossveis.

O essenc4d no  ganhar, mas parficpar

Sempre foi do conhecimento geral que nem s      de po vive o homem. Fornecer  agresso 
possibilidades de tTansferncia e disciplina  to essencial como prodigalizar o a-limento e o bem- 
_estarmnimo do homem. As pessoas normais utilizam como terapia de aco um trabalho -regular e hobbies 
que servem de travo  monotonia. Uma ocupao permanente, entremeada de trocas de impresses e 
divertimentos,  uma necessidade -no que se refere  manuteno do equilbrio mental e da sade. As 
armas calam-se no stio em que se toca e canta e onde amsica e a fes,ta so convidados de honra. Na 
Grcia, desde o momento em que os emissrios anunciavam o comeo dos jogos Olmpicos, todas as outras 
lutas deviam cessar por uma questo de respeito em relao a estas lutas pacficas. Quase nada se juntou de 
novo a estas velhas tcnicas de canalizao e contrle da agresso. Os investigadores -modernos 
aconselham as velhas receitas: o trabalho, a conversa, o -prazer, os desportos, a competio tecnolgica e 
poltica, apesquisa cientficae a expresso artstica. O essenCial nos jogos Olmpicos no  ganhar, mas 
participar.  esta a frmula adoptada por um dos seus renovadores, Pierre de Coubertin. O desporto liga 
os povos e o homem entre si porque.ele permite que a agressividade instintiva se exprima sem perigo. A 
com-petio desportiva  fundamentalmente pacifica e justa. As regras, que os participantes conhecem de 
antemo, so vlidas para todos. Um rbitro imparcial vela pelo rigoroso cumprimento destas regras. O 
mesmo se passa numplano cientfico para

AGRESSIVIDADE                               317 o qual no  importante este ou aquele resultado, mas o'resultado preciso da 
experinCia; o rbitro  desiriteressado, est fora de causa, quer dizer, -lhe indiferente o resultado do 
jogo.

Dentro, da imparcialidade que define a sua funo, o rbitro possui o direito de sancionar com base nas 
regras. -lhe concedido o monoplio do -poder durante o tempo do jogo, as suas decises so definitivas, 
 dono e senhor das regras, que ele, na realidade, no inventou mas que iriterpreta e utiliza na prtica. Os 
jogadores que infringem manifesta e repetidamente as regras so eliminados, o mesmo acontecendo com o 
que despreza e ameaa a autoridade do rbitro. Diferentemente do que acontece aos espectadores de um 
processo jurdico, os espectadores dos desafios no podem ser mandados sair do estdio por conduta 
inconveniente. As manifestaes, desportivas colectivas destinam-se a fornecer-lhes uma vlvula de 
esc@lpe para a agressividade, uma diverso, pois permite-lhes participar num combate codificado e numa 
expanso de entusiasmo que a tenso e o carcter espectacular do jogo provocam. A agressividade 
imparcial do rbitro na observao das regras do jogo provoca a agressividade parcial dos espectadores -
entusiastas. A sua agressividad-e, poderosainente expressa, pretende a vitria, o sucesso da coisa 
especfica.

Os espeotadores gritam e assobiam o rbitro, revoltados com as suas decises. Sabem, sem serem 
especialistas da agresso, que a severidade objectiva da aplicao imparcial das leis se ope  vontade da 
equipa que -pretende ganhar a todo o custo. A represlia proveniente do partido contrrio expressa-se 
por assobios raivosos, ameaas e insultos selvticos de violn@cia fsica no rbitro (o que, muitas vezes, s 
a -interveno da polcia consegue evitar).

Para legitimar a sua agresso, os adversrios pem em causa a no legitimidade da autoridade do rbitro. 
Coritesta-se a imparcialidade do rbitro, que se acusa de desconfiana paranica e partidria de mostrar 
favoritismo e mesmo -de corrupo. Nos desportos actuais de competio, altamente comercializados, 
verifica-se realmente, algumas vezes, que os jogadores e rbitros dos combates de boxe ou desafios de 
futebol (entre outros) so realmente corrompidos. A realidade prova e confirma, nesse caso, as suspei,tas 
dos fanticos; torna-se necessrio que a autoridade das regras decida.o jogo: O.que a destreza e a sorte do 
rival declarado nunca poderiam atingir  obtido facilmente sob a mscara de

318                   AGRESSIVIDADE

imparcialidade que obriga os interesses e parcialidade inconfessveis-es,te facto verfica-se no s no 
desporto como em poltica ou na justia. A  crena, na sua aco justa e objectiva, consagra as  Tera  e 
legitima os que as estabelecem. O tamanho dos campos   d  jogo  e as regras so, na verdade, os mesmos em 
todo G lado. Ainda   mais importante, porm, do que a familiarizao com o ambiente, quanto ao incitamento 
do ainor-prprio dos jogadores, so os grupos de espectadores entusiastas que defendem a legitimidade 
das faltas cometidas e aplaudem -v,gorosamente o que cons,titui uma represlia autoriza-da. Muitas vezes a 
equipa rival, que boatos exagerados acusaram de atrocidadespa@sadas,  recebida com um silncio de 
chumbo ou assobios  guisa -de agresso preventiva desde o comeo do jogo. Seria preciso fazer calar 
estas paixes e, se possvel, desencoraj-Ias.Oficial-mente, -os org@nizadores incitam ,cortesia e ao fair 
play, mas,oficio-samente insistem na importncia da vitria, aguilhoam os espritos, aumentam a 
probabilidade de uma metamorfose do entusiasmo em raiva agressiva e revolta. Os Escoceses e os 
Vienenses sentem-se lisonjeados pelo facto de se chamar aos seus estdios de futebol o inferno de 
GIsgua e o inferno do Prater.

Anuncia-se que se vai esmagar o rval,e o amor-prprio nacional seri-te-se lisonjeado. No fundo, at existe 
mesmo um pouco de orgulho em relao aos valentes da equipa local, que se estilizam em agressores 
impiedosos e que se glorificam como tal a fim de itmpressionar o adversrio. Insste-se nas suas terrveis 
qualidades de assustar o rival, mediante ameaa de represlias onde se expressa uma agressivida-de h 
muito contida.

Os nossos campees agem para ns sempre com o nico objectivo, de legtima defesa ao servio da causa 
niais nobre da equipa. S batem porque o adversrio foi o primeiro a bater, ou poderia ter sido. To-da a 
manifestao pseudodespo.rtiva permite a descarga imediata das tenses agressivas -dos espectadores, 
tanto melhor quanto mais se aproxima dos tipos -dos contos morais. H muito, que os reflexos morais 
convidam ao condicionamento e  manipulao. Nos combates de boxe, os sentimentos morais e o 
desencadeardo po,tencial de indignao e de revolta do pblico so antecipadamente tomados em 
considerao. O desenrolar do combate  uma repetioda verso primitiva do mito do heri que acaba 
por obter a vitria sobre perigos quase insuperveis.
O desenrolar -do combate preparado de antemo, e com resultado

AGRESSIVIDADE                              319

previsto permite ao pblico, toda a satisfao moral que ele procurava ao assistir.

Para os verdadeiros desportistas a falta de estabilidade e a importante exignciade converso das diversas 
formas de agresso inerentes  competio constituem um problema difcil, para o qual a soluo no  
simples. Por um lado, devem desenvolver e poder mobilizar as virtudes agressivas de uma inquebrantvel 
confian@ em si e de unidesejo inabalvel de vitria e delas fazer uma motivao com vista a um 
rendimento mximo. A agresso no deve, por outro lado, degenerar em desobedincia s regras e raiva 
cega ou em decep o e desnimo contagiosos. Muitos jogadores que se sentem enferrujados ou 
indiferentes no comeo da poca e em perodo de descanso ou fatigados no fim da poca Iamentam-se por 
ainda no ou j no sentirem a verdadeira clera ou a obstinao da vitria.

A agresso deve ser convenientemente atiada, excitada e exaltada,mas simultaneaimente ou 
comintervalos abrandada, controIa-da e reprimida. Os melhores atletas e os melhores guerreiros so 
profissionais no contrle de @gressividade. Nada deixam ao acaso. Graas a um treino intensivo, todas as 
reaces impe@riantes do combate tornam-se, para eles, hbito e automatismo. Encontram-se intimamente 
enraivecidos e a sua raiva transformou-se em roti-na e o dio em dever profissional -por outro lado, o 
pblico amador coipia,os desportistas que o impressionam. Os fans acorrem s corridas automobilsticas: 
cada um vai ver

o seu Jochen Rindt ou Jackie Stewart.

Seguidamente s corridas de automveis, as percentagens de acidentes de viao duplicam ou triplicam.

Na Amrica Latina os desafios de futebol provocam, geralmente, graves ferimentos entre os campees e os 
espectadores e, frequentes vezes, tambm mortos. H alguns anos, na Turquia, durante uma cena de pa-
ncadaria verificada entre partidrios de clubes diferentes num desafio de futebol, houve cem feridos e 
quarenita Mortos. Quando foi celebrada a conquista da taa mundial para o Brasil, mais de cem pessoas 
morreram. At mesmo em Inglaterra, a terra-me,do f lair play, o futebol, desporto nacional, tornou-se, 
principalmente aps a vitria britnica em 1966, por altura do campeonato mundial, uma potente fora 
desencadeadora de brutalidade e violncia em massa.

Antes, durante e depois das finais, h sempre janelas partidas, armazns roubados e feridos com gravidade. 
Em 1969, antes

320                   AGRESSIVIDADE

do desafio para o campeonato entre o Southampton e o Cheisca, apolcia revistou uma parte dos jovens 
espectadores. Confiscou v-rias facas, pregos enormes, pinas e martelos, bem como latas de conserva com 
os bordos cortantes que se destinavam a ser utilizadas como armas ofensivas. Durante e aps o desafio, os 
espectadores exaltados transformam-se em vndalos que destroem o que lhes cai nas mos com uma 
violncia irracional e aparentemente no motivada. jovens criminosos e -ladres juntam-se-lhes muitas 
vezes, pois no querem deixar escapar uma ocasio propcia a furtos na confuso geral. O triunfo da 
vitria ou a decepo da derrota verificados na aItura de acontecimentos desportivos estimulam a raiva 
destruidora dos desordeiros. A agresso desenfreada, degenerada em violncia, desenvolve-se sem peias 
(da forma descri-ta por LoTenz), ao que parece sem objectivo e desorganizada, como se verificada em 
estado de embriaguez, e somente a priso ou o esgotamento conseguem pr firn  borrasca. Ainda que os 
participantes no se conheam ou mal se conhe- a-m, desenvolvem,  maneira de grupos minoritrios e 
estudantes rebeldes, profundos sentimentos de solidariedade que desaparecem rapidamente mal o 
episdio termina. Segundo uma int-erpreta o,de E. Canett, as janelas partidas e as portas arrombadas 
represen,taria,m a destruio de tudo o que se apresenta  vis-ta. Em todos os actos de agresso no 
motivada, por mais estpidos, primitivos e destrutivos que sejam, expressa-se sempre a necessidade de uma 
solidariedade, qualquer que possa ser. A identificao momentnea com a equipa favorita, estimula-anias 
no a satisfaz. Reforada por um simbolismo nacional, a importncia da vitria ou da derrota, aos olhos do 
grupo reunindo a equipa aos seus simpatizantes,  muitas vezes votada ao exagero.

Em 1969, a notcia da surpreendente vitria da Checoslovquia sobre a poderosa equipa russa num desafio 
de hquei no

gelo provocou uma celebrao tumultuosa da vitria em Praga; esta culminou com a destruio das 
instalaes da embaixada sovitica. A vitria desportiva provara que o pequeno pas, dominado e 
esmagado, era, pelo menos de um certo ponto de vista, no s igual mas superior ao poder esmagador da 
ocupao. A insensatez simplista da conscincia nacional transpusera as relaes de um campo desportivo 
para um mbito poltico. As represlias do poder de ocupao no se fizeram esperar muito tempo.

AGRESSIVIDADE                              321

Os melhores jogadores ascendem  ordem de heris, pois que, em nome da comunidade e servindo-se de 
uma foTma de agresso permitida, assumem todo o perigo sobre si e tornam-se, assim, modelos. Os seus 
admiradores impregnam-se, igualmente, do cunho da magia e do carisma de que tm necessidade.

Graas a uma publicidade mundial, o Governo Brasileiro conseguiu a fama universal do negro Pel e da 
sua equipa a fim de se lavar das horrveis acusaes de torturas que os seus rivais polticos tinham atribudo 
ao regime. Em seguida, por toda a parte se transforma o prestgio carismtico dos melhores desportistas em 
negcio publicitrio para venda de equipamento e vesturio desportivo, consagrados devido  sua 
utilizao pelos dolos. Na Amrica -Central, utiliza-se o sistema de finais para seleco dos participantes 
nos campeonatos mundiais de futebol, que se realiza)m de quatro em quatro anos.     Se aps dois jogos, 
cada um deles realizados no pas da equipa rivaa, nenhum dos grupos alcanar a vitria, realiza-se 
uniterceiro jogo -decisivo num campo neutro. Em 1969, a equipa nacional das Honduras ganhou o primeiro 
desafio no seu pais. A desforra estava prevista para
15 de junho de 1969 no Salva-dor. Durante dois dias e duas noites, o povo da capital salvadorenha fez uma 
enorme algazarra em frente do hotel onde estavam instalados os jogadores das Honduras. As autoridades. 
pblicas permitiram que se lanasse fogo de artifcio, que se fizessem soar as buzinas ininterruptamente e 
que se perturbasse a tranquilidade do sono dos jogadores mediartte -entusisticas serenatas. Foram mortos 
trs homens nas desordens que antecederam o jogo. O Salvador ganhou o desafio da desforra sem 
dificuldade. Quando a Tioticia foi conhecida nas Honduras, a raiva sentida pelo povo subiu a extremos. 
Estalaram revoltas. O vice-cnsul -do Salvador em Pela, nas Honduras, foi assassinado quando tentava 
impedir um grupo de revoltados hondurenhos de lhe assaltarem a residncia.

Durante as revoltas morreram dezenas de homens e centenas ficaram feridos. Decorridos dez dias de 
motins selvagens, o Salva-dor cortou relaes diplomticas com as Honduras. Num discurso, pronunciado 
em tom grave, o ministro dos Negcios Estrangeiros do Salvador acusou o inimigo hondurenho Fran~ 
cisco Jos Guerrero de genocdio e incitao das massas  revolta contra os cidados do Salvador. Ao 
mesmo tempo que, sob a proteco demil e setecentos polcias, o Salvador ganhava o desafio decisivo por 
trs a dois -no Estdio Asteca, no Mxico, eram

11

322                   AGRESSIVIDADE

mobilizados os exrcitos dos dois pases. O presidente do Salvador, Fdel Sanches Hernandez, vestindo o 
uniforme de oficial superior, ordenou  sua aviao obombardeamento, do aeroporto da capital 
hondurenha. Os Hondurenhos responderam ao bombardeamento. O Salvador ripostou ocupando algumas 
cidades hondurenhas. Quando o armistcio foi assinado, trs mil pessoas ao todo tinham sido mortas e o total 
do prejuzo elevava-se a milhares.

As Honduras responsabilizavam o Salvador pelo conflito, e vice-versa. A animosidade recproca manteve-
se ainda durante muito tempo e assentava individualmente na oposio entre um pequeno pas, e um 
grande pas subpovoado, que privara dos seus bens e expulsara das suas terras dez mil camponeses do 
outro pas. O chefe da Oposio do Salva-dor, o Dr. Castillo, afirmou que -os -dois pases eram totalmente 
pacficos e bem-intencionados nas suas mtuas relaes, mas que os regimes reaccionrios dos dois lados 
tinham gerado o desencontro que entre eles se verificava a fim de lhes desviarem as atenes dos 
problemas internos. Foratin, no entanto, indubitavelmente os acontecimentos desportivos que 
transformaram as foras agressivas latentes em violncia manifesta. As ipaixes desportivas que 
desencadearam a agresso levaram no caso presente no unicamente a simples desordens, pilhagens e 
perda de vidas humanas, mas  violncia organizada da guerra. A transformao da agresso em esprito 
desportivo cavalheiresco, reprimindo-a e domes,ticando-a por meio de regras a observar (regras 
canalizadoras; da violncia), conduz, em determinadas circunstncias, ao estmulo e verificao -da 
agresso. A vlvula de escape de agresso fornecida pela competio desportiva e legitimada, porque 
limitada, pelo cum-

primentG de regras, provoca a exploso da agresso desenfreada e sem peias que visava impedir. A 
purificao e sublimao da agresso fornecem-lhe um impulso. O contrle da agresso terna-se ponto de 
agresso.

Confesso, sem me envergonhar, -que assisti frequentemente de bom grado e com entusiasmo a 
competies desportivas. Nem as intempries, nem outros interesses, nem a fora dos meus amigos, irias 
simplesmente alguns milhares de quilmetros de distncia, podem impedir a minha participao entusistica 
como espectador do destino da minhacquipa de futebol. Para mim, o fair play no desporto desempenha 
bem a sua funo: satisfaz, canaliza e

AGRESSIVIDADE                            323

enobrece as energias instntivas do homem. A imagem que dou de mim a-os meus companheiTos -de 
desporto e o que eles representam para mim permanecem envoltos num vu de mistrio: uma forma 
gradualmente mais primitiva de entusiasmo e de decepo, uma falsa percepo e sensibilidade acrescida 
frente s infraces do adversrio, bem como o recurso de ver as infraces s regras come tidas pelos da 
minha equipa. A dramatizao,
12 a -polarizao criam a solidariedade no interior da experincia desportiva. A necessidade de uma 
imagem concreta do inimigo dota o rivalde caractersticas quefazem ascender a agresso dirgida contra ele 
a um plano de legtima defesa e luta por objectvos mais eleva-dos, o que a torna implicitamente legitimada. 
A comercializao, que sofre acusaes de todos, refora, a bem dizer, mas por outro lado no faz mais do 
que explorar aquilo a que a polarizao, necessria ao aparecimento do entusiasmo no grupo, teria de 
qualquer mo-do levado: unia comunidade unida no mesmo dio. contra o inimigo, intolerncia frente a 
estranhos, retorno s forrjaas simplistas do pensamento e sentimento, deteriorizao da objectividade de 
percepo fiel da realidade, bem como uma agressvidade pronta a desencadear-se  menor provocao.

Quando, o desafio acaba, todos negam ter mostrado o mnimo de animosidade. A cerimniafnal, que -
deveria celebrar o fim da agresso, serve de preldio a manifestaes agressivas ulteriores.

Durante o banquete que se segue ao desafio, os desportistas rivais abraam-se. Tambm os astronautas 
trocam impresses sobre as experincias vividas, OS generais de pases inimigos entendem-se 
perfeitamente -depois da guerra, durante as negociaes de paz, os danarinos do Bolchoi danam pela 
paz, os Wernher von Braun tornam-se tes atodos os regimes por intermdio da objectividade 
reconcliadora da cincia. Aps os debates acalora-dos e intransigentes, os polticos e diplomatas comem e 
bebem dentro de um espri@o de concrdia e de reconciliao. , -evidentemente, uma atitude prefervel 
a defrontarem-se.
O direito, a cincia, a arte eo desporto, fornecem modelos dignos de serem imitados a fim de dominar a 
agresso, mas tambm representa perigos reais entre eles o facto de. poderem originar a agresso em 
lugar de a eliminar. Contrariamente  cortesia desportiva, o culto, ilimitado do sucesso transforma as vitrias 
e os records em ftiches: os resultados desportivos e a afirmao do sentimento nacional t-ornam-se 
sacrossantos. Sem qualquer

324                  AGRESSIVIDADE

considerao por despesas ou vtimas, a comercializao, o nacionalismo e a necessidade opressiva do 
sucesso exigem e encorajam uma polarizao executada e a brutalidade.

O sentmentatsmo e a brut@ddade

A nsia da perfeio pela perfeio  considerada um valor essencial. Tanto no campo das artes como no 
das cincias, seria necessrio ultrapassar tudo o que se divisa de um ponto de vista religioso, nacional ou 
poltico a fim de se realizar tudo o que de melhor existe, dentro de uma competio pacfica de todos. Uma 
vez que a arte  internacional, neutra e po,l,tica, seria necessrio deixar o homem criador entregue a si. 
Liberto de todas as opinies e limites, este deveria criar como lhe apetecesse, experimentar e poder dar 
livre curso  sua imaginao. A concepo de uma arte superior a,tudo o que  banal e profano, 
dominando livremente dentro do crculo inviolvel dos seus valores eternos, vai buscar,todavia, a 
suaorigem a um mundo inteiramente estranh,o  arte e  realidade que gostaria de separar a arte da realida-
de. Uma arte ao abrigo da realidade da sua concorrncia e de to-dos os seus mecanismos , tambm, uma 
arte sem realidade. A liberdade que -se concede  arte  a liberdade que o, rei concede ao bobo. A arte  
igualmente uma tentativa de expressar uma agresso de forma consciente ou inconsciente.

Nas fbulas e contos de animais, em que a crueldade se encontra mal dissimulada, os elementos sdicos, 
maso-chistas e sado-masochistas encontram-se to manifestos (ou subjacentes) como nas obras religiosas e 
profanas das artes plsticas e da grande literatura. A arte dissimula e, simultaneamente, revela. Recusar a 
fico cientfica conferindo-lhe um rtulo de hipocrisia e de irrealidade significa desencadear a agresso, 
impedir a sua sublimae, e originar, em toda a sua potncia, o sadismo, o assassnio e a violncia. Quando 
os smbolos e as imagens deixam de ser necessrios tudo se torna ilcito e possvel, -tudo adquire o mesmo 
valor e redunda, finalmente, num plano de indiferena: o terreno desportivo transforma-se numa arena de 
gladiadores, o livro num manual de violncia e de perverso e o cenrio num local de agresso.

Ns nunca deixamos de jogar. Quem o sabe  inteligente. (Schnitzler.) jogamos por jogar, mas 
recentemente tornou-se pos-

AGRESSIVIDADE                             325

svel no s a ap@endizagem dos nossos papis e at mesmo um pouco de improvizao, mas -tambm a 
sua definio.

H muito que a arte irrompeu no campo da realidade e este vingou-se voltando para o domnio esttico a 
sua face desfigurada p@lo artifcio. A realidade brutalizada dominou e ultrapassou a imaginao. A 
realidade presente .mais -fantasmagrica, confusa e povoada de pesadelos do que as imagens de 
Jernimo Bosch e de Matthias Grnewald ou ainda os fantasmas de Kafka e de Orwell. O surrealismo j 
faz,parte da nossa realidade quotidiana, afirma Ionesco. Utilizando uma monotonia impiedosa e agressiva, 
Peter Handke fora ao reconhecimento de coaco ritualizada e desumanizadora das palavras. Em 
oposio  arte ilusria ou  representao da beleza a nova arte ergue o seu protesto mediante uma crtica 
fundamentada no conhecimento (emescultura ou pintura) que pretende pr de lado as anteriores formas 
figurativas. A artemoderna ameaa e, ameaando como nunca o fizera anteriormente, emancipou-se das 
funes exclusivs da representao e do prazer e cr no ter qualquer necessidade de justificao, de 
objectivo ou misso. justifica-se pela sua pr pria existncia. O prprio acto artstico  o acontecimento, 
resultado e reencontro. Pinta-se e escreve-se qualquer coisa -e no a propsito de qualquer coisa. A 
actividade artstica em si torna-se um happening, uma pura aventura que transcende todos os limites, uma 
experincia ilimitada sobre tudo e todos e, principalmente, sobre si mesma.

Ante a insuficincia da realidade, a criao artstica ops-se, de forma sempre destrutiva, aos simples dados. 
Na total libertao do acto artstico, tornam-se visveis elementos fortemente agressivos: o absurdo, o, 
patolgico, o anormal e o cruel elevados a smbolos do homem. Avana-se para l dos limites. O nico 
dever artstico torna-se arrancar omoniento criador ao momento condicionado  criao. A profundidade 
vem agora  superfcie, onde se mantm numa semiobscuridade ameaadora.

An,tonin Artaud reivindicaum teatro de crueldade que deve reencontrar a magia mtica. As imagens da 
viol ncia fsica devemesmagar a sensibilidade do espectador e.hipnotiz-lo. Apanhado num redemoinho 
de foras superiores e imerso no especi-, culo, ser arrastado a estados de transe e crueldade. Atacando 
agressivamente a representao dramtica, onde a actuao  o nico fim, Bertold Brecht introduz o efeito 
da distanciao.
O -espectador no se deve fiar naquilo que v, nias sente-se inter-

326                    AGRESSIVIDADE

rogado e chamado a responder com todo oconhecimento de causa. A representao sensorial directa de 
relaes complexas no deve limitar-se a fornecer um prazer culinrio, mas incitar o desejo de 
transformao. Utilizando-sede mtodos muito diferentes, mas baseado no mesmo desejo de transformao, 
Artaud pretende levar ao reconhecimento -de que toda a vida enrgica passa por uma outra vi-da 
quedevora; :trata-se deum jogo de massacre cujo significado seria o da beleza e transfigurao. Jean 
Genet, canonizado por Sartre, descreve, de forma impressionante e Com um nmero de pormenores at a 
raralmente empregues, fantasmas agressivos homossexuais de uma brutalidade desenfreada. Um dio 
irreprimvel contra tudo o que  burgus expressa-se por meio de perverses necrfilas, coprfilas e 
outras perverses dotadas de um sadismo nunca igualado. Quando era ainda uma criana, Genet j tinha 
feito a proniessa de agir de forma desumana. Queria most@rar-se digno do desprezo dos outros e dirigir a 
sua agresso contra si mesmo, atingindo um grau extremo de aviltamento masochista.

P. Weiss, E. Bond e T. Williams entregam-se, nas suas obras, a descries de canibalismo, perverses 
incrveis e brutalidades excntricas. Na obra mais recente do clebre romancista Robe-Grillet, 
encontramos a unio do, nosso romance com a arte popOscilando. entre a ironia e o fascnio, ospadres da 
pornografia sdica descrevem torturas e prazeres indiscritveis. As imagens dos tormentos de Santa gata 
so elevadas ac, plano do magnifico; a violao, -o assassnio, o incndio e o crime so preconizados como 
armas de combate para estruturao de uma nova sociedade. Fernando Arrabal descreve torturas 
inacreditveis, mltiplosmassacres e corte de rgos genitais, em parte por coaco e em parte por prazer.

Desaparecem as diferenas entre smbolo e simbolizado, entre o sarcasmo irnico e a imitao admirativa. 
A arte imita a realida,de criando-a. A realidade s se reconhece mediante a sua peridica deformao em 
pesadelo brutal. O que comeou como protesto e revolta contra uma certa forma de expresso burguesa 
transforma-se em reprovao de todo o gnero, em fragmentao de toda a expresso e acaba, finalmente, 
nuni retorno irresistvel a uma forma sempre mais acentuada e cruel de violncia, que aumenta 
continuamente.

O certo  que a repetio montona e o aumento de violncia fatigam, perdem o vigor e produzem o 
aborrecimento, o mesmo

AGRESSIVIDADE                              327

aborrecimento que, anteriormente, determinara o aparecimento da violncia no teatro,meios de 
comunicao e realidade.

O fascnio romnticodo recurso  brutalidade e  anomalia  o reverso da mesma medalha que -tem 
representada na outra face a fuga  realidade, -mediante o sonho interior e a recusa dos problemas.

A brutalidade e o sentimentalismo encontram-se numa nfima re@a@o, condicio-nam-se reciprocamente e 
encontram-se unidos, principalmente, e seguros de uni sucesso incontestvel, no aspecto da 
comercializao ou da  s solues polticas. O sentimentalismo confunde o desejo ntimo de relaes 
simples, definidas, contemplativas e pacficas com a satisfao deste mesmo des@jG c@ graas ao encanto 
ilusrio do bem e de,tudo o que  positivo, proporciona a iluso de um mundo so que no consegue, 
porm, concretizar. A brutalidade apresenta, como soluo, tudo o que o sentimentalismo nega e, ao, faz-
lo, provoca a violncia bruta que destri e que seria necessrio melhorar e estruturar. A mitificao de um 
mundo bom, puro, pacfico e que pretende dar a iluso de uma possibilidade de existncia quer negar e 
afastar-se de todos os conflitos exis,ten@tes. As Love Stories nientem ao fazerem surgir a crena na 
existncia enganadora do amor e da veTdadeira humanidade. O sentimentalismo nega a insuficincia do 
real, repele a violncia e, portanto, atraioa a realidade.

A vanguarda do sentimentalismo abre o caminho.  brutalidade etorna-se sua aliada, protege-a ao dissimular 
os verdadeiros problemas. A violncia sirnplicada pela polarizao e draniatizao pode realizar o seu 
papel de destruio sem encontrar obstculos. As runas de -esperanas frustradas, que constituem a 
retaguarda do sentinientalismo, faro surgir, numa base falsa e mediante clichs consoladores, uma nova 
vida quenopassa de unia acomodao  antiga vi-da. Depois da orgia de violncia, a fadiga volta a suscitar 
a iluso de uma ordem justa e positiva, erguida sem esforo, ao passo que a hipocrisia desta inesma ordem 
produziu e legitimou a violncia.

A eliminao ritualizada dos conflitos diTninui-os, as formas legais mantm-nos reprimidos e a discusso dos 
respectivos argumentos dos adversrios atenua-os. Para controlar e sublimar a agresso no basta, porm, 
dar provas de cortesia -no desporto e

,no jogo ou legalizar e dar sentido lgico  agresso. Se todos os indivduos que no sofrem, mas que 
fazem sofrer os outros, estivessem dispostos a sereni submetidos a um tratamento psiqui-

328                    AGRESSIVIDADE

trico a -fim de melhor se compreenderem a eles mesmos, talvez no necessitassem, to urgentemente, 
desse tratamento. Se os F,stados estivessem dispostos a transferir uma parte vital do potenciai disponvel de 
agresso,para uma organizao supranacional, no teriam necessidade desta organizao, pelo menos no 
que se re,fere ao contrle da agresso. Ela  tantomais necessria qtian,to mais se contesta a necessidade 
de contrle. Aquele que no quer reivindicar qualquer ajuda  o que mais necessita dela. O dever mais 
urgente no  introduzir solues definidas, -mas criar as condies materiais e psicolgicas que possam 
resolver os problemas: a informao do pblico, a educao dos adultos (com.vista a uma melhor educao 
das crianas) e, tambm, uma participao poltica no; sentido mais Ia-to.

As insttuies so -tanto parte do destino de um homem como a sua individualidade humana pesso,al. A 
organizao colectiva define e permite esta individualdade e transcende-a. As condies, quer de 
liberdade quer de escravatura, so, igual e paralelamente, individuais e transcendentes ao indivduo. Sem a 
correspondente conscincia no existe -transformao durvel da realidade, e sem transformao 
posterior no existe transformao da conscincia. O interior e o exterior condicionam-se e influenciam-se 
reciprocamente, atravs da mtua exteriorizao e nteriorizao. Urna mentalidade de escravos no pode 
produzir uni mundo livre; num mundo de escravos ningum , realmente, livre.

Talvezpela primeira e ltima vez, at ao momento presente da Histria, as conquistas e invenes da 
tecnologia e da pscologia permitam ao homem moldar~se a si prprio.  este o motivo por que o retorno  
barbrie, camuflado em progresso, nunca tivesse sido talvez to ameaador. Abandonado  sua inrcia e 
nostalgia romntica, o humanismono se aproxima da realizao dos seus valores. A espera ansiosa de que 
ainda pudesse ser permitido aos herdeiros da velha cultura aproveitarem os seus ltimos dias antes da 
catstrofe encoraja a violncia, dado que a indiferena orgulhosa e o desprendimento dos que pertencem 
a esta velha cultura impedem todas as solues de modificao. A catstrofe, temida por uns -e anunciada 
por outros, torna-se irresistvel, como, -na realidade, no deveria acontecer. Ao privar o homem de 
experincia e educao, OS grupos solidrios de dirigentes organizam massas irraciona.is para as poderem 
manobrar como pretenderem. Conseguem criar, por outro lado, uma men-

AGRESSIVIDADE                            329

talidade adequada e um acordo dos oprimidos. A agresso orientada pode ser desviada para o inimigo 
interno ou externo, de tal modo que, na situao polarizada e brutalizada de violncia legal e crescente, se 
perde completamente a aptido de reconhecer e transformar as relae@ existentes na -realidade. 
Tambm. se sabe, por outro lado, manipular a resistncia  manipulao. Por detrs do activismo entusiasta 
mas ineficaz e por detrs dos acessos espordicos de agresso tolerada, esconde-se a passividade de 
comando em relao a,tudo o que  geral e importante. Reduzidas aopapel de engrenagens de uma 
desocupao vincada e de uma brutal indiferena que rodam no vazio, as massas sociais j no,tm 
objectivo, pois crem realizadas todas aspossibilidades, uma vez que a inentalidade de massa de que foram 
imbudas ignora todo o sentimento de revolta.

Utiliza-se, em contrapartda, constante e insistentemente a ameaa terrvel do caos. As orgias no fornecem 
qualquer princpio de organizao nem qualquer sa.t;sfao du-rvel: fatigam e depressa conduzem ao 
tdio. Nenhum jogo , porm, demasiado difcil para os espectadores, pois que veitius impacientes e 
endurecids incitam os jovens a actos anrquicos que eles no so capazes de cometer. (Talvez at nunca 
tenham sido.) Com a promessa de uma liberdade prxi,ma etotal, encorajam, comentam e interpretam, 
admirando-se seguidamente por as suas palavras serem tomadas  letra.

Ainda mais esmagador do que a raiva cega e destruidora de uma violncia catica , muftas vezes, o 
perodo consecutivo de reconstruo que sabe legitimar toda a coaco. e toda a violncia sob o pretexto 
de impedir a anarquia.  preciso que o desejo de violncia seja bem mope e a sede de violncia bem cega 
para que no prevejam este efeito de boomerang e no o tomem em conslderao.

 GUISA DE CONCLUSO

O

s problemas que s podem ser resolvidos pela violncia

devem ser expostos de outra forma. Entre a tirania do Estado policial e o terror ilimitado da brutalidade, 
aparentemente sem motivo mas subjectivamente legtima, no h muito por onde escolher. A atitude de se 
tolerar a violncia como formade governo de umpoder monoiltico, de a transformar na melhor e at 
mesmo nica estratgia de ordem e de se preconizar a violncia da libertao, a curto prazo, como 
protesto, criador do ser desesperado e desumanizado,  uma questo de gosto semelhante  deciso 
quanto  forma de cometer um suicdio, organizando-o minuciosamente ou cedendo a um impulso. 
Insinuam-se, na opinio ipblica, uma silmiplificao e polarizao crescentes tendentes a fazer acreditar 
que se trataria simplesmente de optar entre o domnio totalitrio e o individualismo fragmentrio absoluto. 
Os reaccionrios preconizam todas as formas de violncia que protejam o que existe e os radicais 
glorificam todas as formas de violncia que ataquem a situao actual, os liberais acusam tudo o que se no 
pode atingir seno pela violncia que reprovam, e condenam-se, assim,  ineti@ ccia poltica, a uma 
dialcti-ca ridcula e sem finalidade. No existe meio termo (tertium non datur); tudo isto, talvez, porque as 
solues -de transformao raramente caem do cu;  precso cri-las. Existe toda uma profuso deterrveis 
simplificadores mas, ipor outro lado, h tambm um nmero mnimo de especalis,tas de no-especializao 
que possuem a coragem e a capacidade de representar as coisas importantes de forma clara e em toda a sua 
complexidade, tal como elas so realmente ou como poderiam ser se no estivessem mutiladas pela 
simplificao.

332                    AGRESSIVIDADE

Seria -preciso reestruturar a complexidade dos dados e a eqtiida-de da informao, bem como revelar e 
demonstrar o processo de polarizao que :imps a violncia neste ou naquele sentido.

Todo o desenvolvimen,to (especializao e diferenciao) no i,niplica necessariamente um rtulo de 
qualidade, toda a novidade no  necessariamente desejvel e toda a transformao no  sinnimo de 
progresso. Os melhoramentos num domnio podem necessitar sacrifcios -e renncias a longo prazo que 
acabaro por culminar num balano negativo para o ser humano. O saber  um poder que se pode utilizar 
para um conhecimento pessoal e autodoinnio, mas tambm para controlar os outros e pr em funcio-
namento mtodos de servilismo. E precisamente -porque a manipulao e manejo das opinies permitem 
nivelar e rebaixar os homens tornando-os meros instrumentos, os objectos humanos difceis de definir e 
que no tm carcter prtico, tais como a alegria, a nobreza de alma, o respeito e a dignidade, no 
devem ser abandonados negligentemente a eles mesmos ou a qualquer lgica mstica do desenvolvimento.

Os ndices sociais de sanidade colectiva no se limitam a factores de ordem econmica e  satisfao 
mxima das exigncias tcnicas de eficcia. Temos necessidade de experincias e da tcnica, mas tambm 
temos necessidade de nos encontrarmos protegidos contra elas. A organizao total, a tcnica perfeita e a 
racionalizao de. nada valem se for preciso compr-las pelo preo -de um sentimento geral de frus,trao 
e de alienao. A satisfao material  uma condio e no um subs,titu-to e uma compensao do bem-estar 
psicolgico. A razo absoluta que tudo pretende coordenar acabar por se tornar vtima da absoluta 
violncia a que recorre.

Parece-me razovel conhecer os limites da razo a fim de a tornar frtil e eficaz. Na minha opinio, apenas 
aquele que @onhece o.passado no est em risco de ser arrastado a repeti-lo as cegas e julgo que  
necessrio um esquema de relaes co,ere-ntes e in,teriorizadas para se poder conhecer, enriquecer, 
respeitar e, se necessrio, transformar a cultura nacional e a humana. Neste aspecto sou um conservador. 
No acredito em qualquer autoridade extra-humana, quer se chame Natureza, Histria, Tcnica, 
Transformao ou Destino. A nossa estrutura biolgica, ;susceptvel de mltiplas variaes, inclui uma 
capacidade imutvel de -mudana e uma inaltervel aptido para se -transformar lcida ou 
inconscientemente. Penso que no interior das nossas

AGRESSIVIDADE                             333

estruturas biolgicas p@demos ir buscar muito de ns mesmos mediante a educao e instituies sociais. 
Ser preciso inventar parcialmente o futuro e os homens futuros, que, de modo algum, se encontraro 
feitos. Penso que poderemos inventar novos jogos simblicos que permitiro mltiplas identificaes, a 
observao das regras do jogo e tambm a transformao destas regras. julgo tambm que todos os 
(mecanismos de defesa que actualmente provocam represses, regresses, alteraes de conscincia, 
infantilismo e fantasmas podem ser reestruturados e reorientados para estabelecimento de novos processos 
de adaptao que favoream a emoo criadora e o hbito a uma percentagem mnima de angs,tia. Neste 
aspecto sou progressista. Penso que se impem transformaes fundamentais e decisivas que em breve se 
verificaro e sero institucionalizadas a fim de impedir que de um lado. ou outro no permanea a violncia 
como nica soluo. Na minha opinio essas transformaes so viveis se se encarar a realidade tal como 
ela , a fim de a conduzir ao que ela poderia ser. julgo que s actos polticos concretos e responsveis 
podem atingir o que de outra forma-quer dizer, pela violncia-se pagaria muito caro. Odeio a violncia e 
neste sentido seu liberal.

Acho, no entanto, -que, num mundo, polarizado, fantico e cheio de violncia, a renncia incondicional  
violncia em todas as circunst:ncias  um acto vazio, uma desvalorizao insensata da razo ou um aceitar 
orgulhoso da continuidade de sofrimentos inevitveis. Penso que no se pode nem se deve organizar 
tudo, mas penso taimbm que uma organizao consciente dos seus limites pode favorecer 
desenvolvimentos esipontneos e imprevistos.

A realizao de planos actuais concebidos no sentido da defesa militar, de lucros ecenmicos e de uma 
tcnica perfeita teriam, na minha opinio, efeitos verdadeiramente catas,trficos que fariam aparecer 
retrospectivamente a anrquica rotina do passado como um paraso de liberdade. Neste aspecto tenho 
receio do futuro.

Parece-me tambm que a atitude de assimilar -todas as organizaes eventuais s organizaes 
actualmente vigentes significa uma demonstrao de preguia e estreiteza de opinio. julgo que a recusa 
de considerares problemas de momento, para se fechar numa tecnologia limitada, resume-se a uma 
alienao do nosso, mais valioso potencial de reflexo. Neste sentido tenho, f no futuro.

334                    AGRESSIVIDADE

Por mais notvel que seja um plano, no pode dispensar medidas de aplicao concretas; -os pequenos 
passas em frente so, porm, meios e no fins e limi,tam-se a simples exerccios de moderao, caso no, 
sejam inspirados @por -um conceito. Penso que somente uma pequena parte do que hoje  realizvel se 
realiza na verdade. O facto de as realizaes efectivas serem escandalosamente abafadas pelas 
possibilidades oferecidas no se deve atribuir nem a uma paralisia inata nem a um destino malfadado, mas 
antes aos rituais adq@iridos do pensamento e aos nossos auto-matismos afectivos: seria necessrio voltar a 
reestrutur-los, dando-lhes uma nova forma. Agora estou a ser utpico.

julgo tambm que se o reportrio da expresso humana no est esgota-do tambm no  ilimitado e que os 
factores internos e externos-quer sejam dados ou factos-actuam com a dura obs,tin,a,.o do real e no 
desaparecem simplesmente s porque assim se deseia. C.ons,idero a oposio dicotmica entre um mundo 
so, idealizado (no passado ou no futuro) e o mundo em decadncia e completamente apodrecido de hoje 
corno um exemplo flagrante de -polarizao agressiva e actuante e penso que a recusa quanto  
participao social nos processos de um presente dito apodrecido e corrompido resulta de uma arrogncia 
pretensiosa. julgo que -to-das as coisas realizveis no so obrigatoriamente desejveis, ou pelo menos 
imediatamente, ou sem compromisso. Neste aspecto sou realista.

Penso que nem o indivduo nem a colectividade podem ultrapassar as suas sombras. julgo que o processo 
de transformao interior e exterior , na melhor das hipteses, difcil, lento e, por vezes, tambm 
aborrecido, perigoso -e com riscos de regresso, o que confere, portan,to, improbablidade ao seu 
sucesso. Neste aspecto sou pessimis,ta.

Na minha opinio os desenvolvimentos mais recentes demonstram precisamente a capacidade de 
metamorfose como necessidade de persistncia, e a -disponibilidade  metamorfose como a mania de 
repetio dos homens e das instituies humanas.

A irreflexo e a brutalidade -no diferencia-das no so fatalidades, mas -o resultado -de desenvolvimentos 
bem definidos atravs dos quais se podem definir e influenciar as condies. As alternativas  violncia 
deram boas provas no passado e no presente, em,todo o lado onde foram arquitectadas e energicamente 
postas em prtica. Pode-se pr termo aos processos de primitvao dirigida da agressividade que 
conduzem a reincidncias e

A G R E S S 1 V I D A D E                  335

crises de violncia se se souber revel-las e desmascar-las. A violncia pode ser um bom mestre desde 
que no nos curvem ante ela.  excepo de extremos, o regresso  barbri-c tem to, pouco de 
automatismo como o avanco para uma melhoria. Em princ~ pio, tudo, o que se pode atingir pela violncia 
tambm pode ser posto em prtica sem a sua utilizao e j foi, em parte, obtido por meios isentos de 
violncia. As reorientaes so possveis na prtica e trata-se, no, de as impor, inas de as favorecer 
atravs de medidas polticas e jurdicas adequadas. Neste aspecto sou optimista.

Aquele que s pode olhar numa direco e admitir unicamente um s ponto de vista tornou-se vtima de um 
esquematismo rgido que implica o recurso, a esta violncia que critica e condena nos outros. Todo o que, 
contrariamente, apresenta muitas coisas a um tempo como soluo, revela simultaneamente a sua indeciso. 
A oferta de uma miscelnea, que cada uni utilizar como lhe apetecer,  a demons-trao de uma 
incapacidade de se envolver.

As concepes do mundo que preferem a complexidade  violncia simplista devem ser necessariamente 
complexas na sua estrutura e forma de expresso. No devem dissimular a sua disponibilidade nata nem o 
carcter influencivel, as dificuldades, as -contradies e os paradoxos do pensamento e da realidade. 
Complexidade no  sinnimo de confuso, indeterininao e ausncia de convices, mas antes de uma 
convico bem definida, implicando a conscincia das condies da realidade e a diferenciao entre o 
que  legtimo e o que no .

Com -o mximo de sinceridade eum mnimo de iluses peo, em -concluso, como tradicionalmente se 
pretende, que os homens se tornem melhores e tomem conscincia tanto da sua condio comum de 
homens como das suas atitudes comuns desumanas. Deviam, na sua feio de formas privilegiadas da mais 
notvel espcie biolgica, aprender a amar-se uns aos outros, a fim de que, ao faz-lo, se tornassem 
verdadeiramente homens merecedores de es,tima e respeito: Dentro deste esquema, aconselho os homens 
a empregarem unicamente meiospacficos; e, como verdadeiros universalistas, a reconhecer possibilidades 
de enriquecimentD e no ameaas nas suas diferenas culturais e individuais. Fao um apelo a que 
colaborem e reconheam a sua condio humana comum e,tambm renunciem a to-das as instituies ou 
aces destruidoras, a fim de obterem e,conservarem o seu direito

336                   AGRESSIVIDADE

legtimo  autodeterminao graas a meios adequados em matria de educao, relaes humanas e 
polticas.

Lado a lado com Konrad Lorenz,,tambm eu defendo a competio pacfica, as relaes pessoais entre os 
representantes de naes, raas e classes diferentes, o entusiasimo, uma arte e uma cincia tanto 
quantopossvel apolticas e a satisfao das tend-ncias agressivas atravs de actividades de descontraco, 
e objectos de agresso escolhidos de preferncia fora do domnio dos seres vivos.

Adiro, igualmente,  opinio de Eibl-Eibesfeldt no que se refere. aos la@s familiares, ri<> seio dos quais 
se desenvolvem as energias sociais. e positivas do homem e onde o indivduo consegue identificar-se. Sou 
pelo amor dos pais, irmos e filhos, pelo amor e pela confiana, e sou contra as frustraes inteis, contra a 
intolerncia e a educao extremista. Sou por uma ordem Social de cooperao e contra a apologia dos 
abusos actuais.

Defendo, como Ruth Benedict, uma doutrina de esperana e UM projecto de sociedade realista, com base 
nos valores universais de tolerncia e amor ao prximo.

Concordo com Siginund Freud para que haja um esforo mais vincado do que no passado, relativamente  
formao de uma lite de. homens capazes de um pensamento independente, homens impermeveis  
intimidao e sedentos de verdade a quem incumbiria a misso de orientar as massas que no tivessem 
conseguido ascender a um plano de independncia.

Tal com(> Karl Menninger, sou apologis,ta da substituio do instinto de vingana por uma atitude social 
construtiva que impea eficazmente o mal.

Penso, como Asliley Montagu, que o homem no deve fazer uma m apreciao de si mesmo e que no 
deve ligar a sua natureza aos instintos inatos do pecado, da agresso e do mal.

Acredito, tal como Herbert Marcuse, no sonho milagroso da razo e da imaginao e na possibilidade de 
fazer com que os instintos fecundados do homem animenitodo o seu ser e enriqueam a sua experincia e 
existncia.

Defendo, como Anthony Storr, a reduo das marcantes desigualdades entre os homens e que originam o 
dio; defendo, igualmente, como ele, as pretenses paranicas contraditrias, as generalizaes e 
esquematizaes estpidas. Sou contra a projeco da nossa agressividade contra o adversrio; sou pela 
procura da harmonia e pela concorrncia pacfica.

AGRESSIVIDADE                            337

Penso como Alvin Toffier no que se refere a um futuro humanizado, a uma organizao democrtica e 
humana a longo prazo, ao, impedimento de uma acelerao galopante,  adopo paralela de possibilidades 
positivas de transformaes, graas s quais o choque do futuro setransformar em possibilidades de 
futuro.

Estou de acordo com Charles Reich -quanto  teoria de que a terceira conscincia da subjectividade 
radical  superior  segunda conscincia do, Estado corprativo e  primeira conscincia do pioneiro e do 
nobre cavaleiro; acrescentarei somente que desejo assistir ao desenvolvimento de uma srie de estados de 
conscincia ainda superiores.

julgo-me de acordo, nos pontos essenciais, com os relatrios americanos ao afirmarem que a pobreza e o 
dio racial devem ser eliminados de acordo, tambm, com a comisso presidida pelo presidente 
Eisenhower e a sua exortao a que se evitasse a violncia; penso que todos os nossos esforos sero 
necessrios para uma vida em comum dentro da paz, da concrdia e da conservao da dignidade humana.

Tal como Thodor Adorno, acho que os interesses metafsicos dos homens exigem a tomada de 
conscincia dos seus interesses materiais. Enquanto a mesma no -existir, os homens vivem num reino de 
iluso.

Creio, como Jacques EIlul, que nem um poder abusivo nem o esprito de vingana sero capazes de 
melhorar a condio humana e que unicamente o que pode testemunhar ante Deus e os homens as 
consequncias de injustia e proclamar o reino do amor prepara o caminho da salvao.

Encontro-nie lado a lado com Alexandre Mitscherlich no sentido de que se torna necessrio a utilizao 
dos nossos conhecimentos psicolgicos, no para reforar uma poltica de produo e de dependncia na 
sociedade de consumo, mas para fortificar um individualismo diferenciado, capaz de crtica autnoma e 
transformar o institito de morte numa actividade conscientemente cultivada e humanizada.

julgo em especial que a proposta de Mitscherlich, quanto a uma apario do potencial de capacidade crtica 
 s tcnicas experimentadas da manipulao das massas, seria particularmente frutfera nos mbitos polticos 
e pedaggicos. Muito em breve se poderia introduzir o confronto das diferentes formas de pensamento 
nos processos educacionais a fim de se incitar os hbitos

AGRESSIVIDADE

de p@.iisamento e sentimento adequados  eliminao de sistemas e  inveno de outros.

No que se refere a Arno Plack, acho que ele  irresponsvel, at mesmo satnico, ao comentar, apesar das 
ameaas de exploso demogrfica, concepes morais que a psicologia das profundidades revelou como 
;perigos pessoais. Estou de acordo com ele no seguinte: a afirmao de que o homem pode tudo conduz  
rejei o no indivd@o quanto  responsabilidade das ntimas contradies da moral em vigor e a uma 
exigncia superior s suas necessidades.

Tambm -estou de acordo comigo mesmo na minha exortao a uma tolerncia de complexidade que 
culmina nesta exigncia: dentro de um severo esprito, experimental, ofereamos ao indivduo todas as 
possibilidades de satisfao, identificao e afirmao, de um verdadeiro papel de adulto em,lugar de 
deixar que estas possibilidades sejam exploradas e, portanto, destrudas pela violncia.

Defendo quase tudo o que os filsofos, socilogos, psiclogos, psiquiatras e polticos contemporneos 
recomendam como soluo ou propem como perspectivas. Se bem que dentro de um esquema de rgida 
oposi o, mas quase sempre sem violncia, os investigadores paream estar de acordo e as suas ideias 
revelem notvel conve.rg.ncia no que ;se refere a julgamentos de valoreobjectivos a atingir, eles 
apresentam divergncias quanto  forma de os atingir. A minha posio  tanto mais difcil quanto mais me 
conveno de que as solues-chaves e as receitas prontas a aplicar so os produtos de uma inconfessada 
simplificao clandestina e, portanto, os resultados e lies de violncia, solues nascidas da violncia e 
causadoras da mesma.

julgo que tolerar a complexidade, saber suportar as tenses de problemas por resolver, em lugar de 
sucumbir  tentao de solues irreflectidas e violentas, constitui uma prova de maturidade tanto individual 
como colectiva.

Acho que toda a interpretaomonocausal de problemas complicados e que toda a proposta-da -
decorrente-de uma soluo simples so falsas, e no podem deixar de o ser porque reduzir a intensidade 
aos termos em -que  posto o problema  no o reconhecer e suprimir as respostas possveis.

Defendo a sinceridade e o desenlace de relaes interpessoais e internacionais que afastam os mal-
entendidos, se bem que na minha opinio, s uma minoria dos grandes problemas por

ACRESSIVIDADE                              339

solucionar assenta no erro ou em falta de informao, sendo a maio-ria resultante de todo, o conhecimento 
de interesses contraditrios realmente em   jogo.

Sou pela abertura e ventilao de sistemas, tanto sociais como polticos, sistemas de crena de rendimento, 
sistemas econmicos cientficos, s.e benique, na minha opinio, a estratgia de abertura - utilizada s por si - 
torna-se um ritual vazio de sentido. Um sistema aberto atudo deixa de ser um sistema.

Sou pela disponibilidade  reviso no que se refere a atitudes pessoais, sou pela conciliao e equilbrio, 
pelo dilogo e polilogo, pela reflexo e critica, pelo amor e riso e, sobretudo, pela capacidade de se rir 
do prprio.

Acho que a pureza de inteno no poderia substituir uma possibilidade de discernimento informado e 
diferenciado, o

mesmo se passando com este ltimo quanto a uma implicao consciente e responsvel.

julgo que  -necessrio que acontea qualquer coisa, ou melhor, que se faaqualquer coisa,pois que sou a 
favor da reaco que consiste em realizar qualquer aco simplesmente por agir, de preferncia  
imobilidade de umacega passividade que nega o futuro.

Sou contra tudo o que favorece e refora,  distncia, os sentimentos de clera, raiva e dio contra a 
polariza@o, a simplifi~ cao, a dramatizao e a vulgarizao, da violncia e, acima de tudo, -contra 
todas as formas de retraimento e limitao daconscincia por meio de falsos apelos e estratgias falsas de 
recalcamento e manipulao.

Este o motivo porque sou necessariamente a favor da supresso das injustias sociais, da realizao das 
esperanas que legitimra o, estado actual de desenvolvimento e de recusa do acordar de esperanas 
irrealizveis. Estou do lado dos que pretendem suprimiro dio raciale de classes e dos quedesejam uma 
maior disponibilidade  compreenso entre os homens. Preconizo o desenvolvimento e utilizao de 
vrias solues em lugar do recurso a situaes polarizadas e perigosas que admitem uma nica alternativa.

O mbito psicolgico j no  um terreno reserva-do, englobando tudo o que as outras cincias no podem 
abranger ou compreender de ilgico ou mrbido. O psquico , pelo contrrio, a causa muitas vezes 
dissimulada, porque tabo, e o objectivo (entre outros) do conhecimento real. A violncia no  apenas

340                    A G R E S S 1 V 1 D A D E

um fenmeno sintomtico ou mesmo patolgico da perda explosiva de contrle, mas  utilizada como meio, 
estratgico de transformao da realidade que resulta da observao da realidade e e de consideraes 
psicol gicas.

Os processos psicolgicos ou desenvolviiinentos sociais que se -reflectem nos indivduos e provocam as 
suas reaces psicolgicas tornam-se, sob uma forma -de exigncias, esperanas, activismo, apatia, 
vigilncia, resistncia, desconfiana, etc., factores reais que de-terminam as decises econmicas e polticas 
ao mesmo tempo que por elas so determinados.

 este o nosso dever para com o futuro: libertar a agresso e ns mesmos da engrenagem fatal da repetio 
& passado. A compreenso do fenmeno global de agresso representa um argumento vlido para 
orientao de toda a cultura, qualquer que ela seja, no sentido de solues no violentas e progressivas, as 
nicas solues que permitem   -que no se atraioe. a causa do progresso individual e social @ no se 
permanea na impotncia.

Para nos tranquilizar, afirmam-nos que o poder no pode penetrar na intimidade do homem. O facto no  
consolador. De nada serve a certeza de que at os acontecimentos mais brutais do mundo exterior 
no,poderiam afectar a minha singularidade como homem e a dos meus ai:nigos.

Dado, que as condies objectivas de autodeterminao e a-cesso  vida adulta talvez tenham nascidopela 
primeira vez na nossa era, pois que s recentemen,te se criaram, creio que neste instante histrico, em que 
-tudo foi arrastado para um redemoinho, se torna necessrio o poder da imaginao e da coragem para 
levar a bom termo a utopia realizvel porque, provavelmente, no nos poderemos permitir outra soluo 
que no seja uma soluo utpica ainda no, realizada. Por outro Ia-do, tenho conscincia de que tudo o, 
que no se resume a uma proposta concreta e prtica para soluo de problemas concretos e reais se 
torna-no por abstraco--uma simples retrica e mero recurso (inclusive as consideraes acima citadas).

No,me considero pretensioso pelo simples facto de confessar que os meus pareceres e opinies pessoais, 
na medida em que segundo as informaes que possuo me parecem novos, so igualmente justos e, 
portanto, novos.

Acho que, ao desmantelar o ciclo da agresso e revelar disfarces, subterfgios e mais casos de violncia, 
se estabelece um esquema que permite mudanas interiores e exteriores eficazes

AGRESSIVIDADE                            341

con,tra a agresso perigosa, chamando-a pelo seu verdadeiro nome. A circunscrio romntica do conceito 
de agresso permite delinear medidas capazes de aniquilar a violncia porque, -enquanto a agresso, sob 
a sua forma contida, reprimida e fria, se poder distanciar da violncia manifesta como se fosse qualquer 
coisa de fundamentalmente diferente, no se pode colocar as predisposies individuais  agresso e os 
actos violentos e cruis numa linha de objectivos superiores. Nem mesmo existe possibilidade de retorno 
ao equilbrio, nem to-pouco se pode submeter a agresso organizada, irresponsvel, annima e 
omnipotente do poder e da burocracia  influncia humana do indivduo e da colectividade.

Se no conhecermos, nem definirmos, nem confessarmos o potencial de agresso que em ns -existe, a 
agresso inconfessada e negada projectar-se- forosamente contra um adversrio que, promovido  
categoria de inimigo e agressor, faz desencadear a nossa represlia, falsamente rotulada como legtima 
defesa, e que, por seu turno, engendra a sua prpria agressoe perpetua a espiral da violncia.

A agresso em si no  in, nem destruidora, nem inevitvel nas suas formas de expresso actuais. Uma 
vez que a agresso tanto pode ser posta ao servio de fins teis como inteis, bons ou maus, racionais ou 
irracionais, interessa investigar e desenvolver critrios de diferenciao que actualmente se encontram mal 
definidos e estabelecidos.

Reconhecer a sua prpria agresso a longo prazo  prefervel a adoptar formas de comportamento no 
agressivas. Esta mesma afirmao  agressiva e permite dar o primeiro passo em frente na direco de 
tentativas e hipteses fecundas.

julgamos saber que todas as formas de contrdie da agresso tendem a esquecer as suas funes e cair na 
violncia, se no  ela a con,trolar-se a si mesma. , ,julgamos tambm estar certos ao afirmar que, se no se 
tem cuidado suficiente a preparar o homem desde a infncia para expressar de forma agressiva mas no 
violenta as suas tenses, a raiva e -esperanas frustradas, aumenta-se as probabilidades de violncia 
porque, se no foram compreendidas a tempo, no h possibilidade de reconhecimento e utilizao dos 
substitutos da viol ncia.

Tudo isto  infelizmente muito pouco e, -no entanto, suficiente para nos permitir ultrapassar a exortao 
unilateral 

342                   AGRESSIVIDADE

calma. Toda a tentativa durvel e toda a tentativa radical de libertao pela transformao da conscincia 
engloba uma transformao das instituies.

Neste sentido no se torna necessrio lamentar a diminuio actual de autoridade como uma perda, mas sim 
saud-la como uma aquisio de conhecimentos e utiliz4a como uma possibilidade de conhecimentos 
novos.

O statu quo no se encontra somente ameaado pelo exterior ou pelo sistema e inimigos alheios ao mesmo, 
mas tambmpela profunda insatisfao e falta de confiana em simesmos sentidas pelos dirigentes e 
autoridades superiores. Os -privilegiados e detentores do poder so como os outros; no se sentem felizes 
nem seguros.

Seria preciso fazer unia distino entre a verdadeira autoridade e a autoridade caduca. Tudo o que  
cunhado pela autorida-de no  forosamente autntico e tudo o que  autntico no  forosamente 
autoritrio. A aspirao crescente  violncia e o amor pela violncia experimentado no ltimo decnio so 
ndices significativos e que pr?vam que ter de haver uma modificao, pois que cada vez caminhamos 
mais apressadamente para uma era de brutalidade em que apenas restar a escolha entre o Es,ta,do policial 
totalitrio, e as crises incessantes de violncia descontrolada, que excluiro toda a soluo de 
transformao que no, seja violncia.

Quase no existe campo de aco---para a imaginao e p@   r a inquietao criadora, demasiado 
entravadas por uma rigida ordem burocrtica.

Da divergncia entre o conceitooficial de um cidado adulto totalmente responsvel e participante no 
funcionamento da burocracia e o tratamento eficaz de que ele  objecto e o toma um elemento annimo, 
intermutvel e indigno de confiana nasce a atmosfera de decepo irracional,  de raiva, de dio e de uma 
-desconfiana que ascende ao delrio da perseguio. Eis precisamente a -mquina infernal que se torna 
necessrio desmontar a fim de no se atingir a exploso da violncia ou o emprego estratgico da mesma.

As instituies exteriores, que, a princpio, se encontravam ao servio do contrd1e da agresso, tornaram-
se autnomas  medida que se foram desenvolvendo e tralisilormaram-se em es-tru- @uras de poder, e 
mesmo de domnio, e de opresso; tendem a instaurar a irresponsabilidade annima e, ao ,mesmo tempo, a

AGRESSIVIDADE                              343

manter o monoplio do poder e da violncia. Toda a experincia humana demonstra que no s todo o 
indiv duo, mas sobretudo toda a comunidade, devem ser objecto de um contrle e que tm particularmente 
necessidade de ser controlados os controladores e detentores do poder e instituies que possuam acesso 
 violncia e a ipodem transformar em lei. A limitao e o contrle recproco do poder por outros tantos 
grupos de poder so, at ao momento presente, o nico padro social conhecido adequado para -limitar e 
diminuir a violncia e para impedir a expanso totalitria de um grupo. e o seu domnio tirnico sobre lodos 
os outros.

Neste sentido, deveria preconizar-se a instituio e alargamento das necessidades humanas, at aqui 
negligenciadas ou aparecidas recentemente. S as instituies podem limitar eficazmente o poder 
institucionalizado. A desconfiana justificada e a resistncia s organizaes devem ser sujeitas a uma 
ordem. Poderiam estruturar-se novas ins,tituies dotadas de am@plas a-tribuies que teriam como tarefa 
vigiar as antigas e com elas, ou contra elas se necessrio, experimentar novos mtodos e desenvolver 
novas formas de cooperao social. So perfeitamente imaginveis organizaes do tipo da Ombudsman, 
bem como autoridades jurdicas e entidades oficiais de conselho e reclamaes.
O seu pessoal -no deveria, no entanto, estar submetido ao contrle -dos detentores -do poder, nem ser 
escolhido entre eles, nem. estar sujeito aos organismos burocrticos vigentes. Pode-se, evidentemente, 
objectar que estas ins-tituies provocaro, por sua vez, um novo, tipo. de burocracia ou de 
superburocracia e aumentaro, assim o mal que queriam combater. Vale, no entanto, a pena fazer a 
tentativa porque se trata no s de pr termo  tendncia usurpadora da administrao burocrtica, mas 
tambm de experimentar as possveis e novas formas de administrao que se impem.

 abso-lutamente necessrio que sejam assim representadas as diversas exigncias raciais, que no tm 
ainda qualquer representao: o ambiente, o silncio, o direito dos pobres e dos desprotegidos (acima -de 
tudo as crianas, mas -tambm os animais

e a natureza) e os consumidores. O advogado Ralph Nader con-

I Organizao sueca. Trata-se de um grupo de indivduos, uma espcie de comit de eruditos, que beneficiam de um estatuto legal para julgar os 
regulamentos administrativos, ditos governamentais, etc.

344                   AGRESSIVIDADE

seguiu pr de p, e s por si, para o comprador annimo o que parecia impossvel de realizar e que -todo 
o arsenal de leis nunca soube criar. Ao publicar o resultado das suas investigaes, forou a potente 
indstria automvel a instalar gratuitamente dispositivos de segurana em milhes de automveis j 
vendidos, dispositivos que a partir de ento passaram a fazer parte do mnimo exigido para cada automvel.

Os mtodos convencionais e o acaso no so suficientes para conferir aos meios de comunicao um 
espao livre acessvel a todos epara submeter esses meios de comunicao ao contrle de todos. No se 
deve contar com o acaso, embora num caso ou noutro ele tenha existido. Meios de comunicao 
experimentais poderiam tornar-se a unitempo campo e laboratrio de experincias com vista a um 
confronto das suas estruturas e eventuais transformaes das mesmas.

Os institutos -de pesquisa, tal como as universidades reformadas, deveriam reestruturar em lugar dedirigir 
crticas s transformaes eventuais do inundo. A intolerncia dos jovens, o seu receio de serem 
manipulados  o eco da educao pretensiosa a que os submeteram os adultos que probem a crtica e o 
confro.n.to, classificando-as como insolncia. As criana@ s aprendero qu@ndo os adultos souberem 
ensinar e no partirem a priori da teoria de que a justia e a verdade lhes pertencem.

Quando a psicologia deixar de estar submetida  estigmatiza.o e  troa ficar incumbida de outrase 
novasmisses. Quando deixar de exigir  psicoterapia, como condio-base, uma boa rentabilidade 
financeira e um poder de adaptao seja a que preo for, -poder finalmente apreciar-se o seu verdadeiro 
potencial terap utico.

O livre acesso a meios legais de aco cria uma alternativa  fuga ou  violncia. Sanes penais humanas 
orientadas para a @cabilitao e tribunais que garantissem armas completamente iguais para a defesa e a 
acusa o poderiam contribuir muito mais para apaz social, reabilitando a f na imparcialidade da justia, do 
que todas as lamentaes quanto  decadncia da autoridade e as fanfarronadas dos slogans ordem e 
tranquilidade .

Ainda que todos os homens desfrutassem de direitos iguais que garantissem as mesmas possibilidades como 
ponto de partida,  preciso tomar em considerao que nem todos os homens tm o mesmo talento ou a 
mesma ambio. Uma sociedade realmente humana tambm deve ser capaz de proteger os menos 
talentosos,

AGRESSIVIDADE                            345

os no ambiciosos e os defeituosos sem que, por esse motivo, afecte as normas sociais no seu conjunto sob 
pretexto de uma adaptao s necessidades e capacidades dos fracos e doentes.

A investigao racional da agresso cada vez se debruar mais sobre a fixao da agresso livre, ou 
melhor, sobre a liberta@o da agresso reprimida, e ser capaz de influenciar -muito mais iprofundamente 
as condies histricas e sociais do que ns o somos hoje em dia. Ficar incumbida da misso de definir e 
promover as melhores relaes mtuas, ou pelo crnenos tolerveis, entre a agresso latente de um lado, 
enquanto estrutura votada  durao e conservao, e a agresso livre por outro, como factor de 
renovao e transformao. S os que detm e jogam com todo o gnero de poder se encontram em 
posio de testar, experimentar e utilizar a fundo as mltiplas; possibilidades de substitutos de violncia e 
aplicar os resultados na prtica.

Em nome da humanidade futura, da humanidade universal, que englobatodas as individualidades, a 
investigao da agresso faz apelo a cada indivduo em particular a fim de que esta detecte e r conhea a 
agresso quer em si mesma, quer no grupo que legitima, quer ainda na sua concepo do mundo.

Em nome da razo, que! se faa antes do mais apelos aos detentores do poder e suas instituies a fim de 
que eles reconheam a urgncia, tanto para a sua como para a nossa sobrevivncia, quanto a um 
encorajamento da investigao voluntria e generosa de substitutos de violncia antes que eles e ns nos 
tornemos vtimas de uma violncia cega e totalmente inartipulada.  razo crtica e  autocrtica cabe muitas 
vezes razo. Talvez possamos encontrar-nos no direito de esperar que acabar um dia por ganhar a 
realizao de algumas das suas pretenses

ANEXO

Primeira entrevista

KONRAD LORENZ

Hacker -Nesta obra tentei descrever o ciclo de agresso e realar, em particular, os processos, at esta 
altura pouco tomados em considerao, pelos quais a agresso se encontra inserida, reprimida, ritualizada e 
controlada pelas instituies.    1

Lorenz - No meu livro sobre a agresso no sublinhei com bastante clareza que se torna necessrio 
distinguir duas espcies de agressividade no homem. H a referir, em primeiro lugar, a agresso individual, 
essa forma de tenso e irritao quotidiana dirigida contra uma pessoa que pertence  mesma sociedade 
que o indivduo e que aumenta em funo do nervosismo geral Ou stress. Esta forma de agressividade 
encontra-se controlada pelas instituies. A calma  o primeiro dever do cidado. Existe, seguidamente, no 
seu aspecto arcaico e instintivo, a agresso -colectiva, que se faz acompanhar do sentimento subjectivo do 
entusiasmo e se traduz por uni conjunto de comportamentos sistemticos. Todo o agrupamento que se 
estende para l dos limites do grupo familiar apoia-se em instituies que asseguram o contrle do primeiro 
tipo de agresso e dirigem, por caminhos que no pem em perigo, a coeso do grupo. Este contrle 
obtm-se, no entanto,  custa de perigos de um outro gnero. O perigo consiste no facto de as instituies e 
smbolos que favorecem a Coeso do grupo aparecerem com feio de valores superiores que se com um 
entusiasmo militante. Herdam, de certo modo, cas do superego e podem, ento, servir para a agresso. 
Tornam possvel a execuo das aces mai seu nome. O perigo  tanto maior quanto os grupos, 
asseguram a coeso,  se considerem mais importantes. T tetics fez notar, a manuteno do hbito como 
smbolo-de comunidade tica no pode arrastar consequncias negativas nas regies que

350                    AGRESSIVIDADE

se encontram ininterruptamente povoadas de aldeias hngaras ou checoslovacas. Quando, porm, a cruz e 
o crescente se encontram frente a frente, a exaltao colectiva pode implicar consequncias catastrficas, 
ainda que originalmente possua um carcter, de facto, simblico.

Hacker-Como se pode distinguir entre o que vulgarmente se chama uma atitude agressiva e uma atitude 
defensiva?

Lorenz-Essa  uma pergunta extraordinariamente difcil porque a tendncia  autojustificao nunca deixa 
de existir; cada um apresenta a sua conduta como uma atitude defensiva.  preciso haver uma abstraco 
inicial no que se refere s afirmaes dos partidos em conflito.

Hacker - No  s uma questo de afirmarem; eles, geralmente, acreditam sinceramente que    esto apenas 
a defender-se.

Lorenz- verdade. No caso de grande nmero de animais a agressividade liberta-se, com o mximo de 
intensidade quando o animal se sente metido entre  a espada e a parede. H u@a provrbio ingls que diz: 
Fighting like a cornered rat 1. O medo transforma-se brutalmente em agresso. Hediger apelidou o facto de 
reaco crtica,  difcil, frente a uma determinada agresso, fazer a separao entre o que  provocado 
pelo instinto de agresso propriamente dito e o que provm do medo. Um ganso cinzento recentemente 
acasalado encontra-se ligado  fmea por laos de solidariedade pouco comuns. No se sabe se o facto de 
ele passar o tempo a atacar todos os objectos possveis se trata de uma atitude defensiva ditada pelo medo 
ou de uma conduta autenticamente agressiva. Este ltimo motivo encontra-se, na realidade, presente 
porque atmesmo o ganso que no se encontra acasalado d mostras de agressividade logo que comea a 
cortej-la. Erich von Holz conseguiu, alis, provocar um comportamento anlogo entre galinhas 
submetendo-lhes o crebro a choques elctricos de forma a desencadear, simultaneamente, uma reaco 
de incubao e urna conduta de fuga. Presa no conflito entre estas duas reaces, a galinha ficava com as 
penas todas eriadas e tornava-se agressiva.

Hacher - Tento continuamente demonstrar que o agressor humano  precisamente o que se sente 
agredido e sente as suas prprias agresses como uma contra-agresso.

Lorenz-A literatura e a realidade esto cheias de exemplos notveis relativamente a este assunto, como o 
testemunha, por exem-

1 Lutar como um rato encurraIado.

AGRESSIVIDADE                                351

plo, o livro de Lacliner 999 Wort Bayrisch. Lacliner fez a descrio do comeo de uma discusso 
verificada num bistrot. Assiste-se ao aparecimento, no caf, de um homem que j vem com inteno 
premeditada de bater e de se comportar como se o outro, que de modo algum pensava atacar, o tivesse 
agredido primeiro.

Racker-julgo que em inmeros casos as desculpas, quer dizer, as justificaes que se fornecem quanto  
agresso no so somente um fenmeno acompanhante, mas o que a torna possvel.

Lorenz-Sim. Alm disso, passa-se facilmente do jogo  realidade. As transies so, muitas vezes, 
dificilmente perceptveis. Os lobos e os ces quase nunca transgridem as regras do jogo, mas estas so 
particularmente incompreensveis pelos animais com chifres, em especial os antlopes e bovdeos. Certos 
peixes que comeam a lutar de forma muito desportiva, estritamente ritualizada, passam desta forma de 
combate codificado ao combate destrutivo no ritualizado, a partir do momento em que comeam a sentir 
;@edo. Anne Rasa demonstrou que  sempre o mais fraco que transforma o combate ritualizado em 
combate destruidor.

Hacker-O vencido no quer cingir-se s regras, mas transform-Ias. A questo de se saber o que fazer dos 
eternos vencidos , alis, um problema social de capital importncia.

Lorenz- verdade. Os vencidos tornam-se maus porque perdem. No h, porm, a certeza de que existam 
animais nos quais o carcter desportivo e ritualizado do combate no desaparea e degenere, sejam 
quais forem as circunstncias, em combate destruidor. Nunca pude, por exemplo, observar pessoalmente 
um combate destruidor entre os da espcie Jack Dempsey: entre eles sempre assisti a combates 
ritualizados. Um dos meus colaboradores conseguiu, no entanto, demonstrar que quando as foras dos 
adversrios so estritamente equivalentes, o que faz com que o combate dure muito mais tempo, a 
ritualizao acaba por desaparecer e os dois adversrios combatem at se matarem um ao outro. Apesar de 
proibidas, as dentadas passam a ser utilizadas quando um dos animais abandona a luta e foge.

Hacker-A fuga , em si, uma infraco s regras. Lorenz -Sim. Verifica-se, alis, que, quando os gamos 
cometem uma infraco involuntria s regras, a reparam. Pode-se notar este fenmeno ao observar a 
marcha cadenciada dos gamos lado a lado sem se ferirem mutuamente com os chifres seno com intervalos 
regulares e de forma estritamente ritualizada.

352                    AGRESSIVIDADE

Hacker - O que acontece no mundo animal aos seres menos dotados, aos eternos vencidos?

Lorenz-Se se tomar para exemplo o caso das espcies animais extremamente socializadas, em que o 
indivduo nem mesmo  capaz de subsistir fora da sua sociedade, estes animais que se poderiam apelidar 
de Omega, Omega-Tiere, acabam por morrer a curto ou a longo prazo. Poucas possibilidades tm de 
sobreviver porque a constante represso de que so objecto atinge-os a tal ponto que so igualmente 
incapazes de fazer face ao ambiente estranho  espcie. No que se refere ao homem, tudo se passa de 
forma dif  *erente porque o seu ambiente exterior j no comporta hoje elementos susceptveis de lhe 
ameaar  a vida, a menos que os procure pelo gosto do perigo e prazer do desporto.

Hacker - O homem sen te-se, por outro lado, preso a determinados deveres para com o fraco, por amor de 
Deus, por solidariedade, etc.

Lorenz-Sim, mas os interesses da espcie opem-se, infelizmente, s exigncias humanitrias. Sobre este 
assunto conhece-se uma srie enorme de exemplos. O que cumpre o seu dever de mdico e se dedica por 
exemplo a curar nos trpicos os indivduos atacados de paludismo ou da doena do sono por meio de 
remdios adequados provoca o excesso de populao, com todos os problemas que lhe so inerentes. 
Uma ndia que, pela sua actividade de enfermeira e pedag(:>ga, conseguiu reduzir a mortalidade infantil 
em algumas tribos primitivas, contou como uma aldeia inteira teve de ser abandonada por causa do xito do 
seu trabalho. O mesmo se passou em Haiti. A melhoria individual das condies de vida, ao provocar o 
superpovoamento, conduz  runa da situao de conjunto. Existem razes humanitrias que impedem que 
se tomem as medidas que seriam indicadas no interesse da espcie. No h dvida de que ainda no se 
compreendeu, verdadeiramente, em que consiste o problema do superpovoamento. No interessa apenas 
saber quantos homens a terra pode alimentar, mas a partir de que densidade e de que proximidade os 
homens comeam a odiar-se uns aos outros. Deste ponto de vista, so de importncia considervel as 
descobertas de William. Russel sobre os primatas. Depois de ter estudado a hierarquia nos macacos 
descobriu que, nos casos em que a ordem hierrquica funcionava de forma satisfatria, o facto de um 
animal possuir uma funo de chefia se encontrava em estreita relao com a sua capacidade de fazer 
alianas. O seu sistema de governo no apresentava feio de tirania sanguinria, mas de um contrle 
exercido por um grupo

AGRESSIVIDADE                              353

de animais velhos e experimentados que deram provas da maior amizade e de um mnimo de agresso 
livre. Acontecia, muitas vezes, de facto, que, seguidamente a uma ruptura de equilbrio devido a

um excesso populacional, os velhos eram desapossados do poder.
O animal mais jovem e mais combativo ocupa, nesse caso, o lugar de regente. Verificou-se que a relao 
entre o animal alfa e o animal beta se caracterizava, nesse caso, por um mximo de agressividade e um 
m nimo de amizade. Os animais subordinados davam, por outro lado, mostras de um medo horrvel. Ainda 
no se estudou se as rupturas de equilbrio provocadas por outras causas que no um superpovoamento 
sero susceptveis de provocar uma situao semelhante.

Hacker -As experincias que Calhoun fez com os ratos demonstram que egtes abandonam, por sua 
vontade, uma existncia tranquila para se exporem, levados at certo ponto por um esprito de aventura, 
aos perigos desta selva catica que  uma grande cidade.

Lorenz-Essa  uma afirmao realmente verdadeira no que se refere aos ratos, mas no tem valor aplicada 
a todos os outros animais superiores. Enquanto dispem de um espao suficientemente largo, estes 
costumam manter uma distncia razovel. Uma assistente do professor Witt realizou uma experincia 
simples e bela com os touros. Dentro do sistema moderno da agricultura os touros de pouca idade, que nos 
rebanhos no vivem normalmente com os companheiros da mesma idade, encontram-se reunidos em 
grupos de onze e so engordados numa espcie de estbulos. Em vrios destes grupos a ordem 
hierrquica esta-beleceu-se com facilidade. Antes de serem abatidos, verificou-se em cada um dos animais 
o peso proporcional das glndulas supra-renais, que se sabe eliminarem tanto mais quantidade de 
adrenalina quanto o rgo se encontra em estado de stress. Em todos os grupos estudados - apenas com 
uma excepo - as glndulas supra-renais do animal alfa apresentavam o peso menos elevado e as do 
animal beta o mais elevado. Este peso voltava a diminuir no caso dos animais mega, que, desprovidos 
de ambies hierrquicas, no tm ocasio de se excitar. Num caso nico em que o touro alfa no estava 
verdadeiramente seguro na sua posio hierrquica e se viu sempre obrigado a combater o animal beta, 
o peso das glndulas supra-renais atingia um grau considervel nos dois animais e muito mais elevado do 
que o verificado nos animais

com uma posio hierrquica estvel.

Hacker - Seria necessrio analisar o grau de durabilidade desta experincia no que se refere  
organizao das sociedades humanas.

12

354                   AGRESSIVIDADE

Lorenz - Uma das -crticas mais vulgares, mais estpidas e a bem dizer mais incompreensveis que se dirige 
 cincia do comportamento  a de ignorar ou reduzir a diferena entre o animal e o homem. A verdade 
assenta precisamente no contrrio. A aptido  cultura, a que Nicolai Hartmann apelida de esprito de 
objectivao,  de propriedade exclusiva do homem. Antes do aparecimento da tradio, os genes eram o 
nico instrumento capaz de adquirir, conservar e transmitir o saber e a informao. A inveno desta 
faculdade equivale  prpria criao da vida. Foi preciso que os nossos antepassados conseguissem 
compreender esta integrao do pensamento abstracto -e da tradio para que, ao mesmo tempo que a 
linguagem sintctica, aparecesse um novo aparelho capaz de realizaes semelhantes e superiores s dos 
genes, mas funcionando a um nvel muito mais elevado, que, com justia, se classificou de espiritual. Este 
acontecimento significa, por assim dizer, a nascena de uma espcie de vida superior, a criao de 
qualquercoisa inteiramente nova, que no existe no domnio animal. Mas, como o meu antigo professor 
Philippe Heberdey costumava dizer: Os milagres no existem.
O funcionamento deste novo rgo de civilizao e do esprito humano tambm se apoia em bases naturais 
e apresenta surpreendentes anomalias com os genes. Tal como neste ltimo, existe igualmente a dualidade 
de dois mecanismos opostos em que um tende a fixar o que foi adquirido enquanto o outro tem como fim 
eliminar gradualmente o que foi fixado para o substituir por uma realidade superior. Para todo o animal, 
como para toda a cultura, a sobrevivncia, ou seja a continuidade do poder de adaptao, depende do 
funcionamento harmonioso e equilibrado destes dois mecanismos, bem como da variabilidade do ambiente. 
A falta de poder de fixao e o excesso de transformao do origem a monstros tanto no ambito da 
hereditariedade gentica como no da tradio cultural. A ausncia de transformao implica a perda do 
poder de adaptao, a morte da arte e da cultura.  com razo que, por vezes, apelidam de fsseis os restos 
de tradies passadas.

Hacker -O que garante o equilbrio entre a renovao e a tradio?

Lorenz - No que se refere aos animais, a percentagem de mutao varia proporcionalmente com a do 
espao vital. Os animais marinhos, que vivem num meio ambiente extremamente constante, tm um conjunto 
de genes notavelmente conservador e que exclui automaticamente as transformaes. Os animais 
terrestres, inclusive as espcies no domsticas, so sempre acentuadamente heterozigotos e

AGRESSIVIDADE                               355

possuem um capital hereditrio muito variado, o que faz com que em cada nova gerao surjam qualidades 
novas que proporcionam um ponto de apoio para a seleco natural. O fentipo pode assim modificar-se 
pela adaptao sem que a espcie tenha de sofrer uma mutao. O equilbrio entre os factores 
conservadores e revolucionrios desempenha um papel importante na evoluo da cultura. No existe, 
porm, neste domnio uma adaptao definitiva  variabilidade de espao vital porque esta adaptao 
encontra-se, por seu lado, em -contnua transformao, quer dizer, aumenta num ritmo sempre crescente. 
Os responsveis por esta situao so a tecnologia e a ambio. Na civilizao o factor equivalente  
transformao  a atitude normal dos jovens, que na poca da puberdade se afastam da tradio dos pais. 
Tm por funo criticar os antigos ideais, pr de lado tudo o que se encontre em decadncia e descobrir 
novas funes. A coerncia da tradio no deve, por outro lado, ser verdadeiramente afectada. Hoje em 
dia, o facto de as transformaes exigidas se terem tornado demasiado importantes vai afectar este 
mecanismo que assegura a progressiva adaptao da tradio cultural. Existe uma quantidade de elementos 
num grau to acentuado de decadncia que a juventude se revolta e corre o risco de a nada atender. Por 
outro lado, os factores que asseguram a coeso da famlia e da tradio vo, infelizmente, enfraquecendo 
cada vez mais.

Portanto, atingimos actualmente um ponto crucial que pode pr em causa toda a evoluo futura da 
humanidade. O equilbrio indispensvel entre as duas tendncias antagnicas encontra-se, neste momento, 
profundamente perturbado.

Hacker -E esse facto foi devido ao reforo de solidariedade horizontal em prejuzo da solidariedade 
vertical?

Lorenz -Evidentemente. E se esta evoluo continuar de forma descontrolada, se no surgir um 
mecanismo ou uma instituio conservadora, este fenmeno poder significar o fim da civilizao e chegar 
mesmo, assim o creio sinceramente, a levar o homem a um estado de regresso pr-cromaniano.

Hacker-A nossa civilizao no se encontra unicamente ameaada por elementos marginais. Como muitas 
vezes se chamou a ateno para o facto, ela parece querer destruir-se a si mesma pelos mais diversos 
meios.

Lorenz - Falei e -escrevi muito sobre o assunto nestes ltimos tempos. Fui levado a insistir particularmente 
no papel desempenhado pela rigidez da educao. Toda a civilizao deve solidificar e, por assim dizer, 
incrustar em si o saber j adquirido, a fim de o

356                     AGRESSIVIDADE

fixar. Este fenmeno verifica-se independentemente da origem deste saber. Quando as convices e 
conhecimentos cientficos contam j com um certo tempo de transmisso tradicional, adquirem carcter de 
supersti o e servem, pelo menos, de apoio provisrio a progressos futuros.

Hacker -  precisamente nesse ponto que penso quando falo no significado produtivo das instituies e 
das tradies que transformam a agresso livre em agresso condicionada. O recurso a estruturas fixas tem 
igualmente validade no que se refere ao desenvolvimento do saber cientfico: no se pode estudar tudo de 
uma s vez.

Lorenz -  uma questo de estratgia. Desde que uma coisa possua um nome e uma funo, tem uma 
existncia real e  impossvel saber se ter tilidade ou no. No se pode deitar tudo a perder. Ao 
proceder-se  destruio das instituies e princpios antigos, pode-se estar a caminhar para uma 
verdadeira regresso.  insensato pensar que a simples destruio de uma floresta basta para fazer nascer 
outra automaticamente. Nos nossos dias assiste-se ao enfraquecimento contnuo dos factores que 
asseguram a transmisso da tradio e ao reforo dos factores da ruptura.

Hacker - Os jovens que, neste exemplo, representam o princpio da destruio, da ruptura e da 
transforma o tambm consideram, no entanto, a sua agresso como uma contra-agresso. Contestam o 
princpio segundo o qual os pais os deveriam unicamente amar; invocam, o facto de que os pais se mostram 
incapazes de os amar, de que os enganam, os drogam e os enviam para a guerra;  por esse motivo que 
recusam acreditar neles.

Lorenz -Em parte tm razo. A revolta da juventude apresenta, no entanto, indubitavelmente uma feio 
nevrtica que se traduz pelos excessos a que se entregam na contestao. A opinio pblica oscila sempre 
entre os dois extremos. A tolerncia exagerada de que hoje se d provas frente aos excessos de todos os 
gneros e mesmo ante a delinquncia juvenil , sem dvida, o reverso da medalha da educao autoritria 
caracterstica da era vitoriana e dos nacionais-socialistas. Recusa-se, assim, toda a autoridade s geraes 
anterioresnega-se todo o valor  idade e  experincia, o que, por um lado,  evidentemente contrrio a 
todos os princpios biolgicos e, por outro, uma atitude pouco inteligente. A autoridade  sempre uma 
vivncia, at mesmo no interior das sociedades constitudas pelos mamferos superiores. o antroplogo De 
Vore observou o fen meno a seguir mencionado num grupo de babunos. O grupo era dirigido por um 
macho de idade muito avanada, praticamente senil. Durante o

AGRESSIVIDADE                               357

tempo que De Vore se dedicou  experincia, o velho caiu vrias vezes devido ao seu estado de fraqueza 
e teve de ser transportado pelos ajudantes-de-campo. No tinha dentes, o que o tornava praticamente 
inofensivo. Foi, todavia, ele o primeiro que se atreveu a avanar para espiar um leo que estava a impedir 
o caminho que levava s rvores onde os macacos costumavam instalar-se para dormir. Depois de ter 
estudado a posio do leo, conduziu o grupo at casa fazendo um largo desvio. Neste caso no  o 
mais forte, mas o mais esperto a assumir responsabilidades sobre si e a dar provas da sua autoridade. A 
colaborao das geraes no assenta unicamente na fora fsica.

Hacker - Nocaso do homem, acontece muitas vezes os pais queixarem-se aos filhos das privaes que 
conheceram. Vingam-se, assim, at certo ponto, nas novas geraes dos sofrimentos suportados.

Lorenz-Assim acontece de facto, mas na minha opinio  um sinal de imaturidade. Os pais que procedem 
assim no se conseguiram desligar totalmente dos seus prprios pais, uma vez que, atingindo o estado 
adulto, ainda continuam a nutrir sentimentos de dio e de rancor em relao a eles. Um indivduo 
verdadeiramente maduro e independente nunca procede desse modo. Tambm nunca se encontra 
verdadeiro dio entre pais e filhos no caso dos animais normais que vivem em liberdade. Em todos os 
animais superiores, que vivem em colectividade, os pais conservam, por outro lado, a sua superioridade 
hierrquica em relao aos mais novos.  um erro muito comum a crena de que uma forma de produo 
colectiva, que funciona a elevado nvel de integrao, pode subsistir sem a existncia de uma ordem 
hierrquica. Ainda que no se tome, porm, em considerao este aspecto do problema, torna-se 
necessria uma hierarquia entre a gerao superior e inferior para que a segunda esteja apta a receber os 
dados de ordem cultural transmitidos pela primeira. Cada gerao deve criar um novo equilbrio entre a 
tradio e a ruptura com o passado.

Hacker-Esse  o processo que apelido de polarizao. Lorenz-Esta oscilao de pensamento entre dois 
plos no  apenas uma realidade inevitvel, mas um processo positivo. A oscilao acaba por se estabilizar 
num determinado ponto, que se encontra mais prximo do imperativo categrico da verdade do que 
qualquer dos dois extremos. S quando a mentira e o exagero, por parte dos dois extremos, suscitam o 
dio entre os adversrios  que se chega ao aumento progressivo das foras contrrias, ao dio, ou seja,  
catstrofe. O dever da inteligncia reside em regular a oscilao.

358                     AGRESSIVIDADE

A forma de o conseguir consiste na reduo progressiva do dio. A realizao de um tal objectivo 
pressupe, no entanto, necessariamente, que se tenha reconhecido a existncia de um determinado 
nmero de tabos, cujo teor pode, evidentemente, variar.

Hacker-Concordo plenamente consigo.  preciso, porm, insistir continuamente no facto de que toda a 
ordem, por mais injusta e repressiva que possa ser, se apresenta sempre como a melhor e nica ordem 
possvel, como a ordem em si.

Lorenz-Sim,  verdade. Todos estes problemas, porm, que resultam de factores quantitativos devem 
poder ser estudados e resolvidos pela cincia quantitativa. Neste ponto cabe  ecologia um papel essencial: 
o de elaborar um programa fundamental, ou por outras palavras o de definir as exigncias de espao vital 
relativamente s diversas estruturas sociais e problemas etolgicos que se apresentam ao homem -como 
consequncia da evoluo tecnolgica. Estes problemas no devem ser submetidos a critrios de feio 
exclusivamente econmica. Poderia, assim, demonstrar-se que a teoria etnocentrista de right or wrong, my 
country  cientificamente insuportvel e est profundamente errada. A Terra tornou-se demasiado 
pequena. A legitimidade ou ilegitimidade de um sistema social mede-se, hoje em dia, pela atitude que o 
mesmo adopta frente  totalidade dos problemas humanos. A indiferena actual para com a beleza e, 
sobretudo, a cegueira no mbito dos valores constituem perigos que podem ser cientificamente 
demonstrveis.

Hacker - Como  que a sociedade pode, no entanto, tomar em considerao estes perigos cientificamente 
demonstrveis?

Lorenz - Refreando o ritmo de desenvolvimento, suspendendo, por algum tempo, a evoluo tecnolgi-ca 
 impondo pelo terror o domnio dos justos, que deveriam proceder a uma mudana radical de valores. 
No fao esta afirmao em tom de brincadeira.  esta, na realidade, a minha opinio. A corrida atrs do 
dinheiro a que hoje em dia se -entregam os grandes industriais  um verdadeiro perigo. Os que se 
vangloriam de perspiccia no se preocupam, no -entanto, absolutamente nada com o que se passar 
necessariamente dentro dos prximos vinte anos. As pessoas comportam-se como se estivessem possudas 
pelo demnio.

Hacker -E qual a forma de as convencer? Lorenz - Ou, pondo o problema de outra forma: como proceder 
na prtica para fazer com que a razo triunfe? Os detentores do poder so polticos e um poltico , por 
definio, algum nica e exclusivamente preocupado em ser reeleito. Na minha opinio, existe

AGRESSIVIDADE                                359

unicamente um processo de fazer com que os polticos atendam  razo. Seria preciso conseguir que este 
conjunto de dados de fcil compreenso se tornasse, cada um deles, de tal forma claro que o poltico, 
levado pela preocupao da publicidade eleitoral, tomasse as medidas que nos podem salvar. A nossa nica 
esperana reside na educao. A humanidade corre o risco iminente de se afundar literalmente sob os 
seus prprios detritos. T. S. Eliot afirmou que o mundo no acabar pela destruio total, mas com um 
gemido surdo. Penso que, se no conseguirmos refrear esta corrida para o dinheiro, no haver soluo 
possvel.

Hacker -Mas como fazer prevalecer, a curto prazo, este ponto de vista sobre os interesses existentes?

Lorenz-Acho que a nossa tentativa no ser coroada de xito se tentarmos convencer os que se 
encontram envolvidos na teia da corrida atrs do dinheiro. Deposito todas as minhas esperanas na 
juventude. As minhas experincias de dilogo com os estudantes, que a princpio me olhavam com 
desconfiana, fazem-me acreditar que  possvel informar a juventude sobre a verdadeira situao da 
nossa civilizao. Pode surgir-nos a questo de se esta educao da juventude, a nossa nica possibilidade 
de salvao, nos permitir atingir a tempo o resultado desejado. O problema  muito duvidoso, dada a 
resistncia a esperar por parte dos detentores do poder. Talvez estes, porm, ouam a voz da razo 
quando se comearem a sentir sufocados. Talvez nessa altura comprendam que a sobrevivncia  mais 
importante do que o dinheiro.

Hacker-Seria preciso, antes do mais, acentuar a importncia de outros valores que no sejam materiais, 
como, por exemplo, a nova importncia do homem e o seu valor.

Lorenz - At aos nossos dias, o estudo do homem efectuou-se em escala extremamente reduzida. Mediante 
justa insistncia quanto ao direito individual de igualdade de oportunidades chegou-se, dentro de um 
esprito de confuso pseudodramtico,  convico de que o usufruto de oportunidades era o mesmo para 
todos e que todos podiam, igualmente, fazer fosse o que fosse. Para se negar que existem diferenas inatas 
entre os homens, postulou-se que era possvel condicionar-se tudo. Graas a Deus no  assim. H coisas 
que o homem no pode, muito simplesmente, suportar. Podem-se, por outro lado, determinar 
cientificamente as condies que lhe permitem ser

feliz. julgo que em circunstncias favorveis  at mesmo possvel dar-lhas a conhecer. Estes so 
pareceres herticos, mas talvez a heresia corresponda  realidade.

360                   AGRESSIVIDADE

Hacker -Essa teoria , pois, um discurso apologista da cincia subversiva, da subverso pela cincia?

Lorenz - preciso dar s coisas o seu justo valor; deve fazer-se ,compreender aos outros o que julgamos 
compreender. A inteligncia no tem carcter de exclusividade. Todos deveriam adquirir conscincia da 
sua responsabilidade em relao s palavras que pronunciam. A mentira nunca deveria ser uma boa 
poltica.

Hacker-Tudo isso me parece, pelo menos, o princpio de um

programa de aco em particular para os cientistas.

Lorenz - O dio arrasta a estupidez e deveria, consequentemente, ser eliminado. As oscilaes devem 
tender para um equilbrio.  uma atitude insensata partir do princpio de que se pode interrogar, mas que 
nunca se deve dizer nada com receio de ver a nossa interveno rejeitada como injustificada. A hostilidade 
entre as geraes, bem como outros desencontros de ordem nevrti,ca colectiva e relativos ao 
desenvolvimento, pode ser abolida se se aplicar o

princpio fundamental da psiquiatria que consiste em consciencializar os motivos destes desencontros. Em 
lugar de se encontrar ao

servio da reciprocidade de ofensas e reforo das contradies existentes e fornecer a cada um a 
justificao das suas convices, a razo

pode tornar-se um instrumento de conhecimento consciente e de elucidao.

Viena - Altembergue, 14 de Abril de 1971

Segunda entrevista

KARL MENNINGER

Karl Menninger, psicanalista, fundador e durante muitos anos dirigente da Clnica Menninger, em Topeka 
(Cansas), uma clnica mundialmente famosa, que foi o centro de onde saram geraes de psiquiatras, 
combina um sentido tradicional profundamente religioso com uma vontade indomvel de renovao. 
Desde que o seu best-seller The Human Mind familiarizou vastas camadas da opinio pblica com as 
teorias da psiquiatria moderna, Menninger tornou-se uma figura pblica importante. Foi conselheiro em 
diversas comisses, escreveu numerosos livros e foi ele quem mais contribuiu para a reforma dos 
tratamentos ministrados a doentes mentais nas instituies pblicas. Gosta que o vejam como um indivduo 
preocupado com todos os problemas e que desejaria ser participante activo em transformaes a efectuar. 
No momento presente, o seu interesse mximo reside na reforma radical das condies dos presos.  este 
o

tema do seu ltimo livro: Ser Um Crime Castigar?

Foi este o dilogo travado entre Karl Menninger e o autor:

Hacker -A brutalidade parece ter-se tornado o slogan da poca em que vivemos e o mesmo se poder 
dizer do uso impiedoso da violncia e da indiferena com que  acolhido o espectculo de brutalidade, 
que se tornou banal e quotidiano.

Menninger-No aceito, de modo algum, a forma que acabou de enunciar. julgo que em tempos passados se 
verificaram acontecimentos de uma maior violncia e brutalidade. Toda a aproximao que se possa fazer 
ao problema depende da perspectiva histrica e

da poca, mais ou menos longnqua, da Histria que se tome em

362                    AGRESSIVIDADE

considerao. No h necessidade de nos reportarmos a Gengisco; basta pensar nas violncias 
quotidianas permitidas nos pases civilizados como a Inglaterra ou a Amrica h dois ou trs sculos.  ine-
gvel que a situao melhorou apesar da insegurana com que se anda na rua e do pretenso aumento de 
criminalidade. Seja como for, a situao no  pior do que no tempo dos pioneiros, em que era necessrio 
ir-se armado para a igreja a fim de no se ser atacado. Na Europa tambm se verificavam formas extremas 
de violncia.
O homem , na realidade, um ser votado  violncia e at mesmo ao pecado, mas tenho absoluta percepo 
de que este princpio no  moderno nem se adapta aos cientistas de hoje.

Hacker-Coffio interpretar essa ideia de existncia de pecado no homem?

Menninger- Adoptarei a definio do dicionrio. Sei que a minha teoria nada tem de original e que s a 
maneira de a formular tem um carcter inslito. H milnios que os filsofos se interrogam sobre o pecado 
cardinal dos homens: a avidez e a inveja ou o orgulho e a arrogncia, de acordo com o pensamento de 
Santo Agostinho, ou ainda a ignorncia.

Hacker - Talvez no s a ignorncia, mas o esquecimento voluDtrio de factos desagradveis, a no 
utilizao consciente de aptides crticas intelectuais ou as tcnicas inconscientes da viso parcial dos factos 
no sentido de se preservar uma cmoda ignorncia e uma fuga  interveno.

Menninger- surpreendente a constatao da quantidade de coisas que os homens no observam ou no 
querem observar. Vou, por exemplo, citar um caso do tempo em que, pouco depois da Segunda Guerra 
Mundial, fui membro de um comit de mdicos americanos. Visitmos o campo de concentrao de 
Buchenwald. Os meus colegas ficaram aterrorizados com o espectculo. No queriam acreditar no que 
viam e no podiam admitir que a espcie humana fosse capaz de tais horrores. Surpreendi-me com o 
espanto que os meus colegas demonstravam e vrias vezes lhes fiz a mesma pergunta: O que esperavam? 
Porque entrmos em guerra, porque estamos aqui seno para abolir um regime que coloca seres humanos 
em campos de concentrao onde os martiriza e aniquila? Lramos algumas descries sobre o assunto 
nos jornais. Os horrores de Buchenwald no me provocavam uma comoo menor do que aos meus 
colegas, mas no me surpreendiam porque o que ns vamos, estes esqueletos descarnados, estes seres 
torturados e agonizantes, todos estes homens reduzidos a um estado indigno, era o espectculo que

AGRESSIVIDADE                              363

eu esperava. Os soldados americanos estavam to revoltados e indignados que s a custo os impedimos de 
aplicar a pena de talio. Quiseram obrigar os cidados da cidade vizinha de Weimar a visitar, em pormenor, 
este campo de concentrao a fim de constatarem o que a se passara. Esta pobre gente torturada e 
martirizada, que na maioria perdera os entes queridos na guerra, quase sempre afirmava nada saber do 
que se passara. Os nossos soldados mostravam-se, no entanto, implacveis. Em resumo, foram a 
Wehrmacht, a Gestapo e as autoridades alems os culpados e executores destes actos vergonhosos. Os 
americanos obrigaram os habitantes de Weimar a esvaziar os antigos tmulos e a cav-los de novo a fim de 
verificarem as terrveis consequncias dos -crimes cometidos em seu nome.

Aproximadamente na mesma altura, a nossa comisso foi consultada a fim de fazer o diagnstico de um 
soldado americano que apresentava sintomas de nevrose. No decurso da anamnese deste jovem 
americano, chegou-se  concluso de que a sua doena se devia, em grande parte, a um episdio da sua 
vida relacionado com a sua deteno numa priso de um dos estados do Sul dos Estados Unidos. Fora 
preso por vagabundagem e obrigado, seguidamente, a executar um trabalho extremamente duro, como se 
tivesse sido preso por um delito grave. Durante os interrogatrios a que fora submetido passara dois dias 
inteiros no que se chama um hot box e que  constitudo por um reservatrio metlico no qual se mete o 
preso  fora. Sob a aco intensa dos raios solares a essa latitude, a temperatura chega a subir a (Joo 
Celsius. Os presos sofrem, geralmente, de forma horrvel, desmaiam e, em alguns casos, toda a vida se 
ressentiro da desidratao sofrida. Os meus colegas, na sua totalidade psiquiatras americanos, 
surpreenderam-se e indignaram-se. No eram capazes de acreditar na existncia de um suplcio to atroz. 
Tinham ouvido dizer que num stio qualquer e em determinadas ocasies se fizera uso de mtodos 
semelhantes de tortura, mas no nos Estados Unidos, no pelos nossos compatriotas nem na nossa poca. 
No irei, naturalmente, ao ponto de afirmar que se tratava de uma situao idntica  de Buchenwald; mas 
impe-se a analogia. Se se impe apenas aos meus olhos ou tambm aos dos meus colegas, ignoro.

Seja como for, penso que em cada um de ns existe o mal, existe muito mal e no um pretenso mal. Acho 
que seria necessrio que tomssemos conscincia dos nossos pecados e que a nica possibilidade de 
salvao geral e individual consiste em expi-los. , no entanto, importante distinguir entre expiao e 
castigo.

Hacker - Qual  a diferena?

364                     AGRESSIVIDADE

Menninger- Expiao  a consequncia directa de uma aco falsa e moralmente condenvel, ao passo 
que o castigo  uma agresso suprflua e sem valor aplicada ao infractor.  este o mal de todo o nosso 
sistema penalizador: a sociedade descarrega nos criminosos todos os seus instintos de vingana e o seu 
gosto pelas represlias. Comporta-se de forma to irracional para com os criminosos que coloca nas prises, 
incontestavelmente escolas de crime, que eles acabam por sair muito piores do que quando entraram. Dei 
uma srie de exemplos sobre o assunto no meu livro Ser Um Crime Castigar?

Hacker -, pois, indubitvel que a palavra pecado designa a responsabilidade do indivduo?

Menninger -, Sim. Sinto-me plenamente convencido de que assim . Cada um , at certo ponto, 
responsvel pelos seus actos, mas o grau de responsabilidade nem sempre  o mesmo. O homem nem 
sempre pode medir o grau e a intensidade do pecado, mas -lhe dado reconhecer os seus prprios 
pecados, lament-los, expi-los e, sobretudo, comportar-se no futuro de maneira a no os repetir. S 
seremos capazes de encontrar solues relativas ao problema da luta contra o crime se no albergarmos 
sentimentos de vingana. A nossa obstinao em punir  o nosso crime para com os criminosos e para 
connosco.

Hacker - Qual, ento, o procedimento a adoptar para com os criminosos? Muitas so j as pessoas que 
acusam os psiquiatras de se apiedarem dos criminosos e no das suas vtimas.

Menninger-As minhas opinies sobre o assunto do muitas vezes lugar a equvocos.  evidente que eu 
no defendo a inaco da sociedade frente aos criminosos e nem mesmo apregoo a indulgncia em relao 
aos mesmos. Cito apenas o tratamento dos doentes mentais. Ainda at h pouco tempo fechavam-se os 
doentes mentais como autoproteco e, ao que se dizia, para se proceder  sua cura. Depois do seu 
internamento, no entanto, os doentes deixam de oferecer motivo de preocupao. Por outro lado, a nossa 
clnica de Topeka * outras tambm aplicaram o que h muito se aconselhava. Estuda-se * doena, 
estabelece-se o diagnstico e faz-se a cura necessria. Actualmente encontra-se provado o sucesso 
incontestvel destes mtodos.  este o processo que, mais tarde ou mais cedo, se dever aplicar. em 
relao aos criminosos. Na Amrica existe j uma srie de centros especializados em diagnsticos capazes 
de estabelecer, com exactido, dados precisos sobre a personalidade dos criminosos. Os programas de 
reabilitao cuidadosamente estudados que os mesmos podem apresentar relativamente a determinado 
indivduo de nada servem,

AGRESSIVIDADE                                365

porm, dada a falta de instituies capazes de assegurar a cada um o tratamento, reeducao e 
reintegrao necessrias. Robert Waelder, um psicanalista recentemente desaparecido, estabeleceu as 
linhas gerais da classificao servindo-se de um esquema, alis, muito simples. Refere-se aos criminosos 
perigosos mas sensveis  intimidao.  preciso castig-los e, simultaneamente, submet-los ao tratamento 
adequado se puderem ser tratados; cito, em seguida, os criminosos perigosos, insensveis, sobre os quais a 
intimidao no produz qualquer efeito.  preciso coloc-los em lugar seguro, como precauo contra 
eventuais reincidncias, e trat-los, caso exista essa  possibilidade. Seguem-se os delinquentes no 
perigosos, insensveis  intimidao, aos quais  preciso pr em liberdade e, caso seja possvel, aplicar o 
tratamento conveniente. Quanto aos delinquentes no perigosos mas intimidveis,  preciso p-los sob 
vigilncia e, se for indicado, -cur-los. Podem-se medir as possibilidades de sucesso dos programas de 
reabilitao e ressocializao atravs dos xitos obtidos em diversas instituies que trabalham nesse 
sentido. A Boys Industrial School dos Cansas, por exemplo, que  uma instituio para jovens criminosos, 
conseguiu reduzir a percentagem de reincidncias de
4 % para 9 %, ao passo que esta percentagem noutros locais de recuperao tradicionais  de 43 % a 75 
%- O sucesso do mtodo utilizado foi devido a uma combinao do trabalho, do prazer e das horas 
dedicadas  educao, dentro de um esquema de existncia equilibrado no seio de um ambiente 
acolhedor. , por outro lado, um absurdo pensar que se pode conseguir que o indivduo se torne melhor 
fechando-o em prises ou penitencirias ou que se pode despertar a reflexo e o arrependimento nos 
presos reduzidos  condio de meros nmeros e entregues  homossexualidade.

Hacker - Qual o motivo que nos leva a uma entrega ao luxo ou ao vcio deste irracionalismo colectivo, 
sendo, no entanto, manifesta a ausncia de sucesso na utilizao desse mtodo?

Menninger - Nos Estados Unidos no podemos renunciar  falsa noo de que eliminando,se o malfeitor se 
elimina igualmente o mal. O criminoso , pelo menos em parte, o bode expiatrio em

que, por procurao, se descarregam sentimentos de culpabilidade dos inocentes. Dominam-se mais 
facilmente os intintos de dio subjacentes, uma agressividade reprimida, os crimes cometidos em 
imaginao e o sentimento de castigo merecido ao transferi-los sobre o criminoso culpado do que tomando 
inteira conscincia da sua existncia. Deixamo-nos arrastar por essa iluso. Nos Estados Unidos verificam-
se anualmente dezenas de milhares de crimes, algumas cen-

366                    AGRESSIVIDADE

tenas de penas capitais, mas, geralmente, s se efectuam duas ou trs execues. , na verdade, um 
processo totalmente ineficaz, ainda que a pena capital pudesse ter um efeito de intimidao, o que se sabe 
no ser verdade. Se, em princpio, se autoriza a pena capital num pas civilizado, a lgica exige que 
igualmente se aceite a eutansi4. No temos, porm, o direito de destruir o que no crimos.

Hacker -Porque no se suprimiu, ou pelo menos no se suspendeu, nos Estados Unidos a pena de morte,  
semelhana do que aconteceu na maioria das democracias europeias?

Menninger - evidente que nos Estados Unidos se acredita que o mal desaparece como por magia desde 
que no o possamos ver, desde que os criminosos sejam encerrados ou que em casos extremos lhe 
pisemos o tmulo pelo menos em imaginao. No tomemos a srio nem o pecado original nem a nossa 
hereditariedade biolgica nem mesmo a morte. Li hoje no jornal que um mido de dez anos empurrou trs 
dos seus companheiros de pardia para um tanque, onde se afogaram. No deixou que se salvassem, pois 
pisava-lhes os dedos todas as vezes que eles tentavam sair. Alguns minutos antes, o jovem assassino 
estivera a brincar calmamente com os trs companheiros.  evidente que ele no tinha conscincia dos 
resultados do seu acto: talvez a televiso o tivesse convencido de que o emprego da violncia no tem 
consequncias e que a morte no  definitiva. Muitos outros consideram a mortee outros efeitos da 
violncia como falsas aparncias. Embora a nossa inteligncia se recuse a aceitar o facto, a verdade  que 
agimos como se a morte fosse um estado fictcio provisrio.

Hacker-Tambni fazemos muitos sacrifcios ou somos inconscientemente obrigados a faz-los para 
conseguir reprimir e transferir assim as nossas tendncias.

Mennnger - realmente assim. Freud descreveu as dificuldades que encontrou em observar e chegar a 
concluses sobre a importncia da agresso na vida humana. No se deveria minimizar a importncia das 
tendncias agressivas; no h dvida de que em cada ser humano existem tendncias  autodestruio. 
Cada indivduo deve combater os seus prprios instintos de violncia. O grande problema est em saber 
como. O ponto de partida para todo o equilbrio, tanto individual como social, reside no reconhecimento da 
nossa prpria agressividade, do nosso prprio mal e, portanto, das nossas tendncias agressivas.

Hacker-As tendncias agressivas unem-se a outras tendncias

AGRESSIVIDADE                                367

e dissimulam-se de diversas formas. So reprimidas, renegadas e

transferidas, o que as torna difceis de detectar e estudar.

Menninger-Se assim no fosse no poderamos cometer actos to terrvel e estupidamente cruis em 
relao aos outros homens e ao ambiente que nos rodeia. Com o desenvolvimento amoral que nos 
caracteriza -exercemos violncia sobre as plantas, os animais e a beleza natural do mundo. Somos levados 
a essa atitude por razes de ordem material e econmica a que, alis, no damos o seu real valor. A maior 
parte dos homens demonstra no seu comportamento uma

obedincia a motivaes de ordem moral e so condicionados pelo que consideram um dever. Eu mesmo 
tenho convices morais profundas e profundamente religiosas que determinam muitos dos meus actos. 
julgo que se passa o mesmo com muitos dos meus semelhantes que no o declaram to abertamente ou que, 
pelo menos, do outros nomes  sua f. Todos os que protestam contra as formas de manipulao mental e 
lavagens ao crebro limitam-se, todavia, a impor as suas prprias convices e doutrinas aos outros. Fazem 
exactamente o que criticam nos outros. Segundo me parece, sou relativamente mais sincero nessa questo: 
no s declaro abertamente as minhas convices, como reconheo que pretendo convencer os outros. A 
agresso  um instinto. Tentei demonstrar nas minhas obras que a agresso inconfessada se desencadeia 
sob forma de destruio e autodestruio e conduz a um suicdio parcial do indivduo e a todo o gnero de 
perturbaes nevrticas e psicossomticas. A melhor forma de controlar as nossas tendncias agressivas  
admitir a sua existncia. Estou -convencido de que as relaes humanas a que chamamos amizade, amor e 
respeito sero assim activadas e aprofundadas. Neste aspecto o individualismo no  suficiente e  preciso 
substitu-lo ou acrescentar-lhe formas de agrupamento que tenham como fim a organizao de extensas 
comunidades e um caminhar no sentido de uma comunidade universal. No que me diz respeito, declaro-me 
partidrio de um governo mundial, de uma federao mundial estabelecida por comum acordo, em que os 
conflitos seriam resolvidos mais ou menos da mesma forma como actualmente o so no interior de um 
Estado. Acho que tanto o indivduo como o grupo devem ultrapassar os interesses de ordem particular e 
deixar de pensar em termos de Missouri ou Albany, pois que  necessrio pensar numa escala de planeta. 
Na situao actual, as guerras esto ultrapassadas e julgo que, em breve, sero esquecidas, pois se 
tornaram processos perigosos e totalmente inadequados para a soluo dos conflitos humanos. Pior do que 
as guerras, porm, so os crimes

368                     AGRESSIVIDADE

estpidos de todos os que fabricam e armazenam armas mortferas, sobretudo bombas atmicas, e dos que 
destroem o ambiente. O conceito de vitrias militares tem milhares de sculos. A nossa destruio cega dos 
tesouros da natureza, da fauna e da flora  estpida e imoral; ainda que o Monte Branco ou o Grand 
Canyon encerrassem o maior jazigo de ouro ou o mais maravilhoso diamante, eu preferia no os obter a 
fazer explodir o Monte Branco ou o Grand Canyon. Somos, porm, grandes pecadores ecolgicos e a 
verdade  que os faramos explodir.

Hacker - Talvez no se deva essencialmente a motivos de ordem econmica?

Menninger -Sim, mas tudo se passa de forma semelhante qualquer que seja o sistema poltico. Na Rssia, 
faz-se exactamente o mesmo. No esqueamos, no entanto, que Eisenhower, um presidente republicano 
muito conservador, lanou no fim do seu mandato um aviso contra a coligao secreta do exrcito e da 
indstria, o que passa despercebido ao cidado.  bem certo que a tendncia  agresso e o potencial de 
pecados so bem mais perigosos nos grandes do que nos humildes, sem que por tal sejam maiores.

Hacker-E como remediar a situao? Menninger- Mediante um contrle muito enrgico. Sou um democrata 
convicto, amo o meu pas e considero-o o melhor pas do mundo porque nele se podem expressar opinies 
como as minhas, o que seria impossvel em qualquer sistema totalitrio. Se bem que ningum me possa 
acusar de ser comunista, considero absolutamente necessrias certas medidas de socializao. Terminaria, 
alm do mais, com esta guerra absurda, sendo mesmo a favor de uma declarao unilateral dos Estados 
Unidos que renunciasse a toda a utilizao da violncia, quaisquer que fossem as circunstncias,  
excepo talvez do caso de invaso manifesta e indiscutvel de um territrio nacional. Considero pueril a 
corrida para os armamentos e aceito, de bom grado, que outras naes nos ultrapassem no plano de fabrico 
de avies supersnicos.

Hacker- aparentemente bem difcil fazer valer os argumentos da razo e p-los a funcionar contra todos 
os interesses econmico,s e psicolgicos competitivos ligados  agresso e contrles de agressividade.

Menninger-Dado que todos nos encontramos sob o imprio da agresso e agimos aparentemente de forma 
racional, embora movidos por motivaes completamente irracionais, torna-se muito difcil preconizar 
mtodos racionais de contrle de agresso. Neste

AGRESSIVIDADE                              369

aspecto encontramo-nos numa situao anloga  dos antigos profetas Isaas e Jeremias, que tambm se 
lamentavam de ter feito tudo para convencer o povo, sem que este escutasse OS seus conselhos. Acho que 
 melhor recordar aos homens o seu dever e responsabilidade para com os outros e para com Deus, em 
lugar de mencionar a todo o momento a catstrofe iminente. A meus olhos, alis, as duas so uma e a mesma 
coisa.

 dentro deste esprito que resumirei teologicamente o que nas minhas obras formulo sob um tom 
psicolgico: a tomada de conscincia do nosso prprio potencial de agresso, da nossa prpria 
agressividade,  o primeiro passo para a salvao e quando, pelo contrrio, se negam e se projectam as 
tendncias, quando no se lhes atribui o seu valor real ou se atribuem responsabilidades a outrem cai-se 
fatalmente no aumento e na vit ria da violncia.

Chicago, 18 de Abril d 1971

Terceira entrevista

HERBERT MARCUSE

No decurso destes ltimos dez anos o filsofo alemo Herbert Marcuse, residente em San Diego, na Califrnia, discpulo 
de Heidegger e co-fundador da Escola de Filosofia de Francoforte, tornou-se o apstolo da juventude revoltada e uma 
das personagens mais controversas da histria moderna das ideias. Anjo do Apocalipse e agitador da juventude, profeta 
moderno e mestre da filosofia actual so as designaes por um lado ofensivas e por outro lisonjeiras com que o 
apelidam. Os conceitos da sua autoria relativos a tolerncia repressiva, sociedade unidimensional e recusa em massa 
fazem, actualmente, parte integrante da linguagem corrente.

Marcuse-julgo ser uma observao irrefutvel o facto de que a sociedade moderna se torna cada vez mais 
brutal. Segundo as teorias freudianas, deveramos ser levados a admitir que a actual liberdade sexual 
conduziria  diminuio da agresso. Assiste-se, no entanto, ao caso de indivduos que desfrutam de uma 
enorme liberdade ertica, que puseram de lado todos os preconceitos de carcter sexual e fazem, no 
entanto, uma profisso da agresso. Um aumento do lbido deveria, porm, conduzir a um decrscimo da 
agresso.

Hacker -No  assim to simples. Em primeiro lugar, Freud j chamou a ateno para o facto de que as 
formas de expresso dos instintos no devem ser confundidas com os prprios instintos. Nas suas 
manifestaes, os instintos aparecem profundamente transformados e misturados, e nunca no estado puro. 
Os instintos combinam-se desde o incio com os mecanismos de defesa que contra eles se dirigem. Entram, 
alm disso, em linha de conta todas as ligaes possveis e variantes entre as formas libidinosas e 
agressivas.

372                    AGRESSIVIDADE

Marcuse - Acusaram-me muitas vezes de interpretar Freud de forma mecnica ou quantitativa. Aprovo, no 
entanto, de bom grado a teoria freudiana da reserva de energia. Segundo Freud, a energia instintiva, quer 
se apresente sob a sua forma directa ou sublimada, no pode ser posta simultaneamente ao servio de dois 
objectivos.

Hacker -No que se refere  agresso, esse princpio no  necessariamente exacto. Existem muitos 
exemplos de formas de expresso da agresso que conduzem ao hbito da agresso e at mesmo a uma 
espcie de procura da agresso. Quer seja explosiva ou habitual, a agresso determina uma elevao geral 
do nvel de agresso e de brutalidade e no um decrscimo.

Marcuse -  possvel. Torna-se, porm, necessrio explicar o motivo por que a maior liberdade sexual, a 
diminuio da autoridade paterna e a crescente tolerncia do superego ou a sua ausncia provocam um 
aumento e no uma diminuio da agresso. Pelo menos, segundo as teorias de Freud deveria esperar-se o 
contrrio.

Hacker -Haveria, em primeiro lugar, que esclarecer este ponto. A situao actual  uma verdadeira 
libertao ou unicamente um soltar rdeas dentro de limites bem difinidos e determinados? No esprito de 
uma moral de prazer existem tabos igualmente potentes, embora de natureza diversa, capazes de impor 
uma autoridade. Fica-se, assim, votado e condenado  volpia e  pretensa conquista do prazer. A 
liberdade transforma-se em obedincia  lei do prazer e da variedade.

Marcuse - Num artigo sobre psicanlise recentemente publicado, d-se a entender que a animosidade para 
com uma civilizao que refreia os instintos ganhou amplitude apesar da diminuio da represso.

Hacker - Ignoro se a afirmao  justa no que se refere  represso geral, mas aplica-se, sem dvida, s 
formas bem definidas em que at agora apoimos a tradio do padro repressivo. Hoje em dia verificou-se 
uma modificao no s em relao aos exemplos de represso, -mas ainda quanto ao seu contedo.

Marcuse - Uma transformao primordial  a confiana ilimitada que a sociedade deposita em si sob 
influncia das contradies internas. Todas as sociedades se fundamentam numa f relativamente aos 
valores que definem a sua sanidade e normalidade e garantem a interaco e o jogo equilibrado do 
trabalho e do prazer. Quando esta certeza  abalada surgem no s a insatisfao e as perturbaes 
psquicas, mas tambm todo o gnero de problemas sociais, como a falta de dinamismo no trabalho, o 
desinteresse, a negligncia,

AGRESSIVIDADE                               373

a preguia e a oposio ao princpio de aco. A transformao secular dos elementos psquicos e dos 
aspectos caracterolgicos torna-se visvel tanto na vida quotidiana como em problemas psquicos. As 
nevroses e outras perturbaes de natureza anloga no diminuram, mas transformaram-se na sua forma 
de expresso agressiva totalmente manifesta. Os casos assim chamados clssicos so cada vez mais raros. 
Encontra-se, pelo contrrio, uma acumulao de combinaes emisturas de condutas sociopatas e 
nevrticas, bem como de elementos psicossomticos, o que outrora era raro. A transformao inegvel da 
moral sexual conduz, por outro lado, as novas concepes do futuro, o que confere viabilidade e desejo 
de concretizao relativa-mente a transformaes noutros domnios de organizao social.
O conceito de representao do futuro no est de acordo com a teoria freudiana.

Hacker-A representao do futuro  uma dimenso importante do princpio da realidade. O ego preocupa-
se com o real, o que inclui o conhecimento e a apreciao das possibilidades colectivas e individuais do 
momento. A conscincia individual transforma-se devido ao progresso ou  regresso social, tcnica ou 
psicolgica colectiva.

Marcuse - Parece-me divisar uma dificuldade inicial. A psicanlse ocupa-se essencialmente, seno 
exclusivamente, de individuos. Como  possvel passar de mecanismos individuais a fenmenos sociais? 
Deve-se aceitar, por exemplo, que muitos ou a maior parte dos americanos tenham uma histria idntica ou 
parecida  do tenente Calley?

Hacker-Espero ter dado a minha contribuio relativamente a este problema, ao pr em evidncia as 
transformaes da agresso. A vida em comum dos homens e a educao para uma vida comunitria 
condicionam e exigem, pela fora das circunstncias, certas leis e normas de conduta mais ou menos 
formais, quer resultem da submisso ou domnio, de um acordo geral ou de uma combinao destes dois 
aspectos. s leis sociais encontram-se inerentes sanes e as mesmas determinam medidas que exigem a 
renncia ao instinto e condicionam o indivduo. A agresso, proibida enquanto delito,  proposta como 
sano. A agresso latente, e inevitavelmente reprimida por contrles interiores e exteriores, no deixa de 
ser agresso.
O seu estado latente de forma alguma deve ser tomado como garantia de justificao.

Marcuse-A sujeio s regras do contexto social deve igualmente conduzir a transformaes no superego. 
A inveno da agresso

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instrumental moderna, ou seja a agresso por meio de complicados aparelhos tcnicos e armas complicadas, 
conduz, naturalmente, a uma represso mais fcil do sentimento de culpabilidade: a agresso  obra do 
instrumento e no do indivduo, que se limita a obedecer-lhe.

Hacker -Sim, e vou mesmo at ao ponto de julgar que este sentimento de culpabilidade nem mesmo se 
verifica, no sendo, portanto, necessrio reprimi-lo graas a um rasgo de conscincia tranquilo conferido 
por uma agresso falsamente rotulada que no  sentida como agresso.

Marcuse -Esse argumento  perfeitamente justo. O que importa, no entanto, saber  o objectivo pretendido 
pelo instinto agressivo.
O nosso amigo Leo Zwenthal chama a ateno para o facto de, na Tempestade, de Shakespeare, 
Fernando ser levado a um acto agressivo, ou seja,  destruio das rvores. Esta funo , em si, muito 
agressiva, mas aqui adquire um sentido diferente, na medida em que serve o objectivo ertico que consiste 
em erguer uma casa com a madeira da rvore abatida, uma casa que ser o novo lar de Fernando e da 
mulher. O objectivo ertico justifica a atitude agressiva. Esta contribui para criar um cenrio de prazer que 
promete e permitir o enriquecimento e continuidade da vida.

Hacker -Para se obter o verdadeiro prazer teriam de se multiplicar as dificuldades, tal como acontece nu-
ma corrida de obstculos.

Nos jogos de azar, as regras criam obstculos artificiais, e a incerteza do resultado engendra o medo; toda 
a situao , geralmente, vivida com um certo prazer mesmo em caso de fracasso - mas esse prazer s se 
justifica no caso de vitria. Este , talvez, um caso anlogo ao anteriormente citado. Noutros tempos, um flirt 
ou um adultrio, que determinavam a ultrapassagem de barreiras internas e normas sociais externas, 
representavam uma compensao e uma satisfao muito mais intensas do que hoje em dia a descarga 
puramente instintiva, desenfreada, indistintamente acessvel a todos e relativa a prazeres efmeros, 
permitidos e, se possvel, partilhados entre vrios participantes. Pode dizer-se que aqui a quantidade  
inversamente proporcional  intensidade da satisfao sentida.

Marcuse -Tal como a quantidade de bens e de remuneraes oferecidos por uma sociedade repressiva 
que impede o indivduo de obter a libertao que proporcionava a vitria sobre a misria. Tudo o que  
suprfluo e o bem-estar so repressivos. Uma mudana qualitativa pressupe, portanto, aqui uma mudana 
quantitativa; torna-se necessrio reduzir o subdesenvolvimento.

AGRESSIVIDADE                                 375

Hacker -A psicanlise chama prazer  diminuio do nvel de tenso no organismo,  libertao do instinto 
e   descarga de ener-

gia; dentro da viso psicanaltica, a dor , pelo contrrio, a represso da energia quando as foras 
instintivas no se podem expressar. Considera-se, no entanto, que em determinadas circunstncias o 
aumento de excitao dentro de -certos limites  sinal de desejo. A procura de excitao e o prazer da 
experincia fazem parte desta categoria.

Marcuse- Seja como for  assim, unicamente, como fase precedente do desejo de satisfao. O facto levou, 
consequentemente, Freud a colocar o -conceito muito mais vasto do Eros em comparao com oconceito 
mais limitado da sexualidade. O Eros seria a invaso de todo o corpo pelo desejo e a posse libidinosa - 
termo em que ele insiste -do meio ambiente que alarga o seu campo de aco. Neste caso, no se trata j de 
momentos localizados, mas de uma transformao radical da sociedade.

Hacker - O que significa, concretamente, essa sua afirmao? Marcuse - A destruio dos postos de 
comando militares e das bases dos poderes imperialistas agressivos no me parecem, por exemplo, 
poderem ser realizados no interesse do Eros.

Hacker -Ser que o interesse ertico justifica a destruio de todos os centros de violncia, mesmos os 
dos grupos contestatrios?

Marcuse - Evidentemente que no. No se pode perder de vista a diferena entre a agresso ofensiva e a 
agresso defensiva. Se, por exemplo, um assaltante com um machado se introduz  forca na minha casa e 
quer atacar a minha mulher, no s tenho o dIreito mas at mesmo o dever de empregar a contra-agresso 
e no deixar que ele constitua qualquer obstculo. Neste caso no se trata, na realidade, de agresso, mas 
de uma defesa. O mesmo se pode dizer do cirurgio que amputa uma perna gangrenada. No  possvel 
classificar-se como agressiva a operao efectuada porque  necessria, ainda que a amputao em si, 
considerada fora do contexto de particularidade, seja agressiva.

Hacker -Esse exemplo  uma simplificao extrema dos factos. Marcuse - No -estou de acordo. Hacker- 
julgo poder provar que toda a agresso, qualquer que seja a sua justificao objectiva, tende a priori a ser 
vista como justificada pelo executante, ainda que aja em cumprimento de ordens.  evidente que no nos 
podemos fiar no sentimento interior, ainda que o mesmo parea impor-se.

Marcuse - Pode-se ser vtima de iluso, de simplificao ou de racionalizao, por exemplo, por referncia 
a uma agresso sofrida

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anteriormente e contra a qual se pretendia apenas uma defesa. Importa realmente a evidncia oferecida 
pelos factos, que no  dada, simplesmente, pelo que algum possa dizer, por mais verdade e autenticidade 
que existam nas suas palavras. Dentro desta ordem de ideias a guerra do Vietriame , evidentemente, um 
acto de agresso por parte dos Americanos e uma reaco legtima do Viemame do Norte. Este argumento 
era igualmente aplicvel  agresso injustificvel da Unio Sovitica contra a Checoslovquia.

Hacker - E quanto ao conflito israelo-rabe? Marcuse-Este caso no  to evidente e torna-se, assim, mais 
difcil de dissecar. No h, naturalmente, critrios absolutos e susceptveis de serem aplicados a cada caso. 
O caso extremo no refuta o valor constituido pelo exemplo do caso normal; apenas o limita. Quais so os 
critrios de diferena e quem diferenciar? Mais uma vez a resposta no  difcil; tudo o que  posto ao 
servio da vida, e em particular da felicidade,  bom. Os instintos erticos visam, em resumo, uma reduo das 
depresses prejudiciais  manifestao da vida. O que favorece a vida no pode ser ilegtimo, ainda que se 
tornem necessrias medidas de coaco indispensveis para a existncia das condies que a caracterizam.

Hacker -No  a vida o mais precioso dos bens? Marcuse - Essa frmula no expressa, necessariamente, 
uma verdade. Toda a anlise razovel, objectiva e cientfica de critrios pressupe um juzo de valor. Uma 
cincia que renuncia a toda a escala de valores  ainda uma ideologia, talvez mesmo, de resto, uma 
ideologia fecunda, til e rentvel.

Hacker -No se deveria fazer o julgamento de valor no fim da anlise e no no princpio?

Marcuse - Processe-se implicitamente no princpio. Existe uma ambiguidade objectiva ligada aos dados da 
experincia como expliquei no meu livro O Homem Unidimensional. A razo nunca se encontra isenta de 
preconceitos. A razo tem como misso favorecer a arte de viver. A razo dirige o assalto contra o 
meio ambiente, sob o triplo impulso: viver, viver bem e viver melhor. Depois desta exposio de ideias 
bebamos um copo de usque. Tambm acha uma atitude agressiva?

Hacker -Nas circunstncias presentes, no. Se, porm, me sentisse atacado, ainda que indirectamente, e de 
forma sublimada como, por exemplo, numa discusso, j poderia ver agressividade em tudo o que o 
adversrio dissesse e fizesse, ainda que ele me oferecesse simplesmente de beber. O juzo de valor que 
decide entre o que  agres-

AGRESSIVIDADE

sivo e defensivo antecipa o exame obje tIVO.4_. na-o suprfluo.                               12p

Marcuse - No seu esprito existe @W

1 #L de agresso que o mesmo Parece de a expresso da vida  quase uma

Hacker -  isso exactamente o nlise no que se refere  sexu                                         de

a agarrar, olhar e pedir contm

trOA simplesmente a sexualidade. Dert                                 agresso, existem muitas formas de fenmenoi      
                       so idn- @ 4# tunca ticos uns aos outros nem intermutv@Is,      tas <mo a violncia, o 
poder, a crueldade, a brutalidade, a submisso, o contrle, etc.

De modo algum pretendo afirmar que estes diversos fenmenos so exclusivamente expresses 
agressivas ou que as formas de expresso de agresso so equivalentes ou iguais. O problema da 
legitimidade , sem d vida, decisivo. Acho simplesmente que no pode ser analisado em funo do 
carcter imediato da experincia pessoal ou de critrios abstractos, como, por exemplo, o de uma vida 
melhor, critrios que permitem uma justificao ideolgica, uma racionalizao ou ainda um disfarce 
retrico seja de que acto for.

Marcuse-A verdade  que em cada -caso  preciso verificar e julgar muito concretamente o estado das 
coisas. Declaro, porm, que na maior parte dos casos  possvel e at mesmo fcil.

Hacher-Ainda no tirei concluses finais quanto a quem deve tomar estas decises morais ou ainda em 
nome de quem se pode incitar ou exigir sacrifcios. O fim do caminho  sempre o mesmo: a diferenciao, 
postulada a bem dizer de forma enrgica e pattica mas nunca provada entre a agresso justificada, entre a 
violncia defensiva e a violncia agressiva e entre as necessidades boas e ms. Quando, -por exemplo, a 
criana A ataca bruscamente a criana B, que brinca tranquila sem qualquer mau pensamento, a criana A 
, sem qualquer equvoco, o agressor e a criana B a vtima que tem o direito de se defender. Encontram-
se -casos semelhantes a todos os nveis e  fcil examin-los.

Para no me desviar do seu exemplo que simplifica as coisas a ponto de induzir em erro, qual seria a 
situao se a criana B agredisse a criana A regularmente, digamos dez vezes em duas semanas? O facto 
autorizaria a criana A, apoiada nesta experincia anterior concreta, a recorrer a medidas de proteco 
preventivas?

Marcuse -A verdade  que o caso citado no s justifica mas exige a aplicao de tais medidas. Seria uma 
represso racional.

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Quero ainda apresentar um outro exemplo: o estudante que perturba a aula semmotivo deve ser punido. 
Trata-se de uma agresso defensiva e justificada por parte da colectividade. Por outro lado, todo o 
estudante que, mediante perguntas fundamentadas, embaraa o professor deve ser protegido. Torna-se 
necessrio que o professor tenha mais conhecimentos ou seja substitudo.

Hacker- Encontramos sempre o mesmo tema sob formas variadas. Como actuaria perante o aluno que 
afecta negativamente o

curso, o mau aluno portanto?

Marcuse-A soluo estaria num tratamento psicolgico individual.

Hacker-Os nossos conhecimentos quanto a criminologia levaram-nos a concluir que a maior parte dos 
crimes  realizada por uma pequena minoria, bem conhecida pela sua tendncia  reincidncia. Pode-se 
mesmo defini-Ia antecipadamente e com uma percentagem mnima de erro. Seria neste caso a favor da 
deteno preventiva?

Marcuse-A proteco preventiva faz parte do arsenal do fascismo. Tudo o mais  educao preventiva sob 
contrle de severas medidas de precauo contra o abuso da autoridade.

Hacker-Na minha opinio todo o problema gira em redor desse ponto porque, por um lado, a delimitao 
do uso e do abuso  deficiente e alm disso, como o demonstra a nossa entrevista, para mim tambm no 
so facilmente diferenciveis. Com o acordo entusiasta da maioria da populao, o Governo Americano 
publicou agora um projecto de lei que, no caso de suspeita de crime, prev, em geral, a deteno 
preventiva em lugar da fianca at aqui em vigor, portanto a deteno at  declarao de cuIpa@iIidade, 
com o objectivo de evitar o perigo da reincidncia. Estas medidas esto relacionadas com a razo e o 
direito que a sociedade tem de se proteger contra todas as infraces s suas leis e contra todos os crimes. 
Ora os erros de julgamento nunca so detectveis. Todo o que mais tarde se descobre no ser culpado ou 
o culpado que nesse tempo no tenha reincidncia so assim desnecessariamente sacrificados. Para dizer a 
verdade, a opinio pblica pouco se preocupa com o que o Governo considere o direito. Dado que 
actualmente os abusos so muito frequentes, no estaria, pelo que me diz respeito, disposto a assumir a 
responsabilidade do risco que a deteno preventiva representa.

Marcuse-O risco parece no se poder desligar da histria da humanidade enquanto esta fornecer 
exemplos de opresso e explorao. Encontramo-nos apanhados na teia de um terrvel dualismo moral: 
pouco pensamos nas hecatombes de homens que os detento-

AGRESSIVIDADE                               379

rs do poder sacrificaram a fim de manter o seu domnio, mas tornamo-nos de uma sensibilidade 
exacerbada quando est em causa um regime realmente revolucionrio que se esfora seriamente por 
suprimir a misria e a explorao.

Hacker - Como se far o acesso ao poder? Como imagina a criao de um novo tipo de homem no 
agressivo num perodo de transio?

Marcuse - Imagino um tipo de homem muito diferente do actual; quer dizer, um homem realmente livre e 
pacfico tal como a revolta da juventude ambiciona no pode naturalmente surgir da simples base dos 
princpios entusisticos dos estudantes. A verdadeira transformao pertence  classe operria, que, na 
situao actual dos Estados Unidos, no , na verdade, revolucionria porque, dada a situao econmica, 
no se encontra preparada para participar numa aco revolucionria. A situao no se manter, na 
verdade, assim por tempos indefinidos. j no se pode conceber, a longo prazo, a existncia de um Estado 
capitalista que garanta assistncia social, bem-estar material e garantia de emprego. As contradies 
internas do sistema, quer dizer a contradio entre a disponibilidade cl riqueza social e a sua utilizao 
deficiente devem, a curto ou mdio prazo, conduzir  crise profetizada por Marx, crise que criar, 
finalmente, condies para uma revoluo, a menos que crie as condies do fascismo. Seja como for, 
verificar-se- uma transformao fundamental como resultado de um longo processo de evoluo das 
massas.

Hacker - Ertist Bloch distingue a explorao e a opresso - que apresentam decrscimos nos Estados 
Unidos-da frustrao e da alienao - que talvez tenham aumentado. Acha que o sentimento de injustia, 
interligado a representaes de um futuro eventual diferente, bastar para criar uma situao 
revolucionria rica de perspectivas?

Marcuse -  difcil de dizer. A prosperidade geral representa, em suma, uma satisfao real e no um 
simples substituto. E, alm disso, as potncias s@ dotadas de excepcional percepo e tomam medidas 
preventivas destinadas, por intermdio dos meios de comunicao, a manter sistematicamente num estado 
de inferioridade intelectual e falsa informao os homens e grupos sobre os quais exercem o seu domnio. 
O capitalismo ocidental no prevalecer eternamente, Segundo a tese de Marx, a taxa de lucro da classe 
dominadora dever descer logo que a explorao do consumidor tenha atingido os seus limites.

Hacker-Admita, pois, que as condies de uma transformao

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bsica residiriam no s em factores de ordem econmica e material mas tambm noutros factores at aqui 
minimizados como psicolgicos e elementos de uma superstrutura. Na minha opinio, o sentimento de 
privao de direitos ou de impotncia pode tornar-se um factor real actuante.

Marcuse - Evidentemente. O verdadeiro monoplio dos meios de comunicao vai, no entanto, ao 
encontro do desenvolvimento da conscincia.  este o motivo por que considero decisivo o 
estabelecimento de processos de comunicao. As foras progressistas deveriam tentar penetrar o 
mercado da imprensa para participar no Contrle dos meios de comunicao. Na hiptese de um contrle 
total destes meios poderia, provavelmente, efectuar-se uma transformao decisiva na conscincia das 
massas num perodo de trs semanas.

Hacker - Talvez algumas semanas no fosse um espao de tempo suficiente. O contrle total de todos estes 
meios de comunicao durante anos, inerente a tcticas de eliminao quanto s dissidncias, poderia levar 
ao resultado previsto. No me parece, porm, que o fenmeno seja desejvel ou realizvel.

Marcuse -Provavelmente no. No se deveria, no entanto, partir do princpio de que o dualismo Reforma-
Revoluo se excluem mutuamente. Na minha qualidade de hegeliano penso que as transformaes 
quantitativas de uma certa amplitude podem conduzir a uma transformao qualitativa.

Hacker - Estou inteiramente de acordo consigo. E tambm no existe oposio directa entre evoluo e 
revoluo porque a transformao revolucionria pode representar uma possibilidade de evoluo ou um 
motivo de evoluo mediante o seu potencial de ameaa ou de utopia. A revoluo no , todavia, 
necessariamente mais agressiva ou mais violenta do que a quantidade de violncia institucionalizada para 
pr em movimento ou preservar o assim chamado processo de evoluo.

Marcuse -Exactamente. Existem, na verdade, contra-revolues e sistemas de domnio muito violentos que 
t m como objectivo tomar providncias contra e impedir a revoluo. No Brasil, por exemplo, a existncia 
de um sistema de domnio cada vez mais brutal, pleno de propaganda e de violncia, pouco preocupado 
com a perda de vidas e indiferente  felicidade humana, impede a tomada de valor de legtimas 
reivindicaes humanas. Na violncia e na represlia os meios e objectivos, bem como as fontes instintivas, 
no so os mesmos.  preciso no se perder de vista esta diferenciao.

AGRESSIVIDADE                                381

Hacker - Desejaria possuir um conhecimento mais concreto dos critrios de diferenciao. Antes do mais, e 
a propsito do que chama o (walor instintivo, a Histria proporciona hoje em dia e talvez pela primeira 
vez, graas aos desenvolvimentos tcnicos e psicolgicos, a possibilidade no s de aceitao ou recusa 
das normas do jogo social mas ainda da elaborao destas regras.

Marcuse - Nesse ponto encontra-se iniplcita unia contradio. No se pode provar qual a orientao que 
os homens livres, agindo mediante princpios definidos, seguiriam: deixariam de ser livres. E, todavia, em 
certas barreiras torna-se necessrio ver condies de liberdade tal como nos  dado ver pela nossa prtica 
de domnio da natureza. No interessa visar o domnio dos homens, mas o contrle das coisas.

Hacker-Esse no me parece uni critrio contundente porque as coisas so um smbolo para o seu 
proprietrio que as protege e defende -como se fizessem parte dele mesmo. Para se poder chegar s 
coisas deveriam, primeiramente, eliminar-se as pessoas que, por hbito ou feiticismo, se identificam com as 
coisas. Eis pois o que, por um breve desvio, nos conduz  situao de dilema da deciso de que falei.

Marcuse-As foras econmicas completamente identificveis e sem nada de annimo retiram-nos as 
decises importantes. Penso que a renncia a toda a violncia conduz  impotncia poltica. No h dvida 
de que as distines importantes so indispensveis. Existe infelizmente um mal de menor importncia que 
 preciso seguir em certas situaes histricas como preveno e proteco contra um mal maior.

Hacker-Eis-nos chegados ao ponto de partida: como  que algum como eu, que no -chega 
manifestamente a juzos directos e concretos, saberia diferenciar a agresso boa da m e a agresso 
justificada da agresso injustificada.  necessrio que me compreendam:  evidente que tambm formulo 
juzos de valor e tenho uma pereepo concreta dos desenvolvimentos e processos bons e maus, pelo 
menos dos melhores e dos piores. Professo as -minhas convices, defendo-as e bato-me por elas, acredito 
nelas por vezes de forma muito intensa e sem restries-S que, por razes psicolgicas e socio- 
,psicolgicas que sobre mim actuam, desconfio da experincia pseudo-instintiva do imediato. Na minha 
qualidade de homem de aco acredito em certas coisas e julgo saber o que devo ou no saber; como 
pensador devo, no entanto, ter conscincia do seguinte: apesar dos meus sentimentos e das minhas 
convices, nem sempre me encontro

382                    AGRESSIVIDADE

bem informado relativamente a saber quando, onde e como uma renncia ao instinto, um sacrifcio, um acto 
violento so justificados, necessrios ou fazem parte de um mal menor e quando no  esse o caso. Acaba 
por se cair sempre no problema dos critrios.

Marcuse - As minhas apreciaes parecer-vos-o demasiado filosficas. S consigo repetir: o critrio 
reside em tudo o que promove vida, em tudo o que  -colocado ao servio do alargamento das 
capacidades, da felicidade e da paz entre os homens. No conheo melhor definio ou, muito 
simplesmente, no sou bastante inteligente para conseguir.

Hacker - Talvez que hoje em dia ningum o seja; , no entanto, importante produzir e multiplicar essa 
forma de inteligncia a fim de se promover o futuro e a teoria optimista da vida. Esperamos que esta 
entrevista tenha servido para se encontrar e inventar substitutos eficazes da violncia, bem como 
possibilidades de salva o.

Mediante algumas semanas de contrle dos meios de informao, Marcuse espera que se consiga uma 
transformao decisiva do estado de esprito geral. Seja como for, a aco e o desenvolvimento dos meios 
de comunicao ilustram melhor do que qualquer outro fenmeno contemporneo as possibilidades e 
riscos do momento histrico actual.

San Dicgo, 9 de Dezembro de 1970

INDICE

Pg. PREFCIO DE KONRAD LORENZ                         ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...           9 Aforismos sobre a violncia           .. ... ... 
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 
... ...         17 * minha opinio          ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...         21 * futuro da desumanidade          
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...         25 
Alguns casos         ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...         35 Fantasia e realidade         ... ... ... ... ... ... 
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...         71
O ciclo da Qgresso          ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...         85 As teorias      ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 
... ... ... ... ... ... ... ... ... . .          97 As fontes da 
agresso         .. ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...       133 Primeira experincia:        privao de estmulos        ... ... ... 
... ... ... ... ... ... ...      155 Segunda 
experincia: o dilema da deciso                  ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...      161 Educao, castigo e obedincia           ... ... ... ... ... ... 
... ... ... ... ... ... ... ...       167 
Terceira experincia: o teste de Abrao               ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...      221 Calley: Tu Matars             ... ... ... ... ... ... 
... ... ... ... ... ... ... ... ... ...       227 
Violncia coleetiva          ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...       243 A mensagem oculta dos meios de comunicao            
... ... ... ... ... ... ... ... ...     
 295 Disposies e esquemas que permitem evitar a                  violncia   ... ... ... ... ... ...      305  guisa de concluso         ... ... ... ... ... 
... ... ... ... ... ... ... ... ... 
... ... ...       331

ANEXO .. .       . ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...   ... ... ... ... ... ... ... ...      347

Primeira entrevista: Konrad Lorenz              ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...       349 Segunda entrevista: Karl Menninger               .. ... ... 
... ... ... ... ... ... ... ...       361 
Terceira entrevista: Herbert Marcuse                ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...       371
